Uma questão sempre atual
A Saúde em Ribeirão Preto tem marcas importantes: o município é berço de grandes instituições de ensino , mas enfrenta problemas que persistem há muitos anos
No final da década de 1980, Ribeirão Preto contabilizava cerca de 430 mil habitantes e mais de 10 mil estudantes da área médica. Os dados foram divulgados em uma edição especial da Revide de 1989, número que já permitia elevar à cidade ao posto de polo regional de saúde. Um dos motivos que colocaram a cidade nessa posição foi presença da Faculdade de Medicina da USP, que contava com reconhecidos docentes e modernos recursos.
Isso aconteceu graças a um esforço coletivo pela descentralização e pela interiorização do ensino médico muitos anos antes. Ribeirão Preto foi escolhida, ainda na década de 1940, para receber a Faculdade de Medicina que se tornaria uma das mais importantes do país. Sua inauguração aconteceu em 1952, atraindo estudantes e especialistas de diversos cantos do país. Pouco tempo depois, mais precisamente em 1956, o Hospital das Clínicas (HC) iniciava suas atividades. A dobradinha entre ensino e atendimento de referência consolidaram Ribeirão Preto como polo regional de saúde, sobretudo pelo avanço científico e tecnológico que ajudou a promover na área médica.
De volta ao final da década de 1980, a saúde era tema recorrente na imprensa local. Em 1988, juntamente com a Constituição Federal, era instituído o Sistema Único de Saúde (SUS), regulamentado pela Lei 8.080, de 1990. Com o Sistema, cujo objetivo era garantir atendimento a todos, foi possível oferecer assistência médica básica completa, inclusive em casos de procedimentos complexos, como cirurgias e transplantes. Até então, costumava-se afirmar que a saúde brasileira dividia-se em algumas categorias: os que podiam pagar, os que não podiam e os que tinham acesso a ela por meio da Previdência Social.
No caso ribeirãopretano, a implantação do SUS foi fundamental para a municipalização da saúde, que aconteceria em 1996. Para Celso Lopes, atual diretor administrativo do Instituto de Previdência dos Municipiários (IPM) e ex-secretário de Saúde, o SUS era e continua sendo um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. “Ribeirão Preto já atendia sua população com foco no SUS, mas foi a municipalização que deu à Secretaria da Saúde a responsabilidade de gerenciar alguns serviços mais complexos, propiciando aquilo que a população realmente necessitava”, explica Celso.
A descentralização de decisões, responsabilidades, atribuições e recursos contribuiu para avançar rumo a um serviço de qualidade, mas não foi suficiente. “Nossa conclusão era de que, apesar da estrutura física adequada, precisávamos ainda organizar o sistema para que, de fato, a população tivesse garantida a prestação do melhor serviço, desde o simples atendimento ambulatorial até o transplante de órgãos, ou seja, o almejado ‘acesso integral, universal e gratuito’”, comenta o diretor. Olhando para os dias de hoje, Celso entende que o sistema da cidade é um dos mais estruturados do país, com equipes capacitadas para o atendimento público — são mais de 60 equipamentos de saúde e 3600 profissionais. Porém, ainda há muito a ser melhorado. “Ainda há bastante trabalho pela frente. O que se espera, e que defendo, é que se busque no SUS uma solução efetiva e eficiente para o Pronto Atendimento e para as demais demandas da população. Na guerra da resposta pronta, o SUS só está perdendo”, declara o ex-secretário.
Um retrato jornalístico
Em 1998, a Revide traçou um amplo panorama da saúde em Ribeirão Preto. Naquele ano, uma edição especial, que circulou com 100 mil exemplares, tratou do assunto com profundidade, tanto no setor público quanto privado. Uma das reportagens mostrava que alguns municípios possuíam Santa Casa ou hospital beneficente, mas sofriam com a falta de verbas. Por aqui, o destaque era o atendimento realizado no HC, que também socorria a população regional.
Outro tema que marcou os noticiários sobre saúde na década de 1990, foi o crescente número de notificações de pessoas portadoras do vírus HIV. A boa nova era o efeito positivo dos coquetéis, que diminuíram as mortes por aids de 244 para 118. Esses dados foram apontados pela Revide na entrevista concedida por Marcelo Fernandes, que assumia a presidência do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids (GAPA). Até então, a doença havia causado a morte de 1.500 pessoas em Ribeirão Preto e região.
Os avanços na ciência médica continuavam, muitos deles com a colaboração direta de estudiosos estabelecidos aqui. Mas as novas descobertas não seriam suficientes sem a mudança de postura da população. A capa da Revide de outubro de 2001, por exemplo, destacou a carência de doadores de órgãos em todo o país, apesar do aprimoramento da técnica dos transplantes. A publicação evidenciou também que novas leis estavam sendo elaboradas, como a que permitia a doação por meio de autorização da família. Junto com a lei, foi criada a fila unificada para cada estado brasileiro, além da Central de Transplantes de Órgãos e a Organização de Procura de Órgãos (OPO).
