Vida de artesão
Segundo o IBGE, os artesãos estão presentes em 64,3% dos municípios brasileiros
O trabalho do artesão perdeu para a Revolução Industrial o caráter utilitário, de produção em pequena escala de bens e produtos. O ofício, que requer habilidade e paixão, no entanto, nunca deixou de existir e, no contexto contemporâneo, aparece vinculado à produção de carácter funcional ou decorativo, mais conhecida por artesanato.
Categorizados em três tipos, os artesãos do século XXI desenvolvem, basicamente, peças únicas para admiração (artesão-artista); dezenas de peças de aspecto utilitário, com ajuda de ferramentas e mecanismos rudimentares (artesão-artesão) ou dezenas de peças iguais, a partir de moldes ou de outros processos semi-industriais (artesão semi-industrial).
Por afinidade ou por necessidade, esses artesãos constituem um contraponto à racionalização e, segundo o IBGE, estão presentes em 64,3% dos municípios brasileiros. Importante na geração de ocupação e renda, a produção artesanal é responsável por um movimento financeiro que comprova a capacidade econômica do setor no país. Além disso, em muitas localidades, promove o resgate cultural e o fortalecimento da identidade regional, estando intimamente relacionado ao turismo.
Concorrência, falta de visão empreendedora e de acesso ao mercado são os principais desafios a serem superados para a legitimação do artesanato como um negócio brasileiro de sucesso. Existem iniciativas neste sentido — em destaque, um programa de atuação do Sebrae no artesanato desenvolvido junto a comunidades onde o turismo possui forte apelo comercial —, mas em Ribeirão Preto, as estatísticas do segmento deixam a desejar. O comércio de materiais e as feiras fixas ou itinerantes, como a da Praça das Bandeiras, além da criação da Superintendência dos Trabalhos Manuais nas Comunidades (SUTACO), denunciam sua relevância, no entanto, não há pesquisas ou dados específicos do setor.
Para retratar um pouco desta bela história de amor e resistência, a Revide dá voz aos representantes de um dos ofícios mais antigos do mundo.
Ex-bancário, Joaquim Antônio de Almeida, o “seu Joaquim”, nunca se imaginou um legítimo representante da categoria de artesão-artista. No entanto, tornou-se um — e dos bons — sem grande esforço. “Acredito que todos temos dons adormecidos que exercemos em vidas passadas”, justifica-se.
Autodidata, começou a talhar madeira, produzindo principalmente ninhos para passarinhos, para sobreviver a uma fase ruim e, desde então, não parou mais de criar. “O Plano Collor prejudicou muita gente, inclusive a mim, por isso, o trabalho artesanal em madeira surgiu na minha vida. Primeiro para ajudar a pagar as contas, depois, como uma ação voluntária, na tentativa de saldar as dívidas da alma e também como uma contribuição com o meio ambiente”, explica.
Há dez anos, “seu Joaquim” ensina gratuitamente o ofício às detentas da Penitenciária Feminina de Ribeirão Preto. Autodenominando-se um “lixeiro de madeira”, também percorre a cidade em busca do material descartado. Caixas, pedaços de móveis, portas, batentes e todo tipo de madeira jogada fora têm utilidade.
Sob suas mãos, o que viraria lixo — levando mais de 10 anos para se decompor na natureza — ganha nova forma: réplicas de carros antigos, baús, porta-joias ou barcas para restaurantes japoneses. “Cada madeira tem sua cor, seu perfume, sua essência. Só de olhar já sei o que me serve e imagino o que fazer com ela”, argumenta.
Propondo a transformação do lixo em arte e compartilhando sua habilidade com quem mais precisa, o artesão-artista segue esperando por maior valorização do ofício. “O trabalho com a madeira é muito prazeroso, mas pouco reconhecido. Leva-se, em média, dois dias para confeccionar uma peça. A barca, por exemplo, é muito difícil de fazer, por ter muitos ângulos e o acabamento precisa ser impecável. Colecionadores, empresários da gastronomia e de pet shops são muito criteriosos com as peças e pagam bem, consideram o caráter artístico. Já as miniaturas de carros antigos ainda são pouco valorizadas”, confessa.
Para “seu Joaquim”, suas peças são únicas e espelham um pouco de si. “Examino várias vezes o trabalho e só o finalizo quando chego à conclusão de que parte de mim está nele. Só assim a peça está pronta”, conclui.
Em 1992, o engenheiro industrial mecânico Yoshito Endo se viu desempregado em São Paulo. Na época, cogitou ir para o Japão com a família, mas a esposa foi taxativa: “se é para sofrer, vamos sofrer aqui no Brasil mesmo”.
