Veia empreendedora

Veia empreendedora

Com um olhar sempre atento para os negócios, Luiz Casagrande Junior já fez de tudo. Hoje, com 20 anos de carreira, orgulha-se da sua trajetória, marcada por muito trabalho, esforço e grandes amizades

Em dez anos, o Brasil passou de 14,6 milhões de empreendedores para 49,3 milhões. De acordo com a Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), de 2007 a 2017 mais que triplicou o número de pessoas entre 18 e 64 anos que exerciam alguma atividade empreendedora no país. A pesquisa aponta que 38% do total de brasileiros em idade produtiva estão envolvidos com algum tipo de atividade na área dos micro e pequenos empreendedores, o que representa cerca de 52 milhões de pessoas. É o segundo melhor desempenho para a taxa de empreendedorismo brasileira desde 2002.

Em Ribeirão Preto, os índices de empreendedorismo acompanham os gráficos e vêm crescendo consideravelmente: em quatro anos, o número de microempreendedores cresceu mais de 60% na cidade. Em janeiro de 2018, a soma era de mais de 36 mil pessoas com algum tipo de negócio próprio. O empresário Luiz Casagrande Junior, de 40 anos, faz parte desses números e, com 20 anos de carreira, tem motivos de sobra para comemorar tamanho sucesso. 
O empresário descobriu a vocação para a realização de eventos de forma natural
Casão, como é conhecido, aos 15 anos, tomou a frente da floricultura do pai, no Mercadão de Ribeirão Preto, revendia restos de comida que arrecadava na USP para os sitiantes vizinhos, fazia bingo, rifa e vendia peru no Natal. Aos 19 anos, aventurou-se no ramo de eventos, atividade que se tornaria — de forma natural, como gosta de enfatizar — a sua principal profissão. Talvez esses fossem, mesmo inconscientemente e sem pretensão, os primeiros passos para aguçar nele o tino para o comércio e para os negócios. 
Na entrevista a seguir, Casão relembra o início da trajetória profissional, rememora momentos importantes e agradece pelas pessoas que o ajudaram a se tornar um dos maiores empresários na área de vendas de shows para grandes eventos Brasil afora. 

Quem é Luiz Casagrande Junior?

Sou natural de Ribeirão Preto e tenho dois irmãos: um deles atua na área comercial, revendendo equipamentos hospitalares, e minha irmã trabalha no Pesqueiro Casagrande, com meus pais. Sou casado com a Angélica e pai de três filhos: Anna Beatriz, de 15 anos, Luiz, de sete, e João Miguel, de um ano. Morei na Vila Tibério até os 15 anos e depois mudei com a família para o sítio, em Jardinópolis, onde funciona o pesqueiro. São boas lembranças daquela época em que criávamos porco, cavalo e outros animais.  À época, meu pai construiu represas para peixes e inaugurou um pesque e pague. Mesmo sendo aberto ao público, ele nunca vislumbrou fazer do espaço um local de eventos, mas, como eu sempre gostei dessa área, o convenci a servir almoço aos domingos com comidas típicas de fazenda e a fazer eventos, como o porco no rolete. As festas seriam o próximo passo. Nessa mesma época, dividíamos nossa rotina entre o  pesque e pague e a floricultura, no Mercadão de Ribeirão Preto, onde eu também os ajudava. Para alimentar os animais do sítio, eu pegava restos de comida da Universidade de São Paulo (USP) e da Central de Abastecimento (Ceasa). Certo dia, como eu era o único que fazia isso, peguei uma quantidade muito grande, mais do que o necessário para alimentar os animais, e meu pai enlouqueceu. Foi quando eu tive a ideia de vender o que não íamos usar. Nesse mesmo dia, um sitiante vizinho nos procurou e comprou uma quantidade. De lá para cá, passamos a fazer dessa atividade um comércio. Eu era o único vendedor de lavagem da região. 

Quando você passou a se envolver, efetivamente, com os eventos?

Os almoços que meu pai servia eram para um público pequeno, cerca de 15 pessoas, mas eu queria mais. Com o passar do tempo, comecei a contratar duplas sertanejas da cidade e da região para se apresentar. Certo dia, estava com amigos em um bar de Ribeirão Preto e, como gostava muito de música, liguei o som do carro, mas o dono do estabelecimento pedia para abaixar o volume. Eu aumentava e ele pedia para abaixar. Aí, uma ideia me veio à cabeça: se aqui não posso ouvir musica à vontade, por que não fazer eventos no Pesqueiro para meus amigos? Passei a fazer eventos às sextas-feiras à noite. Com o tempo, essas ações ficaram conhecidas e o que antes era feito apenas para os amigos ganhou notoriedade, chegando a reunir 500 pessoas. Ainda sem estrutura, um dia, acabou a bebida, a comida não foi suficiente, enfim, tudo aconteceu! Não tínhamos noção de que o Pesqueiro estava sendo tão conhecido. 

Quando aconteceu o primeiro show?

Depois que as festas no Pesqueiro começaram a ficar conhecidas, arrisquei o primeiro show. À época, contratei Edson e Hudson, a maior apresentação que já havia contratado desde que comecei. Eles estavam entre os melhores nas principais rádios do país e muita gente me chamou de louco, principalmente meu pai. Quando os outros empresários da cidade souberam da minha iniciativa, quiseram me derrubar. Eram pessoas que já viviam do universo da música, tinham seus eventos consagrados e estavam no ramo há muito tempo, mas, mesmo assim, tentaram cancelar meus eventos. Eu não me abalei, afinal, tinha espaço para todo mundo no mercado. Nesta época, eu não tinha capital para arcar com os custos, então, pagava as contas com o dinheiro dos ingressos que vendia. Era bem arriscado, mas eu queria fazer, então valia a pena. Considero esse o “pulo do gato”,  quando, de fato, fiquei mais conhecido na área. Esse evento reuniu três mil pessoas. Foi um sucesso e me deu um retorno financeiro, para a época, gigantesco. 

