Uma Babel contemporânea

Entenda de que maneira estão organizadas as gerações contemporâneas e suas particularidades

As mudanças cada vez mais rápidas entre uma geração e outra, que resultam no surgimento de novas linguagens em todas as áreas a todo instante, exigem a busca constante pelo equilíbrio e pela convivência saudável entre pessoas de todas as gerações.

O avô não entende o linguajar do neto. O pensamento do irmão mais velho já não se parece em nada com o do caçula. Entre pais e filhos, o entendimento é comprometido pela rápida mudança de hábitos. Essa é a realidade de todas as famílias contemporâneas, que precisam desvendar a fórmula ideal para estabelecer uma convivência sadia e produtiva, apesar das diferenças. Este é o segredo da boa convivência entre diversas gerações, que atualmente vivem mudanças a uma velocidade inédita.

Se antigamente era simples definir cada geração — os filhos sucediam seus pais cronologicamente, considerando um período aproximado de 25 anos para cada ciclo —, hoje já não é mais assim. Nos últimos 50 anos, o desenvolvimento tecnológico e a rotina cada dia mais apressada resultou em mudanças mais frequentes nos costumes e no comportamento de cada um. Essa velocidade acelerou também o relógio que determina a virada de cada geração, que já pode ser redefinida a cada nova década.

Segundo Silas Nogueira, mestre em sociologia pela Unesp e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, geração é um termo aberto e simplificador. “Talvez por isso seu uso carregue forte dose de abstração e, até mesmo, de confusão. Aquilo que é definido como ‘uma geração’, mais esconde do que revela uma população ou um aspecto da sociedade. Expressões como, por exemplo, ‘a geração dos anos 1960’, não traduzem com clareza a qual segmento de uma população se está referindo. Geralmente, esse termo é associado a outro conceito complexo, de ‘juventude’, que também carece de complementos para o entendimento”, conceitua o professor. Assim, quando se adota a expressão “geração isso ou aquilo”, geralmente as referências são os segmentos das classes médias altas ou médias que, por alguma razão, ganharam destaque em um período histórico.

Cada fase da história, por sua vez, é marcada por acontecimentos ou transformações sociais que, muitas vezes, são protagonizadas por parcelas da população que se tornam uma verdadeira “marca” daquele período. Entre os exemplos mais conhecidos no Brasil e no mundo estão os “Anos 60”,  quando as mudanças comportamentais e culturais sacudiram boa parte da sociedade ocidental, em particular, os EUA e a parte ocidental da Europa. A contracultura, as lutas estudantis, o movimento hippie, a eclosão do rock e as guerrilhas na América Latina integram a lista de “revoluções” ocorridas na década de 1960. “No entanto, nem toda a população, nem mesmo toda juventude mundial, passou ou se envolveu com algum aspecto dessas mudanças. No Brasil, por exemplo, o movimento hippie foi insipiente, a guerrilha envolveu grupos muito seletos de estudantes e operários urbanos. Claro que influências generalizadas ocorreram, mas a essência dessas mudanças e propostas políticas não foi vivenciada por toda uma ‘geração’”, explica Silas.

O sociólogo complementa que o uso do termo “geração” a partir de sua origem etimológica — referindo-se a pessoas “geradas” em um determinado período histórico — ainda é comum. “Portanto, os dois raciocínios estão corretos, tanto o cronológico quanto o histórico”, avalia. No segundo caso, a definição independe de idades e de classes sociais, apenas se preocupa em designar um comportamento, como “geração informática” ou “geração facebook”, de forma mais pejorativa.

O professor e coordenador de Comunicação da Unaerp, João de Assis Soares, acrescenta que o termo se refere a um conjunto de indivíduos nascidos em um mesmo tempo, que detém uma experiência em comum. “A geração também pode ser entendida na base de um movimento cultural ou de consumo que emergiu em uma sociedade. Entretanto, uma pessoa que nasceu em uma determinada época pode, sim, ter influências e características de outra geração. Um fator não anula o outro”, esclarece o profissional.

Os Baby Boomers são exemplos clássicos de como um acontecimento influencia uma época. As crianças que nasceram logo depois da Segunda Guerra Mundial receberam esta denominação por conta da alta taxa de natalidade registrada. Isso porque os soldados americanos e europeus voltaram para casa e começaram a ter filhos. “Assim, as famílias cresceram aceleradamente e foram criadas de uma determinada forma. Esses homens que vivenciaram a guerra ensinaram seus herdeiros a importância de lutar por uma vida mais segura, com um trabalho fixo, por exemplo. Surgiram, assim, profissionais focados na construção de uma carreira sólida, não raramente em uma única empresa. Esse comportamento prevaleceu entre as pessoas nascidas entre 1945 e 1965”, explica o profissional.

Representante desse período, Walter de Paula, de 69 anos, começou a trabalhar no Centro Universitário Barão de Mauá aos 22. Os primeiros passos foram dados como técnico contábil, mas com muita paciência e perseverança, conseguiu se formar em Direito. Na mesma empresa, foi diretor da secretaria, diretor acadêmico e reitor por dois anos. O baby boomer não se imagina trabalhando em outro lugar. Para ele, a Barão é uma extensão de casa. “Sempre estive muito envolvido com o lugar onde trabalho: se os negócios iam bem, eu ficava feliz; se não iam, eu ficava mal”, lembra o advogado, que ainda presta assessoria para o mesmo grupo.

