Um sim à dignidade

Um sim à dignidade

Com histórias de vida impressionantes, o Hospital de Retaguarda Francisco de Assis acolhe e alivia a dor de pacientes terminais

A imprudência, a crueldade, a fatalidade, o acaso. As histórias que levaram as pessoas a se tornarem pacientes — algumas ainda bem jovens — do Hospital de Retaguarda Francisco de Assis são, muitas vezes, tão impressionantes quanto sua própria condição debilitada.

O simples fato de pisar na Instituição é motivo de reflexão: em um lugar como o Hospital, a fragilidade da vida não pode ser ignorada. Senhor Wagner: voltava do trabalho em sua bicicleta e foi atropelado. Hoje, é paraplégico e a família se recusa a cuidar dele. Senhor Clóvis: depois de um dia de trabalho, entrou num bar para comprar cigarros e foi agredido covardemente por um sujeito interessado no dinheiro. Aos 42 anos, alimenta-se por sonda, é consciente, mas desorientado e totalmente dependente. Como sua irmã cuida dos dois filhos que ele não pode mais amparar, o Hospital se transformou em sua casa. Senhor Andelson: pernas com a finura de braços, uma silueta que nem de perto lembra o rapaz robusto e bonito que sorri na foto afixada acima do leito. Um bar, bebida, uma briga, fortes pancadas na cabeça, massa encefálica espalhada pelo chão e a vida que se encerrou numa cama hospitalar.

São realidades como estas que ecoam por entre as paredes do Hospital, que hoje, através de 19 auxiliares e 12 funcionários de apoio, atende 22 pacientes em fases intermediária e terminal, mas poderia fazer muito mais: dar assistência a mais 10 crianças e a 35 adultos, o que não ocorre devido às limitações financeiras decorrentes de entraves burocráticos.

Enquanto 109 pessoas aguardam na fila, o Hospital luta para ser contemplado pela legislação do país: o Ministério da Saúde possui leis que regulem um estabelecimento com sua especificidade e, como não tem um perfil definido, não consegue registro no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde — CNES. Sem fazer parte desse cadastro, a entidade não pode fazer parcerias, pleitear convênios ou receber os benefícios da Nota Fiscal Paulista. “Desde o começo deste ano, só estamos contando com doações da sociedade civil. Até a verba de R$ 3 mil que recebíamos da Prefeitura, através da Assistência Social, foi cortada sob a alegação de que o nosso trabalho não tem cunho social”, destaca a gerente administrativa Lúcia Helena Zucoloto. Cada paciente custa R$ 5.500,00 por mês ao Hospital.

A esses pacientes, só resta a generosidade da sociedade civil, pessoas como o senhor Rafael Flores Marcílio, que não só doou toda uma ala, mas a construiu e até hoje presta manutenção, e empresas como a Rodonaves, a Eletromarcos, a Resolv e a IsoSystem, que ajudam a amenizar o sofrimento dos internos e de parentes deles, como Maria Rita Artal Gaspar, de 58 anos, cuja mãe, Aparecida Francelina Artal, aos 86, depende do Hospital. Maria Rita e o marido descobriram que estão com câncer e, agora, não têm mais como cuidar de dona Aparecida, que não anda, tem diabetes, Alzheimer e é totalmente dependente. Em um de seus momentos de lucidez, a própria senhora pediu à filha que a internasse na Instituição. “Minha mãe está aqui há quase dois meses. Eu já conhecia o bonito trabalho que o Hospital faz em benefício das famílias e dos doentes. Quando chego aqui, minha mãe está sempre bem cuidada, limpinha e bem assistida, cuidado que meu marido e não podemos dar. O São Francisco de Assis não é um hospital, é um pai que Deus me deu”, afirma Maria Rita, acrescentando que fará o que puder para auxiliar o Hospital.

A fundadora da Instituição, Joana Cordeiro Amaral, ressalta que as dificuldades são constantes e a necessidade de ajuda é imediata. “É importante que as pessoas entendam que, auxiliando o Hospital de Retaguarda, estão prestando um grande serviço a Ribeirão Preto, já que o trabalho realizado por ele possibilita novas vagas em leitos hospitalares”, conclui. Para contribuir com o Hospital de Retaguarda Francisco de Assis, basta entrar em contato pelos tels.:  (16) 2102.5757 e 3919.1718. Acesse www.franciscodeassis.net.

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Carolina Alves

                                           

 

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