Os artistas acabam se tornando verdadeiros companheiros de vida para o empresárioComo você administrou esse retorno?

Investi no Pesqueiro, claro! Peguei tudo o que tinha ganhado e reformei toda a estrutura mas, infelizmente, o dinheiro acabou de novo. Eu já sabia o que era preciso fazer para continuar lucrando: outro show. Mirei na dupla Chrystian & Ralf, que estava bem posicionada na mídia e isso me rendeu um público ainda maior. Depois desse show, não parei mais. Levei para o Pesqueiro grandes artistas, entre eles,  César Menotti e Fabiano, Victor & Leo e muitos outros. As festas intimistas, em um ambiente mais rústico, chamavam a atenção das pessoas. Foi aí que me tornei o Casão, o maluco dos eventos no Pesqueiro.

Quais eram os maiores desafios nesta época?

Não tinha essa facilidade de divulgação que temos hoje. Eu, com a ajuda dos amigos, ia parando na porta das faculdades e distribuindo panfletos para fazer a propaganda das festas. Eram momentos únicos que, mesmo diante das dificuldades, tínhamos a certeza de que o negócio iria dar certo. Tudo começou com uma aventura que deu certo, um investimento de tempo que deu resultado e rende frutos até hoje. Não era fácil dividir a rotina entre três atividades, além de vender rifas, fazer bingos, comercializar peru e pratos típicos no Natal. Sempre procurei ganhar dinheiro de alguma forma. Como fui criado muito próximo a comerciantes, esse viés para os negócios foi algo natural, sem precisar forçar. 

O universo de eventos representa um bom mercado?

É muito relativo. É um mercado onde se ganha muito dinheiro, mas, quando se perde, o valor também é alto. Por outro lado, construímos relações com as pessoas que vão além do profissional. Hoje, tenho grandes artistas, como Zé Neto e Cristiano, Henrique e Juliano, Jorge e Matheus que, para mim, são mais que cantores. Além disso, tem também os profissionais que trabalham por trás do palco, na produção, que são verdadeiros companheiros de vida para mim. Porém, é preciso sempre estar atento, porque as pessoas têm uma imagem dessa profissão um tanto equivocada e, por isso, muitas delas se aproximam de nós por algum interesse. É preciso, também, estar atento e não deixar o ego se sobressair à profissão. Faço isso há 20 anos e não há motivo para pensar que sou melhor que qualquer outra pessoa por estar perto de algum famoso. 

Que orientação você daria para quem quer empreender no Brasil?

Inovar talvez seja a palavra de ordem. Ofertar produto que ninguém conhece, proporcionar uma experiência inédita às pessoas. O desafio está justamente em trazer o novo para o público. Um exemplo é o último Ribeirão Rodeo Music em que, em uma única noite, levamos Zé Neto e Cristiano, Cat Dealers e Jerry Smith, gêneros bem diferentes entre si.  Isso é obrigar o público a vivenciar algo que ele nem imaginava viver. O empreendedorismo não está somente no seu produto original, mas no valor agregado. O serviço complementar a ele, muitas vezes, chama mais atenção que o original. É isso que fazemos: vendemos experiências inéditas. 

Em quais eventos a sua empresa atua?

Realizamos casamentos, festas de 15 anos, estamos presentes no Ribeirão Country Fest, na Chopada e no Rodeio de Sertãozinho, além de outros que aparecem ao longo do ano. Há, ainda, os eventos para os quais eu vendo os shows, cuidando da parte artística, como o Ribeirão Rodeo Music, os rodeios de Monte Alto, de Taquaritinga, de Brodowski, etc. A empresa também vende shows para outros estados como Mato Grosso, Minas Gerais e Paraná. Somos intermediários entre o organizador e o assessor comercial dos artistas e já contabilizamos uma carteira de 60 rodeios Brasil afora. 

Casão também faz um alerta sobre as armadilhas da profissãoCom 20 anos de carreira, o que você tem a comemorar e a esperar para o futuro?

Agradecer sempre pelo trabalho, pela confiança das pessoas e pelos amigos que fiz ao longo da trajetória. Sobre os planos futuros, se eu não me projetei 20 anos atrás e tudo na minha vida foi acontecendo naturalmente, não vou fazer planos daqui pra frente porque o universo se encarrega de nos dar aquilo que é nosso. Esse mercado sertanejo está em alta, mas não é estável, pode ser que daqui a um tempo ele não seja mais tão rentável e, para mim, o que fica é o trabalho bem feito, a alegria que proporcionei às pessoas e as amizades verdadeiras. Pensando dessa forma, não tenho grandes pretensões e nem traço grandes planos. Vamos remar conforme a maré e para onde ela nos levar. Sou uma pessoa muito privilegiada, pois faço o que gosto, divirto-me trabalhando, tenho uma família linda e pais que me dão muito orgulho porque possuem uma história de luta. Isso, no final de tudo, é o que mais vale. 

Texto: Cristiane Araujo Fotos: Ibraim Leão

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