Uma folia eclética
Celebrado entre os dias 6 e 9 de fevereiro, o Carnaval oferece diversão para todos os gostos e estilos
O país do Carnaval. O título do primeiro romance escrito por José Amado, publicado em 1931, não poderia ser mais atual. O povo brasileiro continua apaixonado pela comemoração, que tem como características principais a música, a alegria e a liberdade de expressão. A festa, que começa oficialmente neste fim de semana, também é bem democrática. Os foliões contam com uma infinidade de opções para se divertir: dos tradicionais bailes de máscara nos clubes aos descontraídos bloquinhos de rua, passando pelos luxuosos desfiles das escolas de samba e pela agitação contagiante dos trios elétricos. A seguir, confira quais foram as escolhas de alguns ribeirãopretanos para curtir essa data especial.
Nas ruas do Irajá
A empresária e cabeleireira do Maria Haute Coiffure, Iara Restini, confessa que estava decepcionada com o Carnaval de Ribeirão Preto. A festa, antes tão divertida, vinha ganhando um aspecto apelativo que não a agradava. Em 2009, um convite despretensioso de alguns amigos, como Carlos Tampa e Sandro Cunha dos Santos, promoveu uma verdadeira reviravolta nesse enredo. “Eles me apresentaram Os Alegrões. Fiquei encantada com a filosofia lúdica do bloco, que resgata a alegria pura e simples do Carnaval de rua: as marchinhas, as fantasias, a proposta de curtir a liberdade. É uma comemoração aberta para todos, extremamente pacífica, colorida e contagiante. Conforme percorremos o trajeto, crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhinhos entravam no clima e se juntavam a multidão. Vi até uma senhorinha abanando a bengala – no ritmo da música – da janela de um prédio”, lembra Iara.
Depois desse primeiro contato, ela não se desligou mais do grupo. Pelo contrário. A identificação e o envolvimento foram tão fortes que ela passou a compor a comissão organizadora. “Trabalhamos de forma colaborativa e democrática, sob a liderança natural de dois membros em especial, Perci Guzzo e Lelo Guazzelli. Colocar Os Alegrões na rua é um processo complexo, que envolve muita gente. Os integrantes assumem diferentes tarefas, como definir o tema do ano, criar e gravar a marchinha, montar os arranjos e as alegorias, cuidar da parte burocrática junto aos órgãos públicos, entre outras. Sofremos com a falta de apoio e de infraestrutura. Fazemos tudo na raça mesmo, mas, quando vemos o sorriso estampado no rosto de quem nos segue, temos a certeza de que vale a pena”, afirma Iara, que faz parte da ala musical do bloco.
Tocando o surdo, Iara ajuda a dar o tom da festa, realizada sempre no domingo anterior ao do Carnaval. Este ano, a saída aconteceu no dia 31 de janeiro e o homenageado foi o palhaço, uma das figuras mais populares e carismáticas da comemoração — em especial, o Palhaço Mortandela, falecido no ano passado. Como era esperado, o bairro Jardim Irajá, na zona sul da cidade, estava completamente tomado pelo público. De acordo com a estimativa dos organizadores, o evento reuniu cerca de 20 mil foliões.
A animação foi evidente durante todo o trajeto que durou, aproximadamente, cinco horas. “A cada ano, as nossas expectativas são superadas. O bloco é um sucesso absoluto. Agora, descansamos um pouco dessa correria, mas, em breve, começamos a planejar as surpresas que virão na próxima edição. Esse grupo se tornou parte importante da minha vida. Não consigo me imaginar longe d’Os Alegrões”, finaliza Iara.
Na passarela do samba
A paixão de Fabiana Teixeira pelo Carnaval vem desde a infância. Ao lado da mãe, Sônia, ia até uma quadra na Vila Virgínia para conferir de perto os ensaios das escolas de samba da cidade. Ano após ano, ficava cada vez mais fascinada com a beleza e com o gingado das passistas. Também assistia à festa pela televisão até altas horas da madrugada. Naturalmente, surgiu nela o desejo de, um dia, ocupar aquele lugar.
Em 2011, o sonho se transformou em realidade. A jornalista e modelo foi chamada pela diretoria da Grande Rio, tradicional agremiação do Rio de Janeiro, para participar do desfile como destaque em um carro alegórico. Ansiosa pela estreia, Fabiana contava os minutos para estar diante do público. “Esperei a minha vida inteira por aquele momento. Não conseguia me conter de tanta felicidade, porém, apenas 24 dias antes do desfile, o barracão da escola na Cidade do Samba pegou fogo. O estrago foi incalculável”, recorda Fabiana.
