Uma missão compartilhada

Uma missão compartilhada

Diante de uma estimativa crítica - Ribeirão Preto pode ter 60 mil casos de dengue até julho - somente a ajuda de todos no combate ao mosquito transmissor pode fazer a diferença

Em boa parte do Brasil, o ano de 2016 começou com os sinais de alerta acionados para uma epidemia de dengue. De acordo com os dados divulgados pelo Ministério da Saúde, em 2015, foram registrados mais de 1,6 milhão de casos prováveis de dengue no país, um recorde nacional. No ano passado, também foi batido o recorde de mortes decorrentes da doença, que ultrapassou 800 em todo o território brasileiro, com destaque para os estados do Centro-Oeste e do Sudeste. Some aos índices relativos à dengue mais de 20 mil casos suspeitos de febre chikungunya e outros 3 mil casos prováveis de microcefalia relacionados ao zika vírus e estão colocados os milhares de motivos que justificam a organização de uma força-tarefa contra o Aedes aegypti.

O mosquito é o ponto em comum entre as três doenças que foram notícia em 2015 e que continuam amedrontando a população brasileira, inclusive em Ribeirão Preto. No município, foram 4.748 casos de dengue confirmados no ano passado, com dois óbitos. Na cidade, também foram levantadas 72 suspeitas de zika vírus, sendo quatro casos confirmados. Houve, ainda, 28 pacientes com provável febre chikungunya com duas confirmações.

A estimativa para o município em 2016 não é nada otimista. Em uma coletiva de imprensa realizada no início do ano, o secretário municipal de Saúde, Stenio Miranda, decretou estado de emergência, em função do clima quente e chuvoso do período, ideal para a proliferação do Aedes. Dias depois, anunciou que é esperada, até julho deste ano, a ocorrência de até 60 mil casos de dengue, o que representaria o pior quadro da doença até os dias atuais no município. Só para janeiro, são projetados aproximadamente 2 mil casos de dengue, zika e chikungunya em Ribeirão Preto. 

Os números foram apresentados na mesma reunião em que foi anunciado o corte de recursos para a realização do Carnaval de rua em Ribeirão Preto, valor que será destinado às ações de combate ao Aedes Aegypti. De acordo com os cálculos do secretário, serão necessários de R$ 15 milhões a R$ 20 milhões extras para lutar efetivamente contra o mosquito. Entre as ações previstas estão a contratação de agentes de combate a endemias, a contratação de médicos, a compra de equipamentos, tais como cadeiras para hidratação, e a capacitação de grupos de cidadãos para contribuir no combate. A compra de medicamentos, como frascos de soro para hidratação oral ou endovenosa, paracetamol, dipirona e metoclopramida, também compõe essa conta.  

Nada disso, no entanto, é suficiente sem que haja o engajamento direto da população no combate aos criadouros do mosquito da dengue, ação mais simples e eficaz de prevenção às doenças a ele relacionadas. Para evitar que o Aedes procrie, a regra básica é não deixar água parada, especialmente água limpa, em qualquer tipo de recipiente. Como a proliferação do mosquito é rápida, não há como interromper esse ciclo apenas com iniciativas governamentais. O Ministério da Saúde preparou um quadro com os cuidados que cada cidadão deve ter dentro de casa e no ambiente de trabalho. Entre as dicas, ações simples e já bastante difundidas, como manter a caixa d’água bem fechada, dar atenção especial às plantas e não jogar lixo em terrenos baldios. Vale lembrar que, ainda assim, mais de 80% dos criadouros do mosquito costumam estar localizados dentro das residências. 

