Uma vida dedicada às pessoas
O voluntariado em busca da igualdade social

É muito natural que tomemos nosso ponto de partida naquilo que nos é mais próximo, ou seja, a natureza humana. E ao tratar da natureza do homem, pensamos na essência do homem como tal, compreendendo o fato dele ser pessoa”. Foi envolta às considerações da filósofa Edith Stein que a conversa entre a professora Dra. Carmen Lúcia Cardoso e a diretora do Colégio Auxiliadora, irmã Adair Sberga, teve início.
Durante o descontraído bate-papo, Adair revelou seu encontro com a vocação para se tornar irmã salesiana, a busca por conhecer a alma humana e fomentar o voluntariado na educação brasileira. Formada em Filosofia, História e Pedagogia, a diretora do Colégio Auxiliadora concluiu mestrado em Roma, na Università Pontificia Salesiana, na área de Educação, com a dissertação “Voluntariado Jovem: construção da identidade e educação sociopolítica”.
Entretanto, não foi apenas a história de vida de irmã Adair que fez Carmen convidá-la para essa entrevista. Projetos em comum foram descobertos em um grupo de estudos sobre Fenomenologia na USP-RP. O envolvimento de ambas com o tema culminou em uma história de cumplicidade e amizade.
Carmen: Irmã Adair, por que a opção pela vida religiosa?
Ir. Adair: Nasci em Araras (SP), em uma família simples e, desde pequena, meus pais me educaram para o trabalho e a honestidade diante da vida. Quando tinha 14 anos, quis entrar para o grupo de jovens da minha paróquia e foi uma experiência muito positiva. Logo em seguida, aos 15 anos, comecei a trabalhar em um escritório, onde exerci os meus afazeres da melhor forma possível. Sempre fui muito determinada e decidida. Quando tinha 17 anos, fui convidada para participar de um estágio vocacional em São Paulo, no qual só pude ir depois de duas Irmãs Salesianas falarem com meus pais. Durante esse estágio, confessei-me com o padre e disse o seguinte: “eu gostaria de ser religiosa, mas não sei se é vontade minha ou se é vontade de Deus”. Delicadamente, o padre me respondeu: “minha filha, se é isso que você quer é porque Deus quer”. A partir desse momento, decidi pela vida religiosa salesiana. Acredito que tomei a decisão certa, pois sou muito realizada. Nessa época, tinha a convicção de que, se continuasse tendo uma vida social “normal”, seguiria a carreira administrativa, mas se eu entrasse para a vida religiosa, iria para o magistério.
Carmen: Mas como deu continuidade a essa escolha?
Ir. Adair: Quando me tornei Irmã, já tinha feito curso de técnico em contabilidade. Na vida religiosa, fiz magistério e, além disso, estudamos muito. Por quatro anos, temos as aulas de formação nas áreas de antropologia, psicologia, teologia, catequese, salesianidade, ética e sociedade e, após esse ciclo, eu já era irmã. Entrei em 1982 e, em 1986, realizei os primeiros votos da vida religiosa. Em 1992, fiz os votos perpétuos, afirmando publicamente que assumiria ser religiosa por toda a minha vida. Sou muito feliz tanto pela minha escolha vocacional, quanto profissional, optando pela educação. Gosto muito do convívio com as pessoas, com as crianças, adolescentes e jovens. Entrei na Congregação muito certa de que era essa vida que queria, pois existem muitos caminhos para a vida religiosa, vários tipos de trabalho e muitas opções de congregações religiosas. A que escolhi, a Congregação Salesiana, que tem o nome oficial de Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, tem o carisma para trabalhar com a educação.
Carmen: Como foi compartilhar com sua família a vontade de se tornar irmã? Você teve alguma influência?
Ir. Adair: Somos cinco irmãos e, na minha família, não têm pessoas próximas que optaram pela vida religiosa. Quando decidi, meus pais não queriam que eu me tornasse irmã. Meu pai era muito agarrado aos filhos e achava que tínhamos que nos casar e morar próximos da família. Então, no dia em que saí, foi difícil, meu pai chorava muito, foi muita coragem da minha parte. Depois de dois meses em São Paulo, parecia que havia séculos que eu não via minha família, tão grande era a saudade. Lembro que minha mãe ligava todos os dias e falava que se eu estivesse magra ela iria me buscar; as irmãs me faziam comer de tudo (risos). Todas as vezes que eu voltava para casa, sofria uma pressão muito grande e nunca sabia se iria conseguir voltar para o Colégio. Foi assim até eu fazer os votos perpétuos.
