Um novo olhar sobre o TDAH

Um novo olhar sobre o TDAH

Estatísticas apontam que cerca de 5% das crianças em idade escolar são portadoras de TDAH

Quando João Gabriel Pereira de Sousa ingressou na 1ª série do Ensino Fundamental, seus pais Lirian Pereira de Sousa e João Bosco Azevedo de Sousa perceberam uma mudança do comportamento no filho. Com um nível de agitação acima da média, brincava com os outros alunos sem pausa, tinha dificuldades de se concentrar, de se organizar e de acompanhar as atividades desenvolvidas. João Gabriel até começava a lição, mas não terminava. Distraído, em questão de minutos esquecia o conteúdo que tinha acabado de ser apresentado. Porém, para o casal, os problemas eram considerados normais, até esperados, já que o garoto enfrentava uma fase de adaptação à nova realidade.

No ano seguinte, os contratempos se intensificaram e passaram a interferir também na rotina da casa. “Tudo que pedíamos para ele fazer, como tomar banho ou almoçar, gerava discussão. Nosso filho simplesmente não obedecia. Desafiava nossa autoridade. Comecei a acreditar que havia algo errado”, comenta a mãe. Justamente nessa época, há aproximadamente dois anos, a escola de João Gabriel desconfiou que o menino pudesse ter algum tipo de distúrbio neurológico e pediu que a família o levasse a um especialista. O diagnóstico confirmou as suspeitas: o pequeno sofria de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), doença de origem genética, com influência de fatores ambientais e orgânicos, que altera os neurotransmissores cerebrais que controlam funções essenciais, como a atenção, a organização, o planejamento, a motivação, a cognição e a atividade motora.

Casos como esse são cada dia mais frequentes no Brasil. Segundo o neurologista pediátrico Marco Antônio Penna, as estatísticas apontam que cerca de 5% das crianças em idade escolar são portadoras de TDAH. O médico alerta os pais a prestar atenção em alguns sinais básicos. “Os principais sintomas são hiperatividade, impulsividade e falta de atenção, que ocorrem em intensidade e combinações variadas, gerando problemas de aprendizagem, dificuldade de relacionamento social e ocupacional, baixa autoestima, maior índice de acidentes e, ocasionalmente, outros transtornos psiquiátricos, se o quadro não for adequadamente tratado”, relata. Os indícios podem se manifestar desde os primeiros meses de vida. Em algumas situações, são detectados até durante a vida intrauterina, quando a mãe percebe que o feto se movimenta demais no ventre. O mais comum é que os traços do distúrbio fiquem evidentes na idade pré-escolar e escolar, persistindo, muitas vezes, até a fase adulta.

Entretanto, não é porque a criança é agitada ou porque tem um desempenho baixo na sala de aula que sofre necessariamente de TDAH. “Como essa doença é amplamente divulgada hoje em dia, as pessoas se sentem capacitadas para identificá-la nos filhos, nos sobrinhos ou nos vizinhos. Isso é absolutamente errado. Os sintomas podem ser decorrentes de outras causas, como ansiedade, depressão e até transtorno bipolar. Por isso, uma avaliação rigorosa, feita por um especialista, é imprescindível. Só assim o diagnóstico será preciso e confiável”, enfatiza Dr. Marco Antônio. O tratamento medicamentoso é indicado na maioria dos casos, sendo os psicoestimulantes considerados os mais eficientes. Vale ressaltar que os comprimidos não promovem a cura e, sim, o controle dos sintomas.

Além do acompanhamento do quadro clínico regularmente por um médico, outros profissionais podem fazer a diferença na evolução dos pacientes. Lírian e João Bosco montaram um verdadeiro time para atender a todas as necessidades do filho. O garoto tem sessões com psicóloga, uma psicopedagoga, uma fonoaudióloga e uma neuropsicóloga. “Quando tivemos a confirmação, não sabia o que fazer ou como ajudá-lo. Eu me senti perdida, impotente. Depois do impacto, buscamos informações sobre o assunto e começamos a procurar alternativas para amenizar os reflexos do TDAH na vida do João Gabriel. Cercamos nosso filho com o que há de melhor para que ele possa crescer feliz e saudável. Os resultados logo apareceram. Ele está progredindo muito. Está mais obediente, focado, interessado e tranquilo. Sabemos que ainda temos um longo caminho pela frente, mas cada passo é uma vitória”, comemora a mãe.

