Uma ponte com o futuro
No aniversário de 159 anos de Ribeirão Preto, a Revide, além de parabenizar a cidade, faz um convite ao leitor para conhecer quem são e o que pensam alguns de seus futuros cidadãos
Quando se instalaram nesta região em busca de novas oportunidades, os migrantes de Minas Gerais, veneradores de São Sebastião, por certo, não imaginavam que o pequeno povoado a que deram início, por força da vontade de mudar suas vidas — e que em 19 de junho de 1856 se elevaria à condição de município —, se tornaria um município com quase 651 km² de extensão e 650 mil habitantes. Um polo de desenvolvimento que, ainda hoje, atrai pessoas de toda parte e cumpre seu propósito inicial de transformar vidas.
Aos 159 anos, ainda é da força e da coragem de sua gente que Ribeirão Preto mais pode se orgulhar. Nasce dessa capacidade produtiva, associada ao desejo de empreender, de realizar sonhos, o que se vê traduzido em índices positivos, que muitas cidades vizinhas gostariam de reproduzir.
O reconhecimento por enormes conquistas alcançadas nos setores da Saúde, da Educação, do Agronegócio, da Indústria e da Prestação de Serviços, entre outros, só foi possível, no entanto, porque em algum momento de sua trajetória, Ribeirão Preto apostou, e muitas vezes alto, no ideal de um ou mais habitantes. São exemplos disso a Faculdade de Medicina, o Hospital das Clínicas e o Theatro Pedro II. Porém, há muitos mais. Cada escola, cada consultório, cada escritório, cada estabelecimento, cada ONG é uma aposta feita não somente em um projeto de vida, mas em uma proposta de cidade.
Através dos anos, e a despeito das administrações públicas, como intelectuais de diferentes segmentos já observaram anteriormente, Ribeirão Preto tem se mantido forte e com razões para celebrar cada aniversário, ainda que diante dos reveses, porque sua população acredita em seu potencial. É o que demonstra o olhar sobre o passado. Mas, e o futuro? O que dizer do que “está ali logo em frente, a esperar pela gente”, como diz a canção “Aquarela”? Que expectativa criar para Ribeirão Preto, daqui alguns anos, senão questionando aqueles que estarão lá, na manutenção diária dessa crença na cidade?
Soa clichê, sem dúvida, dizer que os jovens são o futuro da nação e que a base do desenvolvimento está na Educação. Porém, dificilmente, diante da histeria moderna, para-se para conversar de igual para igual, sem querer impor ou ensinar nada, apenas para ouvir, entender a percepção de mundo da juventude e, quem sabe, conjecturar acerca das possibilidades de um futuro promissor.
Foi esse o presente que a Revide decidiu compartilhar com a cidade neste aniversário de 159 anos. O diálogo com grupos de jovens dos colégios Albert Sabin, Auxiliadora, Marista, SEBCOC e da Escola Estadual Irene Dias. Ao todo, 15 adolescentes com idades entre 14 e 18 anos, participaram de conversas pontuando as percepções sobre Ribeirão Preto. Nestes encontros, alguns temas foram recorrentes, como segurança e transporte. Também apareceram apontamentos sobre a cultura, o lazer, a preservação e a política na cidade. Alguns firmes outros titubeantes, todos têm opinião.
Conexão com a juventude
Diante do generalizado distanciamento que se vê, não só da juventude, das questões políticas, a lucidez de Óthon Piccini, de 16 anos, conversando sobre o tema impressiona. Muitos adultos não conseguem articular sobre o cenário político nacional e local com tamanha desenvoltura. Orador nato, Óthon pretende se formar em Direito.
Na eleição passada, ele ainda não tinha idade para tirar o título de eleitor, mas, no ano que vem, com certeza, não deixará de exercer esse direito, mesmo se sentindo bastante decepcionado com o cenário local. Apesar da pouca idade, Óthon já compreende tão bem a importância do voto que aproveita para “puxar orelhas” por ai. “Ribeirão Preto é uma cidade muito aquém da sua grandeza. Falta a politização de seus cidadãos. Não há o debate, a discussão política, e isso acaba influenciando muito o processo eleitoral. Estamos a um ano da campanha e o problema não é nem ter um candidato, o que já é muito grave, o problema é não ter a possibilidade de aparecer um projeto político, nem da situação nem da oposição”, pontua o estudante.
Autointitulando-se um conservador de direita, Óthon se ressente pela falta de compreensão de sua ideologia. “Quando se fala em conservadorismo, há algumas confusões. O pessoal pensa que conservador é aquele cristão, retrógrado, que acredita na moral e nos bons costumes, mas o conservadorismo político é pensar a melhor maneira de reformar o sistema sem romper abruptamente com tudo como propõem os esquerdistas”, afirma. O adolescente critica, ainda, a falta de conexão dos políticos com a juventude. “Passo pelo mesmo isolamento ideológico por que a direita passa no Brasil. No meu espectro politico, fica difícil a mobilização; não tem local onde me integre. Afinal, qual é a mobilização jovem da direita em Ribeirão Preto? Esse é um mérito que tem que se reconhecer dos esquerdistas: eles já conseguem mobilizar a juventude”, declara.
Para o estudante, os debates políticos locais são absolutamente rasos, os partidos em geral não são conectados com a juventude da cidade, principalmente com o meio universitário, e se perde muito com isso, não planejando o futuro. Quando tiver seu titulo e puder se filiar a um partido com o qual se identifique, Óthon espera ampliar sua participação na construção de uma cidade melhor.
Atitude para mudar
Guilherme Galdino, de 16 anos, morou muito tempo no bairro Ipiranga. Estudou, entre outras escolas, na Escola Municipal Dom Luiz do Amaral Mousinho e, hoje, morando no Jardim Paulista e cursando Marista, observa pontos cruciais relacionados à Educação: infraestrutura deficitária, desmotivação de professores e desinteresse de alunos. “Quando vim para cá, notei que tem sempre bastante gente sentada no chão, conversando, e os alunos são amigos uns dos outros, mesmo sendo de salas e anos diferentes, o que não acontecia nas outras escolas onde estudei. Aqui, temos um sentimento de união diferente. Infelizmente, não é todo mundo que tem condições de pagar. Depender do ensino público é depender de um sistema falho, onde, muitas vezes, não há professores, falta material e se estuda em salas lotadas, de 40 alunos, sem ventiladores. Isso não é incentivo”, aponta.
Esperando contribuir de alguma forma com a melhoria da cidade onde vive e a construção de políticas públicas para a juventude, Guilherme buscou, por orientação de uma professora, a ocupação da cadeira no Conselho Municipal da Juventude destinada às escolas particulares. Entraram em um consenso de que ele deveria tentar a vaga, mas, chegando lá, não tinha concorrentes e o estudante conseguiu o lugar.
Como utiliza transporte público, já foi aluno da rede municipal e morou em um bairro de periferia, Guilherme se sente ligado a questões sociais e ao cotidiano da cidade. Espera, através do Conselho, ajudar a mudar a cidade. “Vejo essa participação dentro do Conselho como uma oportunidade de mudança que precisa ser agarrada, mas, até agora, ainda não tivemos nenhuma reunião. A impressão que dá é que o conselho é apenas de fachada”, revela o aluno.
Para o estudante, a mudança acontece através das pequenas ações. “Pratico muito o que está ao meu alcance e participar do Conselho está. Muitas pessoas acham que para mudar é preciso muito, mas eu penso que o primeiro passo é mudar a si mesmo”, afirma. Guilherme acredita, por exemplo, que apenas dando um bom dia para alguém, oferecendo um sorriso ou tratando um morador de rua como ser humano, já está promovendo mudanças.
Os colegas Lara Gonçalves, Fernanda Conegundes e Tiago Rezende concordam. Outro dia, na fila do supermercado, Tiago se indignou diante da falta de sensibilidade alheia. “As filas estavam lotadas e um senhor tinha apenas um saco de pão. Olhando aquilo, achei estranho. Por que não deixar simplesmente a pessoa passar? Por que não tratar o próximo de maneira gentil, sem esperar nada em troca? Dei a frente e ele agradeceu, uma atitude básica. Essas pequenas coisas deveriam ser consideradas normais para termos uma cidade e uma sociedade melhores”, conclui o futuro engenheiro.
Instinto de preservação
Apesar das escolas serem distantes uma da outra, alunos do Auxiliadora e do Sabin, compartilham a preocupação quando se trata de preservar o patrimônio histórico da cidade ou o meio ambiente. Nos apontamentos de Rogério Ortiz, Gabriel Guirão e Isadora Almeida ou de Gustavo Rigobello, Antonio Camargo, Ana Isabel de Melo, Leonardo Costa e Victoria Cardoso são comuns as referências à importância do Centro da cidade e do uso utilitário, porém, preservacionista dos antigos casarões.
A futura arquiteta, Isadora, de apenas 14 anos, critica o que chama de “um certo desleixo” do ribeiraopretano com patrimônios culturais e históricos, considerados perigosos ou feios. “As pessoas pensam em derrubar e construir algo mais útil, principalmente a juventude, que trata esses lugares como seus celulares. Diante de um modelo novo, perdem o valor e precisam ser descartados como coisa velha. Quanto mais a cidade cresce, menos lugares são preservados”, alerta.
Ela, Ana Isabel de Melo e Flora Castelani, embora não saibam, compartilham e agem, cada qual à sua maneira, de modo a promover uma mudança importante do ponto de vista da conscientização ambiental, simplesmente se preocupando com a limpeza urbana. “Sinto revolta quando vejo alguém jogando lixo no chão. Vou lá, pego e jogo no lixo”, diz uma das estudantes, Outra age diferente, chamando a atenção de quem vê jogando lixo no chão. “Meus colegas ficam com vergonha de mim, mas reclamo mesmo assim”, conta.
Em sua casa, Leonardo Costa separa o lixo para enviar à reciclagem. “A questão do lixo é conscientização pessoal. Para haver mudança, cada um tem que fazer sua parte”, diz o adolescente. Rogério Ortiz, de 17 anos, reforça que considera seu papel, como jovem cidadão consciente, é o de informar as pessoas ao redor, passar informações adiante, dar base para os filhos, no futuro. “Não tem mais o que a gente possa fazer”, destaca.
Generosidade em alta
Ir ao shopping com os amigos, andar de bicicleta na ciclofaixa aos domingos, passear no Parque Carlos Raya ou assistir um espetáculo, vez ou outra, no Teatro Municipal ou no Pedro II são algumas opções de lazer e cultura em Ribeirão Preto, na visão dos alunos do Sabin. Já para estudantes da Escola Estadual Irene Dias faltam centros culturais, bibliotecas e áreas verdes na zona norte da cidade. Também não dá para andar de bicicleta no asfalto esburacado do bairro. Resta passear no Centro, conversar em grupos nos bancos das praças ou ver alguma exposição no SESC.
Apesar das diferenças, há algo que todos podem compartilhar: a generosidade. Independente da localidade ou da idade, não são raros os depoimentos de jovens que já praticaram algum ato voluntário e que sentem prazer nisso. Ana Isabel de Melo, ao menos uma vez por ano, veste-se de palhaça e vai ao Hospital das Clínicas com o pai. Victoria Cardoso eventualmente visita idosos com a mãe.
Flora Castelani foi além. Motivada por uma proposta de atividade na escola, criou, junto com um grupo de amigos, uma campanha de arrecadação de roupas, objetos e alimentos para uma entidade assistencial. “O descaso está por toda parte. Na zona sul, por exemplo, as ruas são bem asfaltadas e, no meu bairro, dá até desgosto andar de bicicleta porque vai furar o pneu. Faltam cidadãos que se preocupam com a situação dos outros. Por isso, nós que somos jovens e temos muita energia, temos que aproveitar isso, ver o que nossas atitudes podem provocar, olhar as coisas com outros olhos e mudar por ai”, afirma.
