Um mal silencioso

Sem apresentar sintomas e com estatísticas crescentes, a Diabetes é uma das doenças que mais acomete a população

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Diabetes, hoje, o país possui aproximadamente 12 milhões de diabéticos. A estatística, considerada alta, possui mais um agravante: metade das pessoas não sabem que sofrem da doença, já que a diabetes é um problema silencioso. “Não há dor ou qualquer sintoma aparente. Assim, o paciente pode descobrir a doença apenas quando o estado já é crítico”, afirma o médico endocrinologista Dr. Carlos Eduardo Barra Couri, que atua na área há dez anos e integra a equipe de transplantes de células-tronco do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirao Preto, da USP.

A cidade está entre as poucas que possui uma amostragem específica, porém defasada. Um levantamento feito pela USP na década de 90 revelou que 12,1% da população tinha diabetes. Segundo o médico, não há nada mais atual devido ao custo da pesquisa. “É preciso separar grupos e fazer exames para dimensionar a abrangência da doença. Isso demanda tempo, profissionais capacitados e recursos. O Ministério da Saúde realiza pesquisas, mas por telefone, sem comprovação”, explica. Na região, o dado mais recente vem de São Carlos. No final da década de 2000, ficou constatado que 13,5% da população era diabética.

Os números do passado são expressivos e, para os especialistas, deve ter aumentado. O principal fator é o estilo de vida sedentário comum hoje em dia. A combinação entre alimentos calóricos, pouco nutritivos e as facilidades da modernidade, como o uso exagerado da tecnologia, faz com que as pessoas se movimentem cada vez menos e fiquem mais suscetíveis a doenças. Entre as crianças e jovens, é possível registrar um expressivo aumento de casos.

A definição
Para entender melhor, segue uma explicação simplificada: os alimentos digeridos se transformam em açúcar e, consequentemente, em glicose, que é absorvida pelo o sangue e, depois, pelas células, gerando energia. Para que esse processo aconteça, a insulina é fundamental. Quando essa substância produzida pelo pâncreas não é bem utilizada, o nível de glicose no sangue fica elevado, causando a enfermidade.

A diabetes pode ser dividida em vários tipos, mas dois são predominantes. O Tipo 1 é menos frequente e, mesmo acometendo todas as idades, é mais comum em crianças e jovens, geralmente magros e sem histórico familiar. O sistema imunológico do paciente, responsável por proteger o organismo, identifica as células produtoras de insulina como inimigas e trabalha para destruí-las. Por isso, a doença é chamada de autoimune. Sem insluina, a glicose não segue seu curso normal. Assim, quem sofre desse mal precisa de injeções de insulina diariamente.

O Tipo 2 é o mais comum, correspondendo a 90% dos casos. Ocorre em adultos e idosos, normalmente com excesso de peso, e possui forte relação com a genética e com maus hábitos. Há, ainda, uma associação clara com outros distúrbios, como hipertensão, colesterol e triglicérides elevados, gordura no fígado, gota, ovários policísticos e apneia do sono. “Os pacientes com diabetes Tipo 2 chegam a produzir insulina, mas sua ação é difícil. O pâncreas fica sobrecarregado e, com isso, gera falhas. O nome científico é ‘Resistência Insulínica’. Para controlar, basta usar medicamentos orais e adotar hábitos saudáveis. Em alguns poucos casos, a insulina é necessária”, descreve o especialista.

O perigo é real. A diabetes é a maior causa de cegueira e de insuficiência renal crônica no Brasil, além de ser um dos principais fatores que levam à amputação de membros, especialmente das pernas. A doença é a terceira que mais mata no país, ficando atrás apenas do Acidente Vascular Cerebral (AVC) e do infarto, sendo que a diabetes não controlada pode causar tanto um quanto outro. Outros agravantes podem aparecer, como taxas de colesterol e triglicérides elevadas, hipertensão, gota, disfunções nas articulações e até impotência sexual. “Porém, é importante salientar que isso acontece em casos extremos. Com um diagnóstico precoce, é perfeitamente possível tratar e viver bem”, frisa o médico. Daí a importância dos exames periódicos.