A psicopedagoga Yonara Feitosa reforça que a visão inter e multiprofissional no tratamento do TDAH traz inúmeros benefícios. “Sem esse suporte, a criança e os pais ficam mais suscetíveis a influências negativas de ordem social, pessoal, familiar e escolar”, explica. A Psicoterapia, por exemplo, ajuda a combater determinados sintomas, como a ansiedade, a depressão e a baixa autoestima. Já a Psicopedagogia atua na reconstrução das habilidades e conteúdos, eliminando sequelas que prejudicaram o processo de aprendizagem. “Temos que andar em conjunto. Com a compreensão da realidade ao seu redor, das limitações e das potencialidades, fica mais fácil encarar a pressão que essas crianças vivem. Sempre existiu uma preocupação em relação à adequação ao sistema escolar e familiar. Antigamente, quem saía do padrão esperado, era rejeitado”, lembra Yonara. Hoje, a cobrança pelo sucesso é ainda maior, mas o comportamento é outro. O foco está na integração dessas pessoas. E é justamente para que isso aconteça que essas profissionais trabalham, cuidando da saúde mental e fortalecendo o lado emocional de quem possui o transtorno.

O papel das escolas
Como o TDAH costuma se manifestar em idade pré-escolar e escolar, as instituições de ensino precisam estar preparadas para notar os indícios e colaborar com o tratamento. No Colégio Santa Úrsula, os professores passam constantemente por atualizações sobre o tema através de palestras, grupos de estudos e leitura de artigos científicos. Assim, eles adquirem conhecimento para distinguir o problema. “Os estudantes são observados e avaliados em seu processo global e, quando há um desequilíbrio, a atenção é redobrada. A possibilidade do TDAH é levantada quando o aluno não responde aos estímulos, não consegue ter controle emocional e corporal, não é capaz de tomar decisões autônomas, organizar e planejar suas atividades, mesmo com uma orientação efetiva”, descreve Patrícia Carlos, orientadora educacional do Colégio.

Quando as características persistem, os pais são chamados para um diálogo. “Pedimos para que a família repare nos mínimos detalhes para ver se a criança também apresenta esses desvios em casa. Se sim, solicitamos a opinião de um profissional de saúde especializado”, revela Patrícia. Com o diagnóstico fechado, cabe à instituição se organizar para assegurar o rendimento escolar e o convívio social. O Santa Úrsula trabalha em parceria com os especialistas envolvidos no caso, promovendo encontros regulares para alinhar estratégias pedagógicas e comportamentais porque, apesar de um diagnóstico comum, cada aluno apresenta uma necessidade específica.

O Colégio FAAP Ribeirão também trabalha para que a criança com TDAH tenha o suporte necessário para se desenvolver de forma natural e saudável, sem estresse e sem traumas. “As estratégias variam de aluno para aluno e incluem mudanças simples, como alterações no tempo ou no formato de provas e na dinâmica das aulas, ou mais amplas, com apoio individual. Existem alunos que tem o direito de realizar provas diferenciadas, com adaptações às suas necessidades, inclusive nos exames vestibulares, e poucos sabem disso”, esclarece Luiz Celso Castro de Toledo, psicólogo clínico e membro da equipe de Coordenação do Colégio FAAP Ribeirão.

Além disso, Luiz destaca o papel essencial da família nesse cenário. Segundo ele, o apoio é importante em tudo o que diz respeito à evolução intelectual e emocional da criança, desde o início da vida escolar, até o gosto pela leitura e pelas artes, pelo esporte e pela matemática. Quando há uma dificuldade, essa influência é ainda mais decisiva. O coordenador observou que, em diversos casos, principalmente de estudantes que conseguiram superar dificuldades mais severas, o envolvimento dos pais era total.

O especialista ainda alerta que o assunto deve ser conduzido com cuidado. “O crescimento vertiginoso da quantidade de diagnósticos e o uso cada vez mais frequente de medicamentos entre crianças e jovens têm gerado reações enérgicas. Há uma campanha em curso para alertar sobre a importância do tema e várias entidades são signatárias de um documento chamado ‘Não à medicalização da vida’, que pode ser facilmente encontrado na internet. Como se vê, é um assunto polêmico”, ressalta. Entre as entidades envolvidas estão o Conselho Federal de Psicologia, o Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciência Médicas da Unicamp e a Associação de Docentes da USP.

É preciso lembrar que outros fatores podem contribuir para o insucesso do processo de aprendizagem.  Crises familiares, problemas emocionais, dificuldades de socialização e o uso cada vez mais frequente de computadores e celulares são alguns deles. Isso sem mencionar os aspectos relativos à própria escola, como o projeto pedagógico, a capacidade dos professores e a infraestrutura. “Se não quisermos simplificar as dificuldades dos alunos, reduzindo-as, é fundamental ter um olhar abrangente”, finaliza Luiz.

Para saber mais
A Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA) se dedica a disseminar informações sobre o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Além disso, a entidade, sem fins lucrativos, oferece suporte a pessoas com esse transtorno e a seus familiares. Para saber mais basta acessar: www.tdah.org.br.

Texto: Paula Zuliani

Fotos: Júlio Sian
Modelo: Victor Miranda Rodarte
Agradecimento: Colégio Santa Úrsula

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