Uma anfitriã generosa

Uma anfitriã generosa

Ribeirão Preto acolhe muitos filhos, entre eles estão Chico Ferreira, Luciana Sensini e Doreedson Ribeiro Pereira

Em plena comemoração pelos 156 anos, a serem completados no dia 19 de junho, Ribeirão Preto chama a atenção pela magnitude política, econômica, cultural e científica. Mas, por trás dessas conquistas, existe algo maior: o potencial humano.

Nas mais diferentes áreas, é o cidadão que transforma um município em patrimônio. Nesse sentido, Ribeirão Preto é privilegiada: além de milhares de filhos nativos, abriga migrantes de todas as partes do país, que trazem consigo um pouco de suas próprias raízes, tornando a cidade mais rica e produtiva.

Uma das pessoas que abandonou a terra natal para buscar crescimento profissional em Ribeirão Preto foi o jornalista Francisco Benites Ferreira, mais conhecido como Chico Ferreira. Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria, cidade onde nasceu, Chico atuou como repórter e apresentador da RBS TV Porto Alegre de 1990 a 1994, mudando-se, em seguida, para Ribeirão Preto para desenvolver as mesmas funções na EPTV, de 1994 a 2010.

Hoje, ao lado da segunda esposa, Flávia Chiarello, apresenta o Telejornal SP Record, além de ser chefe de  jornalismo da emissora no município. Com Flávia teve Francisco. Os dois primeiros filhos, Ana Carolina e André, são do primeiro casamento. Na chegada, deparou-se com uma Ribeirão Preto não muito auspiciosa. “Cheguei em 15 de maio de 1994, um dia depois de um tornado ter atingido a cidade. Havia muita destruição em toda parte. Confesso que fiquei um pouco assustado”, afirma. 

Apesar dos estragos da força da natureza, ao chegar o jornalista encontrou uma cidade receptiva. Ribeirão Preto tinha, segundo Chico, “uma espécie de bairrismo charmoso e encantador”. Um dos lugares que mais o impressionou foi o Jardim Paulista. Com o tempo, o apresentador cresceu pessoal e profissionalmente e acabou assumindo um pouco do perfil da terra recém-adotada. “Hoje, também sou mais receptivo às novas ideias”, explica. Após tantos anos vivendo em Ribeirão Preto, destaca que sente uma imensa gratidão pelo município e que tenta retribuir da melhor maneira.  Uma das características mais impressionantes da cidade, conforme Chico, é a capacidade de ocultar vários mundos. “Há redutos, grupos e tribos para todos os gostos, embora muitos deles invisíveis para a maioria da população”, opina.

Um de seus lugares preferidos em Ribeirão Preto é a USP, sobretudo o lago. “Gosto também de observar os bairros mais tradicionais, como a Vila Tibério, onde as pessoas ainda levam cadeiras para as calçadas para uma boa conversa em família”, ressalta. Ao mesmo tempo em que questiona a falta de crescimento planejado, de parques, de um Plano Diretor bem elaborado e de um transporte público eficiente, exalta um dos pontos positivos de Ribeirão Preto. “O desenvolvimento das pesquisas acadêmicas na USP, como o uso de células-tronco para tratamento de doenças que ainda assombram a humanidade”, destaca o jornalista.

A Ribeirão Preto dos seus sonhos compreende uma cidade sem abismo social, em que seus filhos possam brincar na rua sem medo da violência, onde não haja tantos núcleos de pobreza. “Sonho com um crescimento sustentável e com o direcionamento da riqueza produzida na região para o bem público. A iniciativa privada já vai muito bem, obrigado”, elenca Chico. 

Natural de Araguari, interior de Minas Gerais, a empresária Luciana Sensini chegou a Ribeirão Preto, em 1987, para fazer faculdade de Fisioterapia. “Amei a cidade desde o primeiro dia. Para mim, que vim de uma cidade bem pequena, Ribeirão Preto já era uma cidade grande”, conta. Depois de formada, casou-se e viveu oito anos fora, retornando à cidade em 2001 para abrir uma filial de sua clínica de estética, Fisioforma.

No início, pensou em vir ao município uma vez por semana, mas a boa acolhida e o número crescente de clientes exigiram sua presença constante. “Foi quando resolvi transferir a matriz da clínica para Ribeirão Preto e me mudar com a família”, explica a empresária. Para Luciana, o município se desenvolveu muito, sem perder a qualidade de vida, um bom motivo para se comemorar neste aniversário.

“Hoje, Ribeirão Preto deixou de ser a Terra do Chope e passou à Cidade do Agronegócio, um dos principais polos econômicos do Brasil. Por esse e outros fatores, é uma cidade de interior com cara de capital”, avalia a fisioterapeuta. De fato, o município cresceu e passou a exigir uma capacitação profissional mais apurada, levando Luciana a crescer também. “Não parei de investir no meu aperfeiçoamento profissional, fiz inúmeros cursos no Brasil e no exterior. Tenho investido, também, na modernização das minhas empresas”, afirma a empresária, que se sente mais produtiva. 

