Uma atitude que salva vidas
Doadores de sangue tentam explicar o quanto é gratificante fazer o bem ao próximo e convidam os leitores a seguir esse exemplo
Andressa da Mata tinha apenas 14 anos quando compreendeu que o doador de sangue é capaz de salvar vidas e que os benefícios não ficam restritos a uma única pessoa. Pelo contrário. A experiência marca a história de muitos outros, como os amigos e os familiares do paciente receptor. No caso dela, a vontade de colaborar surgiu ao ver o pai hospitalizado, aguardando uma transfusão. “Logo me voluntariei, mas fui barrada. No Brasil, é preciso ter, no mínimo, 16 anos para obter autorização e passar pelo procedimento. Ou seja, naquele momento, eu não podia fazer nada. Entendi que, além dos cuidados dos médicos e da estrutura do hospital, a recuperação do meu pai dependia de um elemento a mais: a solidariedade de alguém”, lembra Andressa.
A colaboração chegou na hora certa, trazendo alegria e renovando a esperança por uma melhora, o que, de fato, aconteceu. Como forma de retribuir, assim que completou a idade exigida, a jovem fez sua primeira doação. “Desde então, vou ao banco de sangue a cada quatro meses, respeitando o intervalo indicado pelos médicos. Saber que, com um gesto simples, estou fazendo o bem ao próximo é uma sensação de realização inexplicável”, revela. Ao concluir a graduação em Enfermagem, Andressa estreitou a relação com a área da saúde e tem utilizado o conhecimento adquirido para atrair ainda mais adeptos para essa nobre causa.
Ricardo Capretz também é enfermeiro e doador. Porém, diferentemente de Andressa, não teve uma motivação específica para tomar essa atitude. “Foi uma decisão natural, espontânea. É algo que todo mundo deveria fazer. Não sabemos como será amanhã. Um dia, a situação talvez se inverta e, em vez de ajudar, eu seja ajudado. Temos que fazer pelo outro o que gostaríamos que fizessem por nós. Devemos despertar a consciência e assumir essa responsabilidade perante a sociedade”, afirma. Segundo Ricardo, o processo de captação é feito em poucos minutos. “A doação é muito rápida. Não atrapalha a rotina e nem prejudica a saúde. São retirados, aproximadamente, 450 ml de sangue. Uma ação tão básica, porém tão essencial para quem está contando com esse apoio”, enfatiza o enfermeiro.
Infelizmente, é difícil encontrar pessoas com o esclarecimento, a disponibilidade e o comprometimento de Andressa e de Ricardo. No Banco de Sangue Ribeirão Preto, gerido pelo Grupo GSH, o déficit no estoque atual gira em torno de 34%. “Abastecemos quatro hospitais em Ribeirão Preto e alguns na região. Para suprir a demanda adequadamente, precisamos de 1.000 doadores por mês. Raramente atingimos essa meta. Em 2015, recebemos uma média de 840 doações mensais”, explica Vinícius de Queiróz Medeiros Garcia, supervisor de captação de doadores desde 2007. Os números são preocupantes, já que, quando o tratamento exige transfusão, a necessidade é imediata. “Em alguns momentos do ano passado, tivemos que remarcar cirurgias que não eram urgentes e adiar atendimentos porque estávamos sem bolsas de sangue disponíveis”, recorda Vinícius. Para piorar a situação, dezembro e janeiro costumam ser meses de poucas doações. A queda varia entre 20% e 40%.
Ciente da carência de doadores regulares, Glauberto Bukcland Queiroz Maciel decidiu fazer sua parte para mudar o cenário. Mesmo morando em Sertãozinho e lidando com uma série de limitações decorrentes de um acidente doméstico, o funileiro aposentado não falta ao compromisso que assumiu com o Banco de Sangue. “Caí do telhado da casa de um sobrinho ao encostar em um fio de alta tensão e receber um choque. Fiquei dois meses na UTI, enfrentei uma cirurgia complexa, perdi 90% da visão nos dois olhos e precisei de uma transfusão de sangue. Minha família e amigos se mobilizaram, montando uma rede de solidariedade fundamental na minha recuperação”, comenta. Glauberto já era doador, mas ficou ainda mais envolvido com a causa após o episódio. “Foi a maneira que encontrei de retribuir a graça alcançada. Deus nos disse que fazer o bem ao semelhante é um dever. Como sou evangélico, sigo esses ensinamentos no meu dia a dia. Ajudar a salvar vidas é incrivelmente gratificante”, finaliza o doador.
