Vida de cão e gato

Vida de cão e gato

O carinho pelos bichinhos chega a elevá-los à condição de verdadeiros membros da família

Eles não são uma unanimidade, mas quem escolhe ter um bicho de estimação garante que o carinho e o amor recebidos dos animais compensam todos os sacrifícios. Na sociedade contemporânea, eles assumem cada vez mais o papel de companheiro de crianças, adultos e idosos. E os brasileiros estão entre aqueles que mais curtem os pets. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), o Brasil é o quarto no ranking dos países com mais animais de estimação — o segundo quando se considera apenas cães e gatos.

O carinho pelos bichinhos chega a elevá-los à condição de verdadeiros membros da família. Para comprovar esse status, basta dar uma olhada nas redes sociais e verificar as fotos dos animais de estimação entre os amigos e os familiares. Sem contar os inúmeros vídeos que circulam livremente e deixam os proprietários desses animais orgulhosos por seus atletas, cantores e artistas de quatro patas.

Em Ribeirão Preto, depois do lançamento da página no Facebook www.facebook.com/cczrp, de responsabilidade do Centro de Zoonoses, que aconteceu em outubro de 2013, o número de adoções de animais abandonados aumentou — logo na primeira semana, oito pets ganharam uma casa nova. O espaço publica fotos dos animais disponíveis para adoção, além de informações sobre os cuidados necessários para o bem-estar dos pets e toda a documentação necessária para a adoção. A instituição mantém, também, a feira permanente de adoção de cães e gatos.

Adotados ou comprados, esses animais recebem uma dedicação cada dia maior de seus donos. Prova disso é a gama de novidades apresentada pelo mercado pet a cada ano. São rações, cervejas, cosméticos, bolsas, roupas, carrinho, brinquedos e até eventos, como casamento e aniversário: cada item é desenvolvido com exclusividade para os bichinhos.  Segundo a Abinpet, em 2012, a indústria pet faturou R$ 14,2 bilhões. A previsão para 2013, ainda não confirmada, era de que esses gastos chegassem a R$ 15,4 bilhões.

A atenção voltada para esses animais exige dos comerciantes uma atualização constante. Afinal, é preciso acompanhar os novos produtos e tratamentos oferecidos, e ainda mais os serviços, como creches, festas, plano de saúde e até crematório para atender os pets. Para Fábio Crestani, sócio-proprietário da Bichos & Caprichos e do Hospital Veterinário Vet24h, animais de estimação assumiram um papel importante na família, que vai além de divertir os mais jovens e fazer companhia aos adultos. “Essa integração dos animais com o lar leva os donos a se preocuparem mais com a saúde e o bem-estar dos mascotes. Muitos realizam check ups periódicos em diversas especialidades veterinárias e outros investem em produtos para atender aos mais variados gostos”, conta Fábio.

Segundo o proprietário, o pet shop realiza até 60 atendimentos por dia e o valor médio gasto pelos clientes varia de R$ 200,00 a R$ 600,00 mensais. “Tanta procura faz com que tenhamos sempre à disposição produtos diferenciados, desde variados tipos de ração e petiscos até colchão térmico em gel, meias e tênis para cães em valores que podem custar R$ 400,00”, comenta o comerciante.

Outro local que ganha espaço no cotidiano desses animaizinhos são as clínicas veterinárias, onde demonstrações de amor e de tristeza revelam laços verdadeiros. Na clínica Univet, em Ribeirão Preto, há diversas especialidades disponíveis para proporcionar qualidade de vida e saúde aos animais, entre elas, ortopedia, cardiologia, dermatologia, oncologia, neurologia e fisioterapia. Há, ainda, uma extensa lista de exames diagnósticos e preventivos, como Raio X, ultrassonografia, endoscopia, entre outros. Dá para dizer, portanto, que avanço técnico e tecnológico da medicina veterinária proporciona aos pets atendimentos semelhantes ao da Medicina convencional. A Clínica atende, em média, 30 animais por dia entre cães, gatos e animais silvestres. Para isso, os profissionais estabelecem uma relação estreita com o proprietário do animal. “O dono é a fonte de informação que o veterinário precisa para prestar o melhor atendimento ao paciente”, explica o diretor Paulo E. Tofano Neto.

Por outro lado, os donos buscam profissionais cada vez mais qualificados e capazes de prestar um serviço humanizado. Para o veterinário, a proximidade com os proprietários dos pets é fundamental. “Em certos momentos, temos que lidar com um quadro clínico grave e até com a possibilidade de morte. Os donos, por sua vez, devem confiar que usaremos todos os recursos, humanos e técnicos, para aliviar o sofrimento de seus pets”, acrescenta Paulo.


Timão, Sininho, Ariel e Toby são os pets da agente de viagens Renata Monteiro de Barros. Fiéis companheiros, eles a acompanham até no trabalho e têm mordomias de fazer inveja a qualquer pessoa.  Ouvem música, tomam água de coco e possuem um closet completo com peças para o dia a dia e temáticas, especiais para Natal, Halloween, entre outras datas. O mais inusitado é a coleção de pelúcia da Disney. A proprietária prefere não contabilizar o valor gasto com cada um, pois, segundo ela, o bem-estar dos bichinhos é sua prioridade máxima. “Não entendia o que era amor incondicional e verdadeiro até ter os meus cães. Hoje, rezo para morrer antes deles. Procuro oferecer a eles um ambiente bem alegre, pois sei que sentem quando estou triste ou quando estou feliz”, afirma Renata.

Os pets, frequentadores assíduos da Univet devido a uma alergia de pele, precisam de acompanhamento constante. “É uma responsabilidade muito grande cuidar de um animalzinho. Tento dar o máximo de qualidade de vida para eles, pois sei que dependem de mim para comer, beber água, brincar, enfim, para ter uma boa saúde”, complementa.