A vinda a Ribeirão Preto, entretanto, não interferiu em seus velhos hábitos: tudo que Luciana faz envolve sua família ou seu trabalho. A empresária sai pouco, gosta de lugares calmos e arborizados, como o Parque Curupira, cuja inauguração assistiu. “Lembro-me que levava meus filhos para verem os peixinhos e terem contato com a natureza”, conta. Não é à toa que o Parque é um de seus lugares preferidos no município, junto com o Theatro Pedro II. 

Além do patrimônio cultural e natural, Luciana destaca o aspecto humano da cidade. “Ribeirão Preto é feita de gente. A cidade é grande e especial porque as pessoas são maravilhosas, acolhedoras e trabalhadoras”, ressalta. Segundo a empresária, as pessoas possuem horizontes amplos e lutam para colocar a cidade em uma posição de destaque. “A população tem orgulho de viver aqui e retribui com sentimentos bons e muito trabalho”, acrescenta. 

Quando projeta o futuro, sonha uma cidade modelo, criada através da união de todos, que esbanje qualidade de vida, educação e segurança. “Respeito gera respeito, bondade gera bondade, ou seja, colhemos o que plantamos. Aprendi que não adianta criticar, é preciso fazer algo para melhorar, e isso começa dentro de cada um de nós, em nossas casas e no nosso ambiente de trabalho. Se quisermos ser felizes, teremos que nos empenhar para construirmos um ambiente feliz e estendê-lo para o nosso bairro e, assim, sucessivamente”, sugere Luciana. 

A história de Doreedson Ribeiro Pereira, o Dorinho, retrata o universo de inúmeros retirantes que saem de regiões menos favorecidas do país em busca de uma perspectiva melhor. Aos 14 anos, em 1988, o empresário deixou Alegre, povoado de Condeúba, na Bahia, e encontrou as respostas aos seus anseios em Ribeirão Preto, para onde veio com a finalidade de estudar e de trabalhar. O ambiente que encontrou ao chegar fez toda a diferença: saiu de um vilarejo com cinco mil habitantes, onde a maioria das casas não tem energia elétrica ou água encanada, onde as escolas proporcionam aprendizado relativo à antiga 4ª série primária, e se deparou com um município com 450 mil habitantes, rico em educação, saúde, saneamento básico e trabalho.

“Tudo o que a cidade oferece possibilitou o crescimento pessoal e profissional que eu não teria na minha cidade natal. Hoje, aos 39 anos, olho para trás e fico muito feliz com minha trajetória e com o resultado do meu trabalho e da minha persistência”, afirma o empresário.

Essas são as impressões de quem, pela origem humilde, passou por inúmeras dificuldades. Dorinho trabalhou como garçom, como atendente e como office boy. Aos 19 anos, abriu uma lanchonete e, aos 22, tornou-se comerciante, através do consórcio de videocassete. Mais tarde, passou a comercializar aparelhos celulares e acessórios. Em 2001, inaugurou uma loja de notebooks, que se transformou em referência para Ribeirão Preto e região. Atualmente, está no ramo do agronegócio.

Mais do que sucesso profissional, construiu sua família em Ribeirão Preto: conheceu Cristiane, casou-se, teve duas filhas — Maria Eduarda, de 10 anos, e Ana Beatriz, de 4 anos —, fez amigos e é muito grato por tudo por tudo. “Também sinto orgulho de pertencer à comunidade. A cidade é acolhedora e referência em todo Brasil. Com garra e vontade de trabalhar, com certeza há oportunidades de crescimento. Veja o meu exemplo: estudei, trabalhei, construí uma empresa e grandes amizades”, lista o empresário. 

Mas Dorinho fez mais: inspirado por tudo o que conquistou, criou a Organização Voluntários do Sertão, através da qual leva, anualmente, centenas de profissionais voluntários que proporcionam atendimentos de saúde e de cidadania à população do interior baiano. Por seu engajamento cidadão e social, conquistou o título de “Cidadão Ribeirãopretano”.

Um de seus lugares favoritos é o Parque Luis Carlos Raya, onde curte bons momentos em família. Hoje, olha a cidade que o acolheu de forma tão generosa, como relata, e imagina a Ribeirão Preto que quer deixar para suas filhas. “Gostaria de garantir um futuro melhor, não só para as meninas, mas para todas as crianças e, para isso, é necessário investir mais em educação, em segurança e no resgate da convivência familiar”, enfatiza. O empresário quer uma cidade solidária, segura e arborizada, onde a população pratique seus direitos e deveres, contribuindo para o crescimento de todos. “Aqui consegui me realizar, conquistei tudo o que um ser humano precisa para ser feliz: família, amigos, trabalho e reconhecimento”, acrescenta Dorinho, justificando o porquê de ter escolhido o município como sua casa até a velhice.

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Carolina Alves, Ibraim Leão e Júlio Sian
Produção de Moda: Pâmella Turatti e Marcela Versiani

Compartilhar: