Uma questão de fé

Uma questão de fé

Definida por um sistema de crenças que engloba elementos que transmitem vitalidade, a espiritualidade pode mover energias e iniciativas extremamente positivas


Sob o olhar científico, a busca espiritual tem contribuído para a cura de diversas doenças do corpo físico. De fato, a vivência espiritual pode trazer sentido e reorganização à vida.

Por muitas vezes, transforma aspirações e desperta valores universais. A espiritualidade pode, ainda, ser caracterizada como um conjunto de vivências subjetivas que integram o pensamento às sensações, à intuição e à emoção.

Assim, os aspectos cognitivos ou emocionais agem sobre o corpo, que se manifesta através das emoções, dos desejos ou das crenças e causam bem-estar. Pelo viés emocional, a fé pode ajudar a enfrentar e superar situações difíceis na vida de cada um.

Para o psicanalista Guilherme Davoli, a espiritualidade representa a busca por um determinado caminho, carregado por uma série de dogmas e regras que definem hábitos e sociais.

“Espiritualidade é uma característica humana que traduz um modo de viver, uma busca pela plenitude da relação com o ‘divino’, ou seja, com aquilo que é incompreensível ou ilógico”, explica.

A religião é um dos caminhos que levam a isso, mas não é o único. Existem trilhas alternativas que usam energias e vibrações para contribuir para mudanças, desde simples hábitos, como dietas e comportamentos do dia a dia, até a cura de doenças psicológicas e físicas.

Cada caminho possui, de certa forma, pontos em comum, como a busca pelo sentido de ser, a compreensão de experiências vividas e a transmissão de sentimentos.

Diretamente ligada à espiritualidade, a fé — palavra originada do latim “fides” — significa confiança, crença ou credibilidade e pode ser expressa de diversas maneiras.

Em algumas situações, como diante de problemas emocionais ou físicos, ter fé significa alimentar a esperança por uma mudança positiva.

“É preciso ter cuidado em relacionar as duas alternativas. Não podemos esquecer que, enquanto a espiritualidade está voltada para a ‘busca do homem’, a religiosidade está vinculada aos ritos e à união dos membros que compartilham da mesma crença. Estar em uma religião não define a crença, mas sim, a conduta social. Já a espiritualidade é totalmente pessoal”, complementa Davoli.

Fé que cura

Entre os vários caminhos que levam à espiritualidade está o Reiki. Trata-se de uma técnica de transmissão de energia descoberta no Japão pelo Monge Mikao Usui, no final do século XIX.

Literalmente, REI significa “o que vem do universo ou do cosmo” e KI representa energia. “Portanto, Reiki é energia que vem do universo”, explica Fred Jorge Gomes da Silva, terapeuta holístico e mestre nessa terapia.

A base da técnica é transmitir energias pela imposição das mãos, através de um “reikiano”, que atua como canal de transmissão. A terapia possui a finalidade de restaurar o equilíbrio natural, emocional e físico, promovendo a cura.

O terapeuta adverte que este equilíbrio contribui para expressivas melhorias no aspecto físico. “É possível dizer que o bem-estar proporcionado pela serenidade dos pensamentos e das vibrações cria condições significativas nesse processo”, frisa.

Segundo Fred, o Reiki trabalha com padrões de vibração e de frequência em diferentes níveis. “As nossas emoções fazem com que o corpo vibre, o que repercute também no universo que, por sua vez, pode nos tirar da sintonia. O Reiki restaura o equilíbrio energético, desde que as pessoas estejam preparadas para isso”,  complementa o terapeuta, que não apoia radicalismos em relação à terapia.

Portanto, trocar os tratamentos médicos convencionais pelo Reiki pode não ser uma boa escolha.  “A medicina convencional é comprovada cientificamente. Mesmo ao reorganizar os sentimentos, o Reiki não substitui o tratamento convencional”, adverte Fred.

Para a atriz e cantora Vivi Reis, o Reiki foi uma solução alternativa. Espiritualista e cheia de fé, tratou de uma nefrite — uma doença nos rins —, com Reiki, dispensando o corticoide.

“Nunca gostei de remédios. Tenho fé e acredito no poder da mente e das energias. Sempre soube que poderia me livrar dos remédios de alguma forma. Nessa procura, encontrei o Reiki, que segui juntamente com o tratamento terapêutico”, comenta.

O encontro com o Reiki provocou mudanças radicais na vida de Vivi. “Sigo os tratamentos semanalmente. O primeiro diagnóstico  recomendou os remédios até que eu engravidasse. Claro que os medicamentos alopáticos ajudaram, mas quando retornei com novos exames, a nefrite tinha sido curada, para espanto do médico” lembra.