Um dos pioneiros da área, tendo assistido boa parte dessa evolução, o urologista Áureo Ciconelli ainda quer presenciar o uso da robótica na Medicina. “Não estamos longe disso”, garante. Para contar essa etapa importante na história da cidade, é necessário voltar no tempo. Em fevereiro de 1968, foi realizado o primeiro transplante de rim com cadáver no Hospital das Clínicas. Para o procedimento, comandado por Áureo, foi possível por autorização dos familiares de uma jovem de 28 anos com morte cerebral. Depois de três horas de cirurgia, o rim implantado funcionou imediatamente, garantindo o sucesso da operação. Aquele foi o pontapé inicial de uma história bem-sucedida na área para o Município. “Ninguém faz nada sozinho. Foi um trabalho árduo de muito estudo, que exigiu assumir riscos e encorajar a equipe”, conta Dr. Áureo, enfatizando a colaboração de todos.
O médico, que possui mais de 200 transplantes no currículo, relembra que o resultado do primeiro transplante ganhou grandes proporções. Para ele, o avanço da Medicina desde então foi extremamente positivo. “Hoje, existem medicamentos bastante eficientes para evitar a rejeição, o que colaborou muito para a evolução do transplante de órgãos em geral”, destaca o especialista.
Ainda a desejar
Na contramão do avanço da Medicina, outras questões ainda preocupam. Números expressivos têm colocado a cidade nos primeiros lugares do ranking, por exemplo, da incidência de dengue, o que não é de hoje. “Em 1990, tivemos a primeira epidemia da doença na cidade, que se estendeu para o começo do ano seguinte. Depois de grande mobilização da população, houve um período de relativa tranquilidade, até que novas epidemias vieram, cada vez mais intensas, com novos sorotipos circulando”, afirma Amaury Dal Fabbro, professor associado da FMRP-USP/DMS.
Em 2006, a edição 109 da Revide, de março de 1999, a cidade entrou, de fato, para a história vivendo uma das maiores epidemias de dengue. Na ocasião, foram confirmados 2.158 casos nos primeiros três meses do ano. O número foi desbancado em 2010, quando outra grave e alarmante epidemia se instalou e ultrapassou seis mil casos confirmados. Em apenas 83 dias, o Município tinha registrado 4.045 casos a mais, um aumento de 187,44%. Dados da Secretaria Municipal da Saúde registram que pelo menos 39% da população foi contaminada pelo vírus nos últimos 20 anos.
Em 2013, houve novo surto, com 13.179 casos, 4.000% a mais que no ano anterior. Dados emitidos pela Divisão de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde, de julho de 2014, apontam 292 casos registrados no primeiro semestre do ano. “Atualmente, não tivemos um agravamento da dengue hemorrágica, o que é um grande avanço quando comparamos a situação ribeirãopretana com outros lugares do mundo”, afirma o professor.
Na opinião de Amaury, uma das maiores dificuldades da saúde é transformar os hábitos das pessoas em favor de uma vida mais saudável. “Fatores de risco, entre eles, abuso de bebidas alcoólicas, tabagismo, obesidade, consumo excessivo de sal, sexo sem segurança, abuso de drogas, violência, pouca atividade física e má alimentação podem estar relacionados aos grandes desafios futuros. A adesão das pessoas aos comportamentos e hábitos saudáveis tem ainda um longo caminho para melhorar”, observa Amaury.
Um outro olhar
Na opinião do coordenador do curso de Medicina da Unaerp, Reinaldo Bestetti, a qualidade do atendimento em saúde na cidade está relacionada, entre diversos fatores, à valorização do médico e ao estabelecimento de um plano de carreira que permita o exercício ético-profissional da Medicina de forma plena. Bestetti ainda aponta melhorias na infraestrutura das Unidades Básicas de Saúde, facilitação do acesso do usuário ao sistema, bem como educar a população como itens que podem melhorar a saúde no município. “A ampliação do atendimento médico domiciliar e o aumento das estratégias de Saúde da Família já vem contribuindo para aprimorar esse quadro”, aponta. Segundo o coordenador, Ribeirão Preto possui, atualmente, 14 Unidades de Saúde da Família. De acordo com a atual política de saúde pública do Ministério da Saúde, é preciso que esse número cresça significativamente, tornando-se três ou quatro vezes maior. “Convém ressaltar que a ampliação do número de Unidades de Pronto Atendimento (UPA) também é importante.
Em relação à área acadêmica, o coordenador avalia que, para os 650 mil habitantes de Ribeirão Preto, a rede hospitalar e os leitos disponibilizados pelo SUS aos cursos de Medicina, regularizados pelo Ministério da Educação (MEC), não serão suficientes no futuro. “Devemos considerar, também, que nos próximos anos, por determinação do MEC, cada formando de Medicina deverá ter uma vaga de residência médica disponível após a formatura, o que exigirá das instituições de ensino capacidade e qualidade para implantar e administrar a formação continuada”, observa.
