Uma nova espécie
O paleontólogo Marco Aurélio Gallo de França iniciou sua pesquisa em 2007 acompanhado pelo orientador Dr. Max Cardoso Langer
Há milhões de anos os dinossauros foram extintos da face da Terra. Hoje, resta a nós, seres humanos, cavoucar o passado que está debaixo do nosso nariz, ou melhor, dos nossos próprios pés.
Em 2001, na cidade de Dona Francisca, região da Quarta Colônia, Rio Grande do Sul, uma nova espécie de predador foi descoberta por três paleontólogos do Laboratório de Paleontologia do Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. Após escavações, o que antes parecia ser um crânio de dinossauro mostrou-se, na verdade, três esqueletos sobrepostos em bom estado. O material foi levado ao laboratório e preparado para estudos.
Entre 2007 e 2010, o paleontólogo Marco Aurélio Gallo de França, doutorando em Biologia Comparada pela USP/RP, iniciou uma pesquisa acompanhado pelo orientador Dr. Max Cardoso Langer. Nesses três anos, a preparação e os estudos do fóssil foram simultâneos, onde, ao final de 2010, os resultados obtidos eram suficientes para a publicação de artigos científicos sobre o material.
Segundo Marco Aurélio, o estudo de um fóssil se baseia principalmente na anatomia do material e na comparação com os outros fósseis já descritos. No caso do fóssil encontrado no RS, o paleontólogo explica que, mesmo antes da preparação, era possível observar que os crânios tinham uma estrutura chamada de fenestra antero-orbital, ou seja, uma abertura entre a narina e a maxila, característica pertencente somente aos arcossauros. “Os arcossauros são répteis que durante o período Triássico (entre 245-205 milhões de anos atrás) se diversificaram em duas grandes linhagens: pró-aviana e pró-crocodiliana”, explica Marco Aurélio.
Na última linhagem citada (pró-crocodiliana), o paleontólogo explica que existem os crocodilomorfos, que são os formadores do grupo ancestral dos crocodilos atuais. Logo, estudos anatômicos mais específicos determinaram em qual destes grupos o fóssil pertencia. “Verificamos que se tratava de uma espécie nova pertencente ao grupo Rauisuchia. Dessa maneira, ele é mais aparentado aos crocodilos atuais do que as aves, e consequentemente, não é um dinossauro”, afirma.
Medindo cerca de 2,5 metros de comprimento, o predador era quadrúpede e também carnívoro, pois o crânio possui dente afiados e com margens serrilhadas, o que designa característica animal de usar os dentes para caçar e cortar partes da presa. Dados geológicos do local evidenciam que a região onde o fóssil foi descoberto era, no período Triássico, uma área de inundação que oscilava entre chuvas e secas.
“O grupo ao qual pertence, chamado de Rauisuchia, são animais geralmente predadores, topo da cadeia alimentar, de porte médio à grande, e se pensava que viviam mais isolados uns dos outros”, afirma Marco Aurélio. Ele conta que a descoberta quebrou esta concepção, o que indica que estes bichos tinham comportamento social muito complexo.
Ainda segundo Marco Aurélio, os afloramentos do Triássico do estado gaúcho é um dos mais conhecidos mundialmente pelos cientistas, pois é de lá que saem fósseis de grande importância para a Paleontologia. “Neste afloramento, na entrada do município de Dona Francisca, já foram encontrados outros rauissúquios, como Prestosuchus, que inclusive já saiu na mídia também, além de outros fósseis de herbívoros”, comenta.
Apesar de não estar presente no momento da descoberta, Marco Aurélio relata que a parte da preparação do fóssil era uma surpresa atrás da outra, e de forma bem positiva. O paleontólogo afirma que a quantidade e a qualidade da preservação dos fósseis foram o que mais lhe chamou a atenção. “Apesar do estresse da preparação e pesquisa, os resultados que obtivemos foram muito importantes, e isso me deixa gratificado. Se descobrir um crânio já é extraordinário, imaginem três quase completos”, anima.
O predador foi batizado com o nome de Decuriasuchus Quartacolonia e viveu no período Triássico Médio, há cerca de 240 milhões de anos.
Revide On-line (Colaborador Fernando Belezine)
Fotos: Ibraim Leão