Um passo adiante na conscientização

Um passo adiante na conscientização

Segundo o oncologista Fábio Zola, homens e mulheres são, em geral muito bem informados sobre o câncer de mama; falta, no entanto, lidar com a doença, cada vez mais presente na sociedade

Uma breve pesquisa informal entre amigos e conhecidos poderá confirmar o fato de que casos de câncer são cada vez mais comuns na atualidade. Entre as mulheres, os mais frequentes no mundo inteiro acometem as mamas. A boa notícia é que os avanços da Medicina têm permitido um diagnóstico cada vez mais precoce e preciso, assim como tratamentos bastante eficazes. Segundo o oncologista Fábio Zola, o índice de cura dos tumores de mama já atingem, em determinados países, 70%, uma melhora significativa em relação aos dados registrados, por exemplo, antes do início dos anos 2000.

Formado em Medicina há 21 anos, Zola é, atualmente, médico colaborador do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCRP-USP) e um dos diretores do Centro de Tratamento Oncológico (CTO). Antes da residência em Oncologia Clínica, o médico especializou-se, também, em Ginecologia e Mastologia. Seu ingresso no universo oncológico, portanto, aconteceu por meio do câncer de mama, o que dá ao especialista máxima familiaridade com o tema. Segundo o médico, os avanços são indiscutíveis, assim como a crescente conscientização da população sobre os mecanismos de prevenção e tratamento da doença. No entanto, ainda é preciso desmistificar a doença, cada vez mais presente na sociedade atual.

O câncer de mama, no seu dia a dia clínico, acompanha a proporção do volume de casos no âmbito nacional?

Não só nacional, mas mundial. O número de casos cada vez mais elevado está relacionado, entre outros fatores, ao envelhecimento da população: quanto mais décadas vividas, mais chances a pessoa terá de desenvolver um tumor, inclusive de mama. Por outro lado, há um número cada vez maior de pacientes curadas de tumores dessa natureza. Em função disso, esta é uma doença cada vez mais pontuada nas nossas vidas. Invariavelmente, vamos nos deparar com alguém que já teve ou está tratando um câncer de mama. 

Qual é a parcela de culpa da genética e de outros fatores biológicos no desenvolvimento de tumores mamários?

Sabemos que, pelo menos, 10% dos casos de câncer de mama são causados por fatores genéticos. Nesse sentido, a ciência está evoluindo bastante e desvendando outros “erros” no DNA que possam levar a tumores. Creio que, nos próximos anos, teremos muitas novidades nessa área. O que já se sabe é que outros genes, além dos já bem difundidos BRCA1 e BRCA2, estão envolvidos no aparecimento dos tumores na mama. 

Os hábitos de vida contemporâneos contribuem para o aumento da incidência da doença?

Os hábitos cultivados no dia a dia têm sido cada vez mais estudados para que se possa evitar o desenvolvimento da doença. Já se sabe, por exemplo, que o tabagismo, a obesidade e a falta de atividade física aumentam as chances de aparecimento de tumores de mama. Em relação à atividade física, está consolidada a ideia de que três horas de atividades aeróbicas por semana reduzem em cerca de 20% os riscos de desenvolver um câncer mamário. Manter o peso adequado também diminui a incidência da doença, assim como o seu retorno após o tratamento bem-sucedido. Tudo isso acontece porque quando o organismo precisa lidar com sobrecarga, seja pelo excesso de gordura ou por consumo de substâncias nocivas ao corpo, passa a produzir outros fatores que implicam diretamente na carcinogênese. Ou seja, manter o seu corpo com a quantidade de gordura adequada e metabolicamente ativo fará com que tudo funcione melhor. Esse mecanismo funcionando melhor diminuirá, consequentemente, o risco de erro ou de quebra no DNA.“Quando se passa por uma situação como esta, a maior parte das pessoas são impactadas de uma maneira muito positiva”, ressalta o oncologista

As mulheres estão mais conscientes em relação às medidas de prevenção ao câncer de mama?

Graças às inúmeras campanhas, como é o caso do Outubro Roas, acredito que haja bastante clareza sobre a importância de manter a saúde em dia, de fazer acompanhamento periódico e, a partir da idade recomendada, de realizar a mamografia. Mudanças de hábitos referentes ao controle do peso, ao tabagismo, entre outros, também estão impactando cada vez mais a sociedade. Sinto que ainda falta um grau mais elevado de consciência sobre a manutenção do peso e da atividade física, mas isso vem melhorando. Um novo fator, o consumo excessivo de álcool, também está ganhando importância entre os fatores de prevenção. A relação entre a bebida e o câncer de mama está começando a ser divulgada, mas se justifica pelas mesmas razões dos fatores mencionados anteriormente. A difusão desse conhecimento já começou e tende a se intensificar, o que, provavelmente, levará as pessoas a prestarem atenção nisso em pouco tempo.

