Uma vida pelo ensino

Uma vida pelo ensino

A professora licenciada em Letras saiu do Magistério diretamente para a sala de aula

Decidir a profissão a seguir é sempre um desafio. Mas, para algumas pessoas, essa escolha é extremamente natural. Foi assim, por vocação — e uma dose de idealismo —, que Maria Amélia Zuccoloto Teixeira tornou-se professora há 56 anos. Habituada a ajudar no processo de aprendizagem dos colegas desde a infância e a adolescência, a professora licenciada em Letras saiu do Magistério diretamente para a sala de aula. “Logo aos 18 anos, tive a oportunidade de iniciar minha carreira como professora na Associação de Ensino de Ribeirão Preto (AERP). Imediatamente, fui lecionar para alunos do Ginásio e, por isso, passei por um exame de suficiência, já que, teoricamente, ainda não estava formada para tal cargo”, relata Maria Amélia.

Na sequência, preparou-se para seguir uma longa carreira na Educação. Além da licenciatura em Letras, cursou Pedagogia com habilitação em Administração e Supervisão Escolar e Orientação Educacional e Pós-graduação lato sensu na área de Comunicação e Expressão (Semiótica e Linguística). Na área da Educação, também tornou-se especialista na Formação de Professores e Gestão Escolar e em Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes.

Essas credenciais e a vontade de fazer a diferença traçaram a trajetória de Maria Amélia. Apenas para citar algumas experiências, a professora passou pelo Ginásio Industrial Martimiano da Silva, pelo Ginásio Estadual Professor Alcides Correia e pela Escola Estadual Odulfo de Oliveira Guimarães (em Viradouro). Como professora e gestora escolar, atuou na Escola Estadual Otoniel Mota, onde permaneceu até 1992.

Dirigiu, ainda, a Escola Estadual Geraldo Correira de Carvalho e a Escola Estadual Professor Walter Ferreira, além de ter lecionado na Escola Municipal Elisa Duboc, antes de ser convidada para comandar a Escola Municipal de Ensino Fundamental Nelson Machado, onde permanece até hoje, mesmo depois de aposentada em 1997. “Nossa escola está localizada no bairro Maria Casagrande Lopes, que precisava de uma atenção para lidar com a violência. Aqui, pudemos interceder em busca da paz, em um trabalho que envolve, além de professores interessados, toda a comunidade local”, acrescenta, destacando que a realidade dos dias atuais já é muito diferente daquela encontrada em sua chegada em 1997. Segundo a professora, a transformação se deve a um trabalho de equipe que tem encontrado na Secretaria Municipal de Educação, o apoio necessário para a constante busca da qualidade.

Com 56 anos de experiência, Maria Amélia sabe bem as mudanças pelas quais o ensino passou nas últimas décadas. “Quando iniciei minha carreira, a escola pública era referência e o comportamento do professor junto ao aluno era muito diferente. O mestre era visto, tanto pelos alunos quanto pela família e pela sociedade, como uma autoridade, um detentor do saber. Assim, sua postura em sala de aula era marcada pela disciplina e pelo respeito total”, afirma Maria Amélia. Este papel foi mudando gradativamente conforme as transformações da sociedade. “O que atendia aos interesses do aluno de ontem já não corresponde às expectativas dos estudantes contemporâneos. Por isso, o professor também se transformou. Hoje, ele precisa se colocar muito mais como um mediador de situações de aprendizagens importantes para o sucesso dos alunos”, avalia.

Nas últimas duas décadas, o esforço de educadores, pesquisadores e autores também foi alterado. Atualmente, a busca é por uma concepção política e crítica da didática. Percebe-se, portanto, uma maior preocupação com a ampliação do enfoque crítico e também da educação como prática social comprometida com a democratização da escola pública e da qualidade de ensino. “No
início da minha carreira, de maneira geral, o espírito crítico e reflexivo estava ausente das instituições de ensino. Em alguns momentos da história da educação, quando este aparecia, era abafado”, relata. Maria Amélia faz questão de ressaltar que acredita em um caminho de melhorias para a Educação.
Já a escola pública se transformou porque, segundo a professora, a Educação sempre esteve subordinada a interesses políticos ou econômicos. “Historicamente, o ensino no Brasil pouco manteve em foco sua condição humana”, acrescenta Maria Amélia. Para que essa trajetória seja modificada, é necessário formular políticas públicas realmente pautadas pela qualidade do ensino, com meta e objetivos bem definidos nas esferas federal, estadual e municipal. Promover uma formação acadêmica de qualidade e continuada para professores e gestores também é fundamental, assim como incentivar o comprometimento desses profissionais, com cobrança de resultados.

