Um sim à vida
Pessoas que passaram por grandes adversidades mostram que não existem obstáculos quando se tem persistência, fé e vontade de viver

Muitas vezes, as pessoas estão vivendo os momentos mais gratificantes — construíram a tão sonhada família, encontraram o par ideal ou conquistaram a realização pessoal e profissional —, quando a vida, com sua face mais perversa, bate à porta, transformando seus planos e sonhos em uma realidade distante, praticamente inatingível. Difícil não se revoltar consigo mesmo, com o visível e o invisível, não pôr em dúvida todas as crenças e convicções, não questionar Deus ou o destino e não se render à autopiedade. Porém, conforme aqueles que já foram à nocaute com as bofetadas da vida, caíram em si, absorveram as perdas e danos, a reação diante dos destroços é que define quem será vencedor ou perdedor. Veja, na galeria de fotos, o que pensam os que venceram várias batalhas.
O IMPULSO DOS SONHOS
O advogado Alexandre Bonilha conhece bem essas sensações. Quando iniciava a graduação, uma forte crise abateu sua família: a mãe ficou acamada por anos, o pai perdeu o emprego e todo o dinheiro que ganhava se destinava a subsidiar o restante da bolsa que ganhou na faculdade. “Foram dias de breu e tormenta, que só foram vencidos com tolerância e amor aos sonhos”, conta. Diante da situação, o estudante acordava todos os dias com um único propósito: imaginar uma nova história para sua vida e acreditar, contornando os problemas com calma, sutileza, destreza e paciência.
Era difícil para o advogado ver sofrer as pessoas que ama, mas nunca pensou em desistir. “Sempre quis ser um bom advogado e, por mais difícil que tenha sido o caminho, hoje eu sei o quanto valeu a pena tamanho esforço. Nunca é caro demais o preço de um sonho”, diz. Como se tivesse que atravessar um rio turbulento, o estudante não pensou na água traiçoeira e turva, muito menos nos obstáculos. Concentrou toda a sua energia nos objetivos, traçando uma meta, sem retroceder sequer para pegar impulso. “Como diz o poeta, mar calmo nunca fez bom marinheiro”, acrescenta Alexandre.
Para o advogado, são as dificuldades que preparam as pessoas para a vida, pois ninguém cresce na comodidade, na calmaria ou nas alegrias. “É durante a prova de fogo que o ouro se molda. Como ensinava Rubem Alves, apenas ostra triste produz pérola. A vida é uma montanha-russa, cheia de altos e baixos. Se você não conhecer o gosto do salgado, nunca reconhecerá o doce, da mesma forma que nunca será feliz quem não souber o que é tristeza”, filosofia que o faz acreditar que desistir é uma loucura e que o caminho certo é sempre tentar outra vez.
O AMOR QUE RESGATA
Foi isso que Debby Gabarra descobriu em janeiro deste ano, quando foi acometida por uma grave alergia, que a impediu de andar e mesmo de ficar em pé. Da noite para o dia, teve que se afastar do trabalho, da dança e dos filhos, que tiveram que ficar com os avós. A angústia e o stress desencadearam na empresária a psoríase, uma doença autoimune, ligada ao estado emocional. “A psoríase fez com que bolhas se espalhassem pelo corpo todo. O sofrimento com a dor e a coceira eram tão intensos que cheguei a pensar em desistir de tudo. Fui internada e permaneci no hospital por dez dias”, conta Debby.
Foi justamente nesse momento que recebeu a visita do filho mais novo e, ao ver a reação do menino diante de seu estado, tirou da cabeça tal pensamento. “O choque o deixou estático. Vi os olhos dele marejarem e pensei que jamais poderia me entregar”, relata. Com a ajuda de familiares e amigos que a apoiaram e realizaram inúmeras correntes de oração, Debby iniciou um tratamento imunossupressor e, dentro de 15 dias, já não havia mais marcas da doença em seu corpo. “Tenho certeza de que o que me ajudou foi a energia positiva e o apoio dos que estavam à minha volta. Hoje, penso que ninguém é tão ocupado que não possa parar para refletir sobre a vida. Quando algo nos obriga a tirar o pé do acelerador, é possível analisar a vida que temos e a vida que queremos ter”, comenta a empresária.
