Vetor de Crescimento

Vetor de Crescimento

Oferta Pública Inicial de Ações foi alternativa utilizada por grupos da região, como Ouro Fino, SEB e Magazine Luiza, para alavancar capital para expandir os negócios

Há cinco anos, o Brasil teve uma das campanhas eleitorais mais disputadas e agressivas de sua história, com reflexos imediatos — e negativos —, no humor dos mercados. Em outubro de 2014, enquanto Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) se encaminhavam para o segundo turno de eleições presidenciais polarizadas, somente uma empresa no país recorreu a uma ferramenta de financiamento que pode ser considerada o termômetro da confiança das empresas no futuro da economia. Essa ferramenta chama-se IPO e é a sigla em inglês para Oferta Pública Inicial de Ações. Na prática, significa o ingresso de uma empresa de capital fechado à Bolsa de Valores. “Esse é o momento em que a empresa abre seu capital e passa a ser listada na Bolsa de Valores. As empresas emitem ações no mercado, tornando-se públicas, com a intenção de captar recursos. Quando atingem esse estágio, é sinal de que elas cresceram o bastante e precisam de ainda mais capital para fazer com que esse crescimento se perpetue”, explica o especialista em renda variável William Garms Esterque, assessor de investimentos da RP Capital.

Ouro fino

Uma das empresas que abriu capital quando os mercados viviam momentos de incerteza foi a Ouro Fino Saúde Animal. De acordo com Kleber Gomes, CFO e diretor de Relação com Investidores da companhia, apesar do cenário adverso, a ação realizada pelo grupo em 2014 foi considerada um sucesso. Segundo ele, parte em função do histórico da empresa e parte pela atratividade do seu mercado de atuação, na área de medicamentos para animais de produção e de companhia. “O IPO é uma das formas existentes para as empresas levantarem capital para investir em projetos ou para que os acionistas possam desinvestir, vendendo participações, total ou parcialmente, obtendo liquidez financeira na pessoa física. Na Oferta Primária, os recursos de uma operação no mercado de capitais, como em um IPO ou em follow-on, são investidos na própria empresa. Quando os recursos da venda das ações na Bolsa são direcionados aos acionistas, trata-se de uma Oferta Secundária. No caso da Ouro Fino Saúde Animal, os recursos da parcela da Oferta Primária foram investidos em novos projetos, destacando-se a construção de uma planta industrial dedicada à produção de vacinas para suínos, bovinos e animais de companhia”, afirma. No total, foram levantados cerca de R$ 420 milhões com o IPO da Ouro Fino.

De acordo com Kleber Gomes, ação realizada pela Ouro Fino foi considerada um sucesso, apesar do momento nacional desfavorável

Com os recursos levantados pela operação aplicados, principalmente, na ampliação da unidade da empresa em Uberaba, no Triângulo Mineiro, a Ouro Fino não se retraiu mesmo em um período turbulento da política e da economia. “Naquele momento, nenhum grupo que tinha interesse em fazer este tipo de oferta levou adiante seu projeto, mas havia um mercado tomador de títulos muito grande, por exemplo, fundos de pensão, fundos de investimentos e seguradoras. Havia agências no mercado com interesse em investir em títulos, mas não havia quem fizesse esta oferta. Indo contra todas as demais empresas que vetavam este tipo de operação naquele momento, recomendamos fortemente o IPO para o grupo Ouro Fino, o que acabou se mostrando um grande sucesso”, avalia o economista Alberto Borges Matias, presidente do Inepad Consulting, que atuou na assessoria da empresa para a definição estratégica no processo de abertura de capital.

Em 2014, a Ouro Fino, sediada em Cravinhos, abriu o capital

Grupo SEB

Assim como a gigante da saúde animal instalada em Cravinhos, outro gigante, dessa vez da área da educação, também já recorreu ao IPO para abrir novas frentes de mercado. Em 2007, o Grupo SEB, de Ribeirão Preto resolveu abrir o seu capital na Bolsa de Valores. “Sempre fomos um grupo altamente capitalizado. Nossa opção estratégica era de fazer os investimentos com recursos próprios. Naquela ocasião, a ideia era aproveitar uma janela de oportunidade de crescimento acelerado do setor educacional e, ao mesmo tempo, posicionar a empresa como líder de educação nacional. Assim, acessamos o mercado de capitais através de um IPO”, afirma o diretor-presidente do grupo, Chaim Zaher. Segundo ele, foi aberta apenas uma parte minoritária do capital no mercado de ações, mas que geraram cerca de R$ 412,5 milhões em recursos, que foram utilizados para fazer várias aquisições e desenvolvimentos de novas escolas e sistemas de ensino.

Para o diretor-presidente do Grupo SEB, acessar o mercado de capitais para levantar recursos é uma ótima forma de alavancar o crescimento sem endividamento

Para o diretor-presidente do Grupo SEB, acessar o mercado de capitais para levantar recursos é uma ótima forma de alavancar o crescimento sem endividamento e uso de verbas dos acionistas. Para o empresário, só há vantagens. “Uma companhia ser pública através de um IPO, a princípio, não tem qualquer risco. Pelo contrário: a empresa fica mais eficiente, transparente, aumenta os níveis de governança e ganha agilidade no desenvolvimento dos negócios e suas estratégias futuras”, avalia.



Magazine Luiza

A busca de recursos por meio de um IPO tem no Magazine Luiza, empresa nascida em Franca, um caso que se tornou objeto de estudo. O processo de abertura de capital da empresa ocorreu em 2011 e, quatro anos depois, ou seja, em pleno turbilhão da crise econômica, cada ação era negociada na Bolsa de Valores a apenas R$ 0,96. Após Fred Trajano, filho de Luiza Helena, assumir o posto de CEO da empresa e iniciar um projeto revolucionário de mudanças, que incluiu cortes na própria carne, investimentos pesados no e-commerce e a racionalização dos centros de distribuição, em apenas três anos a mesma ação já era negociada no mercado, em agosto de 2018, a R$ 148,49. Em relação aos R$ 0,96 de 2015, a alta foi de estratosféricos 15.467%. Para se ter uma ideia, no mesmo período, a Ibovespa valorizou 80%. O investimento foi para lá de lucrativo para os que apostaram nos títulos da empresa. “O sucesso do Magazine Luiza ocorreu, basicamente, por cinco fatores: cultura da empresa, liderança dos executivos, agilidade nas decisões, pioneirismo e foco no cliente. Para reconhecer as grandes oportunidades, o investidor precisa estudar com profundidade sobre os gestores da companhia e acreditar no negócio em que ela está inserida”, aconselha o assessor de investimentos da RP Capital, William Esterque.

Hoje, não só o processo iniciado com a oferta de ações, mas, fundamentalmente, o reposicionamento da marca varejista dentro de uma cultura de inovação, reflete nos resultados da empresa. Balanço do primeiro trimestre deste ano publicado no site do Magazine Luiza mostra que seu e-commerce cresceu 50%, atingindo R$ 2,4 bilhões e 41% das vendas totais, que por sua vez aumentaram 28%, alcançando R$ 5,7 bilhões, com lucro líquido de R$ 139 milhões e posição de caixa líquido de R$ 1,4 bilhão em março de 2019. 

A busca de recursos por meio de um IPO tem no Magazine Luiza, empresa nascida em Franca, um caso que se tornou objeto de estudo

Informação é a palavra-chave

Até o final deste ano, pelo menos dez empresas terão interesse em abrir o capital, pela primeira vez, por meio de um IPO. A previsão é da B3, uma das principais empresas de infraestrutura de mercado financeiro do país. Para o pequeno investidor, a compra de ações em um IPO pode ser uma excelente oportunidade de maximizar os valores investidos, basta se lembrar dos quase 1.500% de valorização das ações do Magazine Luiza entre 2016 e 2019. 

Mas, se há a expectativa de ganhos altos, também há cuidados a serem tomados. Informação é a palavra-chave para um bom investimento. O processo de escolha de uma empresa que pretende abrir o seu capital pressupõe que o investidor saiba o máximo possível sobre a oferta que está sendo feita. Por isso, conheça o passo a passo sobre como se investir em um IPO.

Pré-requisitos da empresa

Para realizar uma oferta pública inicial de ações, a empresa tem de percorrer alguns passos antes que o lote chegue à Bolsa de Valores. Veja quais são:

• Aviso ao mercado de que a oferta será feita.
• Elaboração de um prospecto, com informações sobre a oferta, o histórico da companhia e, principalmente, os motivos que levaram a empresa a optar pelo IPO.
• Apresentação de um cronograma com a data da reserva das ações, feita pelos interessados, valores mínimos esperados para cada ação e a data em que pretende disponibilizar o lote à venda na Bolsa.
• Todas essas informações, geralmente, são oferecidas pelas instituições financeiras aos seus correntistas, para que eles possam se informar sobre a empresa. É nessa fase que o investidor deve prestar o máximo de atenção e reconhecer informações que podem fazer muita diferença na valorização das ações que pretende comprar. Por exemplo, para aonde irão os recursos captados pela empresa? O capital irá para a expansão do negócio ou para pagar dívidas?

Como investir em um IPO

Como as informações sobre o IPO estão de posse das instituições financeiras que vão participar de todo o processo legal de elaboração da oferta, o primeiro passo para o investidor, depois de escolhida a empresa, é abrir uma conta corrente nesta mesma instituição. Confira mais dicas:

• A instituição financeira vai informar aos investidores o intervalo de preço esperado para cada ação, por exemplo, entre R$ 10 e R$ 20. É nessa faixa de preços
que o investidor vai fazer o seu lance e pedir a reserva ao banco.
• A partir daí, com as várias propostas de valores unitários das ações, é que começa a definição do valor final unitário. E é, também, nessa hora que o investidor vai saber se vai participar ou
não da operação. Isso porque, se o investidor oferece, por exemplo, R$ 12 por cada ação, mas existem ofertas de R$ 15 ou R$ 18, ele fica fora do processo. No entanto, se ele oferecer mais
do que for fixado, mantém se no páreo, mas só pagará o valor final fixado.
• A partir daí, as ações já podem ser negociadas na Bolsa de Valores e o investidor fica sujeito às regras de mercado. Pode ganhar muito dinheiro, não perder nada ou ter prejuízo.
• Embora o mercado seja marcado pela incerteza, a melhor forma de se fazer um investimento com menos risco é recolher o maior número possível de informações sobre a empresa. O resto é com o mercado.

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