Um mal contemporâneo
Sobrecarga de funções, ausência de reconhecimento e falta de oportunidades de crescimento são alguns dos fatores relacionados ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout
A crise que desestabilizou o país nos últimos anos provocou transformações profundas no mercado de trabalho. As empresas tiveram que se ajustar diante da nova realidade, muitas delas reestruturando operações e reduzindo equipes. Inevitavelmente, profissionais, dos mais diferentes setores, foram impactados já que, em diversos lugares, essas mudanças trouxeram repercussões como a sobrecarga de funções, o aumento da pressão por resultados e a falta de perspectivas de crescimento. Encarar, diariamente, essas condições, em um ambiente competitivo, baseado na cobrança e no medo constante do desemprego, tem causado danos à saúde física e mental dos trabalhadores. Uma questão, em especial, está chamando a atenção dos especialistas: a Síndrome de Burnout, ou síndrome do esgotamento profissional.
Esse fenômeno ocupacional, caracterizado pela perda de energia, sentimento de baixa autoestima e dificuldade de concentração, entre outros sintomas, é um dos temas estudados por Marina Greghi Sticca. Na entrevista a seguir, a professora doutora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP), na área de Psicologia Organizacional e do Trabalho, e coordenadora do Laboratório de Psicologia Organizacional e do Trabalho (LabPOT), explica a progressão do distúrbio, alerta sobre os principais fatores de risco e apresenta ações que contribuem para evitar esse problema.
O que é Síndrome de Burnout?
A Síndrome de Burnout (SB), conhecida também como síndrome do esgotamento profissional, é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno ocupacional relacionado ao trabalho, “uma síndrome conceituada como resultante da exposição ao estresse crônico no trabalho que não foi manejado com sucesso”. É caracterizada por três dimensões: sentimentos de exaustão ou de esgotamento de energia; aumento do distanciamento mental das atividades, negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho; e redução da eficácia profissional. Atualmente, a SB é um dos temas mais investigados na área de Psicologia da Saúde Ocupacional devido às graves implicações que traz à saúde dos trabalhadores e para as organizações, gerando importantes custos sociais e econômicos.
É fácil confundir essa doença com estresse e depressão?
A depressão, o estresse e a SB são diferentes. São tratadas e classificadas de maneira distinta pela OMS. O estresse se refere a uma reação do organismo, na qual há o surgimento de manifestações físicas e psicológicas, não necessariamente desencadeadas pelo trabalho, enquanto a SB é compreendida como uma espécie ou subtipo de estresse crônico e de maior gravidade, que decorre justamente do contexto do trabalho e da exposição a estressores laborais. A depressão é considerada uma doença crônica que pode afetar pessoas de todas as idades.
Os sintomas são relativamente parecidos?
A SB possui sintomas similares aos da depressão, como os distúrbios de sono, a perda de energia, a fadiga, a baixa autoestima e a falta de concentração, por exemplo, dificultando o diagnóstico adequado. No entanto, podemos encontrar diferenças entre os dois quadros clínicos. Na depressão, os sintomas predominantes são falta de prazer, perda ou ganho de peso, insônia, agitação ou retardamento psicomotor, fadiga ou perda de energia, sentimentos de insuficiência ou de culpa e indecisão ou dificuldade de concentração. Já os indivíduos com SB apresentam exaustão mental e emocional, fazendo com que se sintam sem energia e sem disposição para lidar com colegas e clientes; despersonalização, marcada por uma atitude cínica em relação aos outros; e insatisfação com o desempenho, avaliando, negativamente, as competências individuais no trabalho.
Como é feito o diagnóstico? Como diferenciar se é um episódio pontual de algo que merece mais atenção e cuidado?
O Ministério da Saúde recomenda que o paciente procure um profissional especializado para uma análise clínica. Reforço que, por ter sintomas parecidos, a SB acaba confundida com a depressão e com o estresse, um grande obstáculo na tarefa de obter um diagnóstico preciso e de garantir acesso a um tratamento eficaz. Além disso, há o fato da SB não ser reconhecida, ainda, como uma doença, o que prejudica o trabalhador em relação aos direitos trabalhistas e previdenciários. Tal situação será alterada agora que a OMS incluiu a SB na Classificação Internacional das Doenças (CID-11), descrevendo-a como um fenômeno ocupacional. Isso facilitará o diagnóstico e o gerenciamento de afastamentos e de incapacidades.
Esse distúrbio também pode desencadear problemas que comprometam a saúde de outra forma?
