Uma questão de talento

Uma questão de talento

Com direcionamento, comprometimento e esforço, surge uma nova geração de artistas, em Ribeirão Preto, que tem tudo para brilhar

Independente da época e do lugar, o desejo de chegar ao sucesso sempre esteve entre as maiores ambições do homem, uma busca que ganhou ainda mais força no mundo contemporâneo, onde visibilidade, destaque e um grande número de seguidores nas redes sociais servem de termômetro para o status alcançado. Hoje, basta uma câmera ou um celular na mão e uma boa ideia ou oportunidade para transformar qualquer pessoa em celebridade, um sucesso viral.

Mas o que de fato mantém o sucesso? Sem dúvida, uma das qualidades mais fundamentais nessa conquista é o talento. O fato é que ele não é suficiente: na maioria das modalidades artísticas, essa palavra tem que vir acompanhada por dedicação, estudo, foco e muita força de vontade. “O que faz a diferença é o empenho, a certeza do que quer e o estudo: aprimorar-se o quanto puder e ter direcionamento no trabalho. O peso do talento é ínfimo e não significa saber ou executar algo com perícia. O suor é que faz a realidade acontecer de verdade”, afirma Gisele Ganade, maestrina e diretora artística da Cia. Minaz. Segundo ela, no meio erudito, os aspirantes ao sucesso que não têm essa percepção somada a um fundamento sólido, ao conhecimento e à formação podem até brilhar por um tempo, mas não conseguem se manter no topo.

Segundo a maestrina, uma das alunas da Companhia que está tirando o máximo proveito do próprio talento é a soprano Lilian Giovanini, que tem conquistado vários concursos importantes e cantado com orquestras em vários estados. “Ela estuda muito. Começou há sete anos completamente crua e, agora, está concluindo a faculdade de música”, conta. Lilian faz aulas com Alexandre Galante, aluno de Gisele.

A cantora erudita é natural de Ribeirão Preto e tem apenas 23 anos. A música é uma tradição de família: sua avó também era soprano. “Muitas músicas eu aprendi com ela quando pequena. Minha avó e minha tia, que era mezzo-soprano, foram minhas grandes incentivadoras”, conta. Lilian começou as aulas de canto aos 15 anos e levou a atividade a sério. “Você pode ter uma voz bonita, mas isso não é nada se você não der uma direção: é preciso ter disciplina e consciência de que tem que estudar muito”, ressalta.

Também é preciso suar. Sabendo disso, Lilian participou de inúmeras montagens da Cia. Minaz, prestou concursos e, em 2011, ganhou, em Porto Alegre, o concurso Jovens Solistas, cujo prêmio foi a oportunidade de participar da temporada de concertos da Orquestra Sinfônica da Capital Gaúcha. Em 2012, conquistou o prêmio Carlos Gomes, na categoria Melhor Voz Feminina. Recentemente, passou dois meses na Alemanha, participando do Schleswig – Holstein Musik Festival, e sua apresentação já rendeu um convite para retornar ao evento em 2014. Também foi uma das finalistas do Concurso Prelúdio da TV Cultura.

No início, a soprano não tinha intenção de seguir profissionalmente no canto. Chegou a começar a cursar Publicidade e Propaganda, mas desistiu após três meses. Hoje, sente que está desenvolvendo bem o seu trabalho. Além do repertório, realiza 40 minutos de exercícios vocais diários. “Não consigo ficar sem cantar e estudar todos os dias, mesmo estando doente. Não tenho um hobby, minha profissão é meu hobby”, ressalta Lilian.

Outro artista da Cia Minaz cujo talento tem se destacado é Mítia D’Acol, 25 anos. O músico rege óperas e o Madrigal Minaz. Está fazendo mestrado na USP de Ribeirão Preto e integra o Laboratório de Musicologia da Universidade. Para ser um regente, é preciso profundo conhecimento de música, capacidade de comandar pessoas e experiência de trabalho musical em conjunto. Espera-se que ele toque até mais de um instrumento e domine o universo relativo à orquestra e ao coral. “Mítia está na regência há seis anos, lê e se empenha muito, estudou piano, violão e técnica vocal”, conta a maestrina.

