Um laço que salva

Um laço que salva

A campanha Outubro Rosa centraliza ações mundiais com o intuito de estimular a participação da população na luta contra o câncer de mama

 

 

Ter as informações corretas em mãos, saber a conduta médica mais adequada no menor tempo possível e, assim, iniciar o tratamento o quanto antes faz toda a diferença quando o assunto é a descoberta de um câncer de mama. A doença ainda acomete mais de 57 mil brasileiras anualmente, vitimando mais de dez mil delas no mesmo período. Segunda causa de óbitos nos países desenvolvidos, o câncer de mama perde somente para o câncer de pulmão em número de casos com morte, sendo a maior causa de óbito entre as mulheres nos países em desenvolvimento.

Para mudar este cenário, um movimento iniciado nos Estados Unidos na década de 90 ganhou força e conquistou um calendário próprio. A primeira ação, lançada pela Fundação Susan G. Komen for the Cure, distribuiu um laço de fita cor de rosa aos participantes da Primeira Corrida pela Cura, realizada em Nova Iorque. De lá para cá, foi ganhando mais corpo até se transformar no Outubro Rosa.  A campanha foi reforçada em 1997, quando diversas entidades americanas das cidades de Yuba e Lodi começaram a fomentar ações voltadas à prevenção deste tipo de câncer. Hoje, além das fitas, a iluminação de monumentos e prédios públicos tem sido uma poderosa arma para alertar a população neste mês.

Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que o histórico familiar de câncer de mama está associada a um aumento de duas a três vezes no risco de desenvolver esse tipo de neoplasia. As irmãs Dirce e Vera Volgarini, por exemplo, tinham enfrentado várias ocorrências da doença na família. Em julho de 2013, aos 74 anos, Dirce descobriu um tumor na mama esquerda. O conhecimento do corpo e o diagnóstico precoce foram fundamentais para a identificação segura do tumor maligno, ainda no início da sua formação. O segundo passo foi a cirurgia, seguida do tratamento. O mesmo aconteceu com a irmã. Hoje, as duas participam dos programas do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Assistência na Reabilitação de Mastectomizadas (Rema), mantido pela Faculdade de Enfermagem da USP de Ribeirão Preto.

Incentivadora do Outubro Rosa, Dirce observa que, além do autoexame, manter as consultas médicas em dia é muito importante para o diagnóstico rápido. “Desta forma, o médico retirou apenas o tumor, preservando minha mama”, frisa Dirce. Mara Rubia, no entanto, não teve a mesma sorte. Diagnosticada com câncer de mama em dezembro de 2012, o tumor que media 2,5 centímetros chegou a 5 cm depois da biopsia, causando a mastectomia, ou seja, a remoção total da mama direita, feita em julho de 2013. Ainda em tratamento, Mara não se abateu. Além da cirurgia, fez oito sessões de quimioterapia, 33 de radioterapia e ainda toma medicação contínua, além da fisioterapia. 

Afastada do trabalho, ela aguarda o laudo final do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para saber quando poderá retomar as atividades normais, como voltar a trabalhar e qual função poderá exercer. Em decorrência da doença, Mara ficou com sequelas, como dormência no braço e formigamento das mãos, o que a impedirá de voltar a digitar, sua atividade anterior. “Só quando passamos pelo problema é que conseguimos ver o quanto é importante se informar a respeito da doença”, alerta Mara que, sempre que possível, compartilha informações sobre a doença e sobre seu caso. “O Outubro Rosa é importante, justamente, porque alerta as mulheres para a prevenção”, reforça Mara.

A atenção às campanhas do gênero e aos exames preventivos foram fundamentais para Geni Vieira, que teve a confirmação de um câncer no órgão graças à mamografia feita no Mamamóvel, do Hospital de Câncer de Ribeirão Preto. A suspeita de que algo estava errado com a mama veio por conta do autoexame. “Suspeitei que algo não estava bem quando detectei um nódulo na mama. Por isso, não perdi a oportunidade de visitar o ônibus adaptado em passagem pelo bairro. Sou a prova de que vale a pena fazer os exames de rotina e participar das campanhas preventivas”, relata Geni.