Carmen: Mesmo sem o apoio da sua família, você seguiu a vocação.
Ir. Adair: Tornar-me irmã foi praticamente um milagre. A irmã Lúcia Maistro, responsável pelo trabalho vocacional na minha cidade, avisou que iria até minha casa para conversar com meus pais. Lembro-me que nesse dia minha mãe inventou de levar meu irmão, que era pequeno, ao médico, bem na hora que a irmã chegaria em casa. Mas a irmã foi persistente e ficou esperando. Durante a conversa, minha mãe falou que se fosse da minha vontade, ela me deixaria ir para o estágio vocacional e que iria conversar com meu pai. Na mesma hora meu pai disse que, se eu quisesse, ele não iria se opor. Achei aquilo um milagre! Mudaram de opinião naquela hora, pois minha família realmente não apoiava, pois não queriam que eu fosse religiosa.
Carmen: Como você entrou para a Congregação Salesiana?
Ir. Adair: Participava do grupo de jovens da minha paróquia e, um dia, o Padre falou com os jovens assim: “No lugar de vocês se apaixonarem apenas pelos meninos e pelas meninas, apaixonem-se também por Jesus Cristo”. Aquilo ficou muito forte na minha memória. Tempos depois, veio o convite vocacional; comecei a participar de vários encontros, com congregações religiosas e, ao mesmo tempo, trabalhava no escritório. Havia uma moça que trabalhava comigo e tinha uma filha que estudava no colégio salesiano, na minha cidade, o Instituto Nossa Senhora Auxiliadora, e, através dela, conheci as irmãs Leda, Lúcia e Giuseppina, que me ajudaram muito. Nesse mesmo período, minha vontade de ajudar o próximo aflorou ainda mais. No grupo de jovens, sempre fazíamos ações sociais e eu gostava de ajudar as pessoas. Foi através da irmã Lúcia e de suas orientações que fui ao estágio vocacional em São Paulo, com cerca de 30 moças. Lá, passamos uma semana de estudo e conhecimento, afinal, as Irmãs precisam nos conhecer e não são todas as moças que são aprovadas para entrar na vida religiosa. Para se tornar uma freira, a jovem precisa ter estrutura, pois a gente não se casa, é abnegada, desapegada, precisa de retidão de caráter. Nós mudamos muito de uma realidade para outra, então, precisa ter boa estrutura emocional e psíquica. Por isso, a Congregação também aprova a jovem.
Carmen: Como foi a experiência com o magistério?
Ir. Adair: Fiz magistério e estudos para formação religiosa. Há um período que chamamos de juniorato, que se inicia com a primeira profissão religiosa e se estende até os votos perpétuos. Durante esse tempo, estudamos muitas disciplinas de formação para a vida religiosa, para ver se é realmente isso que queremos. Depois disso, fiz faculdade de Filosofia e História. Depois, fui para Roma fazer o mestrado em educação, com especialização em pastoral juvenil na Università Pontificia Salesiana. Foi uma época muito interessante, muito rica em minha vida, morei lá por três anos convivendo com pessoas de muitas nacionalidades. Não cursava apenas as disciplinas do meu curso porque, na Itália, as pessoas estudam poucas disciplinas e aprofundam muito para ter uma base sólida. No Brasil, queremos estudar muito e muitas coisas, as características são bem diferentes. Tentei adaptar o nosso jeito ao de lá. Queria me aprofundar em tudo. Fiz disciplinas nas faculdades de Psicologia, Teologia e Educação, fora a minha grade de estudos normais. Quando retornei ao Brasil, essa carga foi ótima para desenvolver meus projetos e ter meu diploma revalidado e apostilado pela USP-SP. Depois, fiz a faculdade de Pedagogia.
Carmen: Em Roma, conheceu outros hábitos estudantis?
