Um novo status para as cervejas

Um novo status para as cervejas

Os ribeirãopretanos estão se rendendo cada dia mais aos diferentes sabores da famosa mistura de água, malte, cereais e lúpulo

Conhecida por ser uma bebida popular, a cerveja foi, em um determinado momento histórico, considerada alimento. Para se ter uma ideia, os egípcios, que criaram as primeiras receitas, a chamavam de pão líquido. Na Idade Média, devido às condições de conservação precárias, era comum e mais seguro beber cerveja, e não água, para se hidratar. Ainda segundo a história, acredita-se que o boteco teve origem nas boticas do século passado: os clientes frequentavam os armazéns, onde se vendia de tudo um pouco, e ficavam horas conversando no local. Os donos dos estabelecimentos começaram, então, a servir aperitivos e bebidas, o que tornou aquele encontro ainda mais agradável. Não demorou muito para que os botecos e as cervejas se tornassem parceiros inseparáveis e essas bebidas passaram a ser consideradas as mais sociáveis.

Ao resgatar parte dessa história, fica mais fácil entender porque, em qualquer lugar do mundo, sempre terá um bar, boteco ou botequim de portas abertas esperando os boêmios com uma cerveja gelada. No Brasil, o maior país localizado nos trópicos, e em Ribeirão Preto, cidade famosa pelo clima quente, a cerveja e o boteco têm lugar de destaque. E se o brasileiro é conhecido, entre outras qualidades, pela criatividade e originalidade, no mundo da cerveja não é diferente. Com o crescente mercado de bebidas artesanais, especiais ou gourmet, como são conhecidas, o país deu um salto na qualidade e na variedade de rótulos ao alcance de um público cada vez mais exigente.

O empresário e sommelier de cervejas, Almir Cesar Tavares, reforça que são muitos os fatores que ajudaram o crescimento das cervejas artesanais no Brasil. Entre eles, economia sólida, novas importadoras, novos investidores, cervejeiros caseiros, redes sociais que difundem esse crescimento e os novos produtos e, por consequência, trazem mais consumidores. “Acredito que o fato principal é que o brasileiro está cansado de beber cervejas em grande quantidade, estupidamente geladas e sem sabor. Seja na gastronomia ou entre as bebidas, há uma grande procura por novos aromas, sabores e experiências”, garante o especialista.

No seu caso, Almir revela que o interesse pelas cervejas artesanais foi aumentando gradativamente. O sommelier, que sempre gostou de visitar destinos ligados a cervejas, a vinhos e a culinária, acredita que a paixão pelas viagens foi fundamental para sua formação profissional e pessoal. “Tudo mudou quando fui à Europa pela primeira vez, em 2008. Ainda não tínhamos no Brasil, principalmente em Ribeirão Preto, a enorme variedade de cervejas que encontrei por lá. Em Munique, na Alemanha, fiquei fascinado pelas cervejas de trigo (Weissbier), servidas em copos de 500 ml e consumidas nas praças, em mesas comunitárias. Na Bélgica, tive a surpresa de entrar em bares com mais de 200 cervejas, cada uma servida em seu copo e na temperatura ideal. Descobri bebidas complexas em aromas e em sabores, que chegavam a lembrar vinhos. A partir dessa viagem tudo mudou, meu paladar já era outro e não consegui mais parar”, relembra o sommelier.

A mudança chegou também a Ribeirão Preto, cidade conhecida como a terra do chope. Se os rótulos artesanais estão em alta no momento, a cidade conta com mais um ponto a favor: sua história cervejeira. Em meados do século XX, o município contava com dois gigantes do ramo, a Companhia Cervejaria Paulista, inaugurada em 1913, e a Cia. Antárctica Paulista, que abriu sua unidade na cidade em 1911. A história não parou por aí: hoje, três cervejarias artesanais resgataram a tradição e começaram a fabricar rótulos que conquistaram não apenas os ribeirãopretanos, mas apreciadores do país inteiro e até do exterior. São elas: Colorado, inaugurada em 1995; Lund, fundada em 2009, e Invicta, que começou em 2011. Assim, passado e presente vêm transformando Ribeirão Preto numa cidade de turismo cervejeiro.

