Uma artista das palavras

Uma artista das palavras

Em bate-papo, a jornalista Rosana Zaidan revela à Gilda Montans a paixão pelas artes e produções locais

De mãos dadas por quase toda a entrevista, as amigas Gilda Montans e Rosana Zaidan revelam admiração mútua, carinho e respeito pela cultura regional e, principalmente, pelos artistas ribeirãopretanos. Simples e muito bem-humorada, a mineira de Uberaba adotou Ribeirão Preto em 1967 e, de lá para cá, dedica-se diariamente à missão de levar informação, de forma ética e transparente, a milhares de pessoas. Com passagens pelo jornal O Diário, pela EPTV, entre outros veículos, Rosana é atualmente editora do Jornal A Cidade.

Neste bate-papo, a jornalista revela à Gilda sua paixão pelas artes e pelas produções locais. No caminho das letras, enveredou, ainda, pela área literária, publicando as biografias de José Bonifácio Coutinho Nogueira, fundador da EPTV, e do artista plástico Candido Portinari. Recentemente, em comemoração ao centenário da Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto, lançou uma obra que conta a história deste patrimônio histórico e cultural ribeirãopretano. Tudo isso é tema da da conversa entre amigas, em forma de entrevista, acompanhada pela jornalista Rose Rubini.

Gilda: Você tem experiência em jornal e televisão. Qual a sua preferência?
Rosana: O jornal representa o embrião, o começo, o fascínio pelo texto. Já a televisão é um amor intenso, uma paixão. Eu me lembro que quando eu fui para a TV fiquei deslumbrada ao lidar com som e imagem, elementos exclusivos desse veículo. Fiquei encantada com a possibilidade fantástica de mostrar os fatos através das pessoas e das imagens, o que me conquistou de uma maneira definitiva. Sou uma pessoa apaixonada pela televisão e confesso ter muita saudade, mas minha raiz está no jornal e voltar para ele foi como completar um ciclo de vida. Não poderia me esquecer de uma terceira paixão: o rádio. Usar a voz para me comunicar é uma paixão que vem de família.

Gilda: Como você vê os últimos acontecimentos no Brasil: o povo acordou?
Rosana: Acho que toda vez que o povo se mobiliza o cenário muda. O poder transformador da ação popular é fantástico. Historicamente, todos os movimentos contaram com a presença das massas. Tudo aquilo que vem de baixo para cima, que se forma a partir da voz do povo, é mais forte, mais difícil confrontar. Já dá para afirmar que tivemos algumas mudanças, como a lei que transforma a corrupção em crime hediondo. As mudanças começaram a acontecer a toque de caixa depois das manifestações. É incontestável que, para organizar, é preciso desorganizar. O que espero é que tudo seja feito dentro da Constituição, dentro da lei, e que não se rasgue a luta pela democracia. Que o autoritarismo não volte em nenhum momento, mas não podemos ficar atolados numa corrupção sem fim.

Gilda: Como avalia os momentos políticos conturbados que estamos vivendo?
Rosana: Não vejo um caos. Em determinados momentos, há uma insegurança porque, a partir da fase em que se perde o controle, tudo pode acontecer, inclusive, a presença de baderneiros, pessoas a quem interessa o caos. Estes cidadãos não são nacionalistas ou idealistas, não são pessoas do bem. Sejam quais forem os mandantes, são mal intencionados, e deles eu tenho medo. Acredito naquele povo que levanta cedo para trabalhar e ganhar a vida. Este povo é muito bom, ético e me orgulha. Por isso, creio que tudo vai dar certo, que as manifestações vão caminhar para um desfecho melhor do que o que se tem agora. A tendência é que a situação melhore, e não o contrário.

Gilda: Na primeira gestão do governo Dárcy Vera, a secretária Adriana Silva realizou projetos em todas as áreas da cultura. Como você avalia a Secretaria hoje?
Rosana: Gostei muito da gestão da ex-secretária e acho complicado  responsabilizar uma pessoa pela cultura de uma cidade como Ribeirão Preto. Não se pode personalizar a cultura — evidentemente, se o gestor é bom, o rumo tende a ser bom também. Não tenho juízo de valor a emitir sobre o novo secretário porque ainda não conheço seu trabalho. Em relação à Adriana, que teve uma longa gestão, dando continuidade aos projetos já existentes, posso dizer que foi fantástica. No entanto, além do gestor, os artistas também são responsáveis pela efervescência cultural de uma cidade. Eles podem e devem se manifestar, fazendo acontecer. Assim como o povo que vai para as ruas em busca de mudanças e melhores condições na saúde, na educação e no transporte, quem sabe, num segundo momento, a classe artística não possa se manifestar?

