Um ser plural
Arte, carreira, família: esses são alguns dos assuntos presentes no bate-papo de Cleido Vasconcelos com a jornalista Máisa Valochi
Formado em Ciências Biológicas pela USP de Ribeirão Preto, com Mestrado e Doutorado em Fisiologia e pós-doutorado em Psicologia, Cleido Vasconcelos se encontrou verdadeiramente no universo das artes. Enquanto estudava nos laboratórios da faculdade, continuou desenvolvendo o talento descoberto na infância, inclusive com o apoio de algumas professoras. A experiência trouxe a certeza do caminho que queria seguir. Assim, os gráficos de barras que serviam para ilustrar medidas, tempos e equações dos estudos foram se transformando em belas pinturas. Foi nessa época que o lado racional e científico deu espaço, em definitivo, para a emoção.
A produção das obras foi se multiplicando, assim como o número de exposições e as respostas positivas da crítica e do público. A inspiração vem de todos os lados: da família, composta pela esposa Cláudia e pelos trigêmeos, Joaquim, Nicolau e Sofia; dos alunos na sala de aula, onde leciona artes; da música, do cinema e de situações cotidianas. Nesta entrevista, o artista revive várias histórias em um bate-papo animado com a jornalista Máisa Valochi. A conversa foi acompanhada pela também jornalista Paula Zuliani.
Máisa: A arte esteve presente na sua vida desde a infância. Em que momento percebeu que não conseguiria se desvencilhar dela?
Cleido: Acho que essa certeza de que a arte faz parte de mim chegou há pouco tempo. Um dia, li um livro chamado “Quando Nietzsche Chorou” e, nele, encontrei uma frase que me fez pensar: “Torna-te quem tu és”. Percebi que não adiantava espernear ou trabalhar com qualquer coisa. Não dá para fugir daquilo que você é. Eu era um artista e tinha que continuar sendo. Nunca deixei de fazer arte, porém, mantinha um caminho paralelo que, por muito tempo, foi a ciência. Agora, meu foco está no que realmente gosto de fazer. Vale lembrar que isso aconteceu quando eu tinha uns 40 anos. Portanto, para quem está em dúvida do que quer ser, ainda há esperança.
M: Sua formação é na área da saúde. Essa bagagem anterior interfere na sua atividade atual?
C: Claro que sim e não poderia ser diferente. Essas experiências estão interligadas. Minhas professoras da pós-graduação, Maria Clotilde Rossetti Ferreira e Anette Hoffmann, tinham uma relação bem próxima com a arte e me estimulavam a desenvolver esse dom. Pude ser artista enquanto era cientista e muito dos conceitos que aprendi naqueles tempos carrego comigo até hoje.
M: E como surgiu o Cleido professor?
C: Foi depois de uma viagem ao exterior que me encheu de confiança e independência. Tinha uns 30 anos. Pensei que, se eu passei por tudo aquilo sozinho, poderia fazer qualquer coisa. Optei por ensinar arte na escola de uma amiga. Em princípio, comandava apenas oficinas culturais para crianças de forma bem esporádica. Aí surgiu o convite para integrar a grade curricular do Ensino Fundamental e Médio. Achei o desafio válido porque poderia acompanhar de perto a evolução dos alunos, durante o ano inteiro. Mais recentemente, concluí minha graduação em Artes e passei a dar cursos específicos de História da Arte. É interessante despertar o interesse dos estudantes, a curiosidade para ver onde a arte começou, por onde ela passou, onde está hoje e até onde vai. Essa linha do tempo é fascinante.
M: Você se comunica com seus alunos de um jeito bem especial. Isso acontece de forma natural ou existe uma preparação?
C: Nenhuma preparação. É o jeito que eu sou com todo mundo. Às vezes dá errado. Na maior parte das vezes dá certo.
M: E sua fixação pelo Darth Vader é pessoal ou uma artimanha para lidar com os alunos?
C: Uma artimanha. Não sou tão aficionado pelo Darth Vader assim. Gosto de Star Wars e gosto do Darth, mesmo porque seria falso da minha parte ficar brincando com um personagem com o qual eu não tenho a mínima identificação. Tiro fotos com a máscara dele e a utilizo também em sala de aula para estabelecer um diálogo.
M: Você é um professor multimídia. Isso é uma exigência do mercado?
C: Para falar a verdade, não estou nem aí para o mercado. Sou assim e pronto. Durante um período da minha vida, escutei uma frase que me traumatizou: “Você não tem o perfil”. Quando estava na Faculdade de Medicina, era mais artista do que professor de Fisiologia. Então, quando prestei um concurso na área, fui reprovado porque “não tinha o perfil”. Hoje não ligo mais para isso. Pelo contrário. Sou desse jeito e os lugares onde estou me aceitam como sou. Aliás, é pelo que sou que eles me procuram. Esse negócio de multimídia virou um slogan. Às vezes, a educação se esconde atrás desses recursos para se vender, até porque muitos pais compram a ideia. A educação depende da relação estabelecida entre o professor — o que ele sabe e o que ele consegue passar — e o aluno. Acredito na lousa, no giz e no professor. As ferramentas multimídias são importantes, mas não essenciais.
M: E as palavras? Qual é a sua relação com elas como cronista?
C: É tudo a mesma coisa: a pintura, as aulas e os textos. É a forma que encontro de representar o que sou e como vejo o mundo. Quando era jovem, fiz um estágio que me ensinou algo muito valioso: “Quando a gente cresce, cresce para todos os lados”. Ou seja, quando amadurecemos, entendemos melhor quem somos e como nos relacionamos com tudo ao nosso redor. Compreendemos nossos defeitos e nossas virtudes. Foi o que aconteceu comigo. Cresci como pessoa e como artista, e encontrei diversas formas de passar adiante essas impressões que tenho sobre o que está ao meu redor.
M: Sua relação com a música também é forte. O que tem ouvido ultimamente?
C: “As mulheres de Péricles”. O álbum reúne diversas artistas interpretando músicas de Péricles Cavalcante. São composições bem conhecidas, mas que poucos sabem que são dele porque foram gravadas por outros nomes, como Caetano Veloso e Gal Costa. Na verdade, escuto música o dia inteiro. É o que mais gosto de fazer. Por exemplo, não tenho a necessidade de ir a uma exposição para ver uma obra de arte. Mas sem música, não consigo ficar. Com certeza, é o que mais me faria falta se não pudesse ter.
M: Quando ouve um álbum pela primeira vez, o que avalia?
C: Em primeiro lugar, o que sinto, a emoção que me provoca. Na adolescência, amigos músicos me ensinaram a prestar atenção em cada elemento separadamente: o baixo, a guitarra, a bateria. Tenho essa mania de escutar os instrumentos até hoje. Porém, o mais importante é que a música emocione. Chego a chorar com algumas melodias. Se elas estiverem associadas a alguma imagem e essa composição for bem feita, então, choro mais ainda. Isso acontece muito no cinema.
M: Falando sobre cinema, qual clássico é o seu favorito?
C: “2001: Uma Odisseia no Espaço” e “Blade Runner” são sensacionais. “Era uma vez na América” também. Antes eu tinha mania de assistir várias vezes a mesma coisa. Comprava, gravava, copiava o filme para guardar e ver de novo. Hoje não faço mais isso. Tem tantas coisas que eu quero ver e ainda não consegui, para que repetir? Aliás, outro dia revi “O Inquilino”, de Roman Polanski, depois de 20 anos. Lembro que, na época, a obra teve um impacto muito forte e um caráter polêmico. O filme é o mesmo, mas os tempos mudaram. A resposta emocional acaba não sendo a mesma. Preferia não ter assistido e ficado com a lembrança anterior.
M: Além de artista, você também se aventura na cozinha. Como é seu desempenho nessa área?
C: Você tem que perguntar isso para a minha esposa e os meus filhos. São eles que provam minhas receitas. Gosto bastante da culinária. Não de cozinhar o trivial no dia a dia, mas nos finais de semana, algo diferente. Faço principalmente doces. Meu brownie com castanha do Pará sempre faz sucesso. Porém, confesso que sou de fases. Recentemente, comprei uma sorveteira e fiz sorvete várias vezes, de diversos sabores. Agora parei um pouco. Depois volto.
M: E o seu lado família? O Cleido pai é tão criativo como o artista e o professor?
C: Sou muito bravo. Se você perguntar para os meus filhos, eles terão muitas reclamações e eu acho isso bom. Não gosto de pai que concorda com tudo o que o filho quer. Sou criativo, mas não em tempo integral. Tenho orgulho de dizer que desde que meus filhos nasceram, há quase 12 anos, sempre fiquei com eles um período do dia. Nossa família é bem unida. Acho isso o máximo. Recuso alguns trabalhos e convites para garantir um espaço livre na agenda. Mesmo que seja para eles me chamarem para ver alguma coisa e eu responder não. Pelo menos estamos juntos. Ou seja, minha casa não é uma maravilha como a Disney não, mas é bem legal.
M: Qual é o maior desafio de ser pai de trigêmeos?
C: O começo foi complicado. Cuidar de três bebês prematuros é uma tarefa árdua. Não tínhamos muita ajuda. Montamos uma verdadeira linha de produção. Tinha até uma lousa para anotar qual deles já tinha mamado, qual tinha arrotado e a hora de começar tudo de novo. Hoje acho tudo uma loucura, mas na época achava normal. Cada um faz o máximo que pode, dá o melhor que tem, não é? Com eles crescendo, as coisas só têm melhorado. Não consigo pensar qual será o próximo desafio. Talvez quando entrarem na faculdade.
M: O que você espera para o futuro deles?
C: Espero que eles sejam felizes. Se eu continuar feliz com eles sendo felizes, melhor ainda, porque nem sempre o caminho que o filho deseja seguir traz satisfação para os pais. Quero manter esse contato que temos desde que eles nasceram, essa proximidade.
M: Você é um ser plural. Em qual das frentes mais se realiza?
C: Isso é muito difícil de responder. Fico realizado em todas as tarefas, desde que eu tenha um retorno. É importante que a conexão com o público seja estabelecida. Prefiro quando as pessoas dizem que gostam do meu trabalho. Sou carente de respostas e, por isso, adoro provocar com meus pensamentos e desenhos. Quero fazer o público pensar, questionar e se manifestar. Porém, confesso que priorizo as respostas positivas. Se não gostarem, prefiro não saber.
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Sobre a admiração
“Não sei ao certo quando aconteceu o meu primeiro contato com o Cleido, mas sei que durante a minha trajetória profissional tive o prazer de contar com a colaboração dele em diversas reportagens. Assim como é um artista múltiplo — que escreve, pinta, está sempre se manifestando de alguma forma — ele também é um personagem múltiplo. Na Revide, já participou de matérias como ilustrador, como um homem moderno que cuida da casa e dos filhos, como um professor inovador e também foi capa da publicação, com seu trabalho retratado de forma mais ampla. Mesmo sendo tão explorado pelas jornalistas da casa, a bagagem dele não foi esgotada porque Cleido tem sempre algo mais a dizer. Porém, o que mais me causa admiração é que, apesar de todos os diplomas acadêmicos, ele seguiu a sua essência de artista e optou por ser feliz. E fez isso de forma deliberada: Cleido estudou, profissionalizou-se e está passando seus conhecimentos adiante. É um ser realmente admirável.”
Máisa Valochi, jornalista