Uma conversa sobre a sétima arte
Em entrevista concedida a Felipe Barbosa, o documentarista Hossame Nakamura conta sobre o processo de desenvolvimento do seu trabalho, além de avaliar algumas obras nacionais e estrangeiras
Um gosta de Quentin Tarantino e Martin Scorsese. Tem uma coleção em casa de mais de mil filmes, com 40 ou 50 documentários. O outro não tem senso de humor para comédia. O máximo que assiste do gênero é Wood Allen. Sua preferência é pelos documentários.
O primeiro é Felipe Barbosa, gerente de marketing do Shopping Iguatemi Ribeirão Preto, um apreciador e incentivador das artes nas suas mais diversas manifestações. O outro é Hossame Nakamura, que de jornalista e cinegrafista se transformou também em documentarista com obras premiadas.
No seu portfólio, estão filmes como “Hanko”, premiado na V Mostra de Vídeos do Interior de São Paulo e no Festival de Cinema Brasil-Japão 100 Plus 20, “Todas dimensões de Bassano Vaccarini” e “Blues everyday”, selecionado para a edição de 2010 do In-Edit-Brasil, o Festival Internacional do Documentário Musical. Na entrevista a seguir, essas obras são abordadas junto com o processo criativo do autor, suas aspirações e inspirações.
Felipe: “Hanko” e “Todas dimensões de Bassano Vaccarini” são totalmente distintos. Como escolhe o tema para um documentário e de que forma surge toda a concepção de um projeto desses?
Hossame: Isso parte de uma pré-disposição minha porque trabalho com vídeos institucionais, de arte, de música, entre outros. O documentário acaba surgindo como a própria linguagem dele, de forma espontânea. Sou descendente de japoneses e, na época em que abri a minha empresa de vídeo, estava sendo comemorado o ano da imigração japonesa no Brasil. Por mais coincidência ainda, estava na terra onde tudo começou: Ribeirão Preto. Naquele momento, era uma história pouco explorada e eu me senti quase na obrigação de, sendo de certa forma um “historiador”, dar a minha colaboração. Quanto ao Bassano Vaccarini, conheci um pouco do trabalho do artista na época da faculdade. Já havia feito um ensaio fotográfico dele, bem velhinho, e guardado aquelas fotos. Anos mais tarde, tive a oportunidade de desenvolver um trabalho que trouxesse mais informações a respeito dele, um artista que colaborou muito com a cidade e ela não sabia disso. O Bassano trouxe grande visibilidade para Ribeirão Preto. Ele expunha na Bienal, era premiado, cenógrafo do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Ele veio para a cidade e deixou um legado na paisagem urbana, além de ter muita história para contar. É aí que eu entro com a mídia documentarista: encontro esses motes e contribuo, de certa forma, com a história da cidade e o desenvolvimento da linguagem. É um trabalho árduo, complicado de ser viabilizado, mas tenho a manha de enxergar um assunto e correr atrás. Depois, surgiram outros temas que desenvolvi paralelamente com o trabalho da minha empresa. Sou um interessado em oferecer informações que não são tratadas pela mídia no dia a dia.
Felipe: De onde surgiu esse interesse por documentários?
Hossame: Eu engrenei nos documentários por conta das próprias reportagens jornalísticas mesmo. Comecei trabalhando como repórter de televisão. Saía para fazer as reportagens e não voltava satisfeito com o que trazia. Sempre achava que a história era maior do que aquilo. Sentindo essa incompletude, fui enveredando para algo mais bem contado, feito com mais calma, mais tempo. Assim, fui me encantando com isso e com uma linha em que acredito muito: a espontaneidade. Para mim, este é o cerne do documentário, que é, aliás, o que diferencia o documentário da ficção. Gosto muito de situações espontâneas e histórias verdadeiras, não no sentido filosófico porque isso gera uma discussão mais ampla, mas daquilo que me motiva, que me comove e que tenha certa visibilidade. Assim é o caso do Bassano, a história da imigração japonesa e do blues em Ribeirão Preto. Fiz também um documentário que conta a história da música sinfônica da cidade. Começa quando Ribeirão Preto era um povoado, mostra a primeira banda, o primeiro maestro e a primeira formação de Orquestra Sinfônica. A narrativa tem ainda a colaboração de bastante gente que vai da academia, passa pelos autores locais e por pessoas importantes da música na cidade.
