Viagem no tempo

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O Museu Nacional do Açúcar e do Álcool abriga o maquinário de um dos primeiros engenhos mecanizados de açúcar do Estado de São Paulo, implantado no século XIX

Pronto para receber visitantes de toda a região, o Museu Nacional do Açúcar e do Álcool, localizado em Pontal, resgata a memória e a história do desenvolvimento de uma das principais culturas que impulsionam a economia brasileira até os dias atuais: a cana-de-açúcar. Instalado no Engenho Central, área do sítio Pocinhos, doada pela família Biagi ao Instituto Nacional Engenho Central, que gerencia o projeto, o Museu, inaugurado no dia 14 de dezembro, é considerado o único do gênero no Brasil com um maquinário produtivo da época.

Nesta primeira etapa, o projeto, que exigiu investimento de R$ 3,5 milhões, objetiva mostrar que a região começou a se consolidar como um dos principais polos industriais e tecnológicos do setor sucroenergético no início do século XX. Isso aconteceu graças à trajetória empreendedora do coronel Francisco Schmidt que, em 1903, começou a construir o engenho. O maquinário para moer cana chegou a produzir mais de 100 mil sacas de açúcar cristal, além de álcool e aguardente. Para dar conta da demanda, o engenho contava com um quadro de aproximadamente 100 operários.

Além das modernas moendas e do complexo maquinário que gerava riqueza, a imponência do local está presente, também, na beleza arquitetônica das edificações preservadas por Maurílio Biagi, que adquiriu a propriedade em 1964. “O Museu é um sonho antigo da família. Nosso objetivo é resgatar a memória industrial da cana, que tanto influenciou a história da região e o desenvolvimento do Brasil”, afirma Luiz Biagi, presidente do Instituto Cultural. Com o avanço da tecnologia e a chegada das usinas Albertina (1916), Barcelona (1922) e Santa Elisa (1936), o Engenho encerrou as atividades em 1964. As instalações passaram a servir, então, como base de apoio operacional da Usina Santa Elisa.

Aos poucos, essa história vem sendo resgatada pela equipe que, desde 2007, empenha-se na criação e na ativação do Museu da Cana e do Álcool. Entre as primeiras ações realizadas para que o espaço pudesse ser aberto à visitação pública, a historiadora Leila Heck ressalta a recuperação e a adequação dos edifícios, o restauro do maquinário original do Engenho Central, a reunião, higienização e catalogação das peças encontradas, totalizando mais de 500 metros lineares de acervo, entre ferramentas, peças de reposição, móveis, documentos, entre outros itens.

Essas relíquias ajudam a desvendar a rotina de trabalho do engenho, como os relógios da torre e o de ponto, de 1922, as bombas de combustível, os caldeirões, os móveis, os garrafões onde eram transportadas a cachaça, entre outras peças. Entre as preciosidades já recuperadas na propriedade estão dois cones de madeira, carimbos e um sino. Chamados de pão-de-açúcar, segundo levantamento de Leila, os cones, utilizados para cristalizar o produto, vieram de uma coleção de Pernambuco. Os dois carimbos mostram a marca Crystal, adotada pelo coronel Schmidt para o açúcar produzido na fazenda. O sino foi confeccionado na fundição de Antonio Diederichsen.

A pesquisa histórica também revelou que um ramal da estrada de ferro chegava até os galpões da fazenda, que, por meio dos vagões de trem, escoava sua produção até o porto de Santos para serem exportados. “Nosso sonho é trazer de volta este ramal até o engenho. Isso viria ao encontro do projeto turístico Trem da Cana, que vem sendo desenvolvido na região”, comenta Leila. Outra ideia é que o visitante pegue o trem em Sertãozinho, desça na estação Schmidt, localizada na fazenda Vassoural, vizinha do engenho, e se desloque até o Museu de van ou micro-ônibus.

Segundo Leila, o Museu conta com uma cafeteria, sanitários e uma biblioteca temática para pesquisas, que está sendo formada na Casa Vermelha, espaço onde fica o receptivo e a administração do Museu. “Os primeiros livros foram doados pelo empresário Maurilio Biagi Filho e descrevem o ciclo produtivo da cana e o desenvolvimento do setor de agroenergia no Brasil”, antecipa. A historiadora lembra, ainda, que os edifícios já adequados abrigarão exposições permanentes sobre tecnologia e sustentabilidade, além de mostras temporárias sobre temas relacionados à cultura e à história da cana.

Valor agregado
Museóloga com mais de 30 anos de atuação, conselheira do Instituto e uma das consultoras responsáveis pelo acompanhamento do projeto, Angélica Fabri revela que o trabalho desenvolvido no Engenho Central, a médio e longo prazos, deve durar, no mínimo, dez anos. Para Angélica, o engenho é um importante agregador de valor cultural e histórico para Pontal e região, já que se encontra praticamente intacto e ainda montado, tornando o Museu da Cana único no Brasil nesta tipologia. “A conclusão desta primeira etapa merece ser destacada porque permite que o espaço passe a receber a visita do público”, reforça Angélica.

O acervo composto pelo conjunto de edificações, o engenho, os maquinários, as peças, os móveis, além de documentos, são, segundo a museóloga, extremamente significativos para a memória e o desenvolvimento da região, que teve na produção de açúcar um grande salto econômico. Mostra, ainda, a evolução da tecnologia aplicada na época para a produção de açúcar, álcool e cachaça. São equipamentos raros, fabricados em 1876 e 1888, trazidos da Europa para o Brasil, que ainda vivia sob o regime da Monarquia.

Essa história foi inicialmente preservada pela família Biagi e, agora, por uma equipe multidisciplinar que trabalha no local. A exemplo do que já acontece em outras instituições do gênero, Angélica explica que a pretensão é incluir serviços complementares no Museu, sempre respeitando as características naturais do espaço, que fica na área rural. As ações devem causar a menor interferência possível, mantendo as caraterísticas naturais, principalmente dos prédios e do engenho em si. Um material impresso foi preparado para que o público conheça um pouco mais sobre a história do local.

Pretende-se, também, desenvolver ações educativas, disponibilizar espaços para pesquisa, além de dar continuidade ao diagnóstico, higienização e catalogação do acervo, bem como à captação de recursos para o desenvolvimento do projeto e sua manutenção. Angélica revela que serão priorizados os trabalhos junto às escolas, desenvolvendo projetos para que os estudantes visitem o Museu da Cana, e o treinamento dos profissionais que farão o receptivo dos visitantes.

Passado resgatado
O prefeito de Pontal, André Luis Carneiro, informa que Administração Municipal apoia a criação do Museu da Cana. Isto porque a cidade nasceu às margens da ferrovia que contribuiu para o desenvolvimento da cidade. O projeto também ajuda a resgatar o passado de gerações que, com muito trabalho, ajudaram no crescimento do setor canavieiro na região. Outro ponto importante, segundo André Luis, será o desenvolvimento do turismo na cidade. “Além disso, será um incentivo para a população de Pontal conhecer os caminhos do açúcar, o principal propulsor do nosso desenvolvimento”, enfatiza o prefeito.

Museu Nacional de Açúcar e do Álcool
Onde: Fazenda Engenho Central, s/n°, Pontal
Tel.: (16) 3497.5008
www.engenhocentral.com.br
Aberto de terça a domingo, das 10h às 16h, com entrada gratuita

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Texto: Rose Rubini
Fotos: Carolina Alves e divulgação

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