Gilda: Você sentiu falta de ícones das artes nestas manifestações?
Rosana: Existe uma cobrança muito grande sobre artistas importantes, como Chico Buarque e Gilberto Gil, mas acredito que eles estejam em pausa — até por conta dos desmandos do governo que eles ajudaram a eleger. Talvez, nesse momento, estejam dando um tempo, tentando não se envolver porque ainda estão muito contaminados, não só pelas críticas, mas também pela decepção.

Gilda: Nos anos 60, o país viveu um momento artístico glorioso, com a Bossa Nova, a Tropicália, a Jovem Guarda, entre outros. Os artistas eram estimulados a produzir e a divulgar suas obras, algumas camufladas por criticarem o regime militar. Não vimos isso acontecer hoje em dia. Qual a diferença entre esses dois momentos históricos?
Rosana: Hoje tem muita porcaria no mercado, muita mediocridade fazendo sucesso. É muito “ti ti ti”, “lá lá lá”. As letras musicais são terríveis, dramaticamente ruins. Aliás, não há mais letras, só performances. Qualquer um, com algum carisma, faz um vídeo, posta na internet e pode virar sucesso, gerando milhões de acessos. Sinceramente, não sei aonde isso vai dar.

Gilda: Isso tem relação direta com o poder econômico?
Rosana: Acredito que sim, e reforçada também pelas mídias digitais. Com a internet e com o poder econômico, veio a valorização da música de má qualidade, simplória. Tudo é descartável. Mas acredito numa reviravolta, numa reação das novas gerações. Imagino que tem novidade chegando, mesmo que ainda de forma embrionária. Acredito que coisas boas vão desabrochar e mudar essa cena.

Gilda: Será que estes artistas inovadores não encontram espaço na mídia?
Rosana: Temos bons cantores e bons músicos, como André Mehmare, que acho fantástico, Verônica Ferriani, Simone Guimarães e Bia Mestriner, mas estes que você menciona não estão chegando até nós. Talvez, é improvável que isso aconteça por causa da internet, já que é muito fácil criar movimentos, mobilizar-se e mostrar um trabalho — isso já não depende exclusivamente da grande mídia. A pessoa pode fazer o seu vídeo e, num instante, tornar-se um hit.

Gilda: As aulas de artes, por exemplo, são raras nas grades curriculares das escolas hoje em dia. Acredita que esse empobrecimento está ligado à educação?
Rosana: Sim, e este é um problema estrutural gravíssimo que dificilmente será revertido. O jovem não vem desenvolvendo sua sensibilidade e sua espiritualidade e isso me assusta muito.

Gilda: A Feira do Livro trouxe benefícios à cultura da cidade?
Rosana: Independente das críticas, digo e repito: adoro a Feira do Livro. É um evento importante, necessário e tem que ser feito. Quando apresenta problemas, é preciso melhorar e corrigir, mas não podemos acabar com a Feira. Temos a Agrishow e o Carnabeirão, que mobiliza um grande público. A Feira do Livro é o primeiro grande evento cultural que conseguimos manter, afinal, já são 13 edições. Todos os esforços devem ser feitos e canalizados para aprimorar o evento. Sou a seu favor em gênero, número e grau e não mudarei de opinião. Não nesse caso.

Gilda: Qual sua avaliação em relação às mudanças da Feira deste ano?
Rosana: Parece que melhorou, mas acho que precisa melhorar ainda mais as opções literárias oferecidas ao público. Gosto de andar e garimpar obras diferentes e acabei encontrando títulos muito interessantes das editoras Unesp e Senac, por exemplo, títulos nem sempre disponíveis. É preciso, também, melhorar a oferta para o público infantil, pois existem muitas opções acessíveis e interessantes, muitos bons autores escrevendo para crianças. Eu ficava com o coração aquecido quando via uma mãe escolhendo um livro com o filho, que logo ia para um canto, afoito para abrir o presente e lê-lo. Essa cena se repetiu muito durante a Feira do Livro e me mostrou que ela vale a pena.

Gilda: De que forma programas como Amigos da Casa, que acontece no Theatro Pedro II, beneficiam a população?
Rosana: O público passa a ter contato com artistas locais. Já os artistas ganham por ter a oportunidade de se apresentarem em um espaço nobre. Vejo a “deselitização” do Theatro de forma positiva. Quanto mais público frequentar este espaço, melhor será — para ver um artista local, ótimo. Isso não quer dizer que o nível de excelência das apresentações possa cair.

