Um país dividido
O segundo turno das eleições presidenciais de 2018 representa mais do que o antagonismo entre as propostas dos dois protagonistas deste 28 de outubro, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT)
Entre as principais marcas das eleições de 2018, especialmente no que tange à escolha para o principal cargo executivo do país, está a rejeição dos candidatos que alcançaram o segundo turno de votação, que levará os brasileiros de volta às urnas neste 28 de outubro. A escolha, agora, está restrita aos candidatos Jair Bolsonaro (PSL), 63 anos, que estabeleceu como lema de campanha a frase “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, e Fernando Haddad (PT), de 55 anos, cuja campanha esteve baseada no slogan “O povo feliz de novo”.
A mais recente pesquisa do Ibope, divulgada no dia 23 de outubro, revelou que, apesar da liderança confortável apresentada pelos 57% das intenções de voto manifestadas, soma uma rejeição de 40% dos eleitores, que não votariam no candidato em hipótese alguma. Haddad, que conquistou 43% das intenções de voto, segundo a pesquisa, não seria votado de jeito nenhum por 41% do eleitorado. Os números demonstram, portanto, que independentemente do resultado da votação deste domingo, o próximo presidente terá que lidar com a rejeição de uma parcela significativa da população.
A rejeição confirmada pela pesquisa do Ibope está refletida na postura dos eleitores nas ruas e nas redes sociais desde o primeiro turno, em forma de intolerância com a opinião alheia. Não faltam relatos de pessoas que interromperam longas relações de amizade em função de discordâncias políticas. Até mesmo em família, as desavenças tomaram proporções inimagináveis. Nas ruas, agressões físicas motivadas pela intolerância à postura eleitoral se tornaram mais comuns do que se poderia imaginar. Na Bahia, o mestre Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi assassinado a facadas no dia 7 de outubro após uma discussão em Salvador. O crime, cometido por Paulo Sérgio de Santana, de 36 anos, teria sido motivado por uma discussão de cunho político. Investigações relativas a outros episódios de violência em todo o país seguem a mesma linha.
Questões culturais históricas
Para lançar luz sobre as complexas relações políticas em evidência na atualidade, a historiadora Sandra Molina, professora da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) e conselheira do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), resgata o resultado das manifestações de 2013 que, segundo ela, foram livres e legítimas, entretanto, perderam-se em função da ausência de uma pauta organizada e da falta de escuta dos políticos. Segundo a especialista, as divergências políticas verificadas desde então e intensificadas neste ano eleitoral são heranças da política coronelista e paroquial historicamente vivenciada no Brasil. “Nossa sociedade se desenvolveu pautada pela colonização portuguesa, em que valia mais a opressão dos mais abastados sobre — à época — homens livres e pobres. Indiretamente, essa relação de submissão rende frutos até os dias atuais, quando os brasileiros vão às ruas por R$ 0,20, porém, perdem-se em meio aos caminhos da macropolítica”, comenta a professora.
Exceção feita ao extremismo, que tem culminado em ações de violência, a defesa de candidatos tão antagônicos por parcelas significativas da população reflete o processo repressivo vivenciado pelos brasileiros. A política patrimonialista vivida nos séculos anteriores faz sombra ao ciclo vicioso atual. Sandra argumenta que, até hoje, os eleitores estão condicionados a ver o voto como moeda de troca por uma necessidade pessoal, seja ela a garantia de direitos previstos na Constituição, um emprego ou um prato de comida, por exemplo. “É importante fazer esse resgate histórico para entender tantas ações extremas nestas eleições. O medo é o fio condutor das conexões que têm culminado no desequilíbrio emocional mais evidente este ano, a partir de ações de grupos extremistas”, pontua a historiadora.
Para Sandra, sem uma renovação da própria sociedade, não haverá mudança política, pois o brasileiro ainda está preso na crítica ao outro sem a capacidade de perceber a própria postura cidadã. Apesar de tanto radicalismo, vale salientar, também, o avanço da população brasileira em relação à cobrança política. “Não podemos esquecer que nossa sociedade é profundamente conservadora e temos um longo e árduo caminho pela frente, na direção de um aprendizado político efetivo, relativo ao exercício dos nossos direitos e deveres. Ainda vivemos um regresso ao velho Brasil. Apesar disso, acredito que este processo dolorido que estamos vivendo nos últimos anos e, em especial, em 2018, terá uma profunda relevância para o país que estamos construindo”, observa a professora.

Perspectivas locais
Em Ribeirão Preto, mais de 440 mil pessoas estão aptas a votar no segundo turno e a corrida eleitoral movimenta os diretórios dos partidos políticos. Evaldo Arantes, presidente do diretório local do Partido Social Liberal (PSL), está confiante em relação ao resultado final. Segundo ele, o diretório tem mantido contato com lideranças do partido e tem seguido a programação de carreatas, panfletagens e reuniões com várias lideranças. “Acreditamos numa vitória de Bolsonaro com uma boa margem de vantagem”, adianta o presidente.

