Uma escolha em comum

Uma escolha em comum

A paixão pelo jornalismo esteve presente durante toda entrevista concedida por Claudia Collucci à jornalista Renata Canales; na ocasião, ambas compartilharam a evolução da carreira que escolheram

Renata Canales e de Claudia Collucci têm uma questão em comum: a escolha da profissão. Ambas se ocupam levando informação através do jornalismo e são gratas pelo dom da palavra. Além de jornalista, Renata é mestre em Filosofia da Educação pela UFSCar, coordenadora do curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, do Centro Universitário Barão de Mauá, e possui aproximadamente 30 anos de experiência na área, tendo trabalhado em diversas emissoras de televisão.

De longe, acompanha há anos a trajetória da colega de profissão Claudia Collucci, que se dedica ao jornalismo impresso. Ribeirãopretana, começou a carreira na cidade e, atualmente, escreve sobre saúde para o jornal Folha de S. Paulo, onde começou a trabalhar em 1990. Mestre em História da Ciência pela PUC-SP, Cláudia também foi bolsista em duas universidades americanas —University of Michigan e Georgetown University — onde estudou o impacto das novas tecnologias de saúde e os conflitos de interesses entre médicos e a indústria farmacêutica.

Autora dos livros “Quero Ser Mãe”, pela editora Palavra Mágica, e “Por que a Gravidez Não Vem?”, pela editora Atheneu, manteve, por 12 anos, o blog Quero ser mãe, em que discutia a angústia das mulheres que, por diversos motivos, não conseguem engravidar ou manter a gravidez. O encontro entre as jornalistas aconteceu na Semana de Jornalismo da Barão de Mauá onde, a convite de Renata, Claudia palestrou sobre sua trajetória. Durante a entrevista que antecedeu o bate-papo com os estudantes, ambas conversaram sobre as dores e as delícias da profissão de jornalista.

Renata: Como começou sua trajetória no jornalismo?
Claudia: Sou ribeirãopretana, formada pela Unaerp, em 1989. Desde o primeiro ano de faculdade, tive a sorte de trabalhar na área. Comecei atuando na Rádio Tropical, apesar de nunca ter entrado numa rádio antes. Iniciei nesse universo colhendo depoimentos na fila do INPS, portanto, já lidava com casos de saúde, mas nem imaginava que, depois de tantos anos, voltaria a esse tema. Permaneci na rádio durante seis meses antes de ir para o Jornal Diário, conciliando os dois trabalhos e a faculdade por algum tempo. Em 1990, a Folha criou os projetos regionais e, em outubro do mesmo ano, inaugurou a Folha SP Nordeste. Fiz parte da primeira turma. Comecei como repórter geral, cobrindo, principalmente, a área policial. Depois, passei a editora assistente e, por fim, editora do caderno. Nessa época, estava em uma situação delicada, com dois cadernos, Folha SP Nordeste e Folha Ribeirão, apesar de ter apenas uma equipe, praticamente. Então, pedi demissão da Folha e fui para a EPTV, onde trabalhei durante dois meses como editora. Apesar de ter passado duas vezes pela TV, o que amo fazer é jornalismo impresso. Em 1996, fui convidada por um amigo que havia assumido a diretoria de comunicação da Assembleia Legislativa, em São Paulo, para dirigir a TV, recentemente criada, junto com ele. Depois disso, fui chamada para retornar à Folha, um momento muito importante, pois entrei como chefe de reportagem de cotidiano, em 1997.

Renata: Você construiu uma carreira sólida na Folha de S. Paulo. Como essa construção prosseguiu?
Claudia: Como já havia dito, retornei à Folha em um momento importante e permaneci como chefe de reportagem durante dois anos e meio, quando decidi fazer mestrado. Durante esse período de estudos, tornei-me editora adjunta de treinamento, editoria que cuida do programa de trainee, uma espécie de escola de jornalismo dentro da Folha. Aquela foi uma ótima possibilidade, pois não precisava lidar com a pressão do fechamento e com as outras loucuras do jornalismo diário que impossibilitam o jornalista ter uma vida acadêmica paralela. Foi nesse mesmo período que escrevi meu primeiro livro, “Quero Ser Mãe”, o que, na época, ainda não era uma questão pessoal importante, pois não estava pensando em ter filhos.