Gilda: O que a motivou a pesquisar a história da Catedral?
Rosana: O livro “A Catedral Metropolitana de São Sebastião de Ribeirão Preto” foi um projeto idealizado e viabilizado pelo artista gráfico Nicolau Baptista, que também foi o responsável pela arte e pela diagramação. As fotos são assinadas por Beto Baptista e o jornalista Nicola Tornatore me ajudou muito no trabalho de pesquisa. Na realidade, a obra, que relata os 100 anos da Catedral, é uma coletânea de tudo o que já havia sido publicado sobre este patrimônio, eu apenas compilei e editei o material.

Gilda: Durante esse trabalho, você descobriu algo novo?
Rosana: Descobri muitas coisas interessantes, como a história que relata o paradeiro da pedra fundamental da construção da Catedral, lançada no final século XIX, que está enterrada em algum lugar da Praça XV de Novembro. Nicola e eu somos loucos para escavar aquele local para encontrar a pedra, provavelmente encoberta pela vegetação atual. De repente, poderemos descobrir um texto, uma mensagem ou um documento deixado junto a ela. Outra informação que descobrimos foi o fato de o espaço já ter abrigado um cemitério: os falecidos eram enterrados na Praça XV de Novembro, em direção à Esplanada do Theatro Pedro II, atrás da pequena matriz demolida em 1905.

Gilda: Como avalia a produção artística em Ribeirão Preto nos mais variados segmentos?
Rosana: Na música, começo pela Orquestra Sinfônica, que deu novo ânimo ao seu processo de profissionalização com a chegada do maestro Roberto Minczuk. Lembro-me quando o Theatro foi reinaugurado, com uma apresentação na Esplanada transmitida em rede nacional. Aquele foi um dos grandes momentos da cultura de Ribeirão Preto, um dos momentos mais marcantes da minha vida. Outro marco importante foi a Escola de Música da USP, considerada um verdadeiro seleiro para a renovação musical da cidade. Ainda na música, destaco o trabalho do maestro Rubens Ricciardi, de Eber Taluro, de Simone Guimarães, de Celso Machado e de André Mehmare. Isso sem falar de Gilda Montans e Meire Genaro. Na área de ópera e formação de coral, temos a Cia. Minaz, de Gisele Ganade, que merece destaque. Já nas artes plásticas, a cidade já foi um centro formador de artistas maravilhosos. Aqui tivemos Bassano Vacarini, Francisco Amêndola, Pedro Gismond, Leonelo Berti e Fulvia Gonçalves. Hoje, temos Paulo Camargo, Waldomiro Santana e João Figueiredo Ferraz. No teatro, reunimos nomes importantes, como Gilson Filho e Magno Bucci, grandes formadores de novos talentos. Já na literatura, temos Menalton Braff, Isaias Pessotti, Julio Chiavenato, João Garcia, entre outros. Lembro que um grande incentivador das artes na cidade foi o artista plástico Antônio Palocci, que fundou a Escola de Belas Artes do Bosque, dirigiu o Museu do Café, foi coordenador da Casa da Cultura e secretário municipal da Cultura, criando o Salão de Artes de Ribeirão Preto, além de ter montado muitos grupos de teatro amador na década de 1960.  Mas considero que é preciso criar espaços para que esses artistas se apresentem, pois a cidade tem representantes da mais alta competência.

Afinidade pela cultura
“Escolhi entrevistar Rosana Zaidan porque o Brasil vive um momento em que a cultura pode ser uma das alavancas para seu desenvolvimento. Rosana é jornalista e, atualmente, chefe de redação do jornal A Cidade. Mas mais do que isso, é uma artista das palavras, sensível a todas as formas de arte. Através de seu trabalho, valoriza a produção artística regional. Além disso, é pesquisadora. No final de 2011, reuniu em livro a história da Catedral, uma obra de arte com impressão e fotografias maravilhosas. Rosana descreve com riqueza de detalhes cada momento da pesquisa, busca os fatos que compõem a história e os relata numa sequência que leva o leitor a se deslumbrar com a beleza da obra pesquisada. Seu modo simples de viver esconde uma inteligência privilegiada, um caráter determinado, uma ética impecável e uma sensibilidade aguçada, que faz de Rosana um ser especial.”
Gilda Montans é musicista e acordeonista

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