Melhor caminho
Dr. Guilherme Luna Martinez (CRM 12.0961), diretor clínico do Hospital de Câncer de Ribeirão Preto, aponta que a prevenção ainda é o melhor caminho para uma condição mais favorável no tratamento e, consequentemente, para a cura do câncer de mama. No entanto, o autoexame não é suficiente para garantir um diagnóstico precoce. De qualquer maneira, um profundo autoconhecimento do corpo para identificar qualquer alteração, seja na mama ou em qualquer outra parte do organismo, é um bom começo. “O autoexame precisa vir seguido de um exame de imagem, sendo que a mamografia ainda é a mais indicada. A ultrassonografia pode complementar o diagnóstico”, aponta o médico.

Mantido pela Fundação SOBECCan, o Hospital oferece atendimento ambulatorial para cerca de 400 pacientes por mês, com procedimentos em citologia, oncologia, ginecologia, ultrassonografia, mamografia, fisioterapia e psicologia. Além disso, mantém o Mamamóvel, um projeto que circula pelos bairros de Ribeirão Preto e de cidades vizinhas com uma equipe médica para atendimento físico e, se necessário, encaminhamento para a mamografia no Hospital. Desde 2004, o projeto atendeu a cerca de 6.000 mulheres, tendo diagnosticado e tratado 22 delas pela Fundação. 

De acordo com o especialista, a maior campanha preventiva do Hospital é a Outubro Rosa. Durante o mês inteiro, as mulheres são estimuladas a realizar mamografias, aumentando as chances de um diagnóstico precoce. Em outubro, a unidade implementou uma série de ações alertando sobre a necessidade do diagnóstico precoce. Além do bazar permanente, que comercializa diversos produtos alusivos à campanha, a direção do Hospital organizou um cronograma de atividades em diversas empresas da cidade.

Uma delas ocorreu na RTE Rodonaves e contou com palestra, bazar, mamamóvel, entre outras ações. A empresa mantém 545 mulheres no seu quadro de funcionários, sendo 162 somente na unidade de Ribeirão Preto. A vice-presidente, Vera Naves, explica que a empresa aderiu ao Outubro Rosa em 2013 por ser uma causa que está cada vez mais presente na vida de todos. Além disso, a campanha é uma forma de contribuir com a conscientização e despertar a atenção dos colaboradores, tanto das mulheres quanto dos homens, para a doença. “Por meio do Outubro Rosa, conseguimos também levar o assunto às famílias dos colaboradores”, ressalta Vera.

Para o radiologista, coordenador e supervisor do serviço de radiologia do HC,Harley Francisco de Oliveira (CRM 108.563), a rede pública de saúde da cidade possui médicos capacitados, mas precisa melhorar o fluxo para o tratamento adequado. A criação de um centro de diagnóstico e de terapia de câncer seria uma alternativa, pois a descoberta da doença deve ser seguida pela rápida intervenção. “Hoje, estes locais são excelentes, mas a questão é chegar ao hospital. Em muitos casos, o paciente leva meses para agendar uma cirurgia e, quando chega esse momento, a doença já está em um estágio muito avançado”, alerta. Tentar desvendar as razões que não deixam os números relativos à doença retrocederem é outro ponto que, segundo ele, merece uma investigação mais aprofundada. 

Iniciativas Positivas
Coca-Cola Andina Ribeirão: pensando na conscientização de todos os colaboradores para a prevenção do câncer de mama, a empresa doou camisetas rosas para todas as mulheres nas unidades de Ribeirão Preto, Araraquara, Franca, Mococa e São João da Boa Vista. O rosa também dominou as atividades do Sob Medida.