O diretório do Partido dos Trabalhadores (PT) em Ribeirão Preto anunciou que a campanha por Fernando Haddad tem o apoio do PC do B, do PCB e do PSOL. “Como os partidos liberaram suas bancadas para apoiarem qualquer candidato, conversamos também com o PDT e com o PSB locais”, informa Fernando Tremura, presidente do PT no município. Segundo ele, foram contatadas lideranças de comunidades carentes e de representações sindicais da cidade. “Tentamos desenvolver um trabalho conjunto para atingir, especialmente, a classe trabalhadora e as comunidades mais pobres aqui da cidade”, reforça Tremura. Atualmente, a campanha nas ruas é feita por voluntários do partido e por lideranças jovens.

Questão de consciência
Para Wlaumir Souza, sociólogo e professor do Centro Universitário Barão de Mauá, a reação dos candidatos depois da decisão do segundo turno pautará as atitudes da sociedade após o encerramento da disputa nas urnas. Segundo o especialista, assumir a derrota legitima o sistema político e social dos envolvidos. “Como dizia Focault, ‘onde há poder, há resistência’. É nesta linha que a população está pautada desde o início das campanhas eleitorais de 2018, quando foi chamada à ação por candidatos extremistas que, em muitas ocasiões, incentivaram o ódio por meio do discurso adotado — discurso este que também advém, historicamente, do Brasil colônia, reflexo do medo e da frustração dos anos vividos sob a opressão do maior em relação ao menor”, comenta o sociólogo.
Por outro lado, o professor pontua a responsabilidade do governo pelas ações mais contundentes para deliberar ou bloquear propostas que ferem a Constituição. “Achar que um presidente não pode nada é ingenuidade, pois diante de tantos interesses obscuros, é possível que muitas questões impostas à classe minoritária sejam, sim, permitidas”, destaca. Outro ponto importante é a discussão sobre a democracia que, para Wlaumir, aconteceu de forma contraditória, renegando o próprio conceito, uma vez que os debates têm sido marcados pela truculência. “Os valores que nos unem — sejam eles defendendo a liberdade, a diversidade ou outros — devem nortear nosso pensamento como cidadãos. O diálogo deve ser claro e ter a finalidade de solucionar conflitos, e não apenas defender o interesse de uma parcela da sociedade. Vale lembrar que, nos próximos quatros anos, nós mesmos, cidadãos brasileiros, sofreremos com todas essas atitudes”, argumenta.

O futuro da economia
De acordo com o economista Nelson Rocha Augusto, presidente do Banco Ribeirão Preto, o país, apesar da fragilidade da cena política, já vive um processo de recuperação econômica bastante consistente. “Ainda que a dinâmica da atividade econômica esteja comprometida em função do governo fraco e da capacidade do setor público debilitada, temos tido uma recuperação grande e contínua, matematicamente falando”, aponta o economista. A recuperação é natural, depois do intenso processo recessivo vivenciado no país desde 2014, que atingiu a histórica perda de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) per capta. “Essa curva foi revertida em 2017, quando se verificou um crescimento do PIB de 1%. Este ano, esse índice deve chegar a 1,5%”, continua Nelson, prevendo um crescimento de, pelo menos, 2,5% em 2019.
Para o especialista, enquanto se discute o quadro político, pouco se observa a realidade econômica, que é de aceleração. Na análise de Nelson, o resultado do segundo turno das eleições neste 28 de outubro não mudará a curva econômica ascendente. “A escolha entre Bolsonaro e Haddad, possivelmente, irá impactar na velocidade que o crescimento e as transformações ocorrerão”, argumenta o presidente do BRP. O maior entrave, nesse sentido, é a fragilidade financeira do setor público, marcado por elevadas dívidas e alto déficit nos Estados, Municípios e União. “Isso porque a sociedade ainda não conseguiu reformas essenciais, como a política, a previdenciária e a tributária”, continua Nelson.

