Viagem do bem

Viagem do bem

Percorrendo o sertão baiano com a missão de transformar vidas, projeto Voluntários do Sertão ultrapassa 48 mil atendimentos em 2019, exames e procedimentos oferecidos a populações carentes

Uma cidade pacata no interior da Bahia que deixou para trás a tranquilidade assim que 350 voluntários chegaram. Em um sábado de céu nublado, o sol demorava a despontar em Poções, não tanto quanto os moradores que saiam às janelas ou às portas das casas a fim de saber onde aquela comitiva, que chegava de ônibus, ia se fixar. Fogos de artifício anunciavam a chegada do projeto Voluntários do Sertão. O barulho se misturava a buzinas de carros e som alto — era uma verdadeira festa. Senhoras na janela sorriam acenando com as mãos como se dissessem: “pode entrar e se sintam em casa”. No centro da cidade, uma mulher já anunciava, com um sotaque baiano, “Bem-vindo a Poções”, e logo pediu para fazer uma foto com parte da equipe. Nesse instante, o que até então era expectativa, tornou-se realidade. Bastava se preparar para começar uma missão de transformar vidas, levando, acima de tudo, uma boa dose de amor aos cidadãos Poçoenses. Durante esse período, os moradores teriam direito a atendimento médico qualificado, entre outros serviços, gratuitamente, proporcionado por um projeto que há 19 anos leva esperança a famílias que sonham constantemente em ter esse cuidado com a saúde no dia a dia. Em mais uma edição, o sorriso de agradecimento estampado no rosto de um povo simples e feliz marca a caminhada dos voluntários que exalam amor por onde passam.

Trajetória
“O projeto só cresceu graças aos voluntários, que fazem um trabalho de credibilidade e respeito”, afirma Dorinho
Desde criança ele tinha um sonho: realizar os sonhos de outras pessoas. Aos 14 anos, saiu de Alegre, distrito de Condeúba (BA) rumo a Ribeirão Preto. Queria lutar incessantemente para que os desejos saíssem do papel e que vidas pudessem ser melhoradas com atendimento médico de qualidade. Queria, também, fazer a diferença, para que as pessoas pudessem enxergar a vida com outros olhos. O presidente da organização e fundador do projeto, Doreedson Pereira, carinhosamente chamado de Dorinho, começou a saga humanitária distribuindo cestas básicas e brinquedos na região onde nasceu. Inquieto, foi amadurecendo a ideia de expandir atendimentos na área de saúde e, para isso, teve de negociar com médicos e amigos para que tudo ocorresse com êxito. A princípio, começou o pequeno projeto oferendo consultas oftalmológicas, mas, conforme foram surgindo pessoas que não enxergavam, foi preciso expandir a ideia, abraçada por outros profissionais. 

Médicos voluntários prestaram milhares de atendimentos em Poções, na BahiaCasas de famílias no povoado serviram de residência para receber os atendimentos. Com muita divulgação, a ação foi ganhando forma e se tornou o que é hoje, capaz de engajar pessoas de todo Brasil em torno de nobre razão. “O projeto só cresceu graças aos voluntários, que fazem um trabalho de credibilidade e respeito. É gratificante quando as pessoas agradecem pela oportunidade de poder ajudá-las, é prazeroso quando voltam a enxergar ou ouvir. Meu sonho já realizei, agora realizo de outras pessoas”, ressalta Dorinho, que teve influência dos pais, moradores de Alegre que ajudavam os próximos, fosse doando um brinquedo, ou o tempo do próprio avô, que oferecia o carro para levar doentes ao médico. A família sempre quis fazer mais ao próximo, mas em razão das condições financeiras, o sonho era inviável.

Participação

Há 10 anos como voluntário do projeto, o médico urologista João Cornicelli faz questão de iniciar a conversa ressaltando: “Você faz uma doação e acaba sendo recompensado pelas bênçãos das pessoas”, diz. Ele narra que, nessa edição, os beneficiados ficaram eletrizados com o atendimento oferecido ao município. O médico, que fez 57 vasectomias na cidade, lembra que as pessoas o benziam da cabeça aos pés, o que, segundo ele, foi de arrepiar. Ao operar muitos evangélicos, não esperava que na porta da pousada onde estava instalado, um grupo de religiosos o aguardariam para agradecer, e ali mesmo fizeram orações. Cerca de 30 pessoas com faixa na cabeça se mostravam alegres agradecendo aos Voluntários do Sertão. O médico ainda lembra que tinham homens que há dez anos estavam aguardando a cirurgia de vasectomia, por falta de dinheiro, porque nem o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o procedimento. Assim, vão gerando filhos, ainda que não tenham condições financeiras de cuidar deles. “O projeto é pedagógico, uma gota d’água no oceano do Brasil. É uma semente que a gente deixa, e, às vezes, frutifica. Há cidades que até melhoraram o atendimento na saúde”, finaliza o profissional.
Segundo João, o voluntário acaba sendo recompensado pelas bençãos das pessoas
Neste ano, mais de 1.300 pessoas se inscreveram para participar do mutirão de atendimentos. Foram selecionados 350 profissionais. Médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas, dentistas, advogados, entre outros profissionais trabalharam incansavelmente para fazer com que algumas pessoas voltassem a enxergar ou ouvir, por exemplo. Na 19º edição, o Voluntários do Sertão atingiu a marca de mais de 48 mil atendimentos, exames e procedimentos — segundo balanço parcial divulgado até o fechamento desta edição. O evento, que ocorreu entre os dias 29 de abril e 3 de maio, levou procedimentos médicos, odontológicos e de previdência social à população do município e de pelo menos outras nove cidades do entorno.