Para ela, o Reiki trouxe saúde e harmonia. “Com o conhecimento que adquiri, hoje posso ajudar outras pessoas também”, conclui.

A espiritualidade consiste em entrar em contato consigo mesmo, com sua essência e também com o universo. Ela também pode se manifestar através do contato com a natureza, do relaxamento e da meditação, da oração, da expressão da música, entre outros.

“À medida em que a mídia, cada vez mais, leva as pessoas a uma busca incessante pelo sucesso, os naturais momentos de fracasso alimentam a busca por alternativas que justifiquem essas derrotas, bem como alicerçam esperanças de uma retomada pessoal. Diante desses conflitos, é comum ver as pessoas se perderem dentro de uma variedade de pressupostos contraditórios”, reflete Davoli.

A espiritualidade como autoconhecimento

O significado da palavra Logosofia — do grego, a sabedoria que vem da palavra — foi o que despertou o interesse de uma mãe pela ciência. “Minha mãe buscava novos elementos para educar os filhos e ficou encantada com a forma com que a Logosofia explicava o ser humano”, afirma Silvane Stucchi e Barros.

Desde os oito anos, Silvane passou a entender seu cotidiano como parte de uma existência sem fim e, por isso, deveria dar a devida importância à vida.

“Sempre procurei estar atenta aos movimentos internos, da mente e do coração, pois é a partir daí que surgem as atitudes. Além disso, a Logosofia contém ensinamentos para uma vida verdadeiramente espiritual. Lembro que era levada a pensar sobre Deus e sobre a criação do ser humano em vez de ter apenas o conceito que deveria crer em algo”, explica.

Aos 17 anos, Silvane se formou professora e começou a participar do Sistema Logosófico de Ensino. “Aprofundei-me nesses conhecimentos e vislumbrei o bem que eu poderia fazer às crianças e aos jovens utilizando esta ciência. Poderia ensiná-los a ver a vida como algo grande e valioso, estimulando a felicidade, o esforço, o pensar, enfim, ensinando a fazer o bem a si mesmo e ao semelhante”, completa.

A Fundação Logosófica é uma instituição sem fins lucrativos, que visa à propagação do conhecimento através de programas educativos e culturais. O objetivo é auxiliar o autoconhecimento.

Trata-se de uma nova maneira de sentir e experimentar a vida, com grandes resultados no equilíbrio psicológico e na percepção dos valores da vida.

“Com a Logosofia, eu poderia ensinar, além das disciplinas regulares como matemática e português, o indivíduo a superar dificuldades e fortalecer sua natureza espiritual, colaborando com o desenvolvimento da humanidade”, ressalta Stucchi.

Para a artista plástica Maria Tereza Pereira, que acompanha a expansão da Logosofia em Ribeirão Preto desde o início, a ciência possui diversas traduções.

“É uma nova forma de sentir e conceber a vida; é a ciência do saber transcendente, conhecimento de si mesmo, da reativação da consciência do indivíduo; é a ciência do afeto ou da evolução espiritual, pois seus ensinamentos nos levam a aprender a pensar e sentir na verdade e no bem. É fonte de uma nova cultura para a humanidade e de uma nova pedagogia de ensino para a infância e a juventude”, expõe.

Na prática, o estudante de Logosofia realiza um processo de evolução de sua consciência. O método leva à renovação dos conceitos básicos da vida, complementado pelos estudos e vivências no ambiente da escola logosófica.

“A ciência descreve com precisão o funcionamento do mundo interno de cada pessoa. Ensina, também, a conhecer, identificar, superar e criar novos pensamentos e sentimentos, agentes causais do comportamento humano. Mostra como conhecer e usar os recursos de sua inteligência e sensibilidade, vontade e consciência, e a herança de si mesmo”, aponta Maria Tereza.

A ligação da Logosofia com espiritualidade está na experiência da vida e obedece a necessidade de evolução do espírito. “Trata-se de uma experiência cósmica, que compreende desde o conhecimento profundo que o homem deve possuir de si mesmo até áreas do mundo metafísico, onde atua o pensamento universal com suas leis e causas”, complementa.

Olhar para o próximo de forma mais humana e generosa poderá ser uma consciência desse estilo de vida. “Os aprendizados que obtive com a ciência foram inúmeros, como conviver de forma harmoniosa e respeitosa com os seres que encontro”, finaliza.

A busca por respostas

Por indicação médica, Maria Angélica Biasoli, procurou ajuda psicológica e chegou até a psicoterapia. A estudante sofria pelo resultado do exame de diabetes e, com o passar dos dias, adquiriu depressão. Foi quando decidiu buscar ajuda com sessões de psicoterapia e cura quântica estelar.

