Uma aula de conhecimento

Uma aula de conhecimento

Golfeto e Amini Boianain Hauy conversam sobre os tempos da escola e a língua portuguesa

Ela é graduada, pós-graduada, mestra e doutora em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, onde também foi professora. Passou pelo ensino ginasial e colegial de Ribeirão Preto, onde marcou a vida de diversos alunos da Escola Estadual Professora Eugênia Vilhena de Moraes e da Escola Estadual Otoniel Mota. Tem parte de sua história ligada à Academia da Força Aérea (AFA), onde também lecionou Língua Portuguesa, e ao Centro Universitário Moura Lacerda e Barão de Mauá, como professora titular da mesma disciplina.

Com diversas obras didáticas publicadas, Amini Boainain Hauy, que é membro da Academia Ribeirãopretana de Letras e da Academia Ribeirão-pretana de Educação, está prestes a lançar dois livros, um como coautora, “A História da Língua Portuguesa”, e outro, como pesquisadora, “Gramática da Língua Portuguesa Padrão”. A experiência dentro e fora das salas de aula rendeu à professora diversos títulos e homenagens, mas, segundo Amini, é a gratidão e a memória dos seus ex-alunos, que trazem a garantia de ter feito um bom trabalho.


Golfeto: Por que escolheu ser professora?
Amini: Acho que a escolha da carreira depende muito do professor, que funciona como um exemplo. Inicialmente, eu tinha muita admiração pela professora de latim, Silvia Valada Roselino, depois pela de francês, que se chamava Edith. O tipo de aula e a postura da professora são elementos muito importantes. Já na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo, na capital, tive bons exemplos também. Lá fiz graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado. Ingressei como professora em Pontal e Cravinhos antes de vir dar aulas em Ribeirão Preto. Passei pela Escola Estadual Eugênia Vilhena de Moraes e me aposentei no Otoniel Motta. Quando terminei o doutorado, o professor Segismundo Spina, titular de Língua Portuguesa da USP, convidou-me para ser sua assistente e lá fui eu. Morava em Ribeirão Preto e viajava a São Paulo às segundas e quartas. Aqui tinha meus filhos pequenos e eu contava com minha mãe, que morava comigo. Enquanto isso, dava aulas no colegial. Mas, depois de alguns anos, quando era necessário que eu me dedicasse exclusivamente à faculdade, não tive condições de levar a família para São Paulo. Então pedi demissão, apesar de faltar pouco tempo para aposentar.

G: Sua carreira seguiu em Ribeirão Preto?
A: Sim. Depois de dois anos, fiz concurso para a Academia da Força Aérea (AFA) e passei em primeiro lugar. Esse foi o auge da minha carreira. Ali, onde até hoje tenho grandes amigos, acho que me realizei plenamente ao ver tanta disciplina, ordem e respeito. Em 2005, inclusive, recebi o título Amigo da AFA, que muito me honrou, e o Diploma de Graduado Efetivo da Ordem de Cátedra, em 2011.

G: Que outros pontos altos a senhora destacaria nessa trajetória?
A: As homenagens que recebi me deram muita alegria, assim como o convite para dar aulas na USP, especialmente pelo sacrifício que eu havia feito para concluir todas as especializações, mesmo morando em outra cidade. Mas o que me enche de orgulho é o depoimento de ex-alunos. Há alguns anos, fiquei emocionada ao encontrar um aluno dos tempos de ginásio e colegial que, à época, era gago. Todos os sábados, pedia que os alunos apresentassem suas redações, desenvolvidas durante a semana,  no estrado e em voz alta, diante da turma. Dessa forma, eles aprendiam a enfrentar a classe e perdiam a timidez. Mas esse aluno passou muitos anos sendo ridicularizado pela classe por ser gago, ocasião que eu aproveitava para dar uma lição a todos. Mesmo assim, forçava a leitura e ele sofria muito. Nesse encontro recente, confessou-me que, naquela época, tinha raiva de mim por isso, mas me agradeceu porque a gagueira foi embora junto com a timidez.

G: Também passei por isso. Quando somos mais novos, realmente ir à frente incomoda.
A: Mas eu sabia o objetivo daquela atitude: era desinibir, perder o medo da plateia, enfrentar a classe. A prova disso foi o rapaz que perdeu a gagueira e se tornou, inclusive, um alto executivo.


G: Quais as características imprescindíveis para um bom professor? Os mestres de hoje em dia são diferentes de antigamente?
A: Acredito que um professor deva ter empatia e vocação. Mas o segredo mesmo é gostar do aluno, ter amor por ele. Não apenas pelo ser humano em si, mas também pelo que se pode fazer por ele, educando-o para a vida. O que muitas vezes acontece é que o professor, quando não tem segurança na matéria, passa a ter medo do aluno. E os estudantes atuais são mais críticos, inteligentes, desenvolvidos e conectados. Por isso, o professor precisa ter muito mais segurança. Ele deve responder às dúvidas dos seus alunos e, quando não sabe, buscar essa informação, sem constrangimento.

