Vida de artesão

Vida de artesão

Em pleno século XXI, o artesão encanta por sua habilidade manual de transformar vidro, madeira ou tecido em peças únicas

O trabalho do artesão perdeu seu caráter utilitário, de produção em pequena escala de bens e produtos, para a Revolução Industrial. O ofício, no entanto, que requer habilidade e paixão, nunca deixou de existir, e no contexto contemporâneo, aparece vinculado a produção de carácter funcional ou decorativa, mais conhecida por artesanato.

Categorizados em três tipos, os artesãos do século XXI desenvolvem, basicamente, a produção de peças únicas para admiração (artesão-artista); a produção de dezenas de peças de aspecto utilitário, com ajuda de ferramentas e mecanismos rudimentares (artesão-artesão), e a reprodução de dezenas de peças iguais, a partir de moldes ou e de outros processos semi-industriais (artesão semi-industrial).

Alguns, ‘artesãos por afinidade’ outros ‘artesãos por necessidade’, eles constituem um contraponto à racionalização e, segundo o IBGE,  estão presentes em 64,3% dos municípios brasileiros.

Importante na geração de ocupação e renda, a produção artesanal é responsável por um movimento financeiro que comprova a capacidade econômica do setor no país. Além disso, em muitas localidades, promove o resgate cultural e o fortalecimento da identidade regional, estando intimamente relacionado ao turismo.

Concorrência, falta de visão empreendedora e de acesso ao mercado são os principais desafios a serem superados para a legitimação do artesanato como um negócio brasileiro de sucesso. E iniciativas neste sentido existem, em destaque, o programa de atuação do Sebrae no artesanato.

Em Ribeirão Preto, as estatísticas do segmento deixam a desejar. Mas o comércio de materiais e as feiras fixas ou itinerantes, como das praças 7 de Setembro e das Bandeiras, denunciam sua relevância.

E para retratar um pouco desta bela história de resistência, nada melhor do que dar voz aos seus personagens, legítimos representantes de um dos ofícios mais antigos do mundo: o de artesão.

Artesão voluntário
Ex-bancário, Joaquim Antônio de Almeida, ‘Seu Joaquim’, nunca se imaginou um legítimo representante da categoria de artesão-artista. No entanto, tornou-se um — e dos bons — sem grande esforço. “Acredito que todos temos dons adormecidos que exercemos em vidas passadas”, justifica-se.

Sozinho, sem curso algum, começou a talhar madeira, produzindo principalmente ninhos para passarinhos como uma maneira de sobreviver e, desde então, não parou mais de criar.

                          

“O Plano Collor prejudicou muita gente, inclusive eu, e o trabalho artesanal em madeira surgiu dessa forma. Primeiro para ajudar a pagar as contas, depois, como uma ação voluntária, na tentativa de saldar as dívidas da alma e também como uma contribuição com o meio ambiente”, explica.

Há oito anos ‘Seu Joaquim’ ensina gratuitamente o ofício às detentas da Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto. Autodenominando-se um ‘lixeiro de madeira’, também percorre a cidade em busca de madeira descartada. Para ele, caixas de madeira, pedaços de móveis, portas, batentes e todo tipo de madeira jogada fora tem utilidade.

Sob suas mãos, o que viraria lixo, levando mais de 10 anos para decompor-se na natureza, ganha nova forma: réplicas de carros antigos, baús, porta-joias ou barcas para restaurantes japoneses. “Cada madeira tem sua cor, seu perfume, sua essência. E só de olhar já sei se a madeira me serve e já imagino o que fazer com ela”, argumenta.

Propondo a transformação do lixo em arte e compartilhando sua habilidade com quem mais precisa, o artesão-artista ‘Seu Joaquim’ segue esperando por uma maior valorização do ofício.

“O trabalho com a madeira é muito prazeroso, mas pouco reconhecido. Leva-se, em média, dois dias para confecção de uma peça. A barca, por exemplo, é muito difícil de fazer, por ter muitos ângulos, e o acabamento precisa ser impecável. Colecionadores e empresários do ramo da gastronomia e petshop  são muito criteriosos e minuciosos com as peças mas pagam bem. Pagam pela arte. Já as miniaturas de carros antigos ainda são pouco valorizadas”, confessa.

Para ‘Seu Joaquim’ suas peças são únicas e espalham um pouco de si pelo mundo. “Examino várias vezes o trabalho e só o finalizo quando chego a conclusão que parte de mim está nele. Imagino que a pessoa que o tocar vai sentir parte de mim ali, onde deposito os fluídos eletromagnéticos do meu melhor ser. Só assim a peça está pronta”, conclui.

