Um peixe nada fora d’água

Um peixe nada fora d’água

A cantora Verônica Ferriani apresentou em Ribeirão Preto, no dia 30 de novembro, seu novo show, Aquário

Com Aquário, Verônica se afasta do tom confessional para abordar questões coletivasA cantora ribeirãopretana Verônica Ferriani está em turnê do segundo álbum autoral da carreira. Sucessor do “Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio”, de 2013, “Aquário”, como é intitulado, afasta a compositora do tom confessional feminino e da temática amorosa para colocá-la diante de temas coletivos recorrentes à consciência contemporânea, como as transições, as simultaneidades e o desejo de pertencimento e de contato com mistérios existenciais.

Todas essas questões subiram ao palco do Teatro Minaz, no dia 30 de novembro, junto com a premiada artista que, entre outras conquistas, ficou com o Prêmio Grão de Música 2018. Verônica, que traz em sua trajetória uma relação muito próxima com a MPB e com o samba, em especial, revela outros ritmos e influências que fazem parte da sua música. O trabalho atual destaca, ainda, a intimidade da artista com a estética visual, certamente alimentada durante o curso de Arquitetura, em que é formada.

Por que Aquário?
Aquário é metáfora para a cidade, no sentido de que temos buscado, cada vez mais, condições ideais de temperatura e pressão para viver. À parte o conforto desejável, temos tido, também, uma tendência a comportamentos mais padronizados, automáticos, menos elaborados individualmente e, portanto, menos respeitador dessas individualidades e menos tolerante com as diferenças. A transparência do vidro e da água me interessava simbolicamente. Também o que contém e o que está contido, o que tem forma definida e o que toma a forma do recipiente. É um disco existencial sobre pertencimento, coexistência e diversidade, além do desejo de ser alento perante aquilo que nos é incompreensível. A mim, veio mostrar que não preciso entender tudo, às vezes, simplesmente tenho que aceitar.

Quanto tempo foi necessário para que esse trabalho ficasse pronto?
 Compus as canções nos primeiros três ou quatro meses de 2017, quando voltava de uma temporada em Barcelona e também de me casar. Percebo, hoje, que a espécie de afastamento que vivi no período imediatamente anterior ao mergulho neste trabalho foi essencial à elaboração de um conceito claro. Gravamos o disco no 2º semestre do ano passado. Este ano, fizemos a finalização (mixagem e masterização) e o trabalho gráfico, incluindo o vídeo álbum animado.

Qual foi o processo mais trabalhoso dessa preparação?
Foram muitas etapas neste trabalho. Sou compositora solitária, mas, a partir das gravações, dezenas de pessoas passam a ser envolvidas, entre músicos, produtores, técnicos de estúdio, de som, mix e master, artistas gráficos, ilustradora e animadora, fotógrafos, trabalho vocal, corporal, direção cênica, cenário e figurino. Criar é muito prazeroso, por isso, mal consigo associar a trabalho. Apesar disso, de fato, demanda imensa dedicação.

Quais foram os profissionais envolvidos nesse processo? 
Diogo Strausz fez uma belíssima produção musical, também os arranjos de cordas e metais. Ana Ines Flores foi responsável pelas animações e ilustrações do vídeo-álbum animado, sobre as fotos de Ivan Silva e Elena Moccagatta. Ana Brun foi a co-diretora geral de arte e artista gráfica do CD e do site.

Quais são as principais características da Verônica, como artista, ali retratadas? E como pessoa?
Acho que minha principal característica que aparece neste disco é uma movimentação livre por diferentes sonoridades, ritmos e linguagens. Não tenho apego a dar sequência a trabalhos anteriores, minha coerência é interna. Além disso, acredito que cada disco deva retratar o que pedem as temáticas das canções com liberdade, elas conduzem o caminho sonoro. Compor é uma forma de resolver questionamentos pessoais, assim, tudo é bastante pessoal nos meus trabalhos autorais. Eu realmente sentia necessidade de falar sobre tolerância, sobre enxergar o outro, por isso meu disco, diferentemente do anterior, que é todo confessional e feminino, em primeira pessoa, trazer agora uma fala coletiva e agênero em que a palavra “eu” não aparece e a voz principal é sempre coletiva.

Aliás, é possível separar uma Verônica da outra?
Pois é, a criação sai de lugares tão internos que fica impossível para mim separar uma da outra. Acredito na exposição de uma verdade pessoal para a contundência da mensagem, por isso, não recuo nem desenvolvo técnicas, procuro ser fluida a partir do que for mais genuíno e espontâneo.