Sim. A SB causa perturbações físicas, como distúrbios do sono, dores musculares, cefaleias e enxaqueca, problemas gastrointestinais, fadiga, problemas cardiovasculares e respiratórios, entre outros. Entre os sintomas psicológicos e cognitivos, destacam-se: dificuldade de atenção e de concentração, sentimento de alienação e de solidão, problemas de memória, lentificação do pensamento, irritabilidade/impaciência, baixa autoestima e depressão. Quanto aos sintomas comportamentais, a SB pode causar aumento da agressividade, dificuldade de relaxar, abuso de substâncias como álcool e calmantes, dificuldade de aceitação de mudanças, comportamentos de risco, absenteísmo, perda do interesse pelo trabalho e/ou lazer, tendência ao isolamento e até suicídio.
A incidência desse transtorno tem crescido expressivamente nos últimos anos?
A prevalência do problema no mundo é incerta. No Brasil, uma pesquisa promovida pela International Stress Management Association (Isma-BR) estimou que 30% dos trabalhadores sofram de SB, um índice preocupante pelas razões mencionadas acima. 
"No Brasil, uma pesquisa promovida pela International Stress Management Association (Isma-BR) estimou que 30% dos trabalhadores sofram de SB"
Quais são os fatores que contribuem para elevar essa estatística?
A sobrecarga de trabalho foi identificada como um dos maiores fatores de risco. Isso significa que os profissionais têm sido cobrados para realizar mais trabalho em menos tempo e essa pressão, obviamente, tem consequências negativas para a saúde. Os conflitos entre os colegas e os superiores, a falta de reconhecimento e as poucas oportunidades de crescimento dentro da empresa também são motivos mencionados. Embora os estudos indiquem que o gênero e a idade tenham relação com a SB, sozinhas, essas características não têm o poder de desencadear a síndrome.
Existem profissões consideradas mais suscetíveis?
A SB atinge várias profissões, principalmente as que envolvem algum tipo de cuidado e uma relação de atenção direta e emocional. Os profissionais de educação, em especial os professores, são considerados de alto risco. Outras áreas que merecem atenção são saúde e segurança.
Atualmente, Burnout é uma das principais causas de afastamento do trabalho?
No Brasil, os dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam que os transtornos mentais e comportamentais são a terceira causa de benefícios previdenciários de auxílio-doença. No entanto, como a SB não era, até recentemente, considerada um fenômeno relacionado ao trabalho, não estava incluída nessa estatística. Pesquisas confirmam que muitos profissionais têm se afastado do trabalho devido à manifestação dos sintomas da SB que, se não tratados adequadamente, podem incapacitar permanentemente o trabalhador.
O empregador tem algum tipo de responsabilidade?
Esse não é um problema só do indivíduo, mas do contexto social do trabalho. Portanto, envolve, também, a organização e os empregadores.
Existe uma maneira de prevenir o surgimento desse problema?
A prevenção parte, justamente, da premissa de que a SB é um problema coletivo e organizacional, não apenas individual. No nível organizacional, as empresas podem adotar medidas como evitar horas extras, proporcionar condições de trabalho atrativas, investir na formação profissional, dar suporte social às equipes e incentivar a participação nos processos decisórios, entre outros. No nível individual, podem ser realizadas melhorias no estilo de vida do trabalhador e desenvolvidas técnicas de manejo de estresse e estratégias de enfrentamento, por exemplo.
Os colegas de trabalho podem ajudar?
Sem dúvida. Estudos conduzidos por meu grupo de pesquisa têm mostrado que o apoio dos colegas e dos supervisores é um fator preventivo em relação ao desenvolvimento da SB. Por isso, é importante que as intervenções realizadas nas empresas foquem na promoção de uma rede de suporte social para troca de informações, de orientações e de experiências. Dividir dificuldades dentro de um clima de respeito, ouvir opiniões e tentar promover mudanças diante de necessidades individuais são essenciais para a construção de um ambiente saudável.
Quais são as possibilidades de tratamento?
Intervenções voltadas para o indivíduo, tais como, psicoterapia, treinamento cognitivo comportamental, exercícios de relaxamento, encaminhamento para serviços de saúde, melhoria do estilo de vida e medicação, sob acompanhamento médico, apresentam resultados positivos, mas as mudanças na organização do trabalho têm alcançado efeitos mais efetivos e duradouros.
Texto: Paula Zuliani Fotos: Luan porto