União de ideias

União de ideias

Com estruturas horizontais de organização, os chamados coletivos criativos estão presentes nos escritórios, nas universidades e até mesmo na arte

Desde a infância, a escola e a família nos ensinam que a união faz a força e cooperar é essencial para que o melhor resultado seja alcançado. Em tempos de crise e de investimentos escassos, essa máxima nunca foi tão verdadeira. Formas horizontais de trabalho e ambientes de troca de ideias estão gerando serviços e iniciativas cada vez mais produtivas. Os “coletivos criativos” são, basicamente, grupos de pessoas que se unem com um objetivo em comum. Este propósito pode ser um trabalho, um projeto, a manutenção de um local ou de atividades artísticas e até um ideal. A única regra é a cooperação pelo mesmo objetivo.

Este modelo de organização pode começar já dentro das universidades, com uma instituição de nome não tão conhecido para quem não está inserido neste ambiente: a Atlética. “A entidade funciona como uma empresa, porém, baseada no trabalho coletivo. Temos estatuto, regras e hierarquias bem definidas, mas todos que estão ali dentro e que contribuem o fazem por que querem. Às vezes, o trabalho é bem pesado, porém é muito gratificante ver os alunos bem representados, felizes, curtindo uma festa que nós organizamos ou vibrando em algum jogo promovido por nós”, explica Caíque Oliveira, fundador da Atlética de Comunicação V de Maio, que representa os cursos de Comunicação da Unaerp. 

As Atléticas são criadas com o intuito de integrar alunos novos, promover eventos e representar o curso nas mais diversas atividades. “Montar a atlética foi um processo de muito esforço e dedicação. Quando entrei na UNAERP, no início de 2016, senti uma enorme falta de representatividade. Não tinha nenhuma instituição forte ali que acolhesse os alunos, que fornecesse aquela sensação de pertencimento, que ajudasse na integração entre as várias etapas. Tudo isso era feito pelo aluno, isoladamente”, conta Caíque. Assim, o fundador se sentiu motivado a mudar algumas propostas na Atlética de Publicidade, que já existia, integrando alunos de Jornalismo e criando uma nova instituição. O estudante explica que existem atléticas grandes, que competem em diversos campeonatos com seus atletas, e menores, como a de Comunicação, mais voltada para os alunos. “Cada entidade tem suas particularidades administrativas ou relativas à tomada de decisões e tudo mais. Na Atlética de Comunicação, no setor administrativo, existem dois presidentes, um representando cada curso, um vice-presidente e um tesoureiro. Esses são os que ditam as necessidades principais da atlética, organizam a comunicação com a universidade, contabilizam o dinheiro para nos mantermos operantes. Abaixo desse setor, há vários outros e cada um possui sua função particular”, conta o estudante de publicidade.

Atualmente, Caíque atua como diretor de marketing da Liga das Atléticas da UNAERP, a LAUNAERP. “A Liga objetiva representar todas as atléticas da universidade nos grandes eventos externos regionais e até nacionais. Como seu próprio objetivo, a LAUNAERP é maior e conta com aproximadamente 100 atletas, um corpo administrativo com aproximadamente 30 membros e pode ser considerada grande”, explica Caíque. 

Fundador da Atlética de Comunicação V de Maio, Caíque Oliveira agora é diretor de marketing da Liga das Atléticas da Unaerp

Coletividade nos negócios

No âmbito profissional, o mesmo conceito tem ganhado espaço de uma forma vantajosa para todos os envolvidos. Para Frederico Petean, que está à frente da agência de comunicação Mandarina, o avanço das tecnologias de comunicação e das redes sociais facilitou a união de profissionais autônomos em busca de sinergia. “Este novo modelo de trabalho é mais vantajoso por ter o menor custo e por conseguir apresentar para os clientes soluções viáveis em Comunicação, independente da área de atuação. Desta forma, podemos atender a clientes de pequeno ou de grande porte, pois, para cada necessidade, um time específico é montado. A dedicação dos profissionais também acaba sendo mais efetiva, pois, como autônomos, eles estão sempre em busca de apresentar um bom trabalho para serem incluídos em novos projetos”, expõe o publicitário. 

Em sua agência, sempre procurou estabelecer parcerias em busca de sinergia. O modelo se consolidou no começo de 2018, quando o publicitário desfez a estrutura física da agência. “Nosso modelo de agência atual é horizontalizado, ou seja, ninguém é subalterno de ninguém. Nossa equipe trabalha com parceria em negócios. A escolha do profissional que irá atuar em uma demanda específica acompanha o perfil e as habilidades de cada um — tanto na perspectiva do cliente quanto do profissional”, explica. 

Com mais de dez anos de atuação no mercado, a Mandarina possui parceria com diversos colaboradores, que possibilitam uma enorme diversidade na Área Criativa. “Eu, como Gestor de Contas, procuro montar um time forte a cada novo trabalho que surge. Dessa forma, criamos condições para atender ao cliente com a maior eficiência e com o melhor custo possível”, conclui Frederico.