A geração de Walter também foi aquela que começou a crescer em frente a TV. Foi nessa época, também, que a juventude começou a expor suas ideias e que o “American Way of Life” espalhou-se pelo mundo. “Minha mãe tinha uma única preocupação: que seus filhos tivessem um bom emprego, pudessem se manter e conseguissem, devagar, uma boa posição profissional, acompanhada de algum reconhecimento”, complementa Walter, que procura se manter atualizado em relação às novas tecnologias e adora conviver com as outras gerações.

Formada pelos filhos dos Baby Boomers, a geração X já nasceu com mais liberdade e independência. Foi nesse ambiente que Caio Aguilar Fernandes viveu a juventude, sempre em contato com o rock e com a Música Popular Brasileira “alternativa”. “Ter ouvido o ‘Fruto Proibido’, da Rita Lee, aos nove anos, KISS aos 12 e ter visto o show de Itamar Assumpção, no Teatro Municipal, em 1982, são fatos que carrego até hoje comigo”, recorda o professor universitário. Para Caio, lidar com diferentes gerações não é problema, pois ele convive diariamente com estudantes e colegas de diversas épocas. “Acho que a juventude é um momento muito rico e envelhecer bem é uma das maiores dádivas que alguém pode receber ou conquistar”, conta o professor.

Dos movimentos surgidos em sua época, Caio destaca os hippies. “O movimento foi uma grande referência para a minha geração. A partir dele, questões comportamentais e culturais ganharam mais peso e passaram a ser olhadas com importância semelhante, por exemplo, a questões econômicas. Nesse sentido, para mim, o direito à manifestação pública de afeto entre pessoas de qualquer orientação sexual é tão importante quanto o controle da inflação”, destaca o professor. Caio também se posicionou politicamente: quando o ex-presidente Collor pediu que o povo fosse às ruas vestindo verde e amarelo, ele e os amigos optaram pelo preto.

Filhos da Internet

Apesar de ter apenas 25 anos, Arthur Figueiredo Elias já é dono da sua própria empresa. Este é um comportamento típico da Geração Y, que encara a vida e o mercado de trabalho de maneira própria. Os jovens nascidos entre 1977 e 2000 anseiam ter seus próprios negócios e se tornarem donos do próprio tempo. Foi o mesmo desejo que motivou Arthur, que queria manter uma relação com o trabalho diferente do que via nos pais. “O pensamento de fazer carreira ou de prestar concurso público era comum na família, mas não fazia tanto sentido para mim. Acredito que minha geração está disposta a mudar este processo, desconstruir paradigmas e desenvolver novos modelos de negócio”, declara. Em busca de novidades, ele e o sócio Daniel Abud, integrante da mesma geração, fundaram o Quero 2, um site de compras coletivas que lida com clientes de 20 até 60 anos.

O jovem empresário admite que a internet é indispensável no seu dia a dia. “Utilizamos a web para os negócios, para consumir informações, para fazer novos contatos e trocar experiência. Somos a geração que mais acessa a rede, seja através do computador ou por meio de smartphones ou tablets. Apesar disso, ainda tenho na memória os tempos de internet discada e a chegada do aparelho celular, aquele telefone sem fio gigante que funcionava precariamente e não era nada popular”, relembra. Aos poucos, a geração Y está provocando uma revolução silenciosa. Sem as bandeiras e o estardalhaço comuns nos anos 60 e 70, mas com a mesma força poderosa de mudança, os jovens de hoje sabem que as normas do passado já não funcionam. Assim, é preciso criar novos mecanismos.

Esses passos vêm sendo seguidos de perto pela nova geração, denominada Z. A garotada nascida nos anos 2000 não conheceu o mundo sem computador, bate-papo on-line e celular. Por isso, são menos deslumbrados do que a época anterior. Sofia Nascimento Rossi faz parte desse grupo que já cresceu em um ritmo diferente e não tem dificuldade nenhuma em assistir televisão, ouvir rádio, navegar na internet e falar ao telefone ao mesmo tempo. “É a era dos 144 caracteres, da vida em fases, dos games. A nova geração, interessada em desafios e reconhecimento, é ansiosa, quer tudo para ontem e está conectada 24 horas por dia”, complementa João de Assis.

Mas a tecnologia não é o único interesse dessa moçada. “A gente cuida do meio ambiente e da saúde. Quando vejo lixo na rua, sempre recolho. Na escola, aprendemos que é importante se conscientizar”, declara Sofia, de dez anos.

Um pouco de cada

É importante ressaltar, entretanto, que a juventude não se reinventa totalmente a cada geração. “Todas trazem heranças e características das gerações anteriores, sobre as quais constroem novas formas, novas experiências e visões de mundo. Ou seja, o que é novo, ou considerado novo, nasce do passado, da cultura e de seus conflitos”, declara Silas Nogueira. Para  o mais velho da turma, Walter, evoluir é preciso, assim como o professor Caio. “Com as gerações mais jovens, tenho aprendido que é possível se relacionar com o universo de trabalho de forma mais criativa, sem abrir mão da diversão, da qualidade de vida e dos cuidados com o meio ambiente”, complementa. Mesmo sendo dono do próprio negócio, Arthur assume que ainda é influenciado pela geração X. “Até pouco tempo, imaginava que não poderia ter sucesso profissional sem uma longa e sólida carreira. Apesar de ter me tornado empreendedor, preciso de funcionários deste perfil no meu negócio”, conclui.


Texto: Mariana Secaf | Fotos: Ibraim Leão e Julio Sian | Arte: Marcelo Mantovani | Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido | Agradecimentos: Estúdios Kaiser de Cinema

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