Maria Amélia acredita que este é um momento de novas mudanças, caracterizado pela valorização da profissão, que está ganhando mais autonomia, integridade e responsabilidade. “Tudo isso só é positivo se a formação inicial do educador for apenas a primeira fase de um longo processo de desenvolvimento”, garante. Para ela, o profissional da educação de hoje não chega às salas de aula bem preparado. Isso porque os cursos de Pedagogia e de licenciaturas se proliferaram depois que passaram a ser exigidos, em 1996, sem que houvesse um rígido controle de qualidade. “Claro que existem
exceções. Convivo com profissionais cheios de vontade de aprender, em constante aperfeiçoamento”, comenta Maria Amélia.

Mas o professor precisa ser mais valorizado, especialmente no que diz respeito às condições de trabalho a que é submetido. Salas com excesso de alunos, infraestrutura de ensino limitada e pouco investimento em formação são alguns exemplos da subvalorização desse profissional.

Bate-bola:
Para ser professor, é preciso: vocação, compromisso e idealismo.
O que não pode haver no profissional da educação: desânimo e descompromisso.
Um livro indispensável: “Os sete saberes necessários para a educação do futuro”, de Edgar Morin.
Um filme que inspira: “Escritores da Liberdade”, do diretor e roteirista Richard LaGravenese.
Um exemplo a ser seguido: meus pais.
Um momento memorável: o reconhecimento como mestra que colaborou na educação de Ribeirão Preto. Uma aula inesquecível: a aula inaugural do mestrado na Universidade Federal de São Carlos.
Um mestre conservado na lembrança: Amine Bonaim.

Entre os primeiros
“A professora Maria Amélia me deu aulas de português logo no início de sua carreira, ainda aos 18 anos. Já naquele momento, demonstrava rigidez e rigor dentro da sala de aula. Nossas famílias tinham uma boa relação fora da escola: nossos pais eram amigos e eu era muito próximo do irmão da professora. Nem por isso tive qualquer tipo de benefício, tendo, inclusive, ficado de segunda época por causa das notas da professora Maria Amélia. Este episódio demonstra a seriedade com que ela, ainda jovem, encarava sua profissão, sempre com muito respeito.” Marcelino Romano Machado,
advogado e jornalista

Admissão
“Meu primeiro contato com a professora Maria Amélia foi em um curso particular para a admissão ao Ginásio, na conclusão do Primário, no início da década de 1970. Tínhamos aula em uma edícula na casa da professora, que ficava bem próxima à casa da minha avó. Formávamos uma turma pequena e muito interessada. A relação com a professora era baseada no respeito e na disciplina, o que deu excelentes resultados. Ingressei no Ginásio  na Escola Estadual Otoniel Mota, exatamente como havia planejado.” Luiz Roberto Verri de Barros, médico pediatra

Exemplo
“Não tive contato com a professora Maria Amélia dentro da sala de aula, mas fui dirigido por ela como aluno, na Escola Estadual Professor Walter Ferreira, e como professor, na Escola Municipal de Ensino Fundamental Nelson Machado, até os dias de hoje. Nas duas experiências, pude perceber que a professora Maria Amélia está sempre disposta a dar o suporte necessário para quem quer fazer a diferença. Através de uma gestão participativa, a professora mostrou que é possível transformar o ambiente onde estamos inseridos de forma positiva.” Cristiano Lima Floriano, professor de Educação Física

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Texto: Luiza Meirelles
Fotos: Julio Sian

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