Ir. Adair: Na Itália, a disciplina é muito rígida. Por exemplo, quando dá o sinal para iniciar a aula, o professor já está dentro da sala e diz “bom dia” e começa a lecionar imediatamente. Então, se alguém estiver no corredor, é uma correria. Cheguei ao Brasil querendo aplicar essas regras (risos). Eles têm uma organização e um aproveitamento exemplar do tempo; as provas são orais e o período de estudo é intenso. Durante o tempo que passei em Roma, não fazia outra coisa a não ser estudar e como sempre fui “Caxias” deixei até de passear em muitos domingos para estudar. O aprendizado, principalmente sobre a metodologia de estudo, ajudou muito. Fui avaliada na banca do mestrado, aprovada com louvor, ganhei da universidade a medalha e certificado de melhor nota.
Carmen: A partir de que momento resolveu unir os estudos ao trabalho voluntário?
Ir. Adair: O meu interesse de estudo sempre esteve focado na formação da pessoa. Como eu estava numa Congregação que trabalha com educação, voltei-me para a verdadeira formação de uma criança, um adolescente, um jovem. Queria entender o processo da formação global, então, comecei a estudar o tema, desenvolvi uma pauta e fui procurar um professor para me orientar no mestrado. Quando ele viu meu projeto, perguntou se eu queria escrever um livro. A partir desse momento, dei outro direcionamento para o estudo, voltando-me para o voluntariado jovem. Escolhi esse tema para escrever a dissertação, pois, no Brasil, o voluntariado era novidade — existia o trabalho, porém não havia um conceito constituído. Isso foi em 1999. Na Itália, o voluntariado tinha uma conotação política e o Ministério da Fazenda era um grande financiador de projetos de voluntariado porque isso trazia grandes avanços sociais. Eu queria que o Brasil também avançasse nesse quesito. Na minha opinião, uma sociedade não se desenvolve adequadamente sendo regida pelo capitalismo neoliberal, que descuida dos mais pobres. A partir desse pressuposto, comecei a pesquisar o assunto em todo o país durante o governo do Fernando Henrique Cardoso. Sua esposa, Ruth Cardoso, estava iniciando o projeto da Comunidade Solidária, que almejava acabar com os bolsões da miséria no país e implementar, junto à sociedade civil, projetos para as regiões mais pobres e vulneráveis. Um desses era o voluntariado, assunto que comecei a pesquisar, mas que já desenvolvia nas escolas, com os alunos, antes de ir para a Itália.

Carmen: O mestrado resultou em um livro?
Ir. Adair: Sim. A dissertação de mestrado foi apreciada e, na banca, os professores disseram que era para publicar. Chegando ao Brasil, fui convidada a apresentar o meu estudo num congresso de educação, com os padres salesianos e, ao final da palestra, o diretor da Editora Salesiana me procurou e disse que queria publicá-lo. A obra saiu no ano internacional do voluntariado (2001), com o título “Voluntariado Jovem: construção da identidade e educação sociopolítica”, e foi divulgado na Feira do Voluntariado de Santo André, cidade onde eu morava.
Carmen: A partir daí, começou a se envolver ainda mais em ações dessa natureza?
Ir. Adair: Assim que foi publicado, o livro foi parar em uma banca de um congresso importante. Na ocasião, Frei Beto estava lá, viu a publicação, comprou todos os exemplares e os levou para o Instituto Brasil Voluntário, o Faça Parte, em São Paulo, e disse para procurarem a autora. Então, fui convidada para dar palestras no Faça Parte. A partir daí, desenvolvemos propostas para várias diretorias de ensino do Estado para disseminar o conceito do voluntariado. Também me pediram para escrever um livro mais condensado para as escolas públicas do país, que foi patrocinado por várias empresas e pelo Ministério da Cultura e saiu perto de 100 mil exemplares, com o título “Voluntariado Educativo”. Participei do Congresso Brasileiro sobre Voluntariado, que aconteceu na PUC, em São Paulo, um evento marcante, que reuniu milhares de participantes de todo o país. Meu primeiro livro colaborou para a compreensão do conceito de voluntariado para jovens, que é diferente do voluntariado para adultos, por isso, é educativo. Também fui convidada pela Secretaria de Educação do Paraná para palestrar para Professores em Faxinal do Céu, onde a Secretaria tem a Universidade do Professor. Foi uma experiência incrível.