ENSINAMENTOS DA TORMENTA
Thiago Santos Hirose, endocrinologista pediátrico, praticamente já nasceu enfrentando desafios. Aos seis meses, teve hidrocefalia, doença que forjou no menino a força do guerreiro, que, aos 27 anos, enfrentaria um câncer. “Até hoje, encaro as limitações decorrentes da hidrocefalia com naturalidade, pois elas não me causaram imenso prejuízo. Quanto ao câncer, é difícil lidar com essa doença, ainda mais eu sendo médico.
Porém, sabia que dependia muito de mim a adesão e o sucesso do tratamento”, explica, dizendo que nunca pensou em desistir.
O médico não teve dúvidas: cuidou dos impactos negativos — os sintomas da doença — e supervalorizou os positivos: passou a gostar mais de si, e se permitiu receber o apoio das pessoas e acreditou na cura, ações que o transformaram em um profissional melhor. “Mudou muito minha visão sobre a relação médico-paciente. Precisamos dar atenção às angústias de quem nos procura, por menores que possam parecer. Estar aberto e disponível faz uma grande diferença para o sucesso da relação”, relata Thiago.
Hoje, o médico busca o reconhecimento de seu trabalho, sempre acreditando ser capaz de realizar seus sonhos. “Nossa vida é programada para termos altos e baixos, e o foco é buscar um objetivo de vida sempre, não desistir e superar as dificuldades. O homem é dotado do poder da crença e ela é fundamental para a conquista da felicidade”, afirma o médico, que hoje acredita ser capaz de superar quaisquer dificuldades.
A FORÇA DA FÉ
Há um ano e três meses, a esposa de Alexandre Andre Sposito estava prestes a realizar um sonho: voltar a ter as medidas esbeltas que possuía antes das duas gestações. Fez uma abdominoplastia, que foi estudada ao longo de anos, mas faleceu no período pós-cirúrgico. Para o empresário, as tarefas mais corriqueiras se tornaram um fardo. “Voltar a trabalhar, ir ao cinema, levar os meninos na escola, jantar, tudo era muito penoso, mas, sem dúvida, o mais complicado foi a festinha do dia das mães na escola. Não tenho palavras para descrever este dia”, conta o empresário.
Alexandre encontrou na fé em Deus e no amor que sente pelos filhos a força para superar esses momentos tão difíceis,. “Descobri que aquele ditado que diz que Deus dá a cruz do tamanho que você consegue carregar era verdadeiro. Minha fé e meu amor foram maiores do que o trauma que havia sofrido. Valia a pena continuar”, ressalta o empresário. Quando pensava em jogar tudo para o alto, uma força maior dizia para que tivesse calma, que tudo iria se acertar.
Alexandre se lançou de cabeça no trabalho, na rotina e na fé, que o impeliram a continuar buscando concretizar seus planos e seus sonhos. “Por mais difícil que seja ou mais dor que se sinta, ninguém deve desistir, pois o tempo se encarrega de colocar as coisas no lugar. A vida é para ser vivida e é preciso ter fé, pois, sem ela, nada do que vivemos ou passamos teria sentido”, aconselha o empresário.
O MILAGROSO "CHÁ DE LENÇOS"
Há um ano, a farmacêutica Lívia Cristina Hernandes descobriu um câncer de mama, uma situação bem improvável e surpreendente, já que tinha apenas 27 anos. De repente, a profissional, sempre tão ocupada com o doutorado, percebeu a urgência da vida. Ela, que sequer imaginava que mulher antes dos 30 poderia ter câncer de mama, descobriu que poderia acontecer e que havia acontecido justamente com ela. “A partir dai, minha vida foi uma montanha russa de emoções, com direito à passaporte a locais e experiências nunca antes vividos e com muita adrenalina”, relata a farmacêutica.