Bestetti destaca o sistema de hierarquização do cuidado, como indicado pelo SUS, que deveria ser objeto da atenção de qualquer estudante de Medicina inserido de forma sistêmica no SUS, mas isso ainda não está plenamente implantado na cidade. “Muitos casos de resolução terciária, que poderiam ser solucionados no sistema público, são encaminhados para o Hospital das Clínicas”, diz o professor.
Para ele, é preciso que o ensino médico se desenvolva dentro de um perfil solidamente estabelecido. “Não existe a possibilidade de ensinar todo o conhecimento científico em seis anos. Por isso, é preciso priorizar as competências necessárias para a resolução dos agravos de saúde mais comuns na população. Outro recurso utilizado é a aplicação de metodologias de aprendizagem que maximizem a retenção cognitiva, bem como a avaliação de competências, habilidades e atitudes que fortaleçam o processo ensino e aprendizagem no contexto atual”, conclui.
REDE EFICAZ
“Na cidade, como no resto do país, temos um dilema entre a saúde pública e a privada. O SUS é um grande modelo de assistência integral e universal à população e o Brasil é o único país no mundo com mais de 100 milhões de habitantes que assumiu o desafio de oferecer este modelo garantido na Constituição. Em Ribeirão Preto, temos uma rede básica eficaz, mas na atenção secundária temos um imenso problema. A ampliação do acesso demanda de investimentos e a necessidade de profissionais é complexa. O setor privado tem grande capilaridade na atenção de especialidades e alguns pontos de ociosidade que poderiam ser aproveitados pelo poder público na forma de contratação com oferta de melhores serviços à população.”
DR. PEDRO ANTÔNIO PALOCCI, Presidente do Grupo São Lucas
EVOLUÇÃO POSITIVA
“Ribeirão Preto é uma cidade privilegiada porque oferece a seus munícipes, desde serviços simples até procedimentos de alta complexidade como transplantes, cirurgias cardíacas e neurológicas. A rede de unidades de saúde do Município foi ampliada e fortalecida. A cidade conta ainda com amplas redes de assistência farmacêutica e hospitalar. Temos os hospitais filantrópicos como a Santa Casa, o Santa Lydia e a Beneficência, que oferecem completo rol de serviços, como internação, cirurgias e exames complexos. Contamos ainda com as unidades de gestão estadual: Hospital das Clínicas, Unidade de Emergência e Hospital Estadual, conhecidos no Brasil por sua excelência.”
STÊNIO MIRANDA,secretário de Saúde de Ribeirão Preto
PIONEIRA NA SAÚDE
“À frente na implantação do sistema de regulação para emergências médicas, Ribeirão Preto possui uma rede hospitalar muito boa. Em 28 anos, enfrentamos um período crítico de transição do modelo do INAMPS para o SUS, com gestão descentralizada para estados e municípios, o que exige dos governantes um esforço para a sua implantação. Tivemos progressos como a criação da rede de unidades básicas de saúde, a implantação dos núcleos do Programa de Saúde da Família e dois novos hospitais se somaram à rede pública, o Estadual e a Mater. Ainda assim, a rede básica de saúde precisa investir na qualificação dos profissionais e dos gestores.”
MARCOS FELIPE SILVA DE SÁ, superintendente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP
CIDADE PRIVILEGIADA
“O cenário da saúde, em âmbito nacional, pode ser considerado de um nível que oscila entre o excelente e o preocupante, dependendo do investimento efetivo em cada localidade do país. O principal desafio de gestão dos recursos disponíveis está em priorizar a promoção da saúde, em todos os níveis, e o controle adequado na condição de doença. Em Ribeirão Preto, somos privilegiados por termos instituições renomadas e tradicionais de ensino e saúde que caminham conjuntamente, formando os recursos humanos que buscam nossa cidade, seja para estudar ou trabalhar na área de saúde. Notadamente, os hospitais avançam na melhoria contínua dos recursos para o atendimento do paciente”.
WOE TONG CHAN, diretor médico técnico do Grupo São Francisco
EXCELÊNCIA EM MEDICINA
“Assim como nasceu o projeto da Revide para se tornar referência no campo do jornalismo, a Unimed também foi criada para oferecer o melhor da Medicina. A busca pela excelência é o nosso plano. A competência e a história da carreira médica dos seus cooperados devem ser destacadas como o mais importante feito na atuação da Unimed em Ribeirão Preto. Buscando sempre avançar em estratégia de melhoria para atender de forma mais humanizada nossos clientes e na qualidade dos serviços prestados, assim pensamos e realizamos a construção do Hospital Unimed. A Revide e a Unimed sempre juntas em uma parceria de respeito e de profissionalismo. Parabéns!”
JORGE NASSIF NETO, coordenador médico do departamento de Marketing da Unimed de Ribeirão Preto