Bia Moraes: em outubro, a Bia Moraes do RibeirãoShoipping está vendendo um broche com o símbolo da campanha por R$ 7,00. A renda será destinada ao Hospital de Câncer de Ribeirão Preto para a compra de filmes de mamografia. No dia 14, a loja realizou um evento que doou 10% do lucro das vendas do dia ao Hospital.








Cia Athletica: a academia criou o hotsite Amiga do Peito (amigadopeito.ciaathletica.com.br). Os vestiários femininos foram adesivados com a explicação de como fazer o autoexame. Entre outras ações, a exemplo da professora Stelinha Santini, os alunos também foram incentivados a treinar de rosa todas as quartas-feiras de outubro e a deixar mensagens de motivação.







Shopping Iguatemi: em parceria com o Instituto Oncológico de Ribeirão Preto (Inorp) e a ONG Américas Amigas, o centro de compras realizou a 1ª Corrida/Caminhada de combate ao câncer de mama, um bate-papo com o médico oncologista do Inorp, Diocésio Andrade e Francisca de Paula Harley, presidente da ONG, além da presença da carreta do Hospital do Câncer de Barretos.










Se toque pela vida
Organizada pela Prefeitura de Ribeirão Preto, por meio das Secretarias Municipais da Saúde e de Assistência Social, e pela Coordenadoria da Mulher, a 2ª Campanha “Se toque pela vida” continua até o dia 31 de outubro com extensa programação. Para isso, foram confeccionadas camisetas, lenços, folders e laços rosa. A organização escolheu vários pontos de divulgação na cidade, como postos de saúde, secretarias municipais, supermercados da Rede Savegnago, Novo Shopping, Shopping Santa Úrsula, RibeirãoShopping, entre outros. A campanha tem o apoio da Coordenadoria do Idoso de Ribeirão Preto, das Secretarias da Saúde e da Cultura, da Fundação Pedro II, do Centro de Diagnóstico por Imagem (Cedirp), da Prever Campos Elíseos e da Artix, empresa de Comunicação Visual. 

O Dr. Móvel, consultório de rua da Secretaria da Saúde, irá atender a população na Esplanada do Theatro Pedro II, até o fim de outubro. Além das orientações, a equipe está fazendo um cadastro das mulheres de 50 a 69 anos que não fazem mamografia há mais de dois anos. Mais informações podem ser obtidas pelo tel.: (16) 3636.3311. A programação completa está disponível no banner no portalwww.ribeiraopreto.sp.gov.br.




Reabilitação Multidisciplinar
Direcionado para a reabilitação de mulheres com câncer, o Núcleo de Ensino, Pesquisa e Assistência na Reabilitação de Masctectomizadas (Rema) atende, em média, 40 pessoas por dia. A ação multidisciplinar envolve enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos e nutricionista na reabilitação integral da paciente. O trabalho de assistência integrada ajuda as pacientes no enfrentamento da doença e na recuperação da qualidade de vida, principalmente, no caso de quem descobriu  um linfedema, acúmulo de líquido em membros superiores ou inferiores devido a um bloqueio no sistema linfático.

Criado há 25 anos, o Rema já atendeu a mais de 1.300 pessoas de Ribeirão Preto e região. “Por meio de várias atividades, esperamos que estas mulheres se recuperem e tenham a vida o mais normal possível”, afirma Maria Antonieta Spinoso Prado, enfermeira responsável pelo grupo desde 1997. Durante os atendimentos, oferecidos três vezes por semana, as mulheres fazem exercícios físicos e, em seguida, conversam e recebem orientações sobre a doença.

Engajados no Outubro Rosa, um grupo formado por profissionais e pacientes do Rema estiveram na Praça XV de Novembro no dia 15 de outubro distribuindo panfletos e orientando a população sobre a necessidade dos exames preventivos no combate ao câncer de mama. Eles também organizam, ainda para este mês, um desfile de moda que terão as participantes do Rema como modelos.

Texto: Rose Rubini
Fotos: Ibraim Leão, Júlio Sian e divulgação
Diagramação: Lucas Chaibub

* Publicado em 16/10/2014

 

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