Renata: Qual foi o processo que seguiu para o desenvolvimento desse primeiro livro?
Claudia: “Quero Ser Mãe” surgiu por causa do convite de um amigo de Ribeirão Preto. Eu já acompanhava essa área e, quando me chamou, ele comentou que muitas pessoas o procuravam pensando que o problema com a infertilidade era apenas delas. Percebemos que não havia nenhuma obra dedicada a histórias de casais que enfrentaram essa dificuldade. Por isso, topei o convite, pedi licença do jornal e fiquei dois meses viajando o país para entrevistar casais dos mais diversos perfis. Foram 40 histórias, sendo a principal delas a experiência de Fátima Bernardes e William Bonner, que aceitaram contar, pela primeira vez, como foi o tratamento para que eles gerassem os trigêmeos. Essa fase foi sensacional e, assim como os livros seguintes, representou um enorme prazer.

Renata: De que forma ocorreu seu contato com a Fátima Bernardes e o relato inédito sobre o tratamento?
Claudia: A ajuda do Dr. José Gonçalves Franco Jr. foi imprescindível. Médico responsável pelo tratamento do casal, foi ele quem fez a ponte entre nós. Além disso, Fátima entendeu que se tratava de um projeto relevante, nada sensacionalista. Quando fizemos o livro, ainda não precisávamos lidar com as redes sociais, por exemplo. A ex-apresentadora do Jornal Nacional sabia que estava falando para um público específico de pessoas passando pelo mesmo problema que ela, e que conhecer sua experiência poderia ser um alívio para a dor e a ansiedade dessas pessoas. Ela entendeu o objetivo do projeto, que era composto por inúmeras histórias além da sua, que viria a coroar o trabalho.

Renata: Você manteve o blog Quero ser Mãe por 12 anos. Como foi a relação com este público por tanto tempo?
Claudia: Comecei o blog na Folha On-line e depois, acabei migrando para o UOL, com o mesmo nome do livro. O espaço surgiu em um momento em que a infertilidade era um tema tabu — se hoje ainda há um pouco de resistência em relação a isso, imagina naquela época. Lembro que em um dos lançamentos do livro, uma leitora deu três voltas ao redor do estande antes de ter coragem de efetivamente chegar até mim para dizer como foi dura para ela se aproximar, já que havia muitos amigos por perto e ela não queria que ninguém soubesse sobre sua dificuldade para ter filhos. Por isso mesmo tenho o maior orgulho desse blog, justamente pela função que ele cumpriu, por preservar a identidade de quem queria falar sobre o assunto. Também me recordo que, no início, muita gente me pedia para não publicar o nome ou as dúvidas, mas, depois, as pessoas começaram a falar um pouco mais, a encarar com mais naturalidade e a perceber que muitos outros casais passavam pelo mesmo problema. Ter ajudado a desmistificar um pouco esse assunto me torna muito orgulhosa. Além disso, havia a parte médica: tinha muito gato sendo vendido como lebre no cenário da infertilidade. Por exemplo, era importante deixar claro que nem todos conseguiriam engravidar, mesmo com tratamento. Entre outros motivos, o blog foi importante para colocar cada verdade em seu lugar e mostrar que há, acionando todos os recursos possíveis, 30% de chance de engravidar e 70% de não conseguir. A infertilidade exige um tratamento caro, que pode não dar certo. O que chegava à mídia era sempre a história bem-sucedida, mas a angústia dos casais que não conseguiram, que gastaram o suficiente para comprar um apartamento, que realizaram, inclusive, empréstimos bancários, enfim, esse lado sombrio não vinha à tona. No blog, fiz questão de evidenciar esses aspectos também.