Foi submetida à mastectomia radical, à quimioterapia e à radioterapia, congelou os óvulos pela hipótese de ficar infértil devido à quimioterapia, e ainda está em tratamento. “Nesse último ano, vivenciei tantos desafios, que é difícil eleger o pior. Das dores físicas às emocionais, que incluíam a mastectomia, a queda dos cabelos, os enjoos pós-quimioterapia, a mudança da rotina, o temor da infertilidade, a interrupção do doutorado, entre muitos outros. Nesse período, tive que me redescobrir como mulher e resgatar, aos poucos, a autoestima abalada pelas transformações impostas pela doença”, conta.
De acordo com Lívia, é difícil se sentir feminina e bonita, sobretudo estando em risco dois grandes símbolos da vaidade feminina: os cabelos e os seios. “Sempre tive um cabelo enorme e ficar careca, repentinamente, foi um choque. Após esse susto, comecei a ver a nova realidade de maneira diferente, e até criei a minha lista de 10 vantagens de estar careca, que postei no meu blog “É câncer de mama! E agora?”, explica a farmacêutica.
Foi, então, que descobriu nos lenços uma maneira de superar o desafio da queda dos cabelos e de se sentir mais bela e otimista. “Quando meus cabelos começaram a cair, decidi transformar esse momento, que poderia ser de angústia e de tristeza, em uma confraternização com minha família e amigos. Nascia o ‘Chá de Lenço’. Convidei várias pessoas, e cada uma deveria me presentear com um lenço”, revela. Com a atitude bem-humorada, Lívia ensina que cada mulher deve se redescobrir nesses momentos de transição e de aceitação de sua imagem e se sentir linda, pois esse é o primeiro passo para recuperar a autoestima abalada na dura jornada da luta contra o câncer.
Sempre que pensava em desistir, a farmacêutica se lembrava de sua avó, que enfrentou o câncer de mama com fé e coragem, há 40 anos, quando os recursos eram escassos e o tratamento mais longo e difícil. Para ela, todos têm uma força interior que só passa a ser conhecida quando requisitada em nome da sobrevivência. “Desde o início, senti que essa batalha já estava vencida. Chico Xavier dizia para não dramatizarmos a dor, que a prova não vem para esmagar, mas para induzir a crescer e que a pedra de tropeço pode ser transformada em degrau, cabendo ao homem escolher se será abismo ou ponte”, explica. Desde 6 de junho do ano passado, quando confirmou o câncer, Lívia escolheu ser a ponte e não encarar a doença como sentença de morte, mas como um estímulo para o crescimento pessoal e espiritual. Ela descobriu que a paciência, a coragem e o sorriso tornam a jornada mais leve e menos sofrida.
Por meio de seu blog, convida as pessoas que passam por momentos difíceis a dar um sim à vida. O espaço virtual se tornou um canal de compartilhamento de mensagens, de experiência e de desmistificação em relação à doença. Ao publicar sua trajetória rumo à cura, Lívia motiva outas mulheres nessa luta. “Sigo pensando que já venci porque acredito que estou curada e sinto isso dentro de mim. Espero que outras mulheres com esse diagnóstico pensem da mesma forma, pois quando acreditamos com firmeza em nossa cura, ela se torna real dentro de nós”, frisa a farmacêutica, lembrando que, para Victor Hugo, morrer é apenas se mudar, e que, enquanto a morte não chega, ela pretende continuar vivendo, existindo e transcendendo essa vida, mas, agora, com um novo olhar.
A VITÓRIA DA TEIMOSIA
A paixão de Danielle Nobile pelo esporte começou há nove anos. Dois anos depois, começou a correr e se apaixonou pela modalidade. Na primeira prova que competiu, ao cruzar a linha de chegada descobriu o que queria fazer pelo resto de sua vida. Danielle era professora e cuidava de todos os afazeres da casa. Sua vida era trabalhar e treinar depois do trabalho. “Eu realmente adorava correr, ir à academia, fazer minhas aulas de spinning. Fazia tudo para ter uma rotina saudável, que incluísse meus treinos. Eu não abria mão deles”, relata.