O diagnóstico
Apesar da falta de sintomas, é possível ficar atento a pequenas mudanças e buscar informações sobre o assunto. Urinar excessivamente, sentir muita sede e fome, além de perda de peso, cansaço, vista embaçada e infecções frequentes, principalmente de pele, são alertas para agendar uma visita ao médico. Vale a pena lembrar que, na diabetes Tipo 2, esses sintomas, quando presentes, instalam-se de maneira gradativa e podem não ser notados. Já na diabetes Tipo 1, os sinais se instalam rapidamente.

O exame de sangue para constatar a diabetes é simples e está disponível, inclusive, na rede pública de saúde. O nível de glicose do paciente, depois de um jejum de pelo menos oito horas, não deve passar de 99 mg/dl. Há, ainda, o teste oral de tolerância à glicose, em que a pessoa ingere um copo com 75 g de açúcar dissolvido em água e, duas horas depois, mede a glicose, que precisa ficar abaixo de 140 mg/dl. Qualquer resultado diferente deve ser analisado cautelosamente. “Não basta fazer o teste uma vez, guardar o resultado e esquecer. É preciso repeti-lo de tempos em tempos para garantir que continua tudo bem”, recomenda o médico.

Os tratamentos
Já não faltam recursos para controlar a doença e manter a qualidade de vida. Com a constante evolução da medicina, os tratamentos estão cada vez mais práticos e eficazes. Para o Tipo 1, há insulinas que evitam o ganho de peso, aplicadores pequenos e delicados, além de aparelhos de medição funcionais e precisos. Para o Tipo 2, o mercado ainda oferece medicamentos que atuam não somente no controle da glicose, mas também do colesterol, do triglicérides, entre outros. “Vale destacar que o Estado de São Paulo é referência no segmento. O sistema facilita o acesso ao tratamento, desde os mais básicos até os de custo elevado”, avalia Dr. Carlos Eduardo.

Além dos remédios, os diabéticos precisam ter um estilo de vida saudável. Praticar exercícios físicos e ter uma alimentação equilibrada são atitudes imprescindíveis, assim como cuidar do aspecto psicológico. Segundo o endocrinologista, as pessoas se abalam ao saber do diagnóstico. “A diabetes está cercada de mitos. Muitos acham que o diagnóstico é uma sentença de morte e isso não é verdade. O susto inicial é natural, mas depois é preciso enxergar o lado positivo, aprender a lição e se cuidar”, orienta. Nesse momento, o apoio da família e dos amigos faz toda a diferença.

O futuro
De forma pioneira, a equipe de transplantes de células-tronco do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto iniciou, em 2003, uma pesquisa inovadora para a diabetes Tipo 1 — na época, sob o comando do renomado especialista Julio Voltarelli, falecido em março deste ano e, agora, sob coordenação da Dra. Belinda Simões. O estudo ganhou notoriedade internacional ao ser publicado duas vezes no Journal of The American Medical Association (JAMA), veículo científico de grande expressão.

Outros veículos repercutiram a notícia, como The New York Times, Wall Street Journal e Le Monde. “Nosso grupo já possuía expertise no combate a doenças autoimunes, como lúpus, artrite reumatoide e esclerose múltipla, através das células-tronco. O que fizemos foi incluir a diabetes Tipo 1 nessa relação. Estamos entre os poucos centros de saúde do mundo com forte estrutura nessa área, com ambulatório e enfermaria próprios. Temos 50 profissionais, entre médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, entre outros”, enfatiza o médico.

Os esforços renderam resultados. No ano passado, o “Reset Biológico”, como é chamado o procedimento, foi aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA), órgão americano regulador de pesquisas relacionadas a alimentos e medicamentos. O estudo é replicado em países como Estados Unidos, França, China, Polônia e Reino Unido. Funciona assim: o sistema imunológico, causador do problema, é desligado com altas doses de quimioterapia endovenosa. No encerramento das sessões, esse sistema é religado com células-tronco adultas localizadas na medula óssea do paciente. Até agora, 26 pessoas participaram do estudo, das quais 22 pararam de usar insulina. Alguns estão livres das injeções, enquanto outros tiveram uma pausa, mas voltaram a precisar de doses diárias — porém, de forma bem reduzida, melhorando a qualidade de vida dos pacientes.