Graças à união da comunidade, com ajuda da iniciativa privada e do Governo Municipal, parte do material foi recuperado e, mesmo sem concorrer ao título de campeão do Carnaval, a Grande Rio levantou a Sapucaí. “Não tenho palavras para descrever a emoção que senti. Foi uma noite mágica de superação, que guardo na memória com o maior carinho. Minha fantasia queimou e eu saí com o corpo todo coberto por tinta. Chorei, sorri e sambei muito. A energia e a adrenalina eram tão intensas que nem vi que machuquei os pés nos pregos desencapados da alegoria”, comenta a modelo. Em 2012,
confinada na casa do Big Brother Brasil, ficou de fora da folia, mas, em 2013, ela retornou para a passarela. Dessa vez, pela Tom Maior, em São Paulo. Completando quatro anos consecutivos na escola, Fabiana está, há dois, no posto de musa da bateria.
Para desempenhar bem o papel, a rotina de preparação é rigorosa. A dieta, os exercícios físicos e os tratamentos estéticos são intensificados com a proximidade da festa. “Conto com grandes parceiros em Ribeirão Preto, que são essenciais nessa jornada. Tenho que estar na minha melhor forma para representar a escola e para fazer jus à confiança que essa família deposita em mim. Sempre que possível, faço questão marcar presença na quadra, nos eventos e nos ensaios técnicos. Pretendo continuar assim até quando estiver velhinha. Talvez, até lá, mude para a ala das baianas, mas não deixo de acompanhar o som da bateria. Todo mundo deveria ter a oportunidade de passar por essa experiência”, ressalta Fabiana, que estará no Sambódromo no dia 7 de fevereiro.
No camarote em Salvador
Segundo Mariana Balieiro Bin, viajar é uma das melhores maneiras de aproveitar bem o Carnaval. A fisioterapeuta raramente fica em Ribeirão Preto durante o feriado. Por muito tempo, Capitólio, em Minas Gerais, era o destino. Lá, curtia dias de descanso ao lado da família. Em 2013, porém, depois de conversar com uma amiga, Mariana resolveu trocar a tranquilidade por uma das mais agitadas, famosas e concorridas festas do mundo. Para colocar a ideia em prática, as duas pesquisaram bastante. Com os detalhes definidos, arrumaram as malas e partiram rumo a Salvador, na Bahia. “Assim que desembarquei, já dava para sentir uma energia diferente no ar. Quando vi os trios elétricos de pertinho, soube que aquela folia superaria todas as minhas expectativas. Foi uma viagem única, inesquecível”, explica Mariana.
Na cidade, o público pode se divertir de várias maneiras: nos bloquinhos pelas ruas, nos clubes ou nos circuitos oficiais, como Barra / Ondina, que ainda se divide em pipoca, abadá e camarote. Mariana escolheu a última opção. “Essa decisão é fundamental para que a pessoa tenha uma experiência positiva em Salvador. De acordo com as minhas preferências, o camarote era a alternativa mais acertada. A galera é bem selecionada, a infraestrutura
completa e a segurança garantida”, revela. A fisioterapeuta lembra que o espaço trazia algumas atrações exclusivas, como um show do Chiclete com Banana e a apresentação de DJs renomados.
Além do som contagiante das bandas de axé, as belas praias e paisagens que compõem o litoral nordestino também merecem destaque. “São lugares lindos, realmente deslumbrantes. Pular o Carnaval nesse cenário de tirar o fôlego é o máximo. Para quem está procurando muita diversão, indico a Bahia. Sem dúvida eu voltaria para lá e ficaria no mesmo camarote, mas, dessa vez, com a companhia do meu namorado, Fernando. Seria perfeito”, finaliza.
Um refúgio espiritual
Apesar de ser uma festa totalmente enraizada à cultura brasileira, existe uma parcela da população que não gosta do Carnaval. É o caso do personal trainer Carlos Henrique de Souza Persona, que cresceu bem longe dos batuques e dos tamborins. “Frequento a igreja desde pequeno. Meus valores, princípios e crenças foram firmados nos ensinamentos do Evangelho. Por isso, nunca tive nenhum tipo de contato com essas comemorações. Sempre participei de retiros espirituais. Para falar a verdade, não tenho interesse e nem curiosidade de saber como funciona o Carnaval. Tenho outro propósito. Esse feriado, para mim, é sinônimo de oração e de reflexão, buscando estar em paz na presença de Deus”, descreve. Ao lado dos irmãos de fé da Igreja Cristã Zona Sul, o personal trainer se refugia em uma chácara, aqui mesmo, em Ribeirão Preto. “São quatro dias em que adquirimos conhecimentos valiosos e que vivenciamos momentos marcantes. De manhã e de noite, realizamos um culto. À tarde, conversamos, fazemos novas amizades, nadamos, jogamos futebol e nos divertimos com outras atividades. É assim que me sinto feliz no Carnaval”, enfatiza Carlos.
Texto: Paula Zuliani