Conforme o artista, a música é um fator obrigatório em sua vida. “Nasci dentro de uma companhia de ópera”, ressalta, acrescentando que aos oito anos entrou para o coral infantil e, desde então, nunca mais abandonou a prática musical.

Hoje, dedica-se à pesquisa musicológica e à prática musical. Envolveu-se com a regência, aos poucos, com as primeiras aulas sobre o tema que assistiu na graduação. “Não sei viver sem cantar em coro, mas sempre sonhei em fazer um repertório que não consigo ouvir em Ribeirão Preto”, comenta Mítia, para quem a regência proporciona uma responsabilidade maior na produção de um espetáculo. “Ao dirigi-lo, temos que cuidar para que as pessoas façam música bem e juntas”, enfatiza Gisele.

Quando questionado sobre o futuro, Mítia não titubeia: mais estudo. Quer terminar o mestrado, fazer doutorado e estágio de pesquisa na Europa ou nos Estados Unidos. “Estou bem focado. Não adianta ter talento sem esforço. Sei que se não estudar, não vou conseguir nada”, assegura. Só este ano, Mítia participou de duas atividades referentes à música: do V Encontro de Musicologia de Ribeirão Preto e do VII Congresso Chileno de Musicologia, ocorrido em Concepción.

A realidade de Mônica Picaço, de 23 anos, não é diferente. Como também está inserida no universo erudito, as regras que valem para ela são as mesmas que regem a vida de Mítia: foco, estudo e prática constante. Violoncelista, Mônica compõe a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto há mais de dois anos, mas toca o instrumento há dez anos, desde que vivia em São Caetano do Sul. “Estou envolvida nesse universo musical o dia inteiro. Quando não estou ensaiando ou tocando, estou estudando — são aproximadamente 12 horas diárias em contato com o violoncelo”, conta a musicista.

Segundo a artista, não existe mágica. “É muito esforço, trabalho e dedicação. Nosso empenho vai além do que as pessoas veem: temos que chegar em casa e estudar. Isso nunca acaba e implica em abrir mão de muita coisa”, explica a jovem, que começou a ter responsabilidade muito cedo: aos 11 anos já dava aulas de violino e, aos 13, de violoncelo. “Tive que amadurecer muito rápido, mas não me arrependo de nada, nunca tive dúvidas sobre o que quero”, enfatiza. O que Mônica quer não é pouco: chegar às grandes orquestras, ter experiência internacional, tocar música de câmara dentro e fora do país, concluir o último semestre da Faculdade de Música da USP, fazer mestrado nos Estados Unidos e doutorado na Europa.

O maestro assistente da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, Reginaldo Nascimento, conheceu Mônica na Faculdade e identificou na musicista um grande talento. “Além de ser talentosa, Mônica é esforçada e mostra comprometimento com o trabalho. Sempre que estou regendo, encontro os olhos de Mônica, acompanhando atentamente. Isso mostra que ela está muito bem preparada, que já trabalhou nas dificuldades inerentes à obra executada e que está pronta para o concerto ou para o ensaio”, afirma Reginaldo.

Para o maestro, a musicista está no caminho certo. “O talento é o que permite, ao ouvirmos vários músicos tocarem a mesma obra, perceber diferentes interpretações. Ele dá voz e personalidade ao instrumentista”, ressalta Reginaldo, para quem o talento representa apenas 1% do sucesso de um músico, já que os 99% restantes correspondem ao esforço.

Coordenadora da Cia. Dança Vida, Paula Vital Reis sabe que não é apenas o esforço que pode ofuscar um talento. “Já me deparei com gente que poderia ir para o exterior, ter muito sucesso e, por questões sociais, abriu mão do talento”, relata. Ela se refere a um aluno que era morador de rua, chamou a atenção de Naná Vasconcelos, participou do espetáculo “Corpos de Luz”, mas, por questão de segurança, abandonou a dança e agora é metalúrgico.

Em contrapartida, hoje destaca Joiciara Isabela Magalhães, de 23 anos, e Tiago Figueiredo, da mesma idade, que conquistaram suas independências com a dança. “A Joiciara tem talento para fazer qualquer coisa no meio artístico: se lapidar a voz, ela será excelente cantora, perfeita para musicais, pois é boa atriz e boa bailarina. Já o Tiago é um bailarino com talento nato, com uma expressividade corporal incrível, que tem um grande futuro na dança. O que falta para eles é visibilidade”, afirma Paula.

