Uma notícia muito aguardada
Equipe de professores da USP e pesquisadores do Hemocentro de Ribeirão Preto desenvolvem tratamento pioneiro que cura o câncer de linfoma; paciente de Belo Horizonte foi o primeiro a receber a terapia
Há cerca de quatro anos, professores da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadores do Hemocentro de Ribeirão Preto, por meio do Centro de Terapia Celular (CTC), decidiram aplicar as técnicas e conhecimentos relacionados ao tratamento do câncer de linfoma para tentar desenvolver uma terapia no Brasil. Essas técnicas já vinham sendo desenvolvidas desde a criação do CTC, em 2001, com o apoio de instituições públicas e de mais de 170 alunos de pós-graduação que defenderam teses e dissertações em áreas relacionadas à terapia.
Por fim, um time composto por dezenas de pesquisadores e profissionais da saúde, além de vários laboratórios atuando em suas áreas de maior competência, conseguiu desenvolver o tratamento neste ano de 2019. “Na época em que iniciamos esse programa, nós chamamos alguns médicos de São Paulo para nos ajudar. Hoje, ele envolve mais de 20 pesquisadores e conta com um trabalho coordenado. Cada integrante da equipe é responsável por uma parte da pesquisa para, então, chegarmos ao resultado final”, relata o coordenador do CTC, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, Dimas Tadeu Covas.
O método utilizado é chamado de terapia por células CAR-T. Essas células são produzidas em laboratório, derivadas das células mais importantes do sistema de defesa humano, denominadas T. Em seu estado natural, as células T — que protegem o corpo contra infecções e tumores — podem perder a capacidade de detectar as células do câncer. Assim, o processo de produção das células CAR-T nada mais é do que a modificação das células T para que elas possam readquirir a capacidade de identificação das células específicas do câncer e destruí-las.
O processo de cura é realizado da seguinte maneira: primeiramente, é feita a retirada da célula do próprio paciente. Ela é levada até um laboratório, onde será manipulada para conseguir combater um tumor específico, nesse caso, o linfoma. Posteriormente, é feito o aumento da quantidade dessas células modificadas — já que é necessário uma quantia adequada ao peso da pessoa que as receberá — e, na sequência, são novamente inseridas no paciente. Ao entrarem na corrente sanguínea, essas células encontram o tumor que foram programadas para combater e causam sua destruição.
Para melhor elucidar esse processo, o hematologista e coordenador da Unidade de Transplante de Medula do Hospital das Clínicas, Renato Cunha, faz uma analogia. “Podemos fazer uma comparação com uma chave e uma fechadura. O receptor, que está na superfície do linfócito — célula de defesa —, é como se fosse a chave. O tumor, que deve ser destruído, é fechadura. Uma vez que essa chave reconhece a fechadura, ela consegue causar a destruição do tumor”, explica.

Apesar desse tratamento já ser oferecido comercialmente por duas indústrias farmacêuticas nos Estados Unidos, por um valor que gira em torno de 375 mil e 425 mil dólares — cerca de R$ 1,6 milhões —, essa foi a primeira vez que o procedimento foi realizado no Brasil e na América Latina. Além disso, por ter sido desenvolvido 100% com tecnologia própria, o custo, no Brasil, ficou abaixo de 10% do valor norte americano. “O que fizemos em Ribeirão Preto foi reproduzir o que se fazia nos Estados Unidos, mas dentro de um perfil brasileiro, com um custo adequado à nossa realidade e com aquilo que temos de estrutura dentro do CTC. Aqui, nós fazemos a produção e desenvolvimento do vetor, uma das partes mais caras do processo”, informa Renato.
No entanto, apesar do sucesso do procedimento, ele ainda não pode ser distribuído em larga escala. Por conta disso, Dimas ressalta a importância de receber investimentos. “Atualmente, nós conseguimos produzir um tratamento a cada 40 ou 50 dias. Nosso objetivo, agora, é ampliar a capacidade de produção. Para isso, temos que aumentar a estrutura do laboratório e contamos com apoio, pois não estamos mais falando de pesquisa, mas de tratamento”, comenta o coordenador do CTC.
Disponível em poucos países no mundo, o desenvolvimento deste método mostra a capacidade da Medicina do Brasil para competir com grandes potências da área. “Este é um enorme passo para a ciência e para Medicina do país. Estamos chegando à mesma altura do que está acontecendo nos Estados Unidos e na Europa”, reforça Dimas.

