Verão sem risco

Verão sem risco

Durante a estação mais quente do ano, precaução deve ser palavra de ordem para evitar danos à pele

Em pleno verão, as altas temperaturas, já frequentes em Ribeirão Preto, deixam os termômetros ainda mais elevados. Ao mesmo tempo em que o céu azul e o sol escaldante são convidativos para a diversão ao ar livre, o cenário também pode ser prejudicial. Segundo dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), o câncer de pele corresponde a aproximadamente 30% de todos os diagnósticos da doença no Brasil. O quadro chega a 180 mil novos casos por ano, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Para o dermatologista Weber Soares Coelho (CRM/SP: 123385), esses números poderiam ser reduzidos a partir do uso frequente e adequado do filtro solar.

Sócio efetivo da SBD, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), cooperado da Unimed Ribeirão Preto e mestre em Ciências Médicas na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (FMRP-USP), Weber revela que optou pela Dermatologia em razão de ser a especialidade que trata do maior órgão do corpo: a pele. “Existe um amplo campo de atuação que vai desde a dermatopatologia, cuidando de doenças infecciosas e inflamatórias, câncer de pele, doenças dos cabelos e unhas, cirurgia dermatológica, até a cosmiatria”, explica.
Segundo o especialista, é fundamental conhecer bem o tipo de pele e os produtos disponíveis no mercado, para aumentar os fatores de bloqueio do Sol. “Apesar de a população já conhecer a importância da fotoproteção para prevenir os danos dos raios solares, muitas pessoas ainda não sabem a forma correta de usar o produto”, aponta Weber.

Uso de protetor solar deve ser diário, em qualquer estação do anoO clima da região de Ribeirão Preto influencia na incidência de problemas de pele, como o câncer?

Sim. Isso se deve, em especial, a uma combinação do clima muito quente e seco com altos índices de radiação ultravioleta (UV) no verão, associados a uma população rica em imigrantes europeus, principalmente italianos. 

Quais são os principais tipos de câncer de pele e o prognóstico de cada um deles?

Existem três principais: carcinoma basocelular (CBC), que é o mais comum, com baixa letalidade e cura na maioria dos casos, o carcinoma espinocelular (CEC), que é o segundo tipo mais comum e amplamente associado à exposição solar intensa; e o melanoma, um tipo menos frequente, com pior prognóstico e alto índice de mortalidade.

Além desses tipos de câncer, que outros problemas e doenças podem ser causados pela exposição ao sol sem proteção?

A exposição solar sem proteção adequada pode causar fotoenvelhecimento precoce, rugas e manchas na pele, como melanoses, ceratoses seborreicas e actínicas.

Como minimizar os efeitos dos raios solares?

São necessárias medidas de fotoproteção, como o uso de filtro solar com, no mínimo, Fator de Proteção Solar (FPS) 30 em toda a pele exposta ao sol, incluindo lábios e orelhas. Para maior proteção, é importante reaplicar o produto a cada duas horas. Além disso, usar chapéus, bonés, óculos de sol e evitar a exposição direta à luz solar em horários de alto índice de radiação, entre 10h e 16h, também contribuem para o aumento da proteção. 

As pessoas estão mais conscientes sobre os riscos da alta exposição ao sol sem proteção?

A Sociedade Brasileira de Dermatologia tem realizado campanhas nacionais de conscientização sobre a necessidade de fotoproteção adequada, bem como medidas de prevenção ao câncer de pele no Brasil. A fotoeducação é um conjunto de ações de caráter educativo desenvolvidas para conscientizar a população sobre os riscos da exposição inadvertida ao sol, com orientação de medidas para se ampliar a proteção. Para isso, têm sido utilizadas mídias eletrônicas, redes sociais, televisão e rádio. Além disso, são promovidas campanhas nacionais, como o Dezembro Laranja, mês oficial de combate ao câncer de pele. 

Quantos casos deste tipo de câncer foram registrados em 2018 e qual é a estimativa para 2019?

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) afirma que a doença no Brasil pode corresponder a 30% de todos os casos diagnosticados no país. Estimam-se, para o biênio 2018-2019, aproximadamente 165 mil novos casos diagnosticados dessa doença em território nacional.

O uso diário de protetor solar realmente previne o câncer de pele e os danos causados pela radiação?

Segundo o consenso brasileiro de fotoproteção da SBD, dentre várias medidas de proteção à radiação solar, uma das mais importantes é o uso adequado do filtro solar. Esse conjunto de medidas de proteção atua, de fato, diminuindo os efeitos indesejados do sol na pele, como queimaduras solares, câncer de pele melanoma e não melanoma, fotoenvelhecimento precoce e fotodermatoses.

Quais as diferenças entre radiação UVA e UVB e seus efeitos na pele?

Os filtros solares no Brasil são classificados como UV inorgânicos (físicos), que refletem a radiação solar, e os orgânicos (químicos), que a absorvem. A maioria deste tipo de cosmético utilizado no país é combinada entre físicos e químicos para aumentar a eficácia da fotoproteção nas faixas UVA e UVB. É muito importante ressaltar que a radiação ultravioleta (UV) é aquela de maior efeito biológico, causadora de maior parte dos danos decorrentes do sol na pele e representa 10% do total da radiação que atinge as pessoas.