Joici, com é conhecida, está no Dança Vida há 10 anos. “Comecei no teatro, fiz dança de rua e entrei no Projeto. Há alguns meses, comecei a cantar em uma banda, mas tive meu primeiro contato com o canto quando dançava na Metrópole”, explica. Apesar da prática constante, sabe que tem muito a aprender. “Como não estou madura no canto, ainda me incomoda um pouco encarar o palco”, conta. Mas Paula já providenciou um fonoaudiólogo para que a jovem possa explorar suas potencialidades.

Além de ensaiar todos os dias, das 9h às 13h, ainda dá aulas em alguns núcleos da Companhia Dança Vida em outros períodos da semana. “O esforço pesa mais do que o talento. Alguns nascem com um dom, mas não o aprimoram. Nunca imaginei que um dia iria cantar ou dançar. Se estou aqui é graças ao meu esforço”, garante Joici.

Tiago também dança há 10 anos. Começou a carreira com o hip hop e, depois, praticou dança de rua. Seu talento já despertou interesse de profissionais da área como a holandesa Karina Holla, que ministrou um workshop no Dança Vida e ficou encantada com alguns bailarinos, entre eles, Tiago. Ficou tentada a levar o jovem para a Holanda, mas abriu mão da empreitada por falta de recursos.

Apesar de ter alcançado a independência através da dança, Tiago ainda não está certo se sua arte trará a segurança que procura. “Tenho vontade de expandir meus horizontes, gostaria de fazer arquitetura. Ainda não descobri ao certo o que quero; dançar é minha profissão, meu hobby, mas ainda não sei se quero viver da dança”, conta o bailarino, que dedica todas as manhãs ao Dança Vida.

Outros talentos estão apenas começando na carreira, mas já sabem o que querem. Este é o caso de Daniel Patrick Pereira Bewick, de 14 anos, que começou a participar do Projeto Guri há um ano e meio, mas aos oito já tocava violão. “Prefiro o estilo de música da guitarra”, explica.

Aproveita ao máximo as aulas semanais do Projeto e não deixa de se aprimorar em casa. Seu sonho? “Montar uma banda de rock, com alguns amigos daqui”, afirma. De vez em quando, pensa na música profissionalmente e também se preocupa com a escola, mas ainda não consegue imaginar outra profissão.

O professor de Daniel, José Marques, aponta outro fator capaz de barrar a força do talento: o preconceito. “É mais evidente ainda em relação às meninas. Fico frustrado, pois algumas famílias ainda acham que menina não deve ter a música como profissão”, esclarece. O fato de suas aulas não serem de um instrumento erudito agrava ainda mais o preconceito.

José identifica em Daniel um dom. “Ele tem muita facilidade e um ouvido afinado, por isso, evoluiu muito rápido. Desde que entrou no projeto Guri, cresceu, inclusive, como ser humano. Ele é extremamente inteligente, estuda muito, dedica-se mais que os outros”, enfatiza, acrescentando que Daniel é sempre o escolhido para um solo mais difícil de guitarra. Se o garoto ainda tem alguma dúvida quanto ao caminho que deve seguir, José não tem nenhuma. “Não vejo outro caminho para ele. Daniel é apaixonado pela música e, se largá-la, será infeliz”, afirma.

Essa vontade irresistível de prosseguir com o talento é o que o professor e diretor de Teatro, José Maurício Cagno, denomina vocação. “Às vezes, a pessoa tem talento, mas esmorece diante das dificuldades. A pessoa é talentosa quando possui um dom para uma atividade e aprende instintivamente. Já a vocação é o chamamento, a necessidade de que aquela atividade faça parte da sua vida. Não é uma opção profissional”, esclarece.

José Maurício destaca, ainda, outra característica que é fundamental para o alcance do sucesso: realmente trabalhar. É preciso se formar, fazer cursos, ler, aprofundar-se, participar de espetáculos. “O trabalho em longo prazo é que forja um ator verdadeiro”, assegura o diretor de teatro.