O publicitário Frederico Petean conta com uma estrutura de trabalho horizontal em sua agência, a Mandarina

A arquiteta Carolina Corbo sempre acompanha as obras que possui em andamento. Para isso, conta com parceiros e fornecedores para cada etapa do trabalho. “No começo, é importante conhecer vários fornecedores diferentes e, a partir daí, selecionar aqueles que melhor atendem às suas necessidades. Tenho alguns parceiros que executam muito bem o serviço e compartilham comigo os valores que prezo no trabalho. Junto a isso, são organizados e eficientes. Cada projeto é um único e, por isso, é preciso ter profissionais de confiança que façam acontecer. No entanto, meu cliente não precisa necessariamente contratá-los. Eu os indico porque acredito que sejam os melhores”, explica Carolina. 

A arquiteta trabalhou por três anos em uma construtora paulistana. Durante a experiência, fazia parte do setor de orçamentos. Assim que veio para Ribeirão Preto, trouxe consigo a prática de pesquisar vários serviços e de levar opções para o cliente. Daí em diante, acompanha a execução e a entrega do trabalho. “Após todos os serviços contratados, montamos um cronograma e acompanhamos todas as medições, execuções e entregas. Só liberamos o próximo serviço quando o anterior foi bem executado e cobramos para que o cronograma e as datas sejam respeitados”, explica a arquiteta. 

A arquiteta Carolina Corbo acompanha todas as etapas dos projetos e possui parceiros de confiança

O nascimento de um espaço

Da necessidade de desocupar a sala do Grupo Engasgagato, no Edifício Diederichsen, nasceu o Forte Voador, que hoje conta com 12 artistas reunidos em seu espaço. “Na urgência, comecei uma pesquisa de novos endereços. Foi dessa forma que conheci o Forte, que, na época, não tinha esse nome ainda. Diante de vários grupos fechando por falta de financiamento ou por não conseguir pagar o aluguel, decidimos caminhar na contramão. Assim começaram os convites para outros parceiros que já estavam conosco há muito tempo para ocupar esse lugar”, conta Gabriel Galhardo, um dos nomes à frente do grupo teatral Engasgagato.

Assim, o grupo se juntou a outros coletivos e artistas com a mesma necessidade de um espaço para criação, ensaios, guardar cenários e outras utilidades. “Fechamos em 12 artistas, entre atores, atrizes, músicos, malabaristas e palhaços. Em comum, temos uma pesquisa na linha do palhaço. O espaço está funcionando há cerca de cinco meses”, explica Marcelo Mamute, malabarista e artista de rua. No dia 16 de março, o local foi oficialmente inaugurado com um Cabaré. “Foram várias apresentações de todos que fazem parte do Forte. A partir daí, começou uma loucura de apresentações, todos os finais de semana. A casa estava movimentada e todo mundo estava querendo conhecer. Além disso, havia muitas pessoas procurando o espaço para se apresentar. Algumas até de outras cidades, que estão circulando graças a recursos do Programa de Ação Cultual (ProAc). Por conta disso, o Forte começou a tomar uma outra proporção”, conta Fernanda Soto, uma das atrizes do Forte Voador. 

O grupo percebeu, então, uma grande demanda por espaços de teatro que também acolhessem outros grupos na cidade. Com um mês de funcionamento, a demanda pelo espaço cresceu mais do que era esperado. “O espaço deixou de ser para locação e para guardar nossos materiais de ensaio e passou a ser um ambiente de produção de teatro. Agora está recebendo pessoas para diversas atividades, até para aulas, oficinas, apresentações”, conta Gabriel. 

Em alguns meses, os integrantes do coletivo também perceberam que aceitar a contribuição livre dos espectadores trazia melhores resultados. As contribuições no chapéu, quase sempre utilizado por artistas de rua, é o meio de cobrança dos espetáculos no Forte Voador. “Notamos que, deixando a contribuição aberta, no chapéu, o público cresceu e as contribuições aumentaram, diferente de quando se cobrava um preço fixo”, explica Gabriel. “Tem pessoas que colaboram com R$ 20,00, outras com R$ 50,00 e outras com R$ 100,00 porque entenderam o valor da nossa profissão e da nossa luta. Inclusive, se a pessoa quer muito vir e não tem dinheiro, isso não é um fator excludente. Dessa forma, a vizinhança e a comunidade podem vir sem pagar uma taxa. A pessoa paga se puder ou se gostar”, frisa Mamute. Em alguns casos, a entrada é cobrada, mas tudo depende da proposta trazida por quem irá se apresentar.

