UM NOVO DESAFIO
Em entrevista à Revide, secretário municipal de Saúde, Sandro Scarpelini, detalha o impacto do novo coronavírus na rede de atendimento do município
Em 21 de março, os primeiros cinco casos confirmados do novo coronavírus na cidade acenderam o alerta da Prefeitura de Ribeirão Preto. Teve início, então, uma série de ações tomadas pelo poder público para evitar a escalada veloz da doença. O aumento de 2.220% em 17 dias no município – passando das cinco ocorrências iniciais a 116 casos no dia 7 de abril – acompanha a propagação da Covid-19 no Brasil, que já soma mais de 16 mil pacientes contaminados e preocupa autoridades. Decretos que indicam a suspensão de atividades comerciais em diversos setores e sugerem o isolamento social em Ribeirão Preto foram publicados objetivando conter o avanço do novo coronavírus.
A proposta é achatar a curva de contágio, ou seja, como ainda não existem tratamentos comprovados contra a doença, a busca é pela redução da velocidade de contaminação para evitar uma superlotação dos hospitais. O município possui 2.500 leitos hospitalares, sendo 1.592 do Sistema Único de Saúde (SUS) e 908 em instituições particulares. Ao todo, são 340 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), dos quais 269 pertencem ao SUS e 71 à rede particular. Para não sobrecarregar as unidades – que já enfrentam doenças sazonais, como a dengue e a H1N1 –, a principal indicação da administração municipal é para que as pessoas fiquem em casa e evitem aglomerações, conforme destaca o secretário municipal da Saúde, Sandro Scarpelini.
Em entrevista à Revide, Sandro ressalta o impacto da Covid-19 no sistema de saúde. Segundo ele, todos os preparativos para o enfrentamento da doença influenciam na estrutura de atendimento na cidade, com a suspensão de consultas e procedimentos agendados, afetando terapias de muitas outras patologias crônicas. De acordo com o secretário, contudo, toda a rede de saúde tem sido preparada para isolar pacientes contaminados pelo novo coronavírus, com um protocolo específico para aqueles que apresentam sintomas da doença, mas ainda não é possível saber por quanto tempo as medidas aplicadas ficarão em vigor e qual será o impacto total na rede. “No momento, ainda estamos em uma fase de expectativa em relação ao aumento do número de casos. As próximas semanas serão fundamentais para a análise de possíveis mudanças de estratégias”, explana, na conversa a seguir.
Qual o impacto, desde o registro do primeiro caso do novo coronavírus em Ribeirão Preto até os atuais 116 confirmados, no sistema de saúde da cidade?
Mais do que o número de casos confirmados, os preparativos para uma epidemia das proporções que tem atingido vários países da Europa e América do Norte têm causado um grande transtorno no sistema de saúde de Ribeirão Preto. A suspensão de consultas e procedimentos agendados, o fechamento de linhas de cuidados dentro da rede municipal, assim como no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que permitirá o atendimento dos casos de Covid-19, provocam, também, desarranjo e acúmulo na terapia de muitas outras doenças crônicas, mas que, diante da crise aguda e do risco de mortes trazidos por esta nova doença, tornaram-se fundamentais.
Como tem sido o protocolo de atendimento aos pacientes que procuram a unidade de saúde? E quando procurar um atendimento? Quais os sinais que o paciente deve ter para que vá até uma unidade de saúde, em vez de esperar em casa?
A orientação principal é, para nestes próximos dias, evitar ir aos serviços de saúde, deixando apenas para aqueles casos que realmente sejam inadiáveis. O objetivo é evitar o contato com possíveis pacientes com coronavírus. Todas as Unidades Básicas de Saúde estão preparadas para, logo na entrada dos serviços, identificar pacientes com sintomas gripais (nariz escorrendo, tosse, febre) e para direcioná-los, após o recebimento de uma máscara descartável, para um setor isolado onde será atendido por equipe de enfermagem e médica adequadamente paramentadas. Casos com mais sintomatologia, como febre alta há dois ou três dias, muita tosse e, sobretudo, falta de ar, serão direcionados para a UPA da 13 de Maio, onde foi instalado o Polo Covid-19. A Unidade foi isolada, onde todos os profissionais trabalharão adequadamente paramentados e os pacientes serão submetidos a uma triagem prévia, em uma tenda fora da do prédio, por equipes médicas e de enfermagem, clínicos e pediatras, já submetendo os pacientes a alguns exames. Nos casos moderados e graves, serão internados e tratados na própria UPA, sendo aqueles que necessitem de Terapia Intensiva transferidos para os hospitais de referência. Os hospitais de referência foram adequadamente preparados, com a substituição de linhas de cuidados eletivos por espaços para ampliação de leitos de Terapia Intensiva, para dar assistência aos casos mais graves de Covid-19.
