Um lugar para recomeçar
Há pouco mais de um mês, Ribeirão Preto pode se orgulhar de ser um “porto seguro” para cinco pessoas em busca de um recomeço em paz
Imagine que você saiu com a sua família para visitar parentes que vivem em outro país e, durante a visita, seu país entrou em guerra e você não pôde voltar. Perdeu tudo. Algum tempo depois, tentando reconstruir a vida em um novo lugar, a situação política ali também piora, conflitos levam a bombardeios e você toda noite precisa deixar seu apartamento e se alojar com a família junto a amigos, uma vez que seu bairro é “visado” devido à proximidade de um depósito oficial de armas.
Em determinado momento, toda a família assiste as paredes do terceiro e do quarto andares do seu prédio pegando fogo, sem ter para onde ir. Dois dias depois de finalmente desistir de viver ali, o prédio cai por terra. Sua moradia se desfaz completamente em meio a poeira, fogo, destroços e medo. Você perde tudo pela segunda vez.
Para o leitor brasileiro, que não sabe o que significa estar em guerra civil, essa situação pode parecer bastante hipotética, um roteiro de filme de ficção, quem sabe, mas para o contador sírio de 43 anos, Aiman Al Attrash, a esposa Rowaina, de 35 anos, os dois filhos pequenos Faysan, de seis, e Karim, de dois anos, e a mãe, Ragheda, de 63 anos, trata-se da história real de uma vida.
Recomeçando pela terceira vez, agora no Brasil, bem distante do cenário de destruição, morte, bombas e fuzis visto na Síria, Aiman surpreende cheio de convicção e de esperança. “Acredito que Deus olha por nós. Somos abençoados porque sobrevivemos a situações limites e parece que fomos sendo conduzidos por Ele até aqui”, comenta satisfeito.
Morando em Ribeirão Preto desde meados de fevereiro, Aiman passou por vários países como Iêmen, Arábia Saudita e Síria, antes de contatar o consulado brasileiro, em Damasco, e conseguir apoio para a vinda da família para o Brasil, em função da nacionalidade sírio-brasileira da esposa, que nasceu aqui, mas perdeu o pai aos três anos e voltou com a mãe e os irmãos para a Síria.
Há pouco mais de um ano no Brasil, sem grande orientação ou assistência do governo, Aiman conta que passou duas semanas com a família em um quarto de uma instituição muçulmana, em São Paulo, logo após a chegada ao país. Depois, entrou em contato com a comunidade árabe, que conseguiu uma casa emprestada de uma família que estava indo viajar para o Líbano. Algum tempo depois, foi morar em outra casa emprestada, em Santo Amaro.
Assim, vivendo de um pouco de solidariedade aqui e outro ali, conseguiu também tratamento dentário e um emprego em uma pequena empresa importadora de equipamentos multimídia para automóveis. O posto de trabalho, no entanto, não resistiu à crise enfrentada em todo o país.
Recentemente, convidado por uma família ribeirãopretana sensibilizada pela situação dos refugiados sírios, a família síria veio para Ribeirão Preto, onde foi instalada em um apartamento, ganhou bolsa escolar para os filhos, através da escola Bento Benedini, bolsa da Escola de Línguas CNA, para aprenderem português, e um trabalho para a esposa, que é bioquímica, no laboratório do Hospital São Francisco. “Minha vida e da minha família é feito um barco sem motor no mar”, avalia o contador.
Com tantas idas e vindas, Aiman poderia ser um homem triste, amargurado, descrente, mas não, conserva a capacidade de sorrir e, acima de tudo, a esperança de conseguir superar o impedimento com a língua para cuidar da própria família sem necessitar mais de auxílio. “Quero aprender português para trabalhar, para mostrar minha gratidão às pessoas que me ajudaram até aqui, para fazer por mim mesmo. Não quero ficar dependendo da boa vontade alheia por muito tempo”, afirma.
No momento, o que a família mais precisa é justamente esse suporte para aprenderem português. Por enquanto, vão se virando como é possível com o inglês e com o que o pequeno Faysan, de apenas seis anos, já aprendeu.
Na primeira noite no Brasil, Aiman relembra que a família toda acordou assustada com o barulho de fogos de artifício, imaginando que por aqui também houvesse explosões como na Síria. Ragheda, mãe de Aiman, diz que Ribeirão Preto lembra muito Damasco. Agora, mais ambientados, não pensam em voltar ao país de origem, senão, para visitar parentes.
