Um médico de família
A consolidação da Medicina de Família e Comunidade como especialidade constitui condição essencial para a Política Nacional de Atenção Básica, que objetiva o fortalecimento das diretrizes da Saúde
Apesar do aumento da oferta de programas de residência em Medicina de Família no país, para a constituição das equipes multiprofissionais de saúde da família (eSF) propostas pela Estratégia Saúde da Família, do Ministério da Saúde, a procura por parte de médicos recém-formados na especialidade médica pode ser considerada relativamente baixa. “As escolas médicas estão sendo cada vez mais cobradas pelo Ministério da Educação (MEC) para formarem o médico com perfil generalista, justamente para que ele possa se inserir mais facilmente no Sistema Único de Saúde (SUS). Não é que não precisemos de especialistas, mas o Brasil precisa muito mais de generalistas”, explica o professor da Disciplina de Saúde Coletiva do Curso de Medicina do Centro Universitário Barão de Mauá, Thiago Roberto Castellane Arena.
Graduado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB-UNESP), com residência em Medicina de Família e Comunidade pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), MBA Executivo em Gestão de Saúde pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-UNICOC), especialização em Auditoria Médica pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e doutor em Ciências Médicas pelo Programa de Pós-Graduação em Clínica Cirúrgica da FMRP-USP, o professor tem no currículo, ainda, a importante contribuição ao programa “Voluntário do Sertão”, que uma vez por ano leva atendimento médico gratuito a populações carentes do interior da Bahia.
Qual o conceito de Medicina de Família e Comunidade (MFC)?
Thiago: É uma forma mais ampla de exercer a medicina, onde o foco da atenção do profissional médico transcende a doença do paciente, fixando-se sobre o indivíduo e sua inserção na família e na comunidade, levando em consideração os aspectos biológicos, sociais e culturais do entorno onde ele vive e que possam interferir na sua saúde.
Quando surgiu essa área de atuação médica?
Thiago: Na verdade, ela sempre existiu. Foram os sistemas de ensino das escolas médicas que passaram a “dividir” o doente. O que está ocorrendo é uma retomada da medicina tradicional, daquele médico que visitava as casas e cuidava de todos os membros da família e que se perdeu no decorrer dos anos.
Qual a importância dessa área da medicina?
Thiago: A medicina de família e comunidade, que no Brasil vem sendo desenvolvida pelas Equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), é uma nova forma de abordagem da Atenção Básica (AB) à saúde dos brasileiros. Tem por finalidade tentar resolver a grande maioria dos problemas de saúde dos pacientes (cerca de 80% a 85%) com menos tecnologia. Ao se aproximar da realidade dos pacientes, conhecendo sua família, sua comunidade e seus costumes, o médico de família tende a constituir um vínculo de confiança mais coeso que, em tese, permite melhor adesão às orientações para mudanças de estilo de vida e tomada de medicações.
Como é a atuação desse profissional na prática?
Thiago: O médico de família, para conseguir bem desempenhar sua função, deve ter boas habilidades técnicas, dominar a abordagem de diferentes tipos de doenças em diferentes segmentos do ciclo vital (crianças, adolescentes, adultos jovens e idosos), saber a quem pedir auxílio quando a situação de saúde se tornar mais complexa (a quem referenciá-la no sistema de saúde), também precisa dominar técnicas de comunicação para se fazer entender e permitir que o paciente confie nele e conclua seu tratamento, além de se articular muito bem com os outros integrantes da equipe de saúde: enfermeiros, agentes comunitários de saúde, terapeutas ocupacionais, psicólogos, educadores físicos, assistentes sociais, técnicos e auxiliares de enfermagem, farmacêuticos, dentistas, entre outros.
Qual deve ser o perfil desse profissional?
Thiago: Basicamente esse profissional deve ser dotado de três habilidades: um grande interesse pelo outro, uma curiosidade natural que permita estar aprendendo sempre. Na prática existem mudanças e necessidade de trabalhar em equipe, pois as ações do médico de família, de forma isolada, sem engajamento com os demais membros do grupo, na maioria das vezes, não surtem bons resultados.
Como percebe a receptividade, o envolvimento dos alunos nessa área?
Thiago: Essa é uma disciplina que tem crescido muito. O Brasil precisa mais de médicos com esse perfil generalista do que de especialista. A abordagem do médico generalista, se bem treinado, permite que a AB seja mais resolutiva e que o dispêndio de recursos financeiros, por sua vez, seja menor. Como a grande maioria das escolas médicas possuem professores “super” especialistas em suas áreas, grande parte dos alunos vislumbra se tornar cardiologista, dermatologista, neurologista, etc. Cabe a nós, professores da área, mostrarmos aos alunos que os especialistas são muito importantes, mas que alunos em formação, antes de se especializarem, devem possuir um grande domínio horizontal dos diferentes problemas de saúde para, só então, depois de graduados, escolherem se irão se aprofundar ou não em uma única área.