Um olhar sobre a cidade

Aos 78 anos, Ary De Lázari reconta o cotidiano de sua terra natal através de suas telas no livro “Ribeirão Preto, Registros & Memórias”

Mais do que da paleta onde tintas e tons se misturam e de um talento nato, a arte de Ary De Lázari brota das ruas de Ribeirão Preto, sua cidade natal. Nascido em 1934, o nono filho de uma família italiana cresceu acompanhando o desenvolvimento urbano que, aos poucos, emprestou novas características e cores à paisagem original. Traços de um município que o pintor e escultor, em pinceladas certeiras e seguras, reconta no livro “Ribeirão Preto, Registros & Memórias”, lançado em março de 2012, por meio do projeto “Câmara das Artes”, da Câmara dos Deputados.

No livro, o artista — mais conhecido por suas microesculturas em grafite de lápis e em giz — resgata na memória uma cidade que poucos conheceram, registrada por ele a partir de obras feitas entre as décadas de 1950 e 1970 e também no terceiro milênio.  Algumas imagens, Ary tirou de sua própria vivência; outras, foram inspiradas em obras que enfeitam prédios públicos da cidade e contam um pouco da história ribeirãopretana. 

A curiosidade de Ary foi despertada pelo irmão mais velho, que desenhava. “Aos sete anos procurava reproduzir as pinturas”, conta. Quando completou 12 anos, uma obra de sua autoria foi exposta em uma mostra itinerante de artistas da Pinacoteca, na sede da Legião Brasileira em Ribeirão Preto. “Ao ver as obras, decidi desenvolver a arte, fiquei com vontade de aprender a pintar”, relata.

Com as microesculturas, o artista acabou ganhando destaque em programas de variedades, como “Não durma no ponto”, de Manoel da Nóbrega, e Sílvio Santos. Antes da publicação do livro, Ary não expunha há 14 anos, mas produziu 50 quadros nos últimos dois anos. “Não realizava mostras por opção. Quando a gente faz as obras para comercializar, é importante aparecer, mas produzo os quadros para mim”, explica. Daí o importante papel desenvolvido por sua filha, Sílvia De Lázari, que criou o livro digital, conseguiu o apoio da Câmara dos Deputados e assina a curadoria da obra.

O prefácio do livro foi feito por Rui Flávio Chúfalo Guião, diretor presidente do Grupo Santa Emília e amigo de infância do pintor. “O convite do Ary para prefaciar seu livro foi uma grata surpresa. Tenho grande admiração e respeito por ele, como pessoa e como artista. Foi uma oportunidade para expressar o que penso dele”, ressalta.

Como suas famílias eram próximas, Ary e Rui Flávio brincavam juntos. Mais tarde, Ary trabalhou no escritório do pai de Rui Flávio, onde continuava rabiscando seus desenhos. “Acompanhei toda a trajetória do Ary, como profissional na Prefeitura, professor de artes, microescultor e pintor. Os textos do livro são muito importantes porque representam uma história vivida, e não só contada. Nossa cidade é retratada por quem vivenciou intensamente o momento narrado. Assim, além do fato, está junto a emoção e a experiência. É um livro muito interessante da nossa cidade”, afirma Rui Flávio.

Um presente que Ary, aos 78 anos, oferece a Ribeirão Preto com a reprodução de suas obras: um olhar sensível que emprestou às telas momentos da cidade que estavam vivos somente na memória. “Espero que o trabalho tenha proveito, que a nova geração possa ver. Um povo que não conhece os erros e acertos do passado não pode construir um futuro”, conclui o artista.

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Carolina Alves e Ary De Lázari

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