“Consegui compreender que comer exageradamente só fazia mal a mim mesma e descontar todas as minhas angústias na alimentação errada estava ficando fora do controle. Desde que comecei o tratamento, passei a reduzir a aplicação de insulina em 50%. Além da melhora física, o emocional está mais controlado, hoje sou mais sensível em relação ao próximo, à vida e às novas oportunidades que surgem na minha vida”, comenta.

O conflito familiar que desencadeou também uma depressão em Aline Leonel a fez buscar a psicoterapia, Terapia de Vidas Passadas ou sessões de regressão e Cura Quântica Estelar.

A Regressão é o ato de retornar no tempo e no espaço através de uma ativação das cargas adormecidas e reprimidas no inconsciente coletivo, restaurando a memória do passado desta ou de outras vidas, com objetivo terapêutico e de cura. Regressar é fazer um retorno em busca de respostas no passado para a solução de questões e conflitos do presente.

“Entendi que criamos hologramas e contratos em nossa psiquê que nos aprisiona em sentimentos como medo, raiva, inveja, mágoa, entre outros. Com o tratamento, percebi uma sensação de liberdade e mudanças no meu estado físico, emocional, mental e espiritual, deixando-me cada vez mais equilibrada e fortalecida”, explica.

O uso de elementos e formas da natureza ajuda o trabalho com o paciente. “A composição do espaço funciona como um canal de energia em que temos contatos com arcanjos, anjos, querubins, serafins e outros, pois falar de espiritualidade é falar da criação divina”, explica a psicóloga Delma Fernandes Muniz.

Na prática, a Regressão trabalha com o retorno do paciente às vidas passadas. “Existem muitas ferramentas que nos possibilitam tratar o paciente holisticamente (como um todo), pois somos uma centelha divina, somos energia, um princípio de inteligência, ou seja, tudo em nós flui conforme demandamos mental e emocionalmente. Muitos distúrbios de comportamento e doenças estão ligados a disfunção e desajustes de nossos chacras ou centros de força, a nossa alimentação, a correria. As pressões e as cobranças da nossa vida, também colaboram para muitos problemas do dia-a-dia. Nós somos um corpo geométrico, a própria “árvore da vida”, e nela estão contidos os sentidos de Deus em nós, os quais mediante o despertar desses sentidos nos ajudarão a nossa transformação, transmutação para o bem, para a vida, para o amor, para a felicidade e consequentemente para a cura”, ressalta a psicóloga.

A regressão acessa conteúdos que possibilitam entender certos traumas como medo, fobias, manias, entre outros que causam o distúrbio do comportamento de cada um. “É preciso ficar claro que o tratamento não é dado apenas por curiosidade, pois ele pode desencadear traumas ou outros problemas que até então se encontravam reprimidos em nosso inconsciente, o qual, também, age como um meio de defesa para nossa psique”, alerta Delma.

A psicóloga ainda complementa que o tratamento requer certo conhecimento da psicologia, parapsicologia, física quântica, apometria, bem como do esoterismo para que o profissional possa fazer a devida condução, pois trabalhar no passado é abordar o campo negativo (karma) da pessoa.  “O profissional precisa conhecer os campos fenomenológicos, dimensões paralelas, energia e suas manifestações e estar protegido, pois o risco de impregnação de miasmas e a consequente aquisição de doenças é grande. Daí os devidos cuidados do terapeuta ou curador”, analisa Delma.

Em linhas gerais, o tratamento com a Regressão, com a vertente da cura quântica, implica em mudanças significativas de vida. Segundo Delma, o paciente, aos poucos, percebe que o processo da vida não se limita à materialidade e vai muito além da prática de sentimentos nobres como o amor. “O paciente começa a se edificar com sentimentos como compaixão e ativa a consciência da sua função aqui na terra que é justamente amar e respeitar ao próximo, libertando-se assim de uma existência mecânica para viver uma vida em Deus”, conclui.

Cuidado para a alma

Um final de semana descontraído em Furnas, Minas Gerais, foi o ponto de partida para que Alberto Miranda passasse a frequentar o grupo chamado Alvo da Mocidade. Baseado em princípios como a relação de amizade entre as pessoas, a Alvo da Mocidade é uma associação com uma missão comunitária e apostólica de cristãos que se envolvem no resgate de jovens e adultos para viver segundo os ensinamentos bíblicos. “O grupo tem um estilo pessoal comum. São promovidas várias experiências pautadas no modelo de Jesus e no modelo dos apóstolos, ou seja, o relacionamento íntimo de casa em casa com pequenos grupos de estudos, comunhão em reuniões de orações e acampamentos”, explica Alberto.