Sabemos que Ribeirão Preto vive, ao mesmo tempo em que há contaminação pelo novo coronavírus, uma epidemia de dengue. Qual a situação dessa doença na cidade nesse momento?
Os casos de dengue ainda estão ocorrendo em grande volume na nossa cidade. Todas as medidas preventivas e assistenciais têm sido mantidas pela Secretaria da Saúde. Mutirões têm sido realizados nos finais de semana, com a coleta, desde agosto de 2019, de mais de 2.100 toneladas de inservíveis, potenciais criadouros do mosquito. Felizmente, no mês de março houve uma queda significativa de casos em relação aos dois primeiros meses do ano, e a sazonalidade da proliferação do mosquito está próxima ao fim. Mas dengue é problema constante e que convive com a nossa cidade há mais de 30 anos. Nesse período, muitas campanhas foram realizadas para conscientização da população para a eliminação de focos – até o momento, praticamente a única maneira de prevenir a dengue, já que ainda não foi desenvolvida uma vacina adequada para esta doença.
Como as doenças que já circulam – como a dengue e a H1N1 – impactam no sistema de saúde enquanto há disseminação do novo coronavírus?
A circulação do H1N1 se mantém e entramos na sazonalidade também desse vírus. Felizmente, a mobilização para a Covid-19 fez com que a população comparecesse maciçamente para a vacinação. Com a estratégia montada pela Secretaria da Saúde de usar as escolas, fechadas pela suspensão das aulas, em pouco mais de três dias cumprimos a meta de 90% da população de idosos. A vacinação continuará com as demais populações mais vulneráveis à Influenza.
Os idosos são o maior grupo de risco? Há uma justificativa para o novo coronavírus afetar mais a terceira idade do que as crianças, por exemplo?
Muito provavelmente, a diminuição das defesas naturais associadas as doenças crônicas (comorbidades), muito comuns nos mais idosos, provoca esta maior sensibilidade, assim como ocorre na influenza e em tantas outras doenças. As reservas fisiológicas do mais idosos naturalmente são diminuídas em relação aos jovens. A Prefeitura tem pedido para que a população fique em casa. Vemos, no entanto, pessoas praticando exercícios físicos pela cidade em praças e bairros.
Qual a orientação com relação a isso? O que pode e o que não pode durante a quarentena?
A orientação atual é fique em casa! Se precisar sair, evite aglomerações – e aí pode ser de duas a três pessoas. É salutar fazer exercícios e tomar luz solar nestes momentos, mas conversas ou caminhadas em grupo devem ser evitadas. Quanto mais contatos tivermos, maior a chance de nos contaminarmos.
Qual a expectativa da Prefeitura de Ribeirão Preto com relação às medidas que vem sendo tomadas, como o decreto que restringe a atividade de estabelecimentos?
Evitar a circulação da população. Essa estratégia funcionou na maioria dos países que já estão convivendo com a epidemia, comprovada em vários artigos científicos. As cidades que demoraram a tomar estas atitudes têm sofrido muito com a incapacidade de dar cuidados de Terapia Intensiva, diante de uma grande avalanche de casos. Diminuir a velocidade de disseminação da doença permite maior acomodação dos casos graves ao longo do tempo, permitindo assistências a todos.
Especialistas afirmam que o país pode viver em ondas de isolamento, alternando entre períodos de liberação. Essa seria uma possibilidade para Ribeirão Preto?
No momento, ainda estamos em uma fase de expectativa em relação ao aumento do número de casos. As próximas semanas serão fundamentais para a análise de possíveis mudanças de estratégias.
Como a população pode se proteger do novo coronavírus?
#fiqueemcasa!