Histórias entrelaçadas 

O caso da empregada doméstica Maria Joana da Silva retrata a angústia de viver por anos sem escutar bem. Aos poucos foi perdendo a audição. Em um ouvido, já não escutava praticamente nada, no outro, ainda conseguia ouvir bem pouco. Com um semblante alegre, era possível perceber a gratidão por ter recebido aparelhos auditivos. Ela relata que se não fosse pelo mutirão, jamais teria condições de pagar pelo aparelho. “Eu vim para cá, porque é duro ficar surda, é horrível ver as pessoas gritando 24 horas na cabeça sem eu poder ouvir. Quantas lágrimas foram derramadas. Meu coração ficou cheio de alegria quando pude ouvir depois de tanto tempo. Daqui para frente quero escutar bastante, até o fim da minha vida”, lembra emocionada.

A poucos quilômetros dali, no povoado de Fomento, uma família mostra que a carência de recursos financeiros e o vício por álcool são capazes de desestruturar lares. Não só nesse local, mas em outros lugares, problemas surgem como mandacarus que brotam no chão. Cada local retrata as condições insalubres que muitas famílias vivenciam. Ao subir o morro, uma garotinha tímida chamada Stefani aparece para guiar os voluntários até sua casa. Com olhar inocente, ela aponta para os pais. Bastou dar alguns passos e o cheiro forte de bebida alcoólica era evidente. Perto das 16h, os pais estavam embriagados, e mal conseguiam dar sequência à conversa. Em um bate-papo curto, já era possível perceber que dali não sairiam facilmente. “É uma vida difícil. Enquanto eles bebem, eu trabalho na roça. Não aceitam ajuda. Eles tomam remédio a semana toda e, depois, retornam para o vício. Espero que um dia eu tenha uma família normal. Quando não consigo ajudar, eu mesmo me coloco para baixo, pois não faço as coisas como gostaria”, observa com olhar triste o filho Leonardo Alves Bastos, de 16 anos.

Do outro lado do município, um garoto de 13 anos também tem nas costas a responsabilidade de trabalhar e ajudar a mãe e o irmão mais novo, ainda que pouco. Bruno dos Santos, que sonha em ser vaqueiro, às vezes trabalha em uma feira da cidade como carregador para ganhar R$ 30 e colaborar com o sustento da família. Vivendo de aluguel, eles aguardam ansiosamente para morar na casa nova, que está sendo construída pela Assistência Social da cidade. “A vida é difícil. Às vezes, o povo ajuda doando arroz ou feijão. O Bolsa Família dá conta de pagar água e luz. Quando aparece alguém com roupa para lavar, eu pego. Eu não posso trabalhar, enxergo apenas de um olho, o médico disse que perdi a visão mesmo.”, explica Maria de Lurdes Oliveira dos Santos

A poucos quilômetros de Poções, entre ruas de terra e bastante relevo, no povoado de Morrinhos, algumas histórias chamavam a atenção, não tanto quanto a da senhora de cabelos grisalhos, moradora de uma singela casa, com uma pequena porta e janela de madeira. Ela fez questão de receber a visita com um sorriso estampado no rosto: havia acabado de levar a neta com paralisia para se consultar no ginecologista. Nai Cabral de Sousa conta que a mãe da jovem, de 16 anos, faleceu, e o pai mora distante. Os cuidados ficaram por conta da avó protetora. Quando questionada se teria dificuldade para cuidar da garota, não hesita em dizer que quando se faz algo com amor, nada é difícil. Nesse momento, a neta esboça um sorriso e avó se segura para não ir às lágrimas. “Tenho medo de que ela morra. Se isso acontecer, não resisto. Ela é um pedaço de mim. Deus levou a mãe, mas me deu ela. Quando adoece, fico desesperada”, lembra com angústia. 

Durante uma semana, pessoas madrugavam em filas para receber atendimento médico. Com fome, frio, cansaço, são inúmeros os relatos. Ainda assim, permaneciam de pé, porque a alegria de enxergar depois de anos ou ouvir era maior do que qualquer outra dor que pudesse aparecer. Talvez, aquela fosse a única oportunidade que teriam de receber apoio de uma equipe qualificada, pronta para atender todos sem distinção. Pessoas emocionadas, que queriam tirar fotos, agradeciam e pediam para que Deus abençoasse a caminhada de cada voluntário. Para eles, os profissionais eram uma espécie de anjos que aliviaram a dor de pessoas carentes. 

Na despedida do município, uma grande festa de confraternização ao som típico de forró marcava o encerramento de uma saga humanitária e a expectativa de qual cidade será contemplada no próximo ano pela iniciativa que busca transformar vidas.
 


Texto: Bruna Romão Fotos: Lidia Muradás e Tiago Morgan

Foto destaque: Alex Roda

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