Desde que se tornou pública, a notícia causou euforia. Entretanto, o médico enfatiza: parar de usar insulina não significa cura. “O paciente tem que manter uma rotina saudável e medir a glicose constantemente. Esse acompanhamento é indispensável”, pontua. A pesquisa, séria e rigorosa, envolve riscos e, por isso, não é aberta ao público. Os participantes precisam passar por uma criteriosa seleção. “É necessário ter mais de 18 anos e ter descoberto a diabetes Tipo 1 há menos de cinco meses”, explica Dr. Carlos Eduardo.

O cirurgião dentista Jaider Furlan Abbud se enquadrou nos padrões estabelecidos e participou da pesquisa. Ele descobriu sua diabetes Tipo 1 ao completar 31 anos, em maio de 2006. “Entrei no banheiro e notei formigas ao redor do vaso sanitário. Achei estranho, mas associei que naquela época estava ingerindo muita água. Fui até a casa dos meus pais para medir o nível glicêmico e constatei 264 em jejum. Foi difícil acreditar, já que esse tipo da doença atinge mais crianças e jovens”, recorda. Adaptar-se à nova rotina não foi fácil. Jaider passou a controlar a ingestão de carboidratos e a comer de três em três horas, sem esquecer da insulina. Logo após a descoberta, tomava 40 unidades da substância ao dia, na certeza de que a quantidade aumentaria com o tempo.

Foi aí que ele ingressou no estudo. Com o transplante de células-tronco, Jaider ficou cinco anos e seis meses sem a insulina. Hoje, toma 16 unidades diariamente. “Decidi fazer o procedimento não para ficar sem as injeções e, sim, em busca de mais qualidade vida. Estou imensamente satisfeito com os resultados”, afirma. O sucesso do projeto fez com que o paciente ficasse animado com a possibilidade de cura no futuro. “Tenho esperança e acho que o caminho é esse. Agradeço ao Dr. Voltarelli por sua sabedoria como pesquisador, dando um passo significativo rumo ao bem-estar dos diabéticos”, enfatiza. Mesmo depois de seis anos, Jaider continua frequentando o HC para conferir o nível de glicemia no sangue. Caso alguém tenha interesse, pode entrar em contato pelo email: [email protected]. Em breve, o grupo deve iniciar importantes trabalhos com diabéticos do Tipo 2. “Estamos aguardando apenas a aprovação do estudo nos órgãos nacionais de ética em pesquisa”, finaliza Dr. Carlos Eduardo.

Dieta diversificada
Antigamente, quando se falava em diabetes, automaticamente se pensava em restrição alimentar. Para regular o nível de glicose, o paciente tinha que eliminar algumas receitas do cardápio. Para suprir tal lacuna, o mercado desenvolveu produtos que saciam a vontade de comer sem causar danos. “Antes, o diabético tinha poucas opções e dificuldade para encontrar esses produtos, que eram muito caros. Hoje, a oferta é grande e crescente. Apesar de ainda custarem mais que os alimentos convencionais, a diferença de preço tem diminuído”, destaca Graziela Coelho Amato Spadão, farmacêutica bioquímica com pós-graduação em Educação em Diabetes. À frente da Droga Diet, Graziela lida diretamente com o setor e afirma: a indústria alimentícia voltou sua atenção para os diabéticos. Entre os indícios, está o surgimento de produtos sazonais, como ovos de Páscoa e panetones, na versão diet. “Vale ressaltar que o termo diet é aplicado a alimentos destinados a dietas com restrição de nutrientes, tais como: carboidratos, gorduras, proteínas, sódio, glúten, entre outros. Nem sempre o alimento diet possui menos calorias. O chocolate diet, que não contém açúcar, pode ter mais gordura e calorias que o chocolate convencional”, indica. Já o light classifica alimentos com redução mínima de 25% em algum nutriente ou calorias. Os consumidores são, na maioria das vezes, pessoas que querem cortar calorias.

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Julio Sian

Compartilhar: