Uma vida dedicada ao conhecimento
Octávio Verri Filho idealizou e mantém o Plataforma Verri, um acervo digital rico em informações sobre os municípios de São Paulo
O amor pelo conhecimento e o desejo de compartilhá-lo com o maior número de pessoas estão no trabalho de uma vida do advogado Octávio Verri Filho. Promotor de Justiça aposentado, ele é o idealizador do Plataforma Verri, um acervo digital com informações diversas sobre municípios dos estados de São Paulo e Minas Gerais. São mais de 2.500 livros lidos, resenhados e à disposição do leitor, além de vídeos, fotografias e outras peças que fazem da plataforma online uma fonte de informação e amor pela história. Além de fatos históricos, genealogia e literatura épica, há efemérides (datas comemorativas) e curiosidades de 140 municípios, conteúdo exposto de maneira didática, simples e ao alcance do público em geral. Aos 77 anos, o advogado segue incansável na tarefa de ler e resenhar os livros que abastecem a plataforma e diz que gostaria de deixar o acervo (não apenas o digital, mas também o físico) como legado, bem como incentivar os poderes públicos, pessoas físicas e jurídicas da sociedade civil a produzirem obras sobre a história de seus municípios, falando sobre sua gente e sua terra.
Como começou o trabalho de resgate histórico dos municípios paulistas?
Começou como uma curiosidade minha quando promotor de Cajuru, quando me deparei com a ausência de informações sobre a história da cidade. No aniversário local, 18 de agosto de 1979, decidi fazer uma edição especial do jornal, em formato de revista, e fui atrás das informações. Depois, fiz o mesmo em Altinópolis, Patrocínio Paulista e São Simão, dando início ao acervo que existe hoje. Em 1981, me mudei para Ribeirão Preto e prossegui, entusiasmado, com o trabalho de recolher, cada vez mais, livros de cidades da região que se relacionassem com a terra e a gente, ou seja, de história, crônicas, memórias, biografias de pessoas locais, enfim, aquelas publicações que expressassem a identidade local. Em 2004, o acervo já contava com 400 obras. Nos primeiros tempos, quando estava de férias, chegava a ficar uma semana em São Paulo, pesquisando livros nos sebos. Depois, surgiu o site Estante Virtual, o que me economizou tempo e dinheiro. Muita coisa boa apareceu e continua a aparecer. Como a semana era ocupada com o trabalho, durante os finais de semana acordava às 4h e lia até às 23h. O hábito e alguma técnica de leitura dinâmica me proporcionaram ganho de tempo. A multiplicidade de publicações permite a descoberta de pontos em comum, que levam a uma compreensão mais rápida. Apesar de todo esse esforço, não houve cansaço ou sacrifício. Quando o assunto é fascinante, o interesse e o foco superam eventual adversidade.
Como a tecnologia ajudou a compilar e disponibilizar o conteúdo da plataforma?
Era coordenador do Escritório Experimental da Faculdade de Direito da Unaerp, em 2005, quando procurei a Área de Análise de Sistemas para a criação de um website, objetivando a divulgação do acervo de publicações. Em 2006, nasceu o Plataforma Verri. Simultaneamente à construção do website, fui adquirindo e lendo novas publicações. Foram necessários cinco anos para abastecer o site com as informações e sinopses dos livros, um trabalho que é feito até hoje.
Que fatos históricos sobre Ribeirão Preto poderiam ser destacados?
Um deles foi em 7 de março de 1927, quando ocorreu uma das maiores enchentes da cidade. Há, inclusive, um vídeo que mostra como as ruas ficaram completamente alagadas. Há, também, o incêndio que destruiu o Theatro Pedro II, no dia 15 de julho de 1980. O espaço estava passando por uma fase ruim. Posteriormente, houve uma sensibilização da sociedade e, hoje, é um dos principais espaços culturais da cidade. Não poderia deixar de citar, também, a circulação da primeira edição da revista Revide, em 14 de julho de 1986.
Qual o livro mais raro e o mais caro da Plataforma?
Funciona o princípio da lei da oferta e da procura. Quanto mais raro for o livro ofertado, mais caro é o seu preço. Neste mercado, já se pratica preços consideráveis. No meu caso, porém, houve uma exceção à regra. O livro mais raro pode ser considerado o ‘Almanaque de Ribeirão Bonito – 1907’. Comprei em um site de Portugal e, no valor de hoje, custaria cerca de R$ 1.500. O mais caro, no entanto, não é ele e a estória chega a ser até engraçada. Tenho por hábito solicitar aos donos de sebos que me avisem sobre a chegada de algum livro diverso dos que já tenho. Certo dia, fui informado da chegada de ‘Sombras Que Renascem’, de Maria Amélia de Arruda Botelho de Souza Aranha (1975), um trabalho genealógico de sua família, ligada à fundação de São Carlos. Eu havia sido operado de catarata no dia anterior. Mais do que depressa, corri para o carro, dei ré e bati em um outro veículo estacionado do lado oposto. Resumo do prejuízo: pagamento da franquia do seguro e mais o aluguel de um carro para a vítima, durante o conserto do seu carro. Saiu caro o livro.
Considera o Plataforma Verri o seu legado?
Ninguém mais do que eu procurou verificar se, em todo o Estado de São Paulo, nas principais cidades, houvesse algo semelhante. Infelizmente, não. Então, pode-se dizer que esse acervo é inédito. Em sendo inédito, é um legado meu. Minha maior preocupação é com relação ao acervo físico, onde eu poderia guardar os livros. Uma das razões pelas quais eu gostaria de preservar esse acervo de maneira adequada é para garantir a continuidade do conteúdo disponibilizado no site. A continuidade só acontece com a existência do livro físico. O Plataforma é consequência do acervo e há todo um trabalho artesanal, que é justamente permitir que o público tenha acesso a esse acervo, mesmo que restrito, porque só existe um exemplar de cada livro, mas, ainda assim, seria uma fonte de informações e dados para pesquisadores e historiadores. Há muitos livros que não se encontra mais.
Como vê o interesse por parte das novas gerações?
Recebo muitos e-mails, até do exterior, de pessoas que estão procurando seus ancestrais, suas raízes, a história de suas cidades. Tenho muitos livros de genealogia, de história sobre cidades antigas e a procura é muito grande nesse sentido. Infelizmente, não consigo disponibilizar o acesso ao conteúdo completo dos livros, apenas um resumo. Como é sabido, apenas 70 anos após a morte do autor que a sua obra cai no chamado ‘domínio público’. Já temos alguns livros nessa situação, mas a maioria necessitaria de autorização dos autores ou herdeiros para a digitalização e postagem do texto integral. Trata-se de um projeto que levaria tempo e seria muito caro, pois teríamos que procurar pessoas em cerca de 140 municípios. Disponibilizar o acervo no Plataforma Verri foi importante para disseminar toda essa informação. Quanto aos jovens, penso que tudo é uma questão de interesse. Há o jovem que tem interesse específico em algum assunto, seja esporte, gastronomia, entre outros, e há, também, quem goste de história. Mas, o mais comum é a procura por parte de pessoas acima dos 50, 60 anos. Existe uma nostalgia, uma curiosidade em conhecer as raízes. O jovem ainda não tem esse interesse despertado, mas eu vejo isso como normal.
Como vê o futuro do Plataforma Verri e do seu acervo de livros físicos?
É preciso reconhecer que, apesar de sua história e importância, o futuro do Plataforma Verri é imprevisível. Todos nós temos um limite de nossa capacidade intelectiva e de vida. A continuidade desse trabalho pressupõe a sempre presente necessidade de colher livros para o acervo físico, lê-los, fazer a resenha e postá-los no programa. E manter o conteúdo atualizado. Além disso, a cada assunto procuro pesquisar, no YouTube, a existência de um vídeo correspondente. Há, portanto, uma perfeita simbiose entre o escrito e o visual. E, então, como ficará tudo isso? Com relação aos livros do acervo, gostaria que fossem incorporados ao acervo da Universidade de São Paulo, que seria a única organizada para a segurança e acesso ao público. Por ora, essa tentativa tem se frustrado. Alegam falta de espaço até para os livros indispensáveis aos cursos. Iremos fazer nova tentativa junto ao Museu da Imagem e do Som (MIS). Caso não seja possível, restaria resolver essa continuidade em família.
O que Ribeirão Preto deveria ganhar como presente de aniversário?
Penso que falta uma biblioteca à altura do que hoje Ribeirão Preto é no aspecto cultural. Também me incomoda o fato de termos mais de 100 favelas e a tendência, infelizmente, é esse número aumentar. É consequência de algo maior, mais global, como a pandemia, que pegou a todos desprevenidos. Acredito que também não haja uma preocupação maior com o trabalho voluntário, principalmente com a mitigação da situação precária existente na cidade. Ribeirão Preto é um município muito privilegiado em vários aspectos, mas ainda há a área social com uma discrepância de renda da população muito séria. Quem tem condições, deveria fazer um trabalho voluntário e ajudar a mitigar essa situação.
Foto: Luan Porto