Novo trabalho da artista ribeirãopretana foi apresentado ao público da cidade no dia 30 de novembro

Sobre o que trata Amado Imortal, a primeira música de trabalho? 
 Amado imortal é um mergulho sobre a afetividade no futuro. Assisti ao episódio “Volto Já”, da série Black Mirror, que muito me fez pensar sobre como lidaremos com a solidão e a morte no futuro. Que tipos de apoio teremos disponíveis, nessa busca crescente por evitarmos o sofrimento? Conseguiriam estes recursos de fato aliviar estas dores humanas inevitáveis?

A canção ganhou um clipe logo no lançamento. Qual foi a inspiração para ele?
O clipe conta metaforicamente a história da música, com apoio na linguagem visual da própria série que inspirou a canção. Queríamos misturar referências de passado e futuro para lembrar que, em termos de escala de tempo, o passado e o futuro que chegamos a vivenciar como humanos é bastante curto diante do tempo do universo, questionando a própria estética, que julga tudo como ultrapassado muito rapidamente, em grande parte para inflar o mercado e o consumo. Esta sede pelo futuro contém a mesma ansiedade do método escolhido na série para lidar com a dor da perda afetiva. Recomendo que assistam ao episódio. Diante dos maiores problemas, a solução me parece sempre ser interna; encarar as dificuldades sem fuga de consciência é, para mim, a forma mais contudente de seguir em frente.

Em que outras canções aposta neste disco?
Cada canção ajuda a construir o contexto no qual convido o ouvinte a mergulhar através do disco. Pela melodia, “Nomes de homem” faz uma entrada suave no trabalho; “Nave” traz como tema o tribunal implacável das mídias sociais, que todos hoje conhecemos bem; “Ponto de fuga” fala sobre o contexto geral destas eleições, sobre nossa dificuldade de nos posicionarmos, sobre o moralismo e o politicamente correto; “Amadurecer” é sobre lidarmos com mudanças impostas pelo mundo; “Bússola” sobre nossa escala em relação ao mundo, sobre pertencimento; “É só o amor” é também um bolero de acesso mais direto ao coração.

Em outra ocasião, você disse que pretendia trabalhar mais a estética visual. Está realizando esse desejo? De que forma? Nesse sentido, há novidades?
Sim! O projeto que eu tinha em mente está no ar, disponível em meu canal do YouTube. Trata-se de um vídeo-álbum animado que complementa visualmente o projeto musical Aquário. O álbum visual nasceu graças ao enorme trabalho de diversos artistas gráficos e fotógrafos, contando de forma lúdica e inédita os contextos tratados no disco.

Onde e quando aconteceu o lançamento oficial?
No SESC Pompeia, dia 19 de outubro. Pelo fato do prédio ser projeto de Lina Bo Bardi e também por ter sido o primeiro palco em que me apresentei como cantora, foi bastante simbólico pra mim. Além disso, já levei Aquário a Campinas, Matão, Macatuba, Belo Horizonte, Curitiba e, agora, Ribeirão Preto. Também estive, recentemente, em turnê no Chile e na Argentina.

Aquário também apresenta um pouco da relação da artista com a estética visual

Em relação ao trabalho autoral anterior, quais as principais diferenças? E semelhanças?
“Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio” me fez descobrir em mim a compositora. Em resumo, queria falar como mulher sobre relacionamentos amorosos atuais. Em resumo, o disco discorre sobre os vários papeis vividos por uma mesma mulher ao longo de sua vida amorosa. Neste disco, abandonei o tom confessional para pensar de forma mais plural em mazelas e em condições comuns a todos. Se a temática é completamente diferente, creio que a linguagem na forma de compor se firmou com alguma identidade, unindo os dois discos.

Que outros trabalhos o público pode buscar para conhecer mais sobre você?
Até aqui, foram cinco CDs. Em 2009, lancei “Verônica Ferriani” e também fiz parte do disco coletivo Sobre Palavras. No mesmo ano, recebi o Prêmio Catavento - Solano Ribeiro, que me deixou muito honrada. Em 2010, participei de “Gafieira São Paulo”. Este mesmo trabalho rendeu a mim, em 2011, o Prêmio da Música Brasileira, que trago com muito carinho. Dois anos depois, apresentei “Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio”, meu primeiro autoral, com um tom bastante confessional, e, agora, acabo de lançar “Aquário”, também feito de composições próprias, mas cujo resultado dependeu do trabalho de um time muito afinado. Nesse intervalo, tive a felicidade de ganhar, em 2016, o Prêmio da Música Brasileira e, este ano, veio o Prêmio Grão de Música. Cada item dessa lista coroa um momento importante da minha trajetória e, por isso, só tenho mesmo o que agradecer. 

Foto: José de Holanda

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