G: A escolha profissional também está relacionada ao seu gosto pelos livros?
A: Quando eu cursava graduação na USP, despertei para a literatura. Sou especialista em gramática, tenho muitos trabalhos nessa área, mas aquilo de que eu gosto mesmo é a literatura. Na pós-graduação, fiz um trabalho de literatura para a Nelly Novaes Coelho, considerada uma das grandes críticas de literatura. Para ela, fiz a análise da obra “O Jogo da Cabra-cega”, de José Régio. Quando apresentei a monografia, ela disse que eu estava inventando um outro romance. Eu defendia a presença da teoria de Freud naquela obra, escrita no auge da teoria psicanalítica. Mas Nelly me devolveu o trabalho dizendo que eu o refizesse. Li os 10 volumes de Freud e provei, com demonstrativos e comparações, que minha teoria estava correta. Depois disso, ela disse que eu havia feito o primeiro trabalho de cunho psicanalítico em literatura. O trabalho, então, foi publicado na revista da Faculdade, fiquei muito feliz com isso e me entusiasmei pela literatura. Tive, ainda, outros bons professores, como Antônio Soares Amora e Massaud Moisés, dois ídolos da minha vida de estudante universitária. Eles me incentivaram muito no campo da literatura. Foi a convite do professor Amora que trabalhei no Instituto de Estudos Portugueses, onde fiz um trabalho sobre Graça Aranha.


G: A senhora ficou na esquina entre a gramática e a paixão pela literatura?
A: O que definiu o caminho que eu seguiria foi a oportunidade. Meu falecido marido foi convidado a dar aulas de matemática no Centro Universitário Barão de Mauá, onde permaneceu por pouco tempo. Nesse período, ele me indicou a Nicolau Spinelli para uma vaga como professora de línguas, e lá fui eu. Inicialmente, queria seguir com a literatura, mas quando me pus numa sala de aulas para ensinar gramática, passei a estudar. Foi então que busquei o curso de pós-graduação em Filologia e Língua Portuguesa. Usei todo o meu estudo para melhorar como professora.

G: Este foi um caminho sem volta?
A: Segui estudando até a conclusão do mestrado. Comecei a dar cursos de especialização no Centro Universitário Barão de Mauá, função a que me dediquei por 15 anos. Esses cursos eram anuais e aconteciam todos os sábados. Eu lecionava das 8h às 16h, com um breve intervalo para o almoço. Para essa aula, eu estudava a semana inteira. Consultava uma pilha de gramáticas sobre o tema do próximo sábado antes de enfrentar os professores. Esse longo período de estudos me mostrou que, na verdade, a teoria gramatical do português é um caos.

G: Ainda acredita nisso?
A: Acho que não evoluímos muito nesse sentido. No doutorado, fiz uma tese baseada no manuseio dos livros que utilizava para preparar as aulas de especialização. Notava que havia casos em que era possível encontrar cinco respostas certas para uma questão do vestibular, tamanha a diferença entre as definições encontradas. Com aquele material, seria capaz de impugnar qualquer prova de gramática. Partindo de 50 ou 60 trabalhos publicados no Brasil e usados em cursinhos, escolas e concursos, constatei que havia injustiça nos concursos. Considerando a diversidade de conceituação e de análise, tornava-se arbitrário qualquer julgamento. A minha proposta era, a exemplo dos países desenvolvidos, que se convocassem especialistas na matéria para se chegar a um consenso e criar uma gramática padrão para fins didáticos.

G: Essa tese saiu do universo acadêmico?
A: Sim, chegou a se tornar um Projeto de Lei aprovado por unanimidade na Câmara dos Deputados no início da década de 80, mas o projeto ficou esquecido e acabou tendo seu lugar tomado. Também na década de 80, Antonio Houaiss pediu a interferência de Austregésilo de Ataíde, então presidente da Academia Brasileira de Letras, junto ao presidente José Sarney. A ideia era convocar representantes dos países que falam português para a composição de uma reforma ortográfica. Na ocasião, até pensei que a movimentação que acompanhei nos noticiários estava ligada ao projeto baseado na minha tese de doutoramento, mas não era, era a do Houaiss.

G: Sendo uma especialista em gramática, como a senhora analisa a consideração da linguagem informal nas salas de aula?
A: Eu me bato muito pela norma culta. Linguagem popular deve ser reservada para as ocasiões informais. Nas escolas, deve ser ensinada a norma culta da língua. Cada idioma tem vários níveis, como a gíria, a linguagem técnica, médica, etc. Cada uma delas tem um papel e deve ser utilizada adequadamente. Mas é importante conhecer a norma culta da língua. Se uma lei, por exemplo, é mal redigida, permite que um bom advogado faça miséria com ela. Um “que” ou uma vírgula mal utilizada muda o sentido da lei, distorce seu significado. Claro que, em um romance, não dá para condenar um escritor que utiliza um tipo de linguagem para dar vida aos seus personagens.