Resultado positivo
O desenvolvimento desse procedimento ajudou a curar o paciente Vamberto Castro, de 63 anos, funcionário público aposentado. Residente de Belo Horizonte, Minas Gerais, Vamberto sofria de uma forma avançada de linfoma de células B e não havia respondido aos tratamentos de quimioterapia e radioterapia indicados para o caso. Porém, após passar pelo procedimento desenvolvido pelos pesquisadores do CTC do Hemocentro, ligado ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, apresentou, em menos de 20 dias, remissão total do câncer. “Após o tratamento, o paciente está muito bem. Depois de receber as células, ele ganhou peso e as atividades do dia a dia já estão completamente restauradas. É uma vida nova”, declara o hematologista Renato.
De agora em diante, Vamberto não receberá mais medicação e passará por acompanhamento. O paciente deverá visitar Ribeirão Preto a cada 15 dias, mas, a partir do segundo ano, poderá retornar a cada três ou quatro meses. Vamberto tem linfoma não Hodgkin (LNH) avançado, uma doença grave que, de acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), por meio de pesquisas realizadas em 2018, estima-se que, anualmente, atinja cerca de 10 mil novos casos no Brasil. Ainda de acordo com o Inca, por razões ainda desconhecidas, o número de casos duplicou nos últimos 25 anos, principalmente entre pessoas com mais de 60 anos.

Para receber esse tipo de tratamento, o portador da doença precisa ser um paciente compassivo — que não respondeu a nenhuma das terapias convencionais e não teve mais alternativas —, além de necessitar de cuidados paliativos. “A terapia só pode ser oferecida em casos muito especiais de pacientes com linfoma, que não responderam aos tratamentos convencionais e que não possuem algum impeditivo capaz de influenciar de maneira crítica a eficácia e a segurança da terapia”, comenta Lucas Eduardo Botelho de Souza, coordenador do laboratório de Transferência Gênica do Hemocentro de Ribeirão Preto.
A partir do momento em que o paciente procura o médico, é feito um pedido à Comissão de Ética Médica. Após ser avaliado e aprovado, inicia-se o tratamento. “Nesses casos, sem dúvida, o paciente necessita de cuidados paliativos. Por ser algo novo, isso tem sido reservado para os pacientes com doença grave, que não respondem de forma adequada ao tratamento padrão”, adverte Renato Cunha.

Próximos passos
Como já foi mencionado anteriormente, esse procedimento ainda é bem restrito e abrange poucos possíveis pacientes. De acordo com coordenador do laboratório de Transferência Gênica do Hemocentro, atualmente, as prioridades são de aumentar a capacidade de gerar mais células e atender mais pacientes. Além disso, espera-se estender este procedimento para novos tipos de câncer. “Eu, minha equipe e muitos outros pesquisadores, alunos de mestrado e doutorado já estamos trabalhando para isso”, declara Lucas.
Para que o método consiga atingir diferentes tipos de tumores, Lucas acredita ser necessário trabalhar em duas frentes. “A primeira é descobrir maneiras de atacar outros tipos de tumores sem gerar danos às células saudáveis. Isso porque ainda não conhecemos as moléculas que são produzidas exclusivamente por cada tipo de tumor e que poderiam ser usadas como alvo para células CAR T. A segunda frente é elaborar estratégias para aumentar a atividade antitumoral e a persistência das células CAR T após a administração no paciente. Muitos tumores, especialmente os sólidos, conseguem inativar as células T assim que elas chegam ao local para iniciar o ataque às células cancerígenas. Compreender e impedir esse mecanismo de proteção usado pelos tumores representará um avanço substancial na criação de novas terapias usando células do sistema imune”, conclui.
Como funciona
O método utilizado é chamado de terapia por células CAR-T. Essas células são produzidas em laboratório, derivadas das células T, as mais importantes do sistema de defesa humano. No estado natural, as células T podem perder a capacidade de detectar as células do câncer, mas, com o processo de produção das células CAR-T, elas readquirem essa capacidade, identificando as células específicas do câncer e destruindo-as.
Etapa 1
Retirada da célula T, por meio de coleta de sangue do paciente.
Etapa 2
Célula T é manipulada para combater a célula cancerígena.
Etapa 3
Aumento na quantidade das células modificadas.
Etapa 4
Células são reinseridas no paciente.
Etapa 5
Células se ligam aos tumores e os destroem.
As célular CAR-T se ligam às células do câncer e as destroem.
Texto: João Camargo