No grupo desde 1976, Miranda colhe os frutos desse relacionamento com Cristo. A visão bíblica e científica o fez perceber que a vivência apenas material não é o suficiente para uma vida íntegra. “Percebi que nos preocupamos somente com o corpo físico e esquecemos do espírito e da alma. Nesse sentido, a dor, a solidão, a amargura e a falta de sentido na vida nascem desta falta de harmonia. Ao verificar um desequilíbrio e colocar minha vida nas mãos de Jesus, colhi a harmonia entre as três partes”, relata.

Nesta convivência, conheceu Mônica que se tornou sua esposa. Para quem acredita em amor à primeira vista, o relacionamento do casal é um exemplo. No final de semana em Furnas, numa troca de olhares na saída do ônibus, surgiu a base para o casamento. Os dois, juntamente com os três filhos — sendo que um deles estuda no exterior —, têm uma vida pautada nos princípios da palavra de Deus.

“Aquele final de semana mudou a minha vida de uma forma significativa. Analisar o meu passado, o presente e a certeza da esperança que me aguarda no futuro me deram uma nova perspectiva da vida. Desde então, tento aproveitar cada oportunidade servindo com amor os meus familiares, amigos e até mesmo desconhecidos que a vida me apresentar”, complementa.

Desta vivência no modelo de vida cristã, a família adquiriu um hábito. “Logo de manhã, falamos com Deus sobre as tarefas que temos para realizar neste dia e sobre o que Ele quer fazer em nossas vidas. Neste papo, pedimos que Ele tome conta de tudo e nos acompanhe em cada momento. Vamos juntos é o que pedimos”, destaca Miranda.

Para ele, a busca pela espiritualidade é negligenciada atualmente. “Somos criados por Deus para uma vida espiritual. Na minha experiência, fui buscado por Deus, que me apresentou um plano perfeito: resgatar e dar novo sentido à vida. Assim, descobri que Deus deseja e sonha que vivamos nele. Para isso, providenciou a direção. Assim, sei que encontrei o caminho certo para mim”, conclui.




A FÉ NA HISTÓRIA

A sociedade contemporânea busca, na ligação com o sagrado, conforto e resposta para angústias e sofrimentos. No entanto, a busca pelo sagrado pode não estar ligada a nenhuma instituição religiosa. O sentimento de ser amado por Deus e a partilha junto a uma comunidade religiosa permite que o homem estabeleça um sentimento de posse — e essa representação é significativa na experiência devocional. Para a historiadora Nainôra Maria Barbosa de Freitas, está mais do que provado que a fé tem a capacidade de provocar mudanças de vida em diversos aspectos. “A fé pode andar separada de religião institucionalizada, mas, normalmente, está ligada a uma crença. A ligação com o sagrado faz parte da história da humanidade e, desde os primórdios, os homens têm manifestado esta ligação por meio de rituais que, aos poucos, foram se sofisticando”, explica. As trevas, o calor, o frio, a vida e a morte eram controlados por deuses e espíritos. É o que se acreditava nas antigas civilizações. Segundo as crenças, os espíritos eram capazes de habitar as rochas, as árvores ou os rios e, através de canções, danças, sacrifícios e magia, era possível receber a benevolência dos deuses. Essas histórias fazem parte das civilizações do Egito, da China, da Grécia e de Roma, que possuíam deuses temidos por seus adoradores. Sacerdotes, especialmente treinados para interpretar a vontade divina, ensinavam ao povo como viver conforme a vontade dos deuses e também como homenageá-los. Esta atividade permitia que os sacerdotes obtivessem um grande poder. A crença de uma vida após a morte e a explícita dualidade entre o bem e o mal fazia com que os egípcios embalsamassem os corpos dos faraós. Já nos funerais do homem primitivo, assim como os de chefes de tribos escandinavas, existia a demonstração de crença numa outra existência. O deus Sol e a deusa Lua faziam alusão a uma força superior às demais e ganharam força entre diversos povos. Porém, foram os hebreus e, depois os judeus, que introduziram a crença num único ser supremo, Jeová. Ainda assim, Nainôra conta que, no século XIX, os homens afirmavam que Deus não existia e previam o fim das religiões, pois somente a ciência poderia responder as perguntas da sociedade. “Chegamos ao século XX e as religiões estão crescendo. Deus continua presente na sociedade e a ciência ainda não conseguiu explicar tudo”, destaca. Com o Cristianismo, os ensinamentos de Jesus Cristo tomaram força. No caso das religiões orientais, as crenças, em parte muito antigas, seguem doutrinas diferentes dependendo da região.


Texto: Cristiane Araújo
Foto: Julio Sian | Carolina Alves
Produção: Marcela Versiani e Mel Cândido
Modelo: Mariana Balan (dotmarketing.com.br | tel.: (16) 3446.5742)
Diagramação: Lucas Chaibub

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