G: O ensino da gramática mudou?
A: Antigamente, ensinávamos a matéria pela matéria. Hoje, a gramática é ensinada para o texto, como deve ser. Estuda-se gramática atualmente para escrever e interpretar bem um texto, não mais de forma isolada, conceitual. Mas não se pode exagerar. Não é possível interpretar sem conhecer a gramática, pois esta matéria dá os recursos necessários para a interpretação. A semântica muda por causa da gramática.

G: E a reforma ortográfica?
A: Fiz um trabalho, ainda inédito, de acordo com o Formulário Ortográfico de 1943, que regia a língua até a década de 1990, quando um novo formulário foi adotado. As novidades entrariam em vigor obrigatoriamente e, por isso, refiz todo o trabalho, não apenas o capítulo da ortografia. Mas sua aplicação ao idioma foi adiada. Mais uma vez, em 28 de dezembro de 2012, a presidente Dilma Rousseff assinou um decreto postergando para 2016 a obrigatoriedade de implementação da reforma. Precisei, novamente, refazer a Gramática da Língua Portuguesa Padrão, que será lançada em breve pela Edusp. Desta vez, quando eu afirmava categoricamente que a vigência atual era a de 90, tive que reformular que estão valendo as duas, isto é, a de 1943 e a de 1990.

G: De que forma as mudanças na ortografia alteram a gramática?
A: A teoria gramatical não mudou, mas as regras de acentuação mudaram, assim como o emprego do hífen e o trema, entre outros. Na minha opinião, o hífen foi a maior aberração criada pela reforma. As mudanças propostas alteram o aspecto gráfico das palavras. Veja, por exemplo, a grafia de “corréu”. Acredito que tirar o hífen é um crime em diversos casos. Além disso, ficou impossível encontrar coerência nas novas regras. Pôr do sol, por exemplo, perdeu seu hífen original. No entanto, para mim existe uma diferença clara entre essa composição com hífen e a de sem. No primeiro caso, trata-se de uma cena estática, o pôr-do-sol. Já no segundo caso, refere-se a um movimento, em que o sol está indo em direção ao poente. Essa riqueza se perde com as novas regras de ortografia.

G: A senhora acha que a reforma foi um equívoco?
A: Ela foi completamente mal formulada. Do ponto de vista teórico, houve uma agressão às regras anteriores. Sufixação com hífen, por exemplo, mencionado na reforma, não existe na língua portuguesa. Felizmente é uma derivação sufixal. Esse tipo de formação nunca teve hífen e, mesmo assim, o texto da reforma afirma que o hífen cairia, o que não é verdade. O texto da exposição do acordo traz uma série de incoerências até mesmo na definição das alterações, que contradizem a própria gramática. Mais do que isso, falta clareza, concisão e coerência.

G: Como avalia a relação do brasileiro com a sua língua?
A: No Brasil, com a vastidão territorial e a variedade de povos que compõem o nosso povo, é difícil manter uma unidade em relação ao idioma. Além disso, tem as questões ligadas à educação, que é muito fraca. O inglês, por exemplo, não se alterou consideravelmente desde Shakespeare, não passou por reformas. Eles cultuam o idioma como um patrimônio importante. Mas a história e a cultura brasileira fazem a diferença para nós. Portugal não aderiu e não deve aderir à reforma. Já o Brasil investiu milhões nessa mudança, ao invés de colocar esse dinheiro na saúde ou na educação. Não acredito que essa tenha sido uma época oportuna para reformas dessa natureza.

G: Se Shakespeare pode ser considerado a maior referência para o idioma inglês, quem seria um ícone para o português?
A: No caso do Brasil, acredito que seja Machado de Assis, especialmente na prosa. Para segmentar, Padre Vieira pode ser considerado uma referência na oratória e Fernando Pessoa, na poesia, é incomparável. Eu costumo dizer que o Fernando Pessoa é o autor que apresenta mais recursos sintáticos semânticos da língua portuguesa. Ele tem construções e estruturas que nenhuma gramática prevê.



Ao mestre, com carinho
“A professora Amini, em 1.959, foi substituir veterana e eficiente mestra de português. A sala era muito exigente apesar de a idade média dos alunos oscilar ao redor dos 15 anos. Pois bem, Amini manteve o nível de aula da professora licenciada, o que nos impressionou muito. De início, demostrou estar numa  esquina entre as literaturas brasileira e portuguesa e a gramática. Ela nos transmitiu, talvez sem querer, essa dúvida. Que nós metabolizamos em prazer de conhecer literatura – brasileira e portuguesa – e gramática. Duplo sucesso.”Vicente Golfeto, professor

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