Agora, duas vezes por ano, ela e os amigos escolhem uma creche bastante carente e mobilizam família, escola e amigos para ajudar. Quando vão entregar as doações, ainda fazem recreação com as crianças. “É uma coisa muito boa. Não sei explicar, mas faz com que eu me senta viva”, confessa a jovem.
A era do conhecimento
Este ano, Davi Mazali, de 18 anos, o mais velho entre os entrevistados, iniciou uma nova e importante fase de sua trajetória: ingressou na universidade. Algo comum, não fosse ele um dos poucos exemplos de alunos que ingressam numa universidade pública, a partir de uma escola pública.
Razão de orgulho para pais, familiares, professores e funcionários da escola Irene Dias, Davi representa aquilo que se costuma chamar de “ponto fora da curva” e, meritocracia à parte, garante que sua conquista está mais relacionada à sorte do que ao esforço individual. “A maioria dos meus colegas tinha que trabalhar para ajudar a família. Eu tive a sorte de ter pais que entenderam e puderam permitir que eu me dedicasse apenas ao estudo e também de ter o auxílio de professores, da equipe gestora e de outros funcionários da escola, que sempre me apoiaram como amigos”, afirma.
A escolha da graduação, que está cursando na USP-RP, Biblioteconomia e Ciências da Informação e Documentação, tem um propósito. “É muito difícil escolher um curso quando temos 17 anos, mas sempre quis encontrar um que pudesse mudar a vida das pessoas. Percebi que a informação é a cura para muitos males como, por exemplo, o preconceito, a homofobia e a xenofobia”, conta o estudante. “Puxando sardinha” para seu curso, como diz, Davi levanta a bandeira “Mais bibliotecas, por favor”, chamando atenção para o pouco número de bibliotecas realmente ativas em Ribeirão Preto e declarando que os livros são a solução para os problemas. “Não querendo ser chato, mas onde mais as pessoas podem aprender a ter senso critico?”, questiona Davi.
Ele enfrenta problemas para ir do Jardim Jandaia para a faculdade. Os ônibus são poucos, principalmente à noite, mas Davi não perde a esperança na melhoria e imagina uma Ribeirão Preto com cidadãos mais críticos e que invistam mais na igualdade de acesso ao conhecimento no futuro.
Educar pelo exemplo
Um tanto descolada e um tanto deslocada, Ribeirão Preto, na visão de sua juventude, tem ainda muito a descobrir de si mesma. A criação de um canal efetivo de diálogo, de uma ponte por onde essa significativa parcela da população possa transitar com toda sua leveza, jovialidade e conflitos, pode representar enorme ganho para a cidade no futuro, possibilitando a estes cidadãos se tornarem agentes de transformação e não reféns da realidade.
Engana-se quem imagina que não se possa aprender nada com eles. Flora Castelani, por exemplo, não costumava se importar onde deixava o carrinho de supermercado ao fim das compras, mas depois de ouvir em uma palestra na escola sobre a necessidade de se começar a mudar essas pequenas “corrupções” do dia a dia, alterou seu hábito e, pelo exemplo, motivou a mãe a mudar também. “Nós não ensinamos falando para as pessoas mudarem; ensinamos fazendo. Quem tem consciência precisa ajudar o outro, manifestar sua cidadania para o próximo tomar como exemplo”, ensina a jovem.
Victoria dos Santos Cardoso, de 14 anos, compartilha essa opinião. Para ela, se cada pessoa se conscientizar de que pode fazer algo, a melhoria acontece para todos. “Os grandes saltos são formados dos pequenos passos dados todos os dias. Então, podemos começar olhando para a nossa casa, arrumando a cama, limpando e organizado o quarto para auxiliar a quem nos ajuda, agradecendo a empregada, fazendo alguma coisa do nosso próprio café da manhã, dando bom dia para os pais, avaliando como somos em nossas casas, no bairro, com nossos vizinhos, na escola. Enfim, é um ciclo. Seus pais mudam, seus irmãos mudam, seus amigos mudam e isso só vai aumentando”, conclui.
Texto: Yara Racy
Fotos: Ibraim Leão
Agradecimento: Golfe Class