O que parecia ser o fim para o profissional de 54 anos terminou se mostrando um novo começo quando o casal comprou uma máquina de jateamento. “Minha esposa já fazia pintura em vidro e começamos a trabalhar juntos. Fui criando algumas novidades e, nesse sentido, o curso superior ajudou muito porque fiz melhorias em equipamentos e diminuímos alguns custos, já que em peças como abajures, por exemplo, eu mesmo fazia a instalação elétrica”, conta o artesão. Com o tempo, Endo se familiarizou com o ofício e se tornou um legítimo representante da categoria artesão-artesão, tendo feito, inclusive, um curso de “fusing”.
Em Ribeirão Preto desde 2006, desenvolve diferentes trabalhos artesanais em vidro, principalmente de corte de garrafas, para diferentes clientes. As peças criadas, também reaproveitando material descartado, vão desde garrafas amassadas que viram porta-chave ou porta-guardanapo até trabalhosos abajures feitos de pequenos pedaços coloridos de vidro. “É preciso fazer o que se gosta e o dinheiro vira consequência. Quando isso acontece, a criatividade aparece”, afirma.
Frequentador da Feira de Artesanato da Praça Sete de Setembro, Endo já expos no Festival Tanabata, em Mombuca, em hipermercados e grandes lojas, mas afirma que a valorização do artesanato em vidro é maior em Jaboticabal, para onde já levou suas peças em diferentes ocasiões.
Artesão formado na prática, no exercício autodidata de observação, tentativa, erro e acerto, Endo é grato ao artesanato pelo recomeço. “Não há trabalho difícil, apenas produto mais ou menos trabalhoso”, finaliza.
Valéria Cury era professora, dava aulas para crianças e sempre desejou fabricar brinquedos, só não sabia quais. Fazia de tudo um pouco até o dia em que o pai apareceu com uma revista que ensinava a fazer boneca de pano. “Comecei com R$ 10,00 e, com esse dinheiro, fiz duas bonecas.”, conta.
O trabalho feito com amor e capricho trouxe resultados inesperados. “A boneca de pano me surpreendeu. Comecei pensando em atender crianças, mas vendemos para senhoras, para decoração de festas infantis e de quartos de criança”, explica a artesã-empresária.
A procura foi tanta que virou negócio de família. Com a ajuda da irmã Cristiane Cury, abriu uma loja há oito anos e hoje produz 350 bonecas por mês, o que exige apoio de outras duas pessoas, as tias Maria Aparecida Cury e Syrlei Bichuette. “No começo, levava um dia inteiro para fazer uma boneca e hoje fazemos 10. O acabamento é a etapa mais trabalhosa, pois colagem e pintura demoram. Temos mais ou menos 65 modelos e, geralmente, passo a noite acordada quando vem a inspiração de um novo. Acordo com a boneca pronta na cabeça”, conta Valéria.
Representando a categoria dos artesãos semi-industriais, as irmãs comentam o desafio de encontrar mão de obra para o trabalho. “Fica difícil expandir porque não encontramos pessoal. Depois de algumas experiências que não deram certo, resolvemos trabalhar com senhoras aposentadas, que são interessadíssimas e apaixonadas pelo que fazem”, explica.
Vencendo as dificuldades, as irmãs artesãs vão, aos poucos, espalhando suas bonecas pelo mundo. “Sentimos ciúmes das nossas criações, conversamos com elas antes de irem embora e ficamos horrorizadas quando alguém diz que vai cortar a perna de uma delas. A sensação é de estar amputando uma filha”, brincam.
Para Valéria, quem se propõe a viver de artesanato não pode esperar sucesso imediato O trabalho exige paciência e dedicação antes que o reconhecimento apareça. “O mundo está muito frio e corrido. A boneca de pano, feita artesanalmente, retrata o aconchego, o carinho de que, muitas vezes, as pessoas sentem falta”, finaliza.
Feira de arte e artesanato
Criada por lei, em 1978, a Feira de Arte e Artesanato de Ribeirão Preto acontece todos os finais de semana e feriados, na Praça das Bandeiras, com a participação de artesãos cadastrados na SUTACO, que expõem e comercializam produtos em cerâmica, couro, metais, vidro, adorno pessoal, louças, porcelana, fiação, tecelagem, flores desidratadas, arranjos em palha, vasos, tecidos, etc. Expositores há mais de 30 anos, Paulo Cesar Mattos de Oliveira (o Paulão) e Teresa Borges tiram dali seu sustento A conhecida ‘feirinha’ já viveu tempos áureos, até a década de 90, quando ditava moda. Hoje vivencia a falta de reconhecimento. “Nosso maior problema hoje é a invasão da mercadoria chinesa. As pessoas procuram o produto industrializado, por ser mais barato, e não valorizam o artesanato”, lamenta Teresa.
Texto: Yara Racy | Fotos: Carolina Alves | Diagramação: Lucas Chaibub