Uma história de empreendedorismo

Uma história de empreendedorismo

À frente da Santa Helena, Renato Fechino investe de forma contínua em pesquisas de qualidade, em tecnologia de ponta e na valorização dos colaboradores para criar produtos que se destacam no mercado

Diretor-presidente da Santa Helena Indústria de Alimentos, Renato Fechino já demonstrava interesse pelos negócios da família desde a infância. O envolvimento foi se intensificando com o avançar dos anos. Passou por diferentes funções dentro da cadeia produtiva, conheceu os processos a fundo até que, em 1977, assumiu de vez a gestão da fábrica ao lado do irmão. Com perfil empreendedor e inovador, aliado à paixão pelo trabalho, ao comprometimento diário e ao suporte de profissionais altamente capacitados, superou diversos obstáculos para consolidar a empresa e levá-la à liderança nacional na área de beneficiamento, de processamento e de venda de produtos à base de amendoim. 

Participando ativamente da Associação Brasileira das Indústrias de Chocolate, Cacau, Balas e Derivados (ABICAB), contribuiu, ainda, para a criação do programa Pró-Amendoim e do selo de qualidade, que serviram para aprimorar o setor, deixando-o mais seguro e saudável. Na entrevista a seguir, o executivo relembra momentos especiais dessa caminhada e traça um panorama do mercado atual.  

Renato passou por todos os departamentos da Santa Helena até assumir a gestão da empresa, em 1977A Santa Helena é uma empresa com forte base familiar. Como foi o início dessa trajetória?
Tudo começou com meu avô materno, José Marques Teles, que era gestor de fazenda e pai de oito filhos. Com as necessidades profissionais, o conhecimento e a paixão pelo amendoim, ele iniciou, em abril de 1942, a produção de doces. Para isso, contava com um tacho de cobre, um torrador, um moedor manual e uma mesa de granito. A venda era feita de porta em porta, o que estabeleceu os primeiros passos da Santa Helena. Minha mãe, Maria Teles, envolvida com tudo isso, aderiu à ideia e deu continuidade aos negócios. Quando se casou com meu pai, Paschoal Fechino, os dois decidiram seguir com a empresa. Com a segunda geração da família à frente das atividades, a primeira instalação própria foi construída, em 1960. Meu pai era muito trabalhador. Dedicava-se a três empregos, incluindo a fábrica, para garantir que nada saísse errado. Minha mãe era aquela pessoa otimista, apaixonada pelo que fazia. Tinha verdadeiro sentimento pela produção de doces à base de amendoim. O ofício estava carregado de memórias afetivas. Nos momentos em que meu pai desanimava, ela continuava a fazer os doces com motivação. Era uma mulher persistente e determinada. Sem seus esforços e seu entusiasmo, não estaríamos aqui hoje. Ainda que seja uma empresa de base familiar, a Santa Helena passou por um intenso processo de profissionalização e, em 2010, o cenário já estava totalmente inovado. Tivemos a criação de diretorias, do conselho de administração e fomentamos a governança corporativa. Dessa maneira, conseguimos um posicionamento de mercado ainda mais forte. Há cerca de 15 anos, a indústria também é auditada por empresas de primeira linha. 

Você sempre acompanhou essa história de perto?
Digo que, praticamente, nasci dentro da fábrica, afinal, a empresa ficava nos fundos da minha casa. Estudava de manhã e, à tarde, ia para lá ajudar. Foi assim durante toda a minha infância e adolescência. Eu gostava de estar naquele universo. Com 12 anos, meu pai perguntou se era isso mesmo que eu queria. Afirmei que sim. Então, acompanhado pelo meu irmão, comecei a ter uma postura ainda mais presente nos negócios. Fazia de tudo: mexia o tacho, cortava o doce, esparramava na mesa, embalava, atendia clientes no balcão e ajudava na limpeza, entre outras tarefas. Quando cheguei aos 18 anos, a fábrica não estava indo muito bem. Como tínhamos uma Kombi, resolvi vender o doce de bar em bar. Durou um ano, pois percebemos que não seria por aí nossa consolidação. Diante da fase complicada, meu pai pensou em encerrar as atividades. Foi aí que meu irmão e eu decidimos assumir de vez a empresa. Acompanhei de perto os desafios e as conquistas da Santa Helena.