Felipe: Vejo que a sua linha é muito mais de homenagem do que algo que faça suscitar a reflexão entre prós e contras. É isso mesmo que você busca?
Hossame: O documentário tem esse viés de ser algo mais homenageante, mas também tem uma questão de não torná-lo um álbum de família, que é totalmente parcial. Gosto de produzir numa linha neutra, que seja sincera, espontânea e, inevitavelmente, por mais que você homenageie um personagem, uma história ou um fato, acaba criando uma reflexão acerca daquelas questões todas que são colocadas sobre comportamento, situação histórica, entre outros. No documentário sobre a música sinfônica, por exemplo, tem uma foto que mostra que o primeiro maestro era negro. De repente, as pessoas vão se questionar porque, no meio de tantos descendentes de italianos, espanhóis e portugueses, a principal figura daquela formação musical era um negro. Às vezes, o espectador reflete sobre isso e o documentário não conta. Então, é possível fazer um documentário sobre o outro documentário; dá para retornar àquela história de outras formas. Como eu persigo uma linha espontânea, é sempre mais difícil, pois geralmente há um roteiro a ser seguido e as situações mudam a todo momento. No meu caso, há um universo que se explora, que se pesquisa, e depois aquilo é levado para a montagem e a edição. A minha história é encontrada na ilha de edição. Durante a produção, o roteiro surge durante a montagem mesmo. Pode-se partir para o drama, para o riso ou para a banalização do assunto. É daí que vem a maior responsabilidade do documentarista, porque trabalhamos com coisas que acabam estabelecendo uma verdade.
Felipe: Os últimos documentários que eu vi são bem críticos, desde os filmes do Michael Moore até o “Uma noite em 67”, sobre o Festival de Música Popular da Record, o “Loki – Arnaldo Baptista”, sobre o líder e fundador dos Mutantes. É muito diferente a proposta nacional da estrangeira. Eles são bem parciais e editam para que isso prevaleça. Você também percebe isso? Quem são os documentaristas que você gosta de assistir?
Hossame: A pegada estadunidense é mais “institucionalizante”. Eles criam aquele ambiente e reforçam-no o tempo todo. Eu sou fã do alemão Wim Wenders, que fez “Buena Vista Social Club”, “Tokyo-Ga”, “The soul of a Man”, entre outros. Entre os brasileiros, gosto do Eduardo Coutinho, do João Moreira Salles. Tem um filme chamado “Pan-cinema permanente”, do Carlos Nader, que conta a história do Waly Salomão e é muito bonito. Tem outro que vi, recentemente, também, que inclusive gera dúvida se é documentário ou ficção, sobre o pernambucano Antonio Nobrega; chama-se “Brincante”. São filmes muito bonitos e tenho vários outros para indicar, inclusive adoro essa parte de curadoria e me interesso bastante. Um dia, espero poder fazer a curadoria de algum festival. Tem o In-Edit Brasil, que é muito legal, sobre documentários musicais. Tem muitas pérolas nesse festival e eu já fui selecionado com o documentário “Blues everyday”, mas tenho vontade de fazer uma curadoria mesmo. Às vezes, faço oficinas com o intuito de contar sobre o documentário brasileiro, que começa a consolidar seu estilo com o Cinema Novo, na década de 60.
Felipe: O legal do documentário é isso: você começa um tema e vai se apaixonando por outros similares. Para ser um documentarista é preciso ser um bom historiador?
Hossame: Não necessariamente, senão os historiadores vão reclamar disso e é preciso ter formação para ser um deles. Acredito que é preciso gostar de histórias, de contá-las, de registrá-las, de transformá-las. Faz parte das necessidades do ser humano contar histórias, escutá-las e refazer a sua vida através de histórias. Eu acho que é muito por aí. Gosto de participar, de certa forma, desse processo longo. Então, fazer documentário é importante até para a documentação histórica, mas isso não é o principal; é só mais uma coisa. O objetivo principal é mostrar uma história que eu considere bonita, que me comova.
Felipe: Existe um filme chamado “Peixe grande e suas histórias maravilhosas” que poderia ser um documentário porque a história traz mais para a realidade. Isso tem muito a ver com o que você está dizendo da nossa relação com a contação de histórias. Por que isso é tão importante?