Renata: O blog também foi uma maneira de discutir um problema pessoal?
Claudia: A questão se tornou pessoal quando engravidei de forma natural, mas sofri um aborto, por duas vezes seguidas. Depois disso, comecei a passar por outras dificuldades e fiz tratamento. Cheguei a fazer três ciclos de fertilizações, consegui engravidar e perdi novamente. Aquele momento foi meio conflituoso para mim porque comecei com um blog jornalístico, imparcial, mas, no meio do caminho, as experiências me levaram a outros trilhos, outros perfis de postagens. O resultado acabou sendo um blog jornalístico, mas parcialmente pessoal. Obviamente, os posts pessoais passaram a fazer mais sucesso, pois a emoção que transparecem acabam aproximando o autor da dor do outro, atraindo os leitores. Essa característica acabou aumentando o número de acessos e de visualizações significativamente. Essa experiência teve que chegar ao fim, pois, em um dado momento, esta questão foi fechada na minha vida. Assim, já não tinha mais prazer naquela missão, já que tudo que eu tinha para falar, já estava dito. Por outro lado, a saúde foi se tornando um tema cada vez mais interessante. Por isso, há dois anos, resolvi encerrar o blog e começar uma coluna de saúde na Folha.com.

Renata: O mestrado em História da Ciência contribuiu para que você se tornasse repórter especial de Saúde?
Claudia: Antigamente, as matérias sobre saúde eram incorporadas ao caderno de cotidiano. Alguns anos depois, quando eu já estava trabalhando com esse tema na redação, foi criada a página Saúde. Assim, fui promovida a repórter especial, o que me trouxe grandes alegrias, pois, profissionalmente, era exatamente ali que eu queria chegar dentro da Folha. Eu já havia passado por outras experiências como editora, função que não é a que me dá maior prazer — o que me conquista é a reportagem, nessa área especificamente. Quando ganhamos esse espaço diário, foi possível explorar muitos aspectos. Hoje, como repórter especial, transito por várias editorias: faço matérias sobre o mercado de saúde, veiculada na editoria Mercado; desenvolvo reportagens sobre planos de saúde ou políticas de saúde pública, incorporadas ao Cotidiano, entre outras. Posso dizer que a saúde, hoje, está ligada a todas as áreas e, assim, consigo transitar por todo o jornal.

Renata: O tema cresceu em importância na mídia na última década. A que motivos atribui esse maior interesse?
Claudia: As pessoas começaram a se preocupar mais com a própria saúde. Além disso, há duas questões importantes, sendo a primeira delas o fato de que o mercado percebeu que essa área representa um grande filão — não é a toa que saúde, hoje, é a principal preocupação dos brasileiros, de acordo com todas as pesquisas de opinião. O mercado de saúde cresceu no mundo inteiro, nos mais variados aspectos. A segunda questão está relacionada à melhora do poder aquisitivo da população, que levou mais gente a ter acesso aos planos de saúde, fazendo com que o consumo de saúde aumentasse ainda mais, refletindo no interesse da mídia. E o assunto chama muito a atenção. Basta observar que quando as grandes revistas do país levam este tema para a capa, não sobra um exemplar nas bancas.

Renata: As novas tecnologias direcionadas à saúde são permeadas tanto por interesses econômicos, tanto dos laboratórios farmacêuticos quanto da comunidade científica. Como manter a isenção e não cair em armadilhas nesse sentido?
Claudia: Acredito que apenas experiência e conhecimento trazem essa capacidade. As duas especializações que fiz no exterior me proporcionaram um conhecimento ímpar. Quando resolvi analisar o impacto das novas tecnologias em saúde nos países em desenvolvimento, queria saber mais sobre o que estava acontecendo, sobre a saúde que está chegando para nós e entender um pouco mais seu impacto. Em termos de epidemiologia, os Estados Unidos são exemplo; mas, quando se procura algo relacionado à hipertensão ou à obesidade, por exemplo, o que se vê é o caos. Durante minha pesquisa, estudei também conflitos de interesses entre médicos e indústria farmacêutica, relacionamento muito forte no país. Por lá, este mercado é surpreendente.