Quando aconteceu essa mudança de gestão?
Oficialmente, assumimos a gestão da empresa em 1977. Na época, tínhamos apenas quatro funcionários e, mais uma vez, contamos com o apoio muito forte da nossa mãe. Sempre otimista, ela nos incentivou a prosseguir e nós continuamos. A fábrica era a nossa história e o nosso conhecimento.

Você passou por diferentes cargos até chegar à presidência. Entender o funcionamento de todos os departamentos fez diferença na hora de administrar a Santa Helena? 
Todos nós fazíamos de tudo um pouco. Vivenciei vendas, finanças, produção e inovação. Desde quando o negócio era pequeno, buscava trabalhar custos e gestão, tanto de pessoas quanto de processos. Inclusive, no início, adotamos algumas medidas sem nem saber que essas práticas eram parte da Lean Manufacturing, filosofia que, hoje, adotamos na empresa. É um princípio no qual os colaboradores são incentivados a apresentar e a liderar projetos que tragam ganhos em produtividade para a companhia. Cada passo é acompanhado por um comitê denominado Eficiência Operacional, que visa aumentar a qualificação técnica das lideranças em gestão de processos. Em resumo, conhecer todos os departamentos, com certeza, aprimorou minha visão e, consequentemente, o gerenciamento dos negócios. Toda a trajetória foi um aprendizado que me auxiliou muito quando assumi a direção.

Como transformaram uma indústria do interior, que tem o amendoim como matéria-prima, em referência nacional?
O que nos ajudou bastante foi o passo contínuo. Em nenhum momento, deixamos de lado a nossa linha de raciocínio de qualidade, com foco na melhoria da gestão, do trabalho e do cuidado com o caixa. O desejo de inovar e de oferecer produtos melhores, alinhado à dedicação e à persistência de todos os envolvidos na fundação e na continuidade dos negócios, fez a Santa Helena se consolidar com a força que tem hoje. Com essa postura, solidificamos, gradativamente, nossa posição no mercado. À frente da empresa, mantenho a autocrítica e procuro identificar, a todo instante, as melhorias necessárias. Saber para onde estamos indo e como queremos chegar lá é imprescindível para construir uma trajetória de sucesso. Sou contra o deslumbramento, pois ele faz com que as pessoas tirem os pés do chão e se iludam achando que não precisam aprender mais nada.  A meu ver, empreender significa olhar os pontos bons e os ruins, aprimorando processos, condutas e resultados. Outro fator importante da nossa gestão é que sempre contamos com profissionais competentes em suas especialidades, o que contribui, significativamente, para o nosso desempenho. 

A indústria também ultrapassou as fronteiras e passou a exportar para diversos países. Como é trabalhar com o mercado internacional?
Esse é um trabalho que a Santa Helena realiza há mais de 20 anos. Exportamos para diversos continentes, como Europa, América, África e Ásia, em países como o Japão, um dos mais exigentes mercados do mundo. Nossa meta é fortalecer o potencial da marca no cenário estrangeiro e impulsioná-la para que esteja presente em todas as lojas. Aos poucos, criamos hábitos de consumo e posicionamos os produtos com a devida credibilidade e qualidade. Atuar no mercado internacional é um desafio e isso nos incentiva a ter novos olhares. 

A diversificação do portfólio é uma estratégia importante para englobar um número maior de consumidores? É preciso atualização constante?
Sem dúvida. Na Santa Helena, adotamos um modelo de inovação baseado no Lean Innovation. Trabalhamos em produtos voltados para o que o consumidor espera. Buscamos entender, de fato, os desejos do público, conhecendo seu perfil e paladar. Além disso, desenvolvemos novas linhas em pequena escala, para que o teste de erros e de acertos seja rápido e, assim, possamos investir de maneira assertiva. Tudo isso é direcionado por um núcleo de inovação, em que profissionais de diversas especialidades atuam juntos, na mesma sala, o que faz o processo de pesquisa e de desenvolvimento fluir mais rápido. 