A segurança no procedimento
No decorrer dos anos, os procedimentos de captação e de transfusão passaram por inúmeros aprimoramentos para garantir a segurança de quem doa e de quem recebe o sangue. O primeiro passo é uma entrevista de triagem, em que o voluntário responde a um breve questionário. “A sinceridade é imprescindível. Qualquer omissão, mesmo que de pequenos detalhes, pode ser bastante prejudicial”, enfatiza Vinícius. A coleta é feita por profissionais qualificados e todo o material utilizado é estéril, descartável e individual. O sangue recolhido é submetido a uma bateria de exames de última geração, tanto para a determinação do grupo sanguíneo ABO e RH quanto para detectar a presença de agentes infecciosos, como HIV 1 e 2, Hepatites B e C, Doença de Chagas, Sífilis, HTLV 1 e 2. “Mesmo existindo a possibilidade, atualmente, é muito rara a transmissão de doenças por transfusão sanguínea”, completa o supervisor. Após uma semana, o Cartão do Doador, com o tipo de sangue e os resultados dos exames fica disponível para a retirada no Banco de Sangue.
Vale lembrar:
Mulheres podem doar até três vezes ao ano, com intervalo de 90 dias. Para os homens, o número de doações ao ano sobe para quatro e o período de descanso cai para 60 dias. O procedimento leva em torno de 30 minutos. O tempo da coleta, em si, varia entre 5 e 10 minutos. Uma bolsa de 450 ml pode beneficiar até três pessoas. O volume de sangue coletado é quase totalmente reposto em 24 horas. A doação não engrossa nem afina o sangue. Quem doou uma vez não é obrigado a doar novamente. O ato deve ser altruísta e voluntário.
Um gesto de amor
É assim que Arlete Regina de Oliveira Duran define o ato de doar sangue. Mãe de Théo, que apresenta um quadro de paralisia cerebral, ela recorreu ao banco por duas vezes e, em ambas, foi prontamente atendida. “Há algum tempo, o Théo foi internado com pneumonia e teve que fazer uma transfusão. Divulgamos campanhas de incentivo à doação e várias pessoas se dispuseram a realizar esse gesto de amor. Depois que ele foi liberado, busquei tratamentos de ponta na China e nos Estados Unidos. Não desisto do meu filho. Quero oferecer acesso ao que existe de melhor no mundo. A esperança de que ele melhore está sempre viva dentro de mim. Damos passos de formiguinha, porém, estamos caminhando”, afirma. No dia 30 de setembro, Théo, hoje com dez anos, enfrentou sete horas de cirurgia por causa de uma luxação no quadril e, novamente, precisou dessa dose de solidariedade. “Ele perdeu muito sangue e os médicos tiveram que repor. Ter as bolsas em estoque, naquele exato momento, foi um fator determinante para salvar a vida do meu filho. Por isso, só posso agradecer a esses verdadeiros heróis, que vão aos bancos voluntariamente e, sem receber nada em troca, doam algo tão precioso para a sobrevivência do ser humano. Espero que essa atitude nobre dos doadores se torne um exemplo e que seja contagiante”, opina Arlete.
O que é preciso para doar
• Ter entre 16 e 69 anos (menores de idade precisam de autorização e da presença dos pais)
• Se for a primeira doação, a pessoa pode ter, no máximo, 60 anos
• Estar em boas condições de saúde
• Pesar no mínimo 50kg
• Não ter contraído hepatite após os 11 anos
• Não ter feito uso de bebidas alcoólicas nas últimas 12 horas
• Não é preciso estar em jejum. Porém, após o almoço ou a ingestão de alimentos gordurosos, o doador deve aguardar três horas para se submeter ao procedimento
• Apresentar um documento oficial com foto (RG ou CNH)
• Se fez tatuagem ou piercing, aguardar 12 meses
• Se passou por uma endoscopia, aguardar 6 meses
Postos de coleta:
Banco de Sangue do Grupo GSH
Onde: Rua Quintino Bocaiúva, 895 (atrás do Hospital São Lucas)
Tel.: (16) 3610.1515
Funcionamento: de segunda a sábado, das 7h às 18h
Hemac
Onde: Rua Garibaldi,
1280, 1º andar
Tels.: (16) 3610.1211 e 2138.3298
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 7h às 17h. Fins de semana: das 7h às 11h (consultar esquema de plantão)
Hemocentro – RP (centro)
Onde: Rua Quintino
Bocaíuva, 470
Tels.: (16) 3610.8929 e 3610.5822
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h30. Sábados: fechado. Domingos, das 7h às 12h30
Hemocentro – RP (campus)
Onde: Rua Tenente
Catão Roxo, 2501
Tels.: (16) 2101.9300
e 0800.979.6049
Funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 7h às 13h. Sábados e domingos, das 7h às 12h30
Texto: Paula Zuliani
Fotos: Julio Sian