No dia 22 de outubro de 2012, a atleta acordou feliz. Havia acabado de participar de uma prova e de curtir um dia de praia. Deu seu bom dia no Facebook, pegou a marmita, a roupa de academia, despediu-se dos avós e foi para a escola. Como a estrada estava congestionada, verificou a hora no relógio de pulso. Perdeu o controle do carro e bateu na mureta de proteção. Seu carro capotou oito vezes. “Aí, eu entrei no liquidificador. Tinha muito barulho e eu só via terra e céu, grama e céu, e sentia o vento no meu rosto. Eu fiquei consciente o tempo todo, passei os telefones dos meus avós, dos meus pais e do trabalho, para avisar que eu ia chegar atrasada. Mal sabia eu que não voltaria mais para escola e para os meus alunos”, conta.
Apesar do apoio de amigos e parentes, alunos e familiares, uma nova realidade se descortinou diante da atleta. Passou morar com seus pais, a depender deles para tudo e teve que trocar o esporte pela fisioterapia. “Era uma vitória diária. Conseguir escovar os dentes, segurar o garfo e comer sozinha, cortar uma comida, segurar a caneta, escrever meu nome, fazer minha maquiagem. Cada dia era uma novidade”, ressalta. Também teve que aprender a viver em uma cadeira de rodas e a só passar por onde a cadeira entrasse.
Danielle tentou encarar tudo com alegria. Quando experimentou a cadeira de rodas nas primeiras vezes, dizia a todos que era carrinho bate-bate, pois sabia que chorar ou se descabelar não mudaria o que estava acontecendo. Desistir? Nem pensar! A atleta sempre teve consciência de que se não fizesse por ela, ninguém o faria e que, se parasse, seria a única prejudicada. Sua fé e vontade de correr fizeram com que Danielle superasse as dificuldades e corresse, literalmente, atrás de seus sonhos, mas, agora, com sua handbike.
Quando percebeu que não voltaria a correr, a atleta, que já havia disputado mais de 50 maratonas pelo país, voltou à natação e melhorou seu condicionamento físico. Hoje, disputa provas dentro e fora do Brasil, em sua bicicleta especial, que lhe devolveu o sabor das pistas de corrida. O mês de maio, para a para-atleta, começou na Itália, em Verona, onde participou da Wings for Life Word Run, que objetiva arrecadar fundos para as pesquisas pela cura da lesão medular. Como ganhou a prova no ano passado em sua categoria, segue para a Europa representando o Brasil como embaixadora brasileira cadeirante. “Eu sou teimosa. Se alguém diz que eu não vou conseguir fazer alguma coisa, tento com mais vontade, ainda”, afirma. Hoje, compartilha sua experiência por meio do site www.daninobile.wordpress.com.
A primeira palavra aprendida por Danielle após o acidente foi persistir. Há dois anos, tenta andar, teve muitas melhoras, mas não alcançou seu objetivo. “Se eu desistisse no primeiro dia, ainda estaria sem mexer do pescoço para baixo”, comenta. O segredo, afirma, é olhar para trás, ver o quanto já foi conquistado e o quão distante está do início, pois quanto mais longe dele, mais perto está da linha de chegada. Outra dica é usar as coisas ruins que acontecem para ganhar impulso.
Hoje, a atleta dá mais valor às pessoas, ao amor, às pequenas coisas e aos momentos. “A gente nunca sabe se aquela vai ser a última vez que está fazendo aquilo, está naquele lugar ou com aquela pessoa, então, procuro viver intensamente a minha vida”, ressalta, agradecida por ter decidido não ver a vida passando por sua janela. Sua vida é muito mais divertida, agora: viaja mais, conhece mais lugares e pessoas interessantes, tem milhares de histórias para contar, lê e pratica mais esporte, vai mais ao cinema, está aberta às pessoas e ao que elas possam ensinar. “E sinto que ainda há muito o que fazer. Tem muita vida aqui dentro e eu não vou deixar essa vida presa por motivo nenhum”, frisa.
O que Danielle quer é uma vida cheia de lembranças, de risadas, de bons momentos. “Como uma colcha de retalhos, que a gente constrói aos poucos, vai costurando os pedacinhos, fura o dedo, a linha acaba, a gente pega outra de outra cor, para e corta mais retalhos, vai fazendo um pouquinho por dia, um pedacinho de cada vez. A vida é curta demais para ser chata, não dá para apenas sobreviver”, conclui a para-atleta.
Texto: Carla Mimessi
Fotos: Júlio Sian
Diagramação: Lucas Chaibub