As mulheres chegam ao seu consultório já com um diagnóstico de câncer de mama. Além do tratamento em si, que outras demandas elas trazem?

Costumo receber as pacientes já com certo grau de entendimento sobre a doença. Isso porque já passaram por consultas com o ginecologista ou com o mastologista. Minha função, como oncologista, é mostrar para elas como será o tratamento, qual será o caminho percorrido, por quais fases ela passará e, dessa forma, tirar um pouco do estigma do câncer. Procuro estabelecer um panorama que permita que ela enxergue a longo prazo e entenda que aquilo será uma fase da vida, mas que o dia a dia voltará ao normal após determinado período. Mais do que isso, busco incentivar minhas pacientes a manter seus projetos em andamento e uma rotina ativa, dentro dos limites de segurança do tratamento. Isso porque a vida não  para enquanto elas realizam o tratamento.

Existe apoio psicológico para essa fase?

Nossas portas estão sempre abertas para isso. Não é todo mundo que aceita esse tipo de suporte, mas acho importante. Além do apoio psicológico destacaria, fundamentalmente, o apoio físico. Hoje, as pacientes que vão passar por quimioterapia podem se beneficiar de medicações muito potentes no combate aos efeitos colaterais, como náusea e vômito, por exemplo. Para amenizar a queda de cabelo, estão disponíveis toucas térmicas muito eficientes. Esses impactos físicos, quando minimizados, facilitam a aceitação e a superação dessa fase. 

Qual é o papel da família durante esse período?

Rotineiramente, fazemos questão de envolver a família em todo o processo. As orientações à paciente são dadas sempre na companhia de alguém da família. É importante contar com essa participação porque o câncer de mama não impacta apenas a pessoa doente, mas todos que estão à volta. A família, portanto, deve entender e participar ativamente desse tratamento, aprendendo a lidar com as dificuldades. Tudo isso contribui para a segurança da paciente. Quando eliminamos o elemento surpresa e há uma previsão daquilo que virá pela frente tudo fica mais fácil. 

A fé também é um ingrediente importante?

Esta é uma questão muito pessoal, mas creio que sim. Independentemente de religião, isso ajuda a resgatar a motivação, a enfrentar os efeitos colaterais, entre outros. 

Quais são os profissionais envolvidos no tratamento do câncer de mama?

Todo tratamento do câncer, por se tratar de uma doença complexa, deve contar com uma equipe completa. Contamos com médicos, enfermeiras, cirurgiões dentistas, psicólogo e nutricionista. Quanto mais profissionais forem envolvidos no tratamento, mais contribuições teremos para que a saúde da paciente seja recuperada, juntamente com sua qualidade de vida. A equipe, portanto, precisa ser multidisciplinar. 

Onde fica guardada a vaidade das pacientes durante o tratamento?

É natural que, nesse período, o peso oscile, o cabelo caia, etc. Diante disso, procuro mostrar a cada uma delas que ninguém precisa ser igual a ninguém e que é possível continuar sendo bonita apesar da queda dos cabelos, por exemplo. Procuro estimular os cuidados pessoais, como se maquiar, pintar as unhas e outras pequenas atitudes que, no momento do impacto da doença, fazem toda a diferença. Tudo acaba sendo um estímulo para que elas mantenham sua vida acontecendo normalmente. 

Os avanços da Medicina estão atentos a isso?

A grande preocupação da Oncologia hoje é não só aumentar a taxa de cura, mas garantir qualidade de vida às pacientes. Atualmente, todos os estudos conduzidos consideram um amplo questionário sobre isso. Nesse sentido, os novos tratamentos chegam com uma eficiência maior e uma toxicidade menor. Essa união é que torna o processo mais fácil.

A reconstrução da mama também faz parte disso?

Ela é muito importante. Recomendo que essa reconstrução seja feita de forma imediata ou logo após o encerramento do tratamento. A retirada da mama tem apelo visual e sexual, pela sensibilidade, entre outros. Reconstruí-la é resgatar a feminilidade da paciente. Para isso, as técnicas melhoraram muito e o resultado final tem sido cada vez mais satisfatório.

Por quanto tempo o senhor costuma acompanhar suas pacientes?