Hossame: A história serve para organizarmos nossas próprias ideias, para nos colocar no mundo e nos contextualizar. Eu descobri isso fazendo. Ficando ali, no processo árduo de horas, dias e meses, tive esse estalo de perceber que estou fazendo alguma coisa que me coloca no mundo. Quando fiz o “Hanko”, eu me descobri muito como pessoa. Tem até o depoimento de uma moça dizendo que ser descendente de japonês é uma relação de amor e ódio. Só entende isso quem é descendente ou japonês. E é exatamente isso porque temos os tabus da cultura, as tradições familiares, ao mesmo tempo em que há questões da organização, da timidez e da própria aparência.
Felipe: Depois que fez esse documentário, mudou alguma coisa para você no que se refere à sua metodologia de trabalho?
Hossame: Aprendi muito sobre mim. Naquele momento, tive a comprovação empírica de vários fatores, o que me reafirmou diante até da minha identidade e daquilo que eu seguiria profissionalmente. Era o meu primeiro trabalho, em 2008. De lá pra cá, já se vão quase dez anos.
Felipe: Quanto tempo você leva para fazer um documentário?
Hossame: Depende se é preciso terminá-lo, se há disponibilidade de tempo, se o assunto está esgotado, se vai haver apenas uma repetição do que já se tem. Um documentário de uma hora, por exemplo, leva em torno de um ano para ser feito, dependendo da intensidade de informação que se coloca no material.
Felipe: Você define antes qual vai ser o início, o meio e o fim? Afinal, por mais que seja um documentário, é uma história que você quer contar.
Hossame: Isso aparece durante a montagem. Às vezes, um depoimento despretensioso vira um belo meio, o clímax da história, um desfecho para finalizá-la ou até mesmo o estopim para começar o roteiro com um “causo”. Depende de ver o material que se tem e organizá-lo. Às vezes, no decorrer do trabalho, é preciso reorganizar tudo. Enfim, é um roteiro que muda o tempo todo. É por isso que falo que o documentário é muito ligado à espontaneidade. Por meio dela, se consegue justificar quase toda a argumentação do filme. Na posição hierárquica, a espontaneidade tem que vir sempre em primeiro lugar. Por isso, é preciso estar sempre pronto para trocar a câmera de lugar, alterar o local de filmagem, mudar o jeito de editar e até, se a sua tese não se confirmar, obrigatoriamente, por ética, é preciso encontrar outra saída.
Felipe: Você pensa em quem vai assistir aos seus documentários.
Hossame: Sim. Acho que só não pensa nisso quem faz filme experimental, instalação, vídeo-arte. Quem se propõe a contar uma história quer que o interlocutor participe também. Então, tem até algumas estratégias que uso esperando que quem esteja assistindo ria. Para isso, torno o momento mais leve. Em outro, é preciso causar um estranhamento. A função do roteiro interessante é dar esse ritmo. Tem que fazer a coisa girar e o que a faz ser ritmada são justamente esses contrapontos.
Felipe: O universo a ser explorado é muito grande. Ribeirão Preto já foi a cidade do café e hoje é da cana, a Sinfônica é um orgulho para os moradores, temos um teatro forte, entre outros assuntos. Você tem projetos em mente?
Hossame: Eu poderia listar uns dez temas para desenvolver sobre Ribeirão Preto, mas isso depende do momento. Há dificuldade de parar e executar um projeto desses porque é preciso convencer muita gente para fazê-lo. É diferente de um trabalho para o qual você é contratado. Porém, tem um que pensei, na minha última ida a São Paulo, quando estive na Pinacoteca. Estava tendo uma exposição modernista e vi que tinham obras assinadas por artistas de Terra Roxa, Jaboticabal, São Simão e Pontal. Fiquei intrigado para saber quem são essas pessoas e anotei os nomes. São artistas importantes das décadas de 20, 30, 40, daqui da região, cidades canavieiras, de gente que trabalha com a cana, pessoas mais simples. Desse meio, surgiram nomes representativos para a arte brasileira. Então, veio a ideia de contar a história desses artistas menos conhecidos. Também pensei em retratar os representantes da arte moderna que foram importantes para Ribeirão Preto e que atuaram praticamente na mesma época do Vaccarini, que são o Leonelo Berti, o Pedro Manuel Gismondi e a Odilla Mestriner. As pessoas até comentavam que era o quarteto moderno de Ribeirão Preto. Porém, não dá para sair do nada e fazer uma história assim. É preciso ter uma predisposição, inclusive financeira.
Felipe: Sua produções são todas independentes?
