Uma questão de visão

Uma questão de visão

Marlene Taveira conta a história da ADEVIRP, Instituição que assegura independência e direitos a deficientes visuais

Muitos pensam que a história da Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto (ADEVIRP) começou em 27 de março de 1998, quando foi fundada. Mas as conquistas e o significado da entidade para os 186 alunos que aprendem a conhecer o mundo, apesar da ausência de um dos sentidos, tiveram início em 10 de junho de 1958, com o nascimento de Marlene Taveira Cintra, no sítio Baixo Lajeado, em Pedregulho.

Foi entre animais e plantas, em um ambiente de aceitação, de incentivo e de amor, que a pequena começou a compreender que mesmo sem a visão era possível ter um desenvolvimento pleno e feliz, fazer parte da comunidade, partilhar brincadeiras e responsabilidades, como qualquer outra criança. Suas irmãs mais novas, Marlei e Marilda, que também nasceram com a deficiência, ajudaram neste aprendizado.

Apesar das dificuldades financeiras, Joaquim e Nair, seus pais, mudaram-se para Franca para oferecer educação às filhas, um objetivo que se tornou o verdadeiro sentido da vida de Marlene: formou-se psicóloga, pela Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, fez pós-graduação sobre o “Trabalho do psicólogo em Instituição”, Pedagogia em Magistério e Administração Escolar e Pedagogia com Especialização em Deficiência Visual.

A ADVEVIRP é o resultado prático do aprendizado vivencial e profissional, que faz com que, hoje, o trabalho de Marlene e de sua equipe sirva de farol a outras pessoas com deficiência. “A Associação começou por causa do sonho de ajudar, de ser uma facilitadora na inclusão do deficiente visual na escola, no trabalho e na sociedade”, explica a presidente da Instituição.

Graças à entidade, alunos aprendem a desenvolver potencialidades, a lutar por direitos e a desfrutar de uma vida independente e produtiva. Stephany Ribeiro Zuccolotto tem oito anos e desde os três aprendeu que o mundo oferece possibilidades ilimitadas. “A ADEVIRP mudou minha vida. Eu era pequena, não sabia andar sozinha, precisava da ajuda de todos. Hoje, não necessito mais”, conta.

Rafael Carvalho Borges da Silva, de 20 anos, é de São Sebastião do Paraíso e enfrenta problemas de visão desde a maternidade, mas só passou a ter mais perspectivas ao mudar-se para Ribeirão Preto. “Eu não tinha expectativa. São Sebastião não oferecia muitos recursos para pessoas com deficiência”, afirma. Segundo, ele, a ADEVIRP contribuiu para sua qualidade de vida: hoje vive em república, locomove-se bem, trabalha e cursa Direito. 

O caso de Luiz Carlos Ribeiro Júnior, 35 anos, é mais recente: há um ano, deixou de enxergar. “No começo foi difícil e achei que a visão ia voltar. Fiquei com a vida limitada, não sabia se me adaptaria”, explica. Mas, ao contrário do que imaginava, leva uma vida normal: corre, faz academia e trabalha.
Para Luiz Carlos e Rafael, a ADEVIRP funciona como um escudo que protege do preconceito e da vida em uma cidade que não lhes assegura, nem mesmo, o direito de caminhar pelas calçadas com segurança. “A gente aprende a lidar com isso e essa experiência nos fortale”, destaca Luiz Carlos. A mãe do bancário, Oneide Antônia Gonçalves Ribeiro, acompanha sua luta diária. “Sem a entidade, não sei o que seria da vida dele”, opina Oneide.

O pintor de carros Sílvio Vicente Teixeira, 63 anos, começou a perder a visão há seis anos. Com o agravamento da situação, passou a ficar deprimido. “Estava ficando perturbado, se estivesse em casa o tempo todo, não aguentaria seis meses”, ressalta. Graças à instituição, participa de coral, de grupo de dança, de informática, de aulas de braile e interage com outras pessoas. “Agora tenho vontade de viver e de aprender. Aqui, voltamos a enxergar e a viver em sociedade”, conclui o pintor.
Para colaborar com a ADEVIRP, entre em contato pelos tel.: (16) 3916.4655 e 3916.3968.

Voz que transforma
O projeto é fundamental para o desenvolvimento dos alunos. O Banco do Brasil cedeu os equipamentos para a montagem do estúdio de gravação e o “Criança Esperança” possibilitou a contratação de funcionários, mas o convênio acabou. Para que o estúdio continue cumprindo seu papel — proporcionando aulas, gravação dos audiobooks e preparação dos alunos para o mercado de trabalho —, é fundamental o apoio da sociedade. A jornalista Márcia Maria Soares Batista afirma que o estúdio é uma fonte real de oportunidades para os alunos. “Eles têm facilidade, sensibilidade auditiva e deslumbramento frente à oportunidade de aprenderem a ser locutores e operadores de estúdio. O estúdio ainda poderá revelar grandes talentos”, garante Márcia.

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