Depois do diagnóstico feito, essas mulheres são acompanhadas por, pelo menos, cinco anos. Hoje, temos acompanhado casos de tumores de mama por, pelo menos, 10 anos. Tenho algumas pacientes que realizam acompanhamento comigo há mais de 15 anos, desde o início da minha trajetória na Oncologia. Isso significa que boa parte dos casos garante uma sobrevida muito longa, quando não, a cura. 

Como lidar com os casos mais avançados da doença?

Há casos que, de fato, não tem cura, mas podem ser controlados. Diria que esse controle acontecido cada vez por um período maior. Se, no século passado, a Medicina garantia, em média, de dois a três anos de sobrevida, hoje, muitas pacientes com doenças metastáticas estão em tratamento há 10 anos. Portanto, os avanços da Medicina permitiram aumentar muito o tempo de vida das pacientes e, mais importante, com qualidade de vida. 

Como melhorar a percepção da sociedade em relação ao câncer de mama?

Cada vez mais haverá casos de câncer próximos às pessoas. Por isso, é preciso incentivar o desenvolvimento de um olhar mais sensível em relação à essa paciente, afinal, não queremos assustar ou isolar aquela pessoa. Quem carrega um câncer, geralmente, conhece a gravidade do seu problema e não precisa de alguém lembrando isso o tempo todo. A vida, depois do tratamento, seguirá normalmente e, por isso, não há razão para fazer dessa fase um grande terrorismo. Vale, nesse momento, manter as viagens, as festas, as atividades físicas e tudo mais — claro, dentro de um ambiente controlado para evitar riscos.

As campanhas devem, também, direcionar seu olhar para o entorno, preparando a sociedade para essa convivência com o câncer de mama?

Sim, acho fundamental falar sobre como podemos conviver melhor com quem está passando por tratamento. Deixar de ter medo ou de, pelo menos, transparecer esse medo, pode ser um bom começo. Estamos em uma fase de amadurecimento: as pessoas já têm um grau de conhecimento sobre o câncer, agora, precisam aprender a lidar melhor com ele.

Qual é a postura adequada diante da notícia de um câncer na família ou entre os amigos mais próximos?

A primeira atitude a evitar é tratar o paciente como vítima. Vale a pena entender as necessidades daquela pessoa e se colocar à disposição para ajudar, se for preciso. Agir com mais naturalidade é o grande segredo. Contar outros casos nunca ajuda porque cada tratamento é único e não permite comparações. Em resumo, agir com naturalidade, manifestar apoio e se colocar à disposição para eventuais ajudas é a postura mais positiva que se pode ter diante de um caso de câncer de mama no seu entorno. 

Atividade física regular e manutenção do peso ideal contribuem para o controle ao risco para câncer de mamaO que está incluso no pós-tratamento?

Depois da fase de quimioterapia, procuramos incentivar a reinserção daquela pessoa às suas atividades normais o mais rápido possível. Vale a pena aumentar a atividade física, voltar ao peso ideal, se houve ganho ou perda durante o processo, entre outras atividades nesse sentido — lembrando que a mudança de hábitos pode evitar uma recidiva. Certamente, do ponto de vista psicológico, o tratamento já provocou muitas mudanças, uma vez que os pacientes costumam repensar valores e atitudes nesse período. Queremos que a doença tenha, no balanço final, um impacto positivo no aspecto emocional e também nos hábitos de vida.

Quais são as lições que o câncer de mama costuma deixar?

Quando se enfrenta por uma situação como esta, a maior parte das pessoas são impactadas de uma maneira muito positiva. A grande maioria passa a enxergar o mundo sob uma perspectiva mais humana, valoriza mais a família, estabelece um convívio de mais qualidade com as pessoas de quem gosta. Todas essas mudanças são muito significativas. 

Esses impactos ecoam na vida de quem trabalha com o câncer?

Sem dúvida. Assim como outras especialidades que se deparam com situações como essas, a Oncologia vem acompanhada pela oportunidade de repensar a própria vida. Isso porque não estamos deste lado da mesa protegidos de tudo e nos envolvemos com cada caso. Com o passar dos anos, vamos percebendo que temos muito a aprender com cada paciente.

A Oncologia exige uma constante atualização?

Com certeza, pois as mudanças ocorrem muito rápido dentro da Oncologia. Por isso, é importante estar sempre ávido por novas informações. Para isso, participamos constantemente de congressos e eventos da especialidade. Dentro do CTO, realizamos uma reunião semanal para discutir todos os casos em andamento, onde trocamos informações e procuramos contribuir uns com os outros. As novas tecnologias são incorporadas assim que elas estão disponíveis. A Oncologia praticada em Ribeirão Preto é muito desenvolvida e reúne grandes centros.


Fábio Zola | Texto: Luiza Meirelles | Fotos: Júlio Sian

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