Hossame: Não encontrei ainda o caminho das pedras. Quero encontrar, mas também não posso ficar sonhando com isso. Por enquanto, faço institucionais com linguagem de documentário. Empresto a forma com que faço meus trabalhos autorais para os materiais dos clientes, com os quais tenho a maior consideração do mundo. As pessoas estão acostumadas com institucionais engessados, publicitários, e, quando se traz humanidade para o vídeo, fica muito mais interessante. Mais uma vez, acredito na espontaneidade. Embora eu não seja espontâneo, afinal, sou bem tímido, busco a espontaneidade nas pessoas.
Felipe: Quando você vai montar a equipe, o que busca? Pensa nos perfis que vai precisar para desenvolver o projeto?
Hossame: Esse é meu futuro. Até hoje, não trabalhei assim. Tem as pessoas que me ajudaram, mas essencialmente sou eu com o meu equipamento pronto para, a qualquer momento, registrar. Planejar essa dinâmica de equipe de reportagem, que inclui a relação do repórter com o cinegrafista, o produtor, o pauteiro, o chefe de reportagem, é muito difícil. Então, tento eliminar esses ruídos. Eu gosto de fazer. Meu equipamento está sempre pronto, com bateria carregada, cartão descarregado, máquina funcionando, microfone em ordem. Se está tudo prontinho, junto com a minha vontade, meu jeito de fazer, tenho meio caminho andado. No entanto, quero que meu futuro seja um pouco diferente, porque isso tudo é bem desgastante.
Felipe: Você tem vontade de buscar leis de incentivo?
Hossame: Tenho, embora não saiba bem o caminho. Fazer documentário, comparado a uma produção de ficção, que envolve cenógrafo, figurinista, entre tantos outros profissionais, não é tão caro. Fazer documentário é um processo muito menos burocrático, menos oneroso. Eu garanto que tenho uma forma de fazer documentário bem barato. Tem também a questão da capitalização do negócio. Tem gente que faz justamente pelo dinheiro, que desenvolve o projeto para lucrar. Eu sou o contrário: tenho o assunto, mas não tenho a manha de gerir. Preciso amadurecer isso. Fico sabendo de alguns filmes caríssimos e vejo que o investimento não está na tela. Se eu tivesse a oportunidade de explorar isso, teria mais energia para trabalhar. Às vezes, pego um documentário despretensioso e detono. Aí, vejo que ele passou a mensagem e penso: esse filme saiu porque eu quis fazer.
Felipe: O Brasil tem tradição em fazer documentários?
Hossame: Tem a questão do olhar. O próprio “Cidade de Deus” é um filme emblemático para o cinema brasileiro. Ele inovou no jeito de fazer, com atores não-atores, o jeito de filmar, a câmera na mão nervosa. Eu até o considero meio documentário por trazer como atores as pessoas de lá mesmo, aquelas falas do coração, tudo muito espontâneo. É um filme lindo. Na minha opinião, é um divisor de águas da produção brasileira. O “Tropa de Elite” é assim também, meio documentário.
Felipe: Qual é o filme que você considera mais interessante?
Hossame: Prefiro falar em diretores. Além dos que já citei, gosto do Stanley Kubrick e do Fernando Meirelles. Tem um documentário que eu gosto muito, que ganhou o Oscar de 2009: “O equilibrista”, do James Marsh, em que o protagonista se equilibra em uma corda bamba estendida entre as torres gêmeas, em Nova York. Na época, eram os prédios mais altos do mundo. É um filme muito bonito e ganhador do Oscar, mas, geralmente, não tenho essa atenção voltada à premiação.
EXEMPLO DE PERSONALIDADE
“Sempre fui apaixonado pela cultura e pela arte. Comecei minha coleção de filmes há algum tempo e, de obra em obra, acabei me deparando com os trabalhos assinados pelo cineasta Hossame Nakamura. Hossame é um exemplo de personalidade em Ribeirão Preto. Traz orgulho para a cidade com seus projetos e trabalhos ricos em detalhes e repletos de possibilidades interpretativas. Muito além de retratar a realidade com o trivial, Hossame é capaz de transpor o ambiente do dia a dia em monumentos artísticos. De cena em cena, seus documentários revelam um universo que, mesmo estando bem diante de nossos olhos, ainda não conseguimos enxergar, mas que, quando o percebemos através das lentes poéticas do cineasta, desvela-se em uma obra que ultrapassa os limites emoldurados pelo cotidiano.”
Felipe Barbosa, gerente de marketing do Shopping Iguatemi Ribeirão Preto