Essa, aliás, é a principal razão para o pequeno Faysan não estar completamente feliz por aqui. Questionado sobre como se sente na nova casa e na nova escola, o menino franzino, de lindos olhos azuis, responde rápido que faltam os avós, os primos, os tios e, claro, os amigos.

Sobre o conflito na Síria
Há quase 50 anos, a Síria é governada pelo mesmo partido, o Baath, e liderada pela mesma família. Hafez al-Assad presidiu o país por 30 anos e, desde julho de 2000, seu filho, Bashar Al-Assad, é o presidente.
A criação de partidos de oposição e a participação de candidatos de oposição em uma eleição foram proibidas no país, o que culminou em um levante contra o regime em 15 de março de 2011, durante a insurreição da Primavera Árabe, período em que as populações de países como Tunísia, Líbia e Egito se revoltaram contra os governos.
A manifestação pacífica se transformou em luta armada e, em 2012, a Cruz Vermelha e a ONU classificaram a situação como Guerra Civil. De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, do início dos conflitos até março de 2014, mais de 140 mil pessoas morreram. Entre eles, foram mais de sete mil crianças e cinco mil mulheres.
A União Europeia e os Estados Unidos impuseram sanções econômicas unilaterais contra a Síria, mas não agiram de forma mais enérgica. Já países como Irã, China e Rússia são aliados declarados do regime de Bashar Al-Assad e se manifestaram contra qualquer tipo de imposição de sanção internacional ao país. A Rússia condenou o uso da violência pelos opositores ao regime, aos quais chamou de “terroristas” e votou contra o estabelecimento de uma missão humanitária no país, na Conferência de Paz Genebra II, em fevereiro de 2014. Para Aiman, o contador sírio refugiado em Ribeirão Preto, tudo se resume a disputa por poder.
A situação dos refugiados em números
Apesar da distância geográfica — 10 mil quilômetros separam o Brasil da Síria —, o país vem mantendo uma política diferente em relação aos refugiados. Há cerca de dois anos, o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), órgão ligado ao Ministério da Justiça, publicou uma normativa facilitando a concessão de vistos. De 2011 até agosto do ano passado, 2.077 sírios receberam status de refugiados do governo brasileiro.
O Brasil é o país que mais concedeu asilo a refugiados sírios na América Latina. No continente americano, só perde para o Canadá, que recebeu 2.374 refugiados entre janeiro de 2014 e janeiro deste ano. A Argentina concedeu refúgio a 233 sírios, segundo o CONARE argentino. O Uruguai, a 44 refugiados, de acordo com dados do Ministério das Relações Exteriores. O Chile recebeu 10 imigrantes, segundo o Departamento de Estrangeiros e Migração do Ministério do Interior.
O país que mais recebeu refugiados sírios foi a Alemanha (65.075), seguido da Suécia (39.325), da Noruega (2.995), da Bélgica (5.430), da França (4.975) e do Reino Unido (4.035). Os dados são da Eurostat, autoridade estatística da União Europeia.
Limitações com a língua
“Chegou ao nosso conhecimento que essa família estava com dificuldades de refazer a vida em nosso país devido à barreira da língua e prontamente atendemos. Os pais, fluentes em inglês, precisam de aulas de português para conseguir se colocar no mercado de trabalho e os filhos, nem inglês falam. Nossas escolas lecionam apenas inglês e espanhol, mas isso não foi um impedimento, principalmente, porque nossa equipe é composta por educadores de alta competência. Daremos aulas de português à família e as crianças também assistirão a aulas de inglês no CNA Campos Salles. Isso porque entendemos que não é possível trabalhar com Educação sem agir com responsabilidade social. Como empresários, temos o dever de nos unir para ajudar a quem precisa. Faz parte de nossos princípios éticos”, comenta Rosinha Sciubba, diretora do CNA.
Apoio humanitário
“Fui procurada para dar apoio à família Al Attrash por ser de origem libanesa. Como falo árabe, poderia oferecer o acolhimento da língua, uma grande dificuldade para eles nesse momento. Também em função do trabalho realizado no Centro de Voluntariado, onde estamos habituados a oferecer acolhimento. Nosso encontro foi emocionante. Passamos por 25 anos de Guerra Civil no Líbano, minha mãe só de ouvir uma porta bater já se assustava. Entendemos o que isso significa e só podemos ser solidários. A situação dessas famílias é muito delicada, muito difícil, por isso, por maiores que sejam os nossos problemas internos, as necessidades das famílias brasileiras, essa é uma questão, antes de tudo, humanitária. É isso que significa oferecer auxílio também a esses refugiados”, afirma Mariana Jábali, vice-presidente do Centro de Voluntariado de Ribeirão Preto.