Uma questão de saúde pública

Difícil encontrar em Ribeirão Preto quem não conheça pelo menos uma pessoa diagnosticada com dengue. O problema de saúde vem tomando conta da cidade — especialmente da zona Oeste — e também da região: Pontal, Sales de Oliveira e São Joaquim da Barra também já decretaram estado de emergência para a doença. Não apenas por representar gastos cada vez mais elevados aos cofres públicos e por contribuir para a superlotação das unidades de saúde, públicas ou particulares, a doença, assim como o zika vírus e a febre chikungunya, precisa ser combatida. 
Os três males transmitidos pelo Aedes possuem sintomas semelhantes, em maior ou menor intensidade, o que dificulta o diagnóstico (veja o quadro com os sintomas). “O que se pode afirmar é a dor muscular costuma ser mais severa na dengue, enquanto na febre chikungunya verifica-se fortes dores articulares, especialmente nos pés e nas mãos. Já o zika vírus costuma causar manchas vermelhas com coceira e olhos avermelhados já no primeiro dia da doença”, aponta o infectologista Luiz Fernando Baqueiro Freitas (CRM: 84.972), que atua na equipe dos Hospitais São Lucas, Ribeirânia, Santa Lydia e Santa Tereza.

Segundo o especialista, o paciente deve procurar auxílio médico aos primeiros sinais de qualquer uma dessas doenças. “É importante não tomar medicamento sem orientação especializada, ainda mais nos casos envolvendo crianças, idosos, pessoas com doenças prévias, como hipertensão e diabetes, e gestantes”, recomenda Luiz Fernando. 
De acordo com a infectologista Silvia Nunes Szente Fonseca (CRM: 47.981), as orientações do Ministério da Saúde são claras e objetivas, assim como o suporte dos órgãos do estado e do município quando o assunto é dengue, zika e chikungunya. “No caso da dengue, principalmente, as equipes médicas ribeirãopretanas já possuem ampla experiência, o que facilita a conduta na hora do atendimento. A infectologista, que coordena o trabalho dentro do Grupo São Francisco, destaca que cada instituição de saúde pode encontrar sua maneira de trabalhar, mas as diretrizes são as mesmas. “Dentro do São Francisco, encontramos uma forma de trabalho que vem se mostrando eficiente. Para garantir um bom atendimento, é essencial treinar cada membro da equipe constantemente”, avalia Silvia.

A infectologista explica que não há mistério em relação ao tratamento: é preciso muita hidratação e repouso. “Os casos especiais, como idosos, crianças e gestantes, demandam também um acompanhamento diferenciado”, acrescenta. Assim que chega à unidade de saúde, o paciente passa por uma triagem, é submetido a exame clínico e ao hemograma. Ainda na espera, recebe a recomendação de se hidratar bastante. “O tratamento de dengue precisa garantir a reposição das perdas do corpo. Por isso, hidratação e boa alimentação são fundamentais”, ensina Silvia. Sobre a possibilidade de ter duas dessas doenças ao mesmo tempo, a infectologista argumenta que não é comum ter viroses simultâneas. “No entanto, ainda há muito a desvendar sobre essas doenças”, acrescenta. Agora, o que já dá para afirmar é que a eliminação do Aedes é, sem dúvida, a melhor forma de prevenção às doenças. Enquanto isso, carregar um bom repelente também é uma boa ideia. 

Mutirão regional

Está marcada para o próximo dia 30 de janeiro uma grande força-tarefa contra o Aedes aegypti em Ribeirão Preto e outras 66 cidades da região. As ações empreendidas em cada município estão sendo planejadas por um comitê formado por diversos órgãos e entidades envolvidas com o tema, como a Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) e as diretorias regionais de saúde, todas relacionadas à Secretaria de Saúde do Estado. 
Em Ribeirão Preto, o mutirão estará focado na região Oeste. “É uma região que já estamos trabalhando há algum tempo, pois é a que apresenta o maior de casos”, explica Stenio Miranda. A ação tem início às 7h30, com saída da Divisão de Vigilância Ambiental em Saúde, localizada na avenida Eduardo Andreá Matarazzo, 4255. Nesta atividade, estarão envolvidas 238 pessoas, sendo 113 agentes comunitários de saúde, 113 agentes de combate a endemias e 12 voluntários. 