A hoteleira Mayara Branco ressalta que Ribeirão Preto já é reconhecida pelo seu chope e acredita que foi a partir desse título que surgiu o interesse pelas cervejas artesanais. “A mentalidade dos consumidores está mudando. Hoje, preza-se mais pela qualidade do que pela quantidade. Além da história, as cervejarias ribeirãopretanas utilizam a água pura do manancial subterrâneo que abastece a cidade, conferindo qualidade ao produto e mantendo a tradição cervejeira na cidade”, aponta.

Já Almir salienta que Ribeirão Preto tem condições, há tempos, de ser um polo turístico do segmento, pois é a principal cidade de uma região culturalmente rica, que recebe visitantes o ano inteiro e pouco explora suas riquezas. “São muitos pontos a trabalhar, e a fama de cidade tradicionalmente cervejeira é apenas um deles. Este ano, devemos receber uma quarta cervejaria na região, Walfanger, que vai trazer novidades e será mais um chamariz. Acredito que estamos no caminho certo, mas ainda falta oferecermos um pacote turístico completo para receber turistas da região, do Brasil e do mundo. Sei que tem muitos projetos acontecendo e estou cheio de boas expectativas”, diz, entusiasmado.

Mercado em expansão
A cerveja possui uma veia extremamente democrática, transitando com naturalidade por todos os nichos e classes sociais. Mas os setores premium e superpremium no Brasil estão entre os que mais crescem: já representam 4,5% do mercado e correspondem a uma expansão de cerca de 15% ao ano. Os dados são da Associação Brasileira de Bebidas (Abrabe). Almir, que é proprietário do Empório Toscana, especializado em cervejas artesanais, garante que a procura por novidades move a indústria cervejeira. “Nosso clima também contribui para isso, pois o verão dura praticamente o ano inteiro. A cerveja faz parte do dia a dia do brasileiro. Nesse momento, só estamos migrando de um consumo em larga escala e escolhendo melhor o que beberemos. É a ideia do ‘beba menos, beba melhor’”, explica.

Este crescimento dinâmico tem sido impulsionado principalmente pelos consumidores e pequenos produtores. Além disso, diversos restaurantes aderiram às cervejas especiais ao seu portfólio de bebidas. Para o diretor da Bella Capri Pizza & Pasta, Odair Rodrigues, que lançou recentemente uma carta de cervejas gourmet no local, o consumidor das cervejas gourmet quer conhecer a origem da bebida escolhida e sua composição. “Atendemos a um público exigente e de paladares distintos. Incluir as cervejas artesanais nacionais e importadas foi uma decisão tomada para agradar os frequentadores da pizzaria, que gostam de variar, trocando o tradicional vinho por uma cerveja mais refrescante ou encorpada”, completa.

Os consumidores agradecem a chegada de mais essa opção às casas ribeirãopretanas. O consultor comercial Jean Gustavo Zanandréa declara que nunca foi um grande consumidor de cervejas comerciais, porém, por influência de amigos e também por curiosidade, começou a conhecer as cervejas artesanais. “A diversidade de sabores chamou minha atenção. A cerveja artesanal é uma bebida para todos os momentos, podendo ser degustada em casa ou em um bar com os amigos”, recomenda.

Mayara conta que sempre gostou do sabor da cerveja e, há mais ou menos um ano, ela e o namorado começaram a experimentar cervejas artesanais. “No começo, tomávamos em casa, mas agora costumamos frequentar bares e restaurantes especializados na bebida”, destaca. Atualmente, considerações sobre lúpulo, malte, leveduras e afins já não são incomuns nas rodas de amigos. Onde o vinho, seus taninos e notas amadeiradas, entre outras definições, reinavam sozinhos, a cerveja já tem lugar garantido. O vocabulário impressiona: carbonatação, maturação, aroma lupulado, entre outros. Para formalizar o status de bebida gourmet, os consumidores contam com o trabalho singular dos especialistas, das confrarias e dos cursos para elaboração de cervejas caseiras.

Almir explica, ainda, que a principal função do sommelier é entender o que o cliente procura e superar suas expectativas, proporcionando experiências novas e positivas. “Acima de tudo, precisamos ajudar o cliente a escolher a melhor cerveja para a ocasião. É comum, por exemplo, receber clientes que não gostam de cerveja porque acham que todas são amargas. Para esse público, oferecemos uma weissbier, com notas que lembram banana ou baunilha, que praticamente não possui amargor. Também recomendaria uma blond belga, com toques cítricos e notas de mel”, afirma. Atentar-se aos detalhes, acolher os clientes e saber a hora certa de apresentar cada estilo de cerveja é o segredo do sommelier.