Carmen: Qual foi a repercussão disso para o colégio?
Ir. Adair: No cotidiano do trabalho, já tinha experiência. Quando entrei para a vida religiosa cumpri todas as etapas numa escola, trabalhei com Educação Infantil, Ensino Fundamental e, depois, Ensino Médio, sempre nos colégios Salesianos em São Paulo. Nessa época, unia o ensino a projetos sociais, principalmente nas periferias, junto a alunos e educadores. Quando desenvolvi minha dissertação relacionada ao voluntariado, já tinha prática. Tem alunas daquela época que fizeram sua escolha profissional a partir da experiência de voluntariado. Então, a repercussão foi significativa e de muita acolhida por parte da comunidade educativa. Atualmente, como estou na direção, não consigo fazer efetivamente trabalhos voluntários, só ações sociais, mas dou apoio e incentivo para que esse trabalho continue acontecendo no Colégio. Agora, dedico-me à formação de educadores, coordenando, na UNISAL em São Paulo, há 12 anos, um curso de extensão acadêmica e pós-graduação na formação de educadores de jovens.
Carmen: Como foi sair de São Paulo para se tornar diretora em Ribeirão Preto?
Ir. Adair: Antes de ser diretora aqui, passei por Guaratinguetá, onde permaneci cinco anos. Lá fizemos trabalhos sociais gratificantes. Em um deles, construímos duas casas para famílias muito pobres da cidade junto com os alunos, o que resultou em reconhecimento junto à Câmara dos Vereadores. Com os projetos sociais, os alunos conheceram a realidade dos menos favorecidos, o que ajuda no processo de sensibilização. Só mudamos a concepção do mundo quando vamos à fonte e conhecemos a realidade do outro. Estamos no mundo para viver em plena harmonia e isso só acontece com justiça social. Por isso, a formação na área social é muito importante. Depois desse tempo, recebi o convite para vir para Ribeirão Preto.Carmen: Foi aqui que começou a pensar em seguir para o doutorado?Ir. Adair: O meu tema de estudo continuou sendo a formação da pessoa, porque trabalho em escola e queria entender ainda mais esse processo: o que é formar de verdade um ser humano? Então, soube do grupo de Fenomenologia da USP-RP, pela Dra. Marina Massimi, e comecei a participar. Você era responsável pelo grupo. Ali também estudamos antropologia filosófica de Edith Stein. Grande filósofa e educadora, deixou um legado muito significativo, em nível mundial, para o conhecimento do ser humano. Stein ressalta que para ser um educador é preciso, antes de qualquer coisa, saber como o ser humano é constituído na sua totalidade.
Carmen: Como reviver esses ensinamentos na sala de aula?
Ir. Adair: Para formar uma pessoa, não basta transmitir conteúdos. É preciso conhecer a antropologia filosófica para realizar um trabalho mais direcionado, mais personalizado. Por esse motivo, numa escola, o aluno não pode ser um número, não pode ser tratado como massa. É preciso concebê-lo com uma individualidade e originalidade própria, porque, senão, não se faz um trabalho de formação. Para formar, é preciso chegar à alma da pessoa, o que exige um conhecimento do que é a alma humana e uma relação de afeto entre professor e aluno. A cultura juvenil é muito complexa e o jovem, muitas vezes, perde-se porque recebe muitas ofertas. O mundo das “coisas” é atrativo, mas não preenche o sentido da existência. A família e a escola, em parceria, devem ajudar o jovem a entrar em si mesmo para ajudá-lo a desenvolver as potencialidades que estão no seu núcleo central, na sua alma, para que se torne aquilo que nasceu para ser. Nós nascemos para realizar alguma coisa, em nós e no mundo. Edith Stein esclarece que, quando você colabora para que a pessoa vá à profundidade de si mesma, em seu núcleo central, ela encontra a razão da existência e se torna uma pessoa livre, motivada, responsável e feliz de ser e estar no mundo.