A questão nutricional também é levada em conta?
Com certeza, a preocupação com a procedência e com a qualidade abrange toda a cadeia produtiva da empresa. Um exemplo é que a Santa Helena endossa a Linha Cuida Bem, com produtos voltados para consumidores que buscam um estilo de vida mais saudável. Nossa relação com os alimentos demonstra o respeito com todos. Procuramos trazer, não só o melhor do amendoim, mas, também, o melhor de toda matéria-prima que usamos. 

Fábrica recebe investimentos contínuos em estrutura e tecnologia para aprimorar os processos operacionais

Infraestrutura da fábrica e tecnologia de ponta para aprimorar os processos recebem investimentos constantes?

Sim, esse investimento é essencial para manter a lucratividade e o crescimento da empresa. Avanços tecnológicos e de processos acompanham todos os setores da Santa Helena, tanto que criamos o programa Santa Helena Produtiva, que engloba toda a companhia e treina os colaboradores para avaliar e propor melhorias. Às vezes, o investimento não é só financeiro. Basta uma boa análise e pequenas mudanças para engajar as pessoas e conquistar progressos. Esse é um modelo que entendemos ser determinante para o sucesso no longo prazo. É fazer um desenvolvimento contínuo e estabelecer a inovação como uma cultura da empresa.

O país viveu, recentemente, uma grave crise política e econômica. Como enfrentaram esse momento de instabilidade? 
Antes mesmo desse período instável, sempre ajustamos as finanças com cuidado para driblar desafios econômicos. Essa medida foi fundamental para manter a companhia firme. A crise recente no país veio acompanhada de um intenso aumento das commodities. Realizamos vários movimentos internos de redução de custos, mas o trabalho que já estávamos fazendo, felizmente, deu um fôlego para superarmos esse momento de adversidade. Adaptamo-nos ao mercado e vencemos as dificuldades, mantendo os resultados da empresa.

As perspectivas de mercado estão mais otimistas? O que esperam para 2018?
O mercado está reagindo melhor desde janeiro e temos uma expectativa positiva para os resultados do ano, visando a  um crescimento acima de dois dígitos. Esse cenário se fortalece com as diversas ações de venda que estão sendo trabalhadas. 

A Santa Helena é considerada uma das melhores empresas para se trabalhar. Quais são as ações desenvolvidas nesse sentido? Esse cuidado com o bem-estar do colaborador faz a diferença?
A Santa Helena possui um modelo de governança corporativa que busca, sem descanso, maneiras de aprimorar processos para alcançar um sistema cada vez mais alinhado às suas práticas. Para disseminar estratégias e objetivos, bem como ouvir os colaboradores, a empresa possui uma série de programas, como: Na Trilha do Amendoim, Café com Presidente, Canal Aberto, Aproximação, Convenção de Vendas e Fortalecer Relações. A companhia ainda investe na construção de um pacote de benefícios para atrair, valorizar e reter talentos, considerando, especialmente, a promoção do bem-estar por meio de iniciativas e de ações que se diferenciam das tradicionais oferecidas pelo mercado. Nossa postura é de sempre engajar, motivar e capacitar nossos profissionais, permitindo um crescimento contínuo. Somos um só time. Ao participarmos de pesquisas sobre os ambientes corporativos e figurarmos entre as melhores empresas para se trabalhar, tivemos a certeza de que estamos no caminho certo. Essas análises também nos mostraram pontos a serem lapidados em nossas relações: empresa-colaborador, colaborador-colaborador e colaborador-liderança, afinal, temos que ajudar as pessoas a fazerem o seu melhor e, com o direcionamento correto, isso é ainda mais fácil. A Santa Helena atua sob oito princípios: Integridade física e Equilíbrio; Respeito, Relacionamento e Integração; Transparência e Ação; Inovação e Empreendedorismo com Simplicidade; Qualidade de Produtos e Marcas; Foco no Cliente e nos Consumidores; Compromisso com o Resultado; e Liderança. Eles são praticados diariamente, fortalecendo nossos relacionamentos internos e externos. Contamos, ainda, com um código de conduta e um comitê para avaliar as sugestões e as reclamações. Estamos sempre atentos à satisfação de todos os integrantes dessa grande equipe que, atualmente, é formada por cerca de 1.300 colaboradores. 

Texto: Paula Zuliani
Fotos: Ibraim Leão e Divulgação

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