Para turbinar a carta de bebidas da Bella Capri, Odair contou com consultoria especializada. “Os mestres cervejeiros carregam muito conhecimento e história. Fiquei encantado com as possibilidades de misturas de ingredientes e com o resultado final. Esses especialistas tratam o produto como uma obra de arte”, analisa o empresário.

Um universo completo
Entre os incontáveis tipos de cerveja, a pilsen é a mais consumida no mundo. Trata-se de uma cerveja clara, límpida, refrescante e fácil de tomar. Por sua vez, as Strong Ales belgas são bastante complexas e possuem um sabor marcante. Já uma Dark Strong Ale é rica em aromas frutados, como ameixas, uva passas e figo, e podem apresentar doçura caramelizada, notas de tutti-frutti e ainda toques apimentados. Seu teor alcóolico varia entre 8% e  11%. Também vale destacar a Strong Old Ale inglesa, envelhecida em madeira, pode apresentar notas que lembram vinho do Porto, caramelo e nozes. Dá para afirmar seguramente, então, que as diferenças entre as cervejas gourmet são inúmeras. Isso acontece por causa dos métodos de produção e dos ingredientes utilizados, por exemplo. Também tem influência a fermentação, que é dividida em quatro estágios: Lager (baixa fermentação), Ale (alta fermentação), fermentação espontânea e dupla fermentação.

Para fazer uma boa escolha, Jean procura pesquisar na internet, em livros e ouvir sugestões de amigos. “É importante conhecer bem a cerveja antes de degustar”, recomenda. Para o consultor, Hoegaarden, Colorado Appia e Weihenstephaner estão entre as preferidas.

Além da variedade de receitas e de rótulos, os novos consumidores se deparam com uma dúvida constante: a diferença entre cervejas “comerciais” e artesanais. Almir explica que as ditas “comerciais” não são puro malte. Para facilitar o entendimento, o sommelier ensina que as cervejarias que produzem em larga escala, também chamadas de mainstream, substituem o malte por cereais não maltados, como por exemplo, o milho. A legislação brasileira permite que sejam usados até 45% de cereais não maltados na produção de cerveja. O resultado são cervejas praticamente iguais: leves e refrescantes, mas pobres em aromas e sabores. “Costumo falar que cerveja é cerveja, algumas mais saborosas, outras sem sabor”, brinca Almir.

Para quem já não é principiante nesse assunto, vale ressaltar que o formato do copo influencia no sabor da bebida. A cerveja gourmet deve ser servida no copo certo, capaz de reforçar suas qualidades. “Toda bebida é melhor apreciada se servida no copo ideal. Você não precisa ser um fanático e ter todas as taças de todas as cervejas, mas procure ter ao menos uma tulipa — não a de chope, mas aquela em formato de tulipa mesmo —, que pode servir como curinga para a maioria das cervejas”, indica Almir.

A bebida do momento
Segundo estimativas da Associação dos Cervejeiros Artesanais Paulistas, nos últimos três anos, o número de microcervejarias profissionais no Brasil foi de 70 para 250 unidades. Os pontos de vendas especializados também tiveram um aumento significativo. “Cerca de 10% dos clientes que consomem bebida alcoólica são apreciadores das cervejas artesanais. Acredito que com um incentivo governamental esse mercado pode crescer muito mais. As microcervejarias pagam muitos impostos para produzir, o que encarece o produto, tornando-o menos acessível para a maioria”, pontua Odair. Há, ainda, os primeiros fabricantes de equipamentos nacionais – de caldeirão a filtros – e lojas que vendem insumos – fora o lúpulo, tem malte, levedura e ingredientes especiais.

Mas os apreciadores de cervejas gourmet não têm do que se queixar. Com o aumento do público e do número de rótulos nacionais e importados disponíveis no Brasil, ganham força também os eventos dedicados à bebida. Entre os mais conhecidos estão o Brasil Bier, Beer Experience (BEX), 9ª Oktoberfest de São Paulo (que leva um grupo de cervejeiros por um passeio ao interior do Estado onde visitam as microcervejarias), Oktoberfest de Blumenau, Wikibir Festival 2013, Mondial de la Bière, IPA Day Brasil (dedicado a celebrar as cervejas do tipo India Pale Ale  — IPA), e St Patrick, ambos realizados em Ribeirão Preto.