Entre as dificuldades para manter o espaço estão os custos fixos, contra a renda variável dos espetáculos. Todos os integrantes do Forte Voador são artistas e trabalham com as próprias produções. “Já tivemos até que brigar com uma lei que comparava o artista de rua ao pedinte, ao camelô”, revela Gabriel. “Não vendemos um produto: oferecemos um espetáculo e recebemos colaborações. Ser artista no Brasil já é uma luta e, para manter um espaço, é preciso estar um pouco mais consolidado nessa caminhada. Isso porque se começa a lutar e a investir nessa causa”, acrescenta Marcelo. Com dez anos de experiência como artistas e produtores, em média, os artistas do Forte acreditam que dividir essa responsabilidade com o público tem atraído muitas melhorias.

Para eles, o compartilhamento de ideias e de conhecimento uns com os outros vale muito. “Estamos sempre em contato com outros artistas. Em um encontro de corredor, combinamos um projeto. Alguém acaba de ter uma ideia, já bate na porta ao lado”, exemplifica Mamute. Juntos, os artistas do Forte Voador cuidam de todas as questões burocráticas do local, além dos serviços necessários quando há espetáculos, como atendimento na bilheteria e no bar. Ainda sobra tempo para criar espetáculos e projetos. “Geralmente, os eventos do Forte têm se pautado em Cabarés, que são espetáculos de variedades, com números feitos por vários coletivos que aqui ocupam. Fora isso, temos o Sarau de Nariz, que o próprio coletivo produziu com alguns grupos. Nele, as pessoas que participam leem poesia, algumas vestem o nariz e falam poesias de palhaço. Além disso, tem o que eu considero um produto da casa, shows com Márcio Bá, com grupos que ele sempre está envolvido”, conclui Mamute.

Uma nova estrutura

Para Eduardo Soares, professor de pós-graduação do Senac, a maior vantagem dos coletivos criativos é o benefício competitivo que se cria frente a empresas mais tradicionais. “Dividir despesas como aluguel, água, luz, telefone e internet e ainda ter a possibilidade de potencializar indicações, compartilhando clientes e criando uma rede de ideias e de soluções, é bem atrativo”, explica o professor.

Um dos aspectos negativos, porém, pode ser a informalidade. “É preciso observar as questões jurídicas e constitucionais para começar esse novo modelo de negócio para que todos se beneficiem e não tenham prejuízos. Além disso, é importante ficar atento se determinada área de atuação está dentro desse escopo coletivo. Caso a função não seja tão necessária quanto a dos outros, será preciso buscar um nicho diferente para que não se sinta prejudicado, inclusive economicamente, dentro dessa estrutura”, completa Eduardo. Apesar disso, para o professor, é necessário que o mercado entenda esse modelo de trabalho, que gera valores maiores do que o lucro. “Sucesso é importante, mas tem que ser compartilhado. O ‘fazer junto’ dá mais sentido ao resultado. Está associado à missão e aos valores do negócio, à razão de ser da marca ou do serviço prestado. Não basta parecer, tem que ser. Para isso, as estruturas horizontais e compartilhadas de criação e cocriação são bons celeiros e podem alcançar mundos ainda desconhecidos e consumidores que, hoje, só compram uma ideia ou um produto se tiverem uma conexão com sua razão de existir”, conclui Eduardo. 

O coletivo, segundo Eduardo, traz benefícios para clientes e profissionais. “Cria-se uma espécie de consultoria, na qual não é preciso buscar outros profissionais fora daquela equipe. Isso reduz o investimento de quem contrata e potencializa o trabalho dos envolvidos. O cliente até pode negociar um ou outro serviço, mas existe cumplicidade entre os pares, que sempre estão indicando as empresas parceiras, uns aos outros e vice-versa”, conclui o professor. 

Márcio Bá, Douglas Pires, Chico Curi e Marcelo Mamute são alguns dos integrantes do Forte Voador, espaço que integra artistas e fomenta a cultura na cidade

Benefícios x Dificuldades 

Os coletivos criativos, profissionalmente, são uma forma de garantir mais segurança e competitividade perante o mercado. Porém, é preciso estar atento também para algumas possíveis dificuldades.

Benefícios?

Sistema horizontal
Modelos de trabalho horizontalizados fortalecem a criatividade e a cooperação entre todos.

Aumento de visibilidade
Agregando parcerias, é possível fazer novas redes de contatos e aparecer em mais lugares.

Novos horizontes
Estar em contato com profissionais parceiros traz novas visões e conhecimento.

Dificuldades?

Contas
Manter um espaço físico pode ser um custo pesado para os integrantes do coletivo. 

Informalidade
É preciso observar as questões jurídicas e constitucionais para começar esse novo modelo de negócio para que todos se beneficiem e não tenham prejuízos, segundo Eduardo Soares.

Reinvenção
É necessário estar sempre atento à própria função e buscar nichos diferentes de atuação dentro dela para se manter ativo.




Texto: Tainá Colafemina

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