Recomeço pelo artesanato
Em 1992, o engenheiro industrial mecânico Yoshito Endo se viu desempregado, em São Paulo. Na época, cogitou ir para o Japão com a família, mas a esposa foi taxativa “se é para sofrer, vamos sofrer aqui no Brasil mesmo”.

E o que parecia ser o fim para o profissional de 54 anos terminou se mostrando um novo começo quando o casal comprou uma máquina de jateamento de vidros, cristais, porcelanas, inox, acrílicos, plásticos e alumínios.

“Minha esposa já fazia pintura em vidro e começamos a trabalhar juntos. Fui bolando algumas coisas, e nesse sentido o curso superior ajudou muito, porque pude fazer algumas melhorias em equipamentos e diminuir custos em peças como abajures, pois eu mesmo fazia a instalação elétrica”, conta o artesão.

Com o tempo, Endo se familiarizou com o ofício e se tornou um legítimo representante da categoria artesão-artesão. Fez um curso de fusing e, desde 2006 em Ribeirão Preto, desenvolve diferentes trabalhos artesanais em vidro, principalmente de corte de garrafas, para diferentes clientes.

As peças criadas por ele, também  reaproveitando material descartado, vão desde garrafas amassadas que viram porta chave ou porta guardanapo até trabalhosos abajures feitos de pequenos pedaços coloridos de vidro.

“É preciso fazer o que se gosta. O dinheiro vira consequência. E quando se faz o que gosta a criatividade aparece. A gente até copia boas ideias, mas é preciso fazer algo melhor”, diz em tom de brincadeira.

Frequentador da Feira de Artesanato da Praça 7 de Setembro, Endo também já expos no Festival Tanabata, em Mombuca, em hipermercados e grandes lojas, mas afirma que a valorização do artesanato em vidro é maior em Jaboticabal, onde já levou suas peças três vezes.

Artesão formado na prática, no exercício autodidata de observação, tentativa, erro e acerto, Endo é grato ao artesanato pelo recomeço. “Não há trabalho difícil, apenas produto mais ou menos trabalhoso”, finaliza.
 
Recanto dos bonecos
Valéria Cury era professora, dava aulas para crianças e sempre desejou fabricar brinquedos, só não sabia exatamente quais. Pintava tela, tecido, fazia de tudo um pouco até o dia em que o pai apareceu com uma revista que ensinava a fazer boneca de pano.

“Começei com dez reais e esse dinheiro deu para fazer duas bonecas. A primeira foi a Sapeca e tenho tanto carinho por ela que não consigo tirá-la de linha”, conta.

O trabalho feito com amor e capricho trouxe resultados inesperados. “A boneca de pano me surpreendeu. Começei pensando em atender crianças, mas vendemos para senhoras, decoração de festas infantis, quartos de criança”, explica a artesã empresária.

A procura foi tamanhã, que virou negócio de família. Com a ajuda da irmã Cristiane Cury abriu uma loja, há oito anos, e hoje a produção de 350 bonecas por mês exige apoio de outras duas pessoas, as tias Maria Aparecida Machado Cury e Syrlei Irene C. Bichuette.

                             

“No começo, levava um dia inteiro para fazer uma boneca. Hoje faço 10 por dia. O acabamento é a etapa mais trabalhosa, pois a colagem e a pintura demoram mais tempo. Temos mais ou menos 65 modelos e, geralmente, fico quase a noite toda sem dormir quando vem inspiração de um modelo novo. Acordo com a boneca pronta na cabeça. Hoje a minha preferida é a Lavínia”, orgulha-se Valéria.

Representando a categoria dos artesãos-semi-industriais, as irmãs  comentam o desafio de encontrar mão de obra para o trabalho artesanal. “O difícil de expandir é encontrar pessoal, depois de algumas experiências que não deram certo, hoje trabalhamos com aposentadas porque são interessadíssimas e apaixonadas pelo que fazem”, explica.


Vencendo as dificuldades, as irmãs artesãs vão aos poucos espalhando suas ‘filhas’ pelo mundo. “Sentimos ‘ciúmes’ das nossas bonecas, conversamos com elas antes de irem embora e ficamos horrorizadas quando alguém diz que vai cortar a perna de uma delas, a sensação é de se estar amputando uma filha”, brincam.


Para Valéria, quem se propõe a viver de artesanato não pode esperar ‘deslanchar’ logo de início, pois  trata-se de um trabalho que exige paciência e dedicação, mas acreditando no que se faz, o reconhecimento aparece. “Acho que o mundo está muito frio, muito corrido e a boneca de pano, feita artesanalmente, retrata o aconchego, o carinho que, muitas vezes, as pessoas sentem falta”, finaliza.

Revide Online
Texto: Yara Racy
Fotos: Carolina Alves

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