O aumento no número de eventos de degustação e de harmonização de cervejas auxiliou a difundir o conhecimento cervejeiro. Esses eventos chamam a atenção do público, que por sua vez, consegue perceber a pluralidade de sabores, aromas, colorações e tons que o líquido pode assumir. Segundo Almir, esses eventos são de grande importância, mas é necessário estar atento, principalmente, aos grandes eventos que objetivam reunir multidões em que o foco principal não é a cerveja. “Eventos cervejeiros precisam ter as cervejas no centro, e não o contrário. Tem que fazer valer a experiência”, analisa.

Está enganado quem pensa que cerveja é apenas bebida de homem. É notório o crescente interesse do público feminino pelo líquido dourado. As cervejas gourmet visam ao atendimento de um público de paladar exigente que não está interessado apenas em beber, mas em degustar um produto de qualidade superior. Geralmente, as cervejas são mais encorpadas e utilizam insumos de qualidade. Sem contar que passa por processos diferenciados de fermentação e maturação, o que impacta no preço final. “O consumo feminino de cervejas artesanais é bastante significativo e acho que isso se deve à leveza e à sofisticação do sabor, além da grande variedade de harmonização com os mais diferentes pratos”, destaca Mayara.

Com novidades quase diariamente, a cerveja é mais do que uma bebida refrescante, é uma paixão. “A cerveja, se bebida com moderação, torna a pessoa mais dócil, alegra o espírito e promove saúde”. A afirmação anterior é do ex-presidente americano Thomas Jefferson, que também se dedicou à produção de cerveja artesanal.






Cerveja não dá barriga:
pesquisadores comprovaram que aquela história de cerveja deixar seu consumidor mais barrigudo não passa de mito. Um estudo conduzido por cientistas da Universidade de Barcelona, do Hospital Clinic e do Instituto de Saúde Carlos III, todos na Espanha, descobriu que são os petiscos geralmente consumidos junto com a bebida, e não ela, os grandes vilões.

Ajudinha boa: a cervejinha também tem lá seus benefícios. Uma ou duas latas por dia, no máximo, dão um up no sistema imunológico, prevenindo gripes e infecções, e ainda fortalecem os ossos, segundo estudo publicado na revista científica Annals of Nutrition and Metabolism.

Sinal vermelho: apesar da bebida alcoólica, com moderação, proporcionar benefícios para a saúde, ela não é indicada para todos. Existem pessoas que não devem ingerir quantidade alguma de álcool, já que os prejuízos são muito maiores do que as vantagens.

Cerveja não é água não: assim como todos os alimentos, os efeitos da ingestão de álcool dependem fortemente da quantidade consumida, ou seja, nada de exageros. Lembre-se da regra de ouro: tudo com moderação!








Untappd
O usuário faz seu check-in em bares e interage com os amigos que estão apreciando a bebida em locais distantes.




Pocket Pairings
Compara algumas cervejas com mais de 500 tipos de aperitivos e queijos.




Pintley
Baseado nas avaliações feitas por diversos usuários, esse aplicativo indica novos rótulos aos cervejeiros de plantão.


Bier Tab
Pesquisa novas cervejas e opiniões de quem já experimentou. Além disso, o app permite que o usuário dê notas e deixe seus comentários.



Check-in Beer
Ajuda a encontrar as melhores casas de cerveja próximas ao usuário, permite a inserção de fotos das bebidas e conta com diversas promoções.




Beer Club
Permite ao usuário criar listas com suas bebidas diferentes, fazer pesquisas e trazer dicas de harmonizações e estabelecimentos próximos onde os produtos podem ser encontrados.



7,800+Beer BrandsFree
Possui informações de mais de 7,8 mil cervejas: além de detalhar os métodos de produção de cada uma delas, indica copos e temperaturas adequadas para a ingestão.




BRBeer
Esse app traz uma lista com as principais microcervejarias e cervejarias artesanais do país e cita as marcas produzidas por cada uma.




Rate Beer
Possibilita classificar as cervejas que o usuário já tomou; também é possível conhecer rótulos de outros países e comparar o seu ranking com o de outras pessoas.


Drinkfit
Apresenta o valor nutritivo de cada cerveja. Uma ótima sugestão para quem quer se policiar em relação à quantidade consumida durante uma ida ao bar.




Texto: Pâmela Silva
Fotos: Julio Sian e Carolina Alves
Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido
Agradecimento: Mr Beer Cervejas Especiais

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