A eficácia da proteção solar depende, diretamente, do tipo de fotoprotetor utilizado?

Existem várias apresentações de filtros solares destinados para cada tipo de pele e localização do corpo. Eles são disponibilizados em forma de cremes, loções, géis, aerossóis, bastões, dentre outros. Algumas formulações podem conter substâncias antioxidantes ou antioleosidade, objetivando facilitar a adesão do produto. Por exemplo, pessoas com pele oleosa devem preferir uso de um filtro solar mais seco e com efeito antioleosidade, enquanto idosos, com pele ressecada, devem optar por produtos com ação hidratante. 

O tipo de pele é determinante para a escolha do produto ideal?

Em geral, qual a melhor indicação para cada tipo de pele? A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) de 2012 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamenta o uso de filtros solares no Brasil estabelecendo princípios metodológicos para avaliar a eficácia. Sabemos que o fator de proteção é a principal medida de avaliação. Um produto com FPS 30 permite que a pessoa se exponha ao sol sem queimadura solar 30 vezes mais do que sem o uso do filtro. Para a segurança do usuário, é muito importante checar no rótulo do produto, se ele tem a liberação pela Anvisa para ser comercializado.  

A quantidade utilizada pode interferir na proteção?  

A SBD orienta uso rotineiro dos produtos com fator de proteção solar de no mínimo 30 e fatores mais altos em situações específicas, como sensibilidade ao sol, antecedentes de câncer de pele, tratamentos cosmiátricos com cremes e ácidos e naqueles que praticam esportes. Em relação à quantidade, o ideal é aplicar, no mínimo, dois miligramas por centímetro quadrado, ou uma colher de café para cada um dos braços, o dobro da medida para a parte frontal e atrás do tronco e duas colheres para cada uma das pernas. Também é importante reforçar a aplicação na face. Vale lembrar que a aplicação com cobertura total da pele deve ser feita, no mínimo, 15 minutos antes da exposição ao sol, com reaplicação a cada duas horas, periodicamente. 

Quais são os erros mais comuns na hora da aplicação e da escolha do produto?

Diariamente, no meu consultório, observo muitos erros básicos quanto à escolha do protetor solar, como, por exemplo, o uso de filtro solar hidratante em pacientes de pele com tendência a oleosidade e acne, levando à piora da doença. Outro exemplo muito comum é a falta de reaplicação. O paciente aplica o produto apenas pela manhã e passa boa parte do dia sem proteção adequada. 

Que outras alternativas podem ser combinadas para promover uma proteção completa?

Gosto muito de orientar outros recursos de fotoproteção que têm ação adjuvante ao filtro solar, como o uso de roupas com fotoproteção UV. Neste caso, a proteção é conferida pelos tipos de tecidos e ativos introduzidos na fabricação do fio.  Esse é um recurso que tem ganhado muito espaço, principalmente entre crianças, idosos e esportistas. Lembrando que sempre é importante avaliar se o produto a ser adquirido tem liberação pela Anvisa. O uso de chapéus também contribui com a proteção do couro cabeludo, orelhas e pescoço.  O ideal é sempre priorizar aqueles com trama mais densa, aba circular e mais larga. As películas de insulfime nos vidros consistem em outra medida que pode aumentar a fotoproteção, principalmente contra UVA e luz visível. Temos, ainda, os fotoprotetores via oral, que geralmente são nutracêuticos ou nutricosméticos, com a função de diminuir os danos celulares gerados pela radiação UV na pele.

Produtos com fator de proteção, como pó compacto, loção ou hidratantes, são eficientes?

Sim. Hoje existe uma gama enorme de filtros solares com muitas apresentações, cosméticos e substâncias diferentes. Eles têm sido muito úteis, uma vez que facilitam a adequação a cada tipo de pele e a cada situação específica, aumentando a adesão do paciente ao tratamento. 

Aplicação deve ser feita, no mínimo, 15 minutos antes da exposição ao solEm quais outras situações o uso de filtro solar é imprescindível?

Durante a gravidez recomenda-se uso de filtro solar FPS maior que 30 na pele exposta ao sol, evitando aqueles com nanopartículas, até que a segurança seja comprovada. Para as crianças, os filtros solares são liberados àquelas com idade superior a seis meses.  Entre seis meses e dois anos, a preferência deve ser por utilizar produtos voltados para a pele infantil. Acima de dois anos, ficam liberados filtros resistentes à água e também aqueles de fácil aplicação, por exemplo, os aerossóis. Aos esportistas — em razão de condições específicas, como exposição solar intensa, suor, imersão em água por longos períodos ou neve —, recomenda-se o uso de filtros solares com FPS acima de 50, resistentes à água, mais espessos ou em bastões. É fundamental se lembrar de fazer a reaplicação, sempre que possível. Enfatizo, também, que na dúvida quanto ao tipo de pele, à situação de exposição, à idade e às lesões, a orientação é sempre procurar um dermatologista. A segurança deve estar em primeiro lugar. 

Weber Soares Coelho | Texto: Rose Rubini | Fotos: Roberto Galhardo

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