Renata: Em uma de suas reportagens, você afirma que quase metade dos médicos receita o que os fabricantes indicam. Como a informação jornalística pode ajudar a reverter esse quadro?
Claudia: Vamos avançar muito nessa área, como aconteceu nos Estados Unidos com o projeto ProPublica, um jornalismo independente que possui um recurso sensacional. Minha ideia é conseguir fazer isso aqui no Brasil. Com um projeto como esse, que seria uma espécie de continuação da Lei da Transparência, conseguiríamos ter acesso a muitas informações de interesse público. A ideia seria permitir que apenas consultando o nome do médico se soubesse tudo sobre ele, desde os congressos que ele participou, de onde partiu o convite, até os remédios que ele costuma receitar com frequência, etc. Com base naquela informação, é possível comparar um profissional e outro. Para mim, isso significa dar mais poder ao paciente.

Renata: Hoje em dia, é comum que se publique informações diferentes daquilo que era apregoado anteriormente. Há alimentos que ora fazem bem, ora fazem mal à saúde. Como o jornalista deve lidar com as novas descobertas?
Claudia: Há muitos estudos frágeis. A maioria das pesquisas que envolvem alimentos, é pequena e não faz comparações. Então, do ponto de vista metodológico, são avaliações frágeis, que não trazem uma relação causal, mas associativas. No entanto, muitas vezes, as manchetes focam justamente na mensagem direta, sem comprovação. Já discuti esse assunto várias vezes e sempre tento mostrar essas associações nas matérias. É preciso deixar claro que são necessários outros estudos para se chegar a uma conclusão. Apesar disso, as pessoas adoram ler sobre esse assunto, que atrai muito mais público do que uma reportagem sobre o caos da saúde pública ou sobre outras situações envolvendo políticas de saúde.

Renata: Para encerrar, que dica daria para os jovens que escolheram o jornalismo como profissão?
Claudia: Sejam persistentes, pois o mercado de trabalho está difícil, mas, ao mesmo tempo, ele não para. A internet, as assessorias de imprensa, entre outros ramos do jornalismo, estão a todo vapor. No entanto, é preciso máxima dedicação, como praticamente tudo na vida. O jornalismo é uma área apaixonante, ou eu não estaria nela há quase 30 anos e ainda apaixonada, não só pelo jornalismo em si, mas também pelas oportunidades que a profissão dá de autoconhecimento e de prestação de serviço. Essa paixão é imprescindível para o sucesso profissional. Confesso que já cruzei com verdadeiros gênios pelo programa de treinamento da Folha, por exemplo, muito bem informados, mas que não conseguiram passar da primeira fase porque não estavam dispostos a passar 12h ou 14h na redação, abrir mão dos feriados e dos fins de semana e até do Natal ou Ano Novo. Isso faz parte do começo de qualquer carreira, mas o que vejo hoje em dia são pessoas desistindo com muita facilidade. Apesar de trabalhar muito, quem fica e persiste tem ótimas chances de conseguir sucesso na área.

O DOM DA PALAVRA

“Até a Semana de Jornalismo promovida pela Barão de Mauá, não conhecia a Claudia pessoalmente, mas sigo seu trabalho na Folha. Além dos temas de relevância que ela aborda, sempre me encantei pelo seu texto: bem escrito, claro, capaz de levar o leitor a acreditar que ela é uma amiga bem próxima. Escrever de forma simples é uma arte que a Claudia Collucci domina perfeitamente. Esta grande jornalista mostrou também ser uma pessoa generosa ao aceitar o convite para palestrar para os alunos. Com maestria, ela dividiu seu saber com os estudantes de forma gratuita, apenas pela solidariedade àqueles que logo estarão também no mercado de trabalho.”
Renata Canales, jornalista e coordenadora do curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo, do Centro Universitário Barão de Mauá

Texto: Pâmela Silva
Fotos: Ibraim Leão

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