É um reflexo desse esforço que ele reconhece nas alunas Luiza Angerami Marçal, de 18 anos, e Rafaella Theodoro Souza Cunha, de 20 anos. Luiza estuda com José Maurício há dois anos, já participou de três peças e tem um trabalho corporal apurado graças à dança. “Ela tem intuição para desenvolver os personagens, entende o que o diretor quer, tem percepção de cena, da relação com os outros atores, uma garra muito grande, além de esforço e dedicação”, assegura. Além disso, decora os textos, participa dos ensaios, contribui trazendo de casa sequências prontas, tem presença de palco e de voz.

Rafaella começou as aulas este ano. Para isso, largou o curso de Administração na Universidade Federal de Uberlândia para se dedicar ao curso de artes cênicas. “A questão da vocação é muito forte na Rafaella. Ela já tinha experiências no teatro e em cursos da área e me surpreendeu com trabalho na peça ‘Ionesco – Thiago ou a submissão’, apresentada este ano, em que fez o papel de Thiago”, conta o diretor. José Maurício surpreendeu-se com a dedicação, a caracterização do personagem e com a força de cena que vislumbrou no trabalho de Rafaella. Luiza faz a noiva do rapaz na peça. Tanto uma quanto a outra, segundo o mestre, tem tudo para fazer sucesso — dependerá do esforço que pretendem despender.

Luiza concluiu o Ballet após nove anos de dedicação. Como a dança requer expressão e presença de palco, a jovem começou a se interessar pelo teatro. “Foi uma paixão. No ballet, você utiliza o corpo; no teatro, interage literalmente com as pessoas dentro e fora do palco. Mesmo sozinha no palco, interagimos com a plateia. Depois da peça, fazemos um bate-papo com o público, ouvimos opiniões e podemos crescer com elas”, enfatiza, justificando sua escolha.

Essa veia teatral a impulsiona ao crescimento: quer cursar uma faculdade, ir para o exterior, especialmente para países onde o preconceito com a área não seja tão grande quanto no Brasil. Conhecer o personagem, construí-lo e não ser quem se é o tempo todo são algumas das características apaixonantes do teatro, segundo Luiza. “Você pode ser o que quiser”, acrescenta. A literatura é um dos alicerces que utiliza para embasar sua arte. “É preciso ler os clássicos para aprimorar a fala”, recomenda. Outro grande aliado é o espelho: é com ele que aprende novas expressões, conhece as capacidades e os limites do seu corpo. “É um exercício constante, mas minha paixão maior, agora, é o teatro”, conta.

Rafaella também dedicou 14 anos ao ballet. Um dia, foi designada para recitar um poema e ficou tão comovida
que começou a chorar. “Não entendia o que era teatro. No terceiro ano, estava sem perspectiva, mas tinha o sonho de ser modelo”, acrescenta. Fez axé, dança do ventre, decidiu prestar moda em Londrina e, para testar sua capacidade de entrar no vestibular, pediu que a irmã a inscrevesse em qualquer curso da Universidade Federal de Uberlândia. Resultado: entrou em Administração de Empresas. Foi na cidade mineira que ingressou em um curso de teatro, depois partiu para São Paulo para um curso de Wolf Maia e também agregou aulas de canto e de sapateado. Percebeu que tinha habilidade e decidiu prestar Fuvest para desenvolvê-la. “A escolha pelo curso de teatro foi para atuar em musicais. Agora, estou abrindo minha cabeça para outras possibilidades”, destaca. Também fez um curso no Rio de Janeiro direcionado à TV. “Não fui eu que escolhi a arte, ela me escolheu. O teatro foi a única coisa que eu realmente quis. Acredito que o meu objetivo é emocionar as pessoas, sinto que carrego tudo o que está dentro de mim para o palco”, explica a atriz.

Hoje, sabe que rumo tomar: quer ir para o Rio de Janeiro, amadurecer seu talento, sentir que está crescendo e viver de arte. “Quero satisfazer as pessoas que estão me assistindo no teatro, quero aprimorar a questão do musical no exterior, mas quero desenvolver aos poucos, para chegar lá amadurecida e segura”, conclui.

Texto: Carla Mimessi

Fotos: Ibraim Leão e Júlio Sian 

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