Por serem mudanças fundamentais para o estabelecimento do futuro do país, essas reformas são pauta obrigatória e urgente de qualquer um dos candidatos eleitos. “No meu entendimento, o primeiro turno das eleições deste ano foi um indicativo forte de que as reformas sairão do papel por causa do desejo da população, que, por meio do voto, substituiu 52% da Câmara dos Deputados. Também houve uma alteração significativa no Senado. Isso quer dizer que as mudanças são, sim, da vontade dos brasileiros”, completa o presidente do BRP. Para o economista, a demanda da população fará com que as matérias sejam priorizadas pelo futuro presidente, independentemente de quem seja.
Apesar dos vieses econômicos diferentes adotados pelos candidatos à presidência, ambos encontrarão a mesma situação em janeiro de 2019. A expectativa é de inflação baixa, safra elevada, ampliação do crédito e crescimento econômico. Um complicador importante deverá ser enfrentado por qualquer um dos eleitos: a dinâmica da economia internacional. “Nos Estados Unidos e na Europa, de maneira geral, os últimos quatro ou cinco anos foram de intenso crescimento. Até o Japão, que não registrava expansão há tempos, cresceu em função do momento internacional. No entanto, um problema inflacionário se aproxima e deve fazer com que o cenário global deixe de ser excelente para ser apenas bom. Todos os entraves políticos e econômicos brasileiros impediram o país de aproveitar o ótimo momento externo e, agora, encontrará um cenário mais limitado”, antecipa Nelson.
Conheça os candidatos
As eleições 2018 levou candidatos antagônicos à decisão pela presidência do País: Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Confira um resumo do perfil de cada um:
Jair Bolsonaro (PSL)
1977 formou-se na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman).
1979 e 1981 serviu no 9º Grupo de Artilharia de Campanha, no Mato Grosso do Sul. Depois, serviu na Brigada de Infantaria Paraquedista, onde se especializou.
1983 graduou-se em Educação pela Escola de Educação Física do Exército e se tornou mestre em saltos pela Brigada.
1987 cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais.
1988 foi para a reserva com a patente de capitão. Iniciou sua vida política ao ser eleito vereador do Rio de Janeiro pelo PDC.
1990 foi eleito deputado federal pelo mesmo partido.
1993 passou a fazer parte do Partido Progressista Reformador (PPR), que surgiu da união entre PDC e do Partido Democrático Social (PDS). Atualmente, está no sétimo mandato.
2018 eleito pelo PPB filiou-se ao PSL.
Fernando Haddad (PT)
1985 formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e, em seguida, fez a especialização em Direito Civil.
1990 graduou-se em Economia com especialização em Economia Política pela USP.
1996 concluiu o doutorado em Filosofia, pela própria sociedade. Foi professor de Teoria Política Contemporânea, analista de investimento do Unibanco e consultor da Fundação de Pesquisas Econômicas (Fipe).
1983 filiou-se ao PT e se tornou o tesoureiro do Centro Acadêmico XI de Agosto, titular da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Militou no movimento Diretas Já, que pedia a volta das eleições para presidente da República.
2001 assumiu a chefia de gabinete da Secretaria Municipal de Finanças da empresa Marta Suplicy, em São Paulo.
2003 assumiu a assessoria especial do ministro do Planejamento Guido Mantega e elaborou o projeto de lei que institui as PPPs.
2005 a 2012 Foi ministro da Educação 2013 a 2016 cumpriu mandato como prefeito de São Paulo.
João Dória (PSDB)
1983 foi secretário de Turismo, presidente da Paulistur e, ao mesmo tempo, fundou e foi vice-presidente do São Paulo Convention & Visitor Bureau.
1984 foi um dos organizadores das “Diretas Já”.
1986 a 1988 foi presidente da Embratur e do Conselho Nacional de Turismo.
1991 a 1992 trabalhou em emissoras de rádio e TV como apresentador. Comandou, por exemplo, “Business”, da rádio CBN, e levou o programa para a Rede Manchete.
1999 a 2008 esteve à frente do “Show Business”, na Rede TV.
2008 a 2016 tornou-se apresentador da Rede Bandeirantes.
2015 a 2016 apresentou o programa “Face a Face”, na Band News TV.
2016 assumiu a Prefeitura de São Paulo.
Márcio França (PSB)
1988 filiou-se ao PSB, seu único partido. Foi presidente do PSB no Estado de São Paulo e secretário Nacional do partido.
1989 a 1996 foi vereador em São Vicente.
1997 tornou-se prefeito de São Vicente.
2000 reeleito prefeito com 93,1% dos votos válidos.
2007 a 2014 passou a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Coordenou duas campanhas para presidência da República.
2011 a 2012 secretário do Turismo no mandato de Geraldo Alckmin.
2014 voltou ao Executivo paulista, quando Alckmin conseguiu o apoio do PSB e ofereceu a vaga de vice na chapa. O partido indicou Márcio França, na época, também coordenador de campanha do então candidato à presidência, Eduardo Campos.
Não perca a data ?
O 2º turno ocorrerá no domingo, dia 28, das 8h às 17h (horário de Brasília), em todo Brasil.
Candidatos presidenciáveis:
Jair Bolsonaro (PSL): 17
Fernando Haddad (PT): 13
Candidatos ao Governo de São Paulo:
João Dória (PSDB): 45
Márcio França (PSB): 40

Onde votar:
Consulte o título de eleitor para ter todas as informações.
Para justificar:
quem não puder comparecer ao local de votação tem até 27 de dezembro para apresentar a justificativa
Se não justificar:
O eleitor que não justificar a ausência dentro do prazo estipulado terá que pagar multa no valor de R$ 3,50 para regularizar a situação. Quem deixar de justificar por três eleições seguidas terá a inscrição cancelada
Documentos para votar:
O eleitor deve comparecer à seção eleitoral com um dos seguintes documentos com foto: Carteira de categoria profissional reconhecida por lei, Carteira de identidade, Carteira de trabalho, Carteira Nacional de Habilitação, Certificado de reservista, Documento Nacional de Identidade (DNI), e-Título (título de eleitor em meio digital), Passaporte ou pelo sistema biométrico.
Texto: Luiza Meirelles
Reportagem: Cristiane Araujo