Uma salva de palmas

Uma salva de palmas

Patrimônio histórico e cultural de Ribeirão Preto, Theatro Pedro II chega aos 90 anos como um dos mais importantes endereços do município e o terceiro maior teatro de ópera do país

Texto: Gabriela Maulim Fotos: Julio Sian e arquivo


Se as paredes, projetadas por uma arquitetura repleta de detalhes e de influência europeia, falassem, o Theatro Pedro II, que completa 90 anos em 8 de outubro, teria diversas histórias que não foram registradas em livros, tampouco contadas por quem vivenciou todo esse período.

Há muito a se falar sobre o teatro, que carrega narrativas e conquistas diversas nesses 90 anos de existência. Inaugurado em 1930, o prédio, que até hoje é sinônimo de cultura, arte e história em Ribeirão Preto, durante cinco décadas foi o centro de acontecimentos políticos e sociais do município. Nesse período, recebeu companhias teatrais e operísticas nacionais e do exterior. 

A construção foi idealizada por empresários da antiga Companhia Cervejaria Paulista, orientados por João Alves Meira Júnior, e desenvolvida pelo arquiteto Hypólito Gustavo Pujol Júnior, que se baseou no modelo europeu “Óperas de Paris”.

Desde a inauguração até os anos 1980, o Pedro II reunia de tudo um pouco: ópera, peças de teatro, música, cinema, balé, eventos políticos e sociais. Na década de 1960, o prédio passou por uma reforma que o descaracterizou e reduziu a capacidade da plateia de 2,5 mil para 800 visitantes para transformá-lo em cinema — placas de madeira encobriram camarotes, frisas e as galerias laterais. 

Em 1978, o teatro, em más condições de conservação, foi fechado para reformas. O Pedro II foi reaberto ao público no dia 15 de julho de 1980, mesma data em que viveu sua maior tragédia: o incêndio que destruiu a cobertura, o forro do palco e parte de seu interior, o que comprometeu a estrutura do prédio. A possível causa do fogo teria sido um curto-circuito nas instalações.

Após a fatalidade, em 1982, um movimento formado por artistas, intelectuais, políticos e cidadãos ribeirãopretanos promoveram ações e campanhas pela preservação do teatro e pelo resgate de sua função cultural. Então, em 7 de maio daquele ano, o prédio foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat).

Entretanto, só em maio de 1991 começou a primeira etapa de restauração e modernização da construção do Theatro Pedro II. A segunda etapa teve início em janeiro de 1993. Em abril de 1994, foi realizado um concerto de música erudita que arrecadou US$ 10 mil para a recuperação total do prédio. No ano seguinte, no dia 19 de julho, por meio das leis complementares nº 465 e 503, foi criada a Fundação Dom Pedro II com o objetivo de administrar e definir a forma de ocupação do teatro.

Um pouco mais de 15 anos após a tragédia, o dia 27 de maio de 1996 marcou a reinauguração do Pedro II, que contou com a presença do maestro Isaac Karabtchevsky. A data ainda marcou uma série de solenidades que apresentaram a transformação ao público. Desde então, o Theatro Pedro II, que é patrimônio histórico e cultural da cidade, vem emocionando a vida de ribeirãopretanos e visitantes com shows e espetáculos variados.

Anos após a reinauguração, em 10 de junho de 2017, Ribeirão Preto recebeu a escritura de doação do prédio do teatro, que até então pertencia ao Estado de São Paulo, e foi doado oficialmente ao município em maio daquele ano. 

Em 2020, por conta da pandemia do novo coronavírus, que ocasionou no distanciamento social, a celebração do aniversário de 90 anos do Pedro II ocorreu de forma virtual, com a apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto em live nas redes sociais do equipamento cultural. A regência do concerto, que contou com a participação de Lina Mendes, Fernando Portari, Carla Rizzi e Wladimyr Carvalho, ficou com o maestro Roberto Minczuk. 


No palco do Pedro II

Foto: Edielson Teixeira“Subi pela primeira vez no palco do Theatro Pedro II em meados de 2015. Uma semana antes, meu coração palpitava de pensar em pisar lá. Não era uma ansiedade do que estava por vir, mas uma ansiedade em pisar e sentir a energia daquele lugar sagrado, por ser um palco, onde realizo a minha maior expressão, e por ser aquele palco, de tantas histórias, tantos artistas que admiro que cantaram ali, tanta história de resistência, alegria, choro, luz, fogo e muitos, muitos aplausos. A primeira vez que estive nesse palco e todas as outras foram inesquecíveis, como se toda a energia que tivessem colocado na coxia, na concentração de cada artista, pudesse ainda estar ali, na respiração ofegante durante a abertura das cortinas”.

Jacque Falcheti, cantora

Foto: Cleomar J.  Resende“O Theatro Pedro II é a maior referência cultural de Ribeirão e está entre os maiores e melhores teatros do Brasil. Cartão postal da cidade, o prédio imponente, com sua arquitetura baseada em casas de espetáculo da Europa, desenvolveu uma acústica elogiada por todos os que se apresentaram diante de uma plateia exigente. A minha felicidade é imensa: ser filho da mesma terra que possui essa casa, ser tenor e ter cantado com muito orgulho no mesmo palco onde grandes cantores, orquestras e artistas estiveram desde a sua fundação na década de 1930. Imaginem a responsabilidade de surgir diante do público, 1.500 poltronas ocupadas, e todos olhando em sua direção à espera de uma exibição digna do tamanho do Pedro II. No ano passado, interpretei, por mais de uma hora, composições de autores brasileiros e clássicos da ópera italiana. Foi o maior teste da minha carreira e, diante dos aplausos, acredito não ter decepcionado ninguém. Nesse final de setembro, mais uma surpresa: a gravação de um recital em homenagem ao aniversário do teatro. Diferente do que ocorreu no ano passado, desta vez não pudemos ter público em razão da pandemia. A emoção, porém, foi a mesma. Piano e voz se harmonizaram em uma gravação que será exibida em breve. São experiências como essas que levarei sempre comigo. Família, amigos, professores e um certo palco fizeram com que eu me sentisse no topo do mundo. Parabéns, Theatro Pedro II, pelos 90 anos. Que venham mais 90”.

Ramon Mundin, tenor

“Desde a adolescência, eu frequentava o Pedro II como um cinema, e tenho boas recordações desse período. Nessa época, ele já não era o mesmo de antes. O tempo foi passando até ocorrer a catástrofe: ele pegou fogo. Quando isso aconteceu, eu já trabalhava com teatro e fazia parte do grupo Agnosarte e, junto a outros artistas e grupos da cidade, tínhamos um movimento pelo Pedro II, que contava com um palco em frente a ele, onde realizamos shows e apresentações pela reforma do prédio. Depois da restauração, foi muito legal quando consegui apresentar meu primeiro espetáculo no palco grande do teatro, ‘A História de Amor de Romeu e Julieta’, uma adaptação de Ariano Suassuna, produzido pela CIA Cornucópia. Depois da primeira vez, eu me apresentei em diversos espetáculos e fiz parte da coordenação do projeto “Teatro aos Domingos” — apresentações infantis semanais —, no Meira Junior, pois trabalhava na prefeitura essa época. Eu digo que o espaço do palco do Theatro Pedro II é maravilhoso, acho que é um lugar para contemplar várias obras teatrais e dar uma flexibilidade para o artista. Ele me alimentou como espectador e como diretor, em todos esses aspectos, e espero que ele se mantenha cada vez mais sendo o que ele é e o que representa para Ribeirão Preto. Parabéns, Pedro II”. 

Dino Bernardi, diretor teatral, figurinista, cenógrafo, ilustrador e artista plástico

“Todo artista fica feliz em dividir com o público os resultados dos seus trabalhos e, sem dúvidas, é muito mais enriquecedor quando existe a união do trabalho com esse símbolo patrimonial da cidade que é o Theatro Pedro II e todo o Quarteirão Paulista, que carregam uma singularidade histórica preciosa. Aquele palco já recepcionou muitos nomes nacionais e internacionais de peso e essa energia está toda ali concentrada. É contagiante, emocionante, transformador! Uma sensação mágica, sem falar na realização profissional que é pisar naquele tablado. Tivemos a oportunidade, em 2018, com a parceria da Nova Digital Produtora, de montar um espetáculo chamado ‘Acácias’, homenageando um dos grandes nomes da nossa música brasileira, Cássia Eller. Sem dúvidas, tocar naquele palco é um momento eternizado na nossa memória”.

Banda Senhorita

 

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