De acordo com os organizadores, o objetivo do trabalho conjunto é vistoriar o maior número possível de endereços. Durante o mutirão, a população terá acesso a informações sobre as medidas para manter o ambiente livre do mosquito e sobre a responsabilidade de todos no controle ambiental. Na ação, também serão recolhidos materiais inservíveis, com exceção de móveis, entulhos, lixo orgânico ou materiais de construção e reforma. “Vamos contar com 27 caminhões, sendo nove da Coordenadoria de Limpeza Urbana e da Secretaria de Infraestrutura”, informou Maria Lúcia Biagini, chefe da Divisão. Os demais foram cedidos pelas empresas Ambient, Pisos Faria/Construlider, Tracan, Bira Mult Pneus, Terralara e Sinduscon. A Divisão informou que também está elaborando um cronograma de atividades para os meses de fevereiro e março.

Membro do Comitê de Mobilização e Combate a Dengue, o Conselho Regional dos Corretores de Imóveis (CRECI) – 2ª Região já trabalha há alguns anos pela participação de todos os seus associados no combate ao Aedes Aegypti. “Mobilizamos anualmente os profissionais do setor para que façam mutirões de vistoria aos imóveis sob sua responsabilidade. É fundamental que os corretores e as imobiliárias colaborem, abrindo as propriedades para que os agentes de saúde possam fazer seu trabalho e mantendo, também, as casas e os apartamentos livres dos possíveis criadouros”, afirma advogado e corretor de imóveis José Augusto Gardim, delegado sub-regional do CRECI. Segundo ele, a entidade fornece selos “tapa-ralos” para colocação nos quintais e adesivos de “vistoriado” para indicar que o trabalho foi feito. 

Gardim garante que a responsabilidade dos profissionais  e das empresas do setor de imóveis é muito grande em relação ao tema. “Acreditamos que é uma questão de cidadania colaborar para que a doença não se propague ainda mais em todo o estado”, complementa. Segundo o delegado, corretores voluntários integram, em suas delegacias, grupos de trabalho social especialmente voltados ao combate ao Aedes. O Conselho costuma garantir todo o suporte necessário, com o fornecimento de cartazes e de adesivos, a promoção de palestras e outras iniciativas. 

Sinais de alarme

Agitação ou muita sonolência;
Dificuldade para respirar;
Diminuição do volume de urina;
Diminuição repentina da febre;
Dor muito forte e contínua na barriga;
Pontos ou manchas vermelhas ou roxas pela pele;
Sangramento de nariz, 
boca ou outros tipos de hemorragia;
Suor frio;
Tontura quando muda de posição (deita/senta/levanta);
Vômitos frequentes ou com sangue.

Saiba a diferença

Dengue → 
febre alta com início súbito; dor de cabeça; dor atrás dos olhos, que piora com seu movimento; perda do paladar e do apetite; náuseas e vômitos; tonturas; manchas e erupções na pele, semelhantes às do sarampo (tórax e membros superiores).

Chikungunya → Febre;  dor nas articulações (mãos e pés); dor nas costas;  manchas e erupções na pele nas primeiras 48 horas;  dor de cabeça.

Zika vírus → febre baixa (entre 37,5 e 38,5); dor nas articulações (mãos e pés), com possível inchaço; dor muscular (mialgia); dor de cabeça e atrás dos olhos;  diarreia; olhos vermelhos; erupções cutâneas, acompanhadas de coceira.

Novas armas em teste

Na busca por uma maneira eficiente de combater o Aedes Aegypti, a criatividade e o conhecimento, nas mais diversas áreas, são colocados em prática. Entre as possibilidades estão dois projetos que envolvem a biotecnologia, mas ainda precisam de tempo para terem seus resultados comprovados. O primeiro está ligado à inoculação do mosquito com uma bactéria que o impede de transmitir doenças tropicais e o outro visa à eliminação do inseto através do uso de espécies manipuladas geneticamente. 

Já utilizada em várias cidades brasileiras — inclusive em Bebedouro, interior paulista, e Uberaba, sul de Minas Gerais — a crotalária tem se mostrado uma eficiente arma de controle biológico do mosquito. A planta, que na fase adulta pode chegar a três metros de altura, atrai os mosquitos e as libélulas que, por sua vez, são predadoras do mosquito transmissor. As larvas da segunda também se alimentam das larvas do Aedes. No entanto, ainda não há estudos científicos que comprovem a redução no número de mosquitos por causa da crotalária. Contra o Aedes aegypti, também estão sendo testados inseticidas utilizados na agricultura.

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