Nos país existem diversos hospitais veterinários particulares, porém, os públicos ainda são minoria. Mas parece que o amor pelos pets não se mede em cifras, nem para os donos e nem para os proprietários das clínicas, que mais parecem hotéis de luxo. Em São Paulo, é possível se internar junto com o animal por até R$ 2.800,00 por dia e receber tratamento simultâneo em suítes com frigobar, ar condicionado e outros luxos que conferem o mesmo tratamento psicológico dado para os filhos de quatro patas.

Em Ribeirão Preto, algumas universidades que possuem curso de Medicina Veterinária mantêm um hospital que oferece aos bichos tratamentos de baixo custo. Os hospitais veterinários escola servem para atribuir aos universitários a prática da profissão e à população, a possibilidade de cuidar dos seus pets. O Hospital Veterinário Escola da Faculdade Barão de Mauá realiza atendimentos a pequenos e grandes animais em diversas áreas, entre elas, laboratório clínico, anatomia patológica, radiologia e oncologia, contando com uma estrutura adequada, equipamentos e laboratórios para aulas práticas e atendimento. Os procedimentos mais frequentes são vacinação, cirurgia, consultas e coleta de sangue. Em média, são realizados 30 atendimentos por mês, que variam entre R$ 50,00 e R$ 700,00. 

Para a coordenadora administrativa do Hospital, Lenise Barban Zucoloto, a sociedade está passando por uma transformação cultural. “Cada vez mais, as pessoas estão procurando cuidar dos bichinhos com maior frequência”, aponta. No entanto, ainda falta um controle populacional. “Não há políticas públicas dedicadas ao planejamento da população de animais ou ao controle adequado de natalidade, o que resulta em muitos animais”, destaca Lenise.

Um apego que se explica
A ciência esclarece: o amor aos bichos pode ser explicado pela hipótese do “Social Brain”, ou Cérebro Social, em português, desenvolvida pelo psicólogo evolucionista Robin Dunbar, da Universidade de Liverpool, na Inglaterra. Para ele, a evolução do cérebro permitiu e promoveu a criação de novos laços sociais.

O psicanalista Luis Fernando Scoz-zafave de Souza Pinto considera que o cérebro precisa ser entendido de maneira integrada. Sendo assim, não é possível dividir suas funções para associá-las a certas emoções e comportamentos, ou a determinadas situações da vida. Para o psicanalista, o órgão está ligado a um corpo e, no caso dos homens, imerso em uma rede de relações de alta complexidade. “Temos essa inclinação para estabelecer relações com os outros, seja com um amigo, um primo, um namorado ou um animal. Há uma necessidade inconsciente por afeto e representações, onde se misturam os sentimentos”, explica Luis Fernando.

Nesse sentido, há pesquisas que esclarecem o importante papel dos animais de estimação: eles ajudam a reduzir o estresse e auxiliam na recuperação de diversas patologias. “Quando nosso bicho morre, entramos em luto, pois ele é, de fato, membro da família e um ser no qual depositamos alta carga de afeto”, aponta Luis Fernando.

O ser humano estabelece relações com objetos, que podem ser, segundo a psicanálise, seres humanos, bichos, imagens e a própria pessoa. Em termos biológicos, essa necessidade remonta à história filogenética, em que o homem fazia parte de uma tribo de caçadores coletores que se alimentavam mutuamente: caçavam em equipe, compartilhavam experiências e formavam uma cultura. “Embora os seres humanos não tenham características físicas animais, como pelos e garras, existe uma alta capacidade cerebral e ótimas habilidades sociais que permitem estabelecer relações de maneira quase compulsiva. Essa capacidade possibilita, também, escolher animais de estimação como um objeto de afeto e de amor”, analisa o psicanalista.  

Atualmente, os animais de estimação deixaram de ter uma utilidade prática, como a caça, e passaram a desempenhar uma função simbólica importante. Muitas vezes, chegam a substituir com efeito a relação com um filho ou um amigo. O psicanalista alerta que, em alguns casos, as pessoas depositam uma carga de responsabilidade sobre os animais que não é do instinto próprio. “O pet substitui a relação com as pessoas. Assim, muitos apresentam problemas comportamentais, como depressão, manias, autoflagelação e sinais de estresse evidentes”, lista. Luis Fernando ainda ressalta que é preciso evitar o excesso de cuidados e mimos com o bicho de estimação. “Por mais que as linhagens genéticas tenham sido modificadas, os animais de estimação ainda têm necessidades instintivas que precisam ser satisfeitas de algum modo. Impedir ou dificultar os bichos de realizarem suas necessidades básicas é uma atitude a ser repensada”, conclui.


Lições de comportamento
O comportamento dos animais também merece destaque no quesito cuidados com o cão. O mercado de adestramento e de terapia animal tem aumentado significativamente. O treino é baseado em princípios como condicionamento, reflexo, disciplina e limites. O envolvimento de Matheus Melo com os bichos teve início quando começou a trabalhar em uma indústria de ração. A partir daí, buscou especialização e hoje é adestrador de cães. “A paixão pelos cães vem da infância, mas depois de pesquisar sobre o assunto dei início à minha profissão”, revela Matheus.

Segundo ele, o adestramento é útil para aproximar o cão do dono e facilitar a comunicação entre eles. Além dos comandos de sentar, deitar, entre outros, é importante trabalhar o lado psicológico e emocional dos pets de acordo com a raça e a personalidade de cada um.  Além do treinamento com o animal, é preciso interagir com o dono: ele precisa saber quais os comandos que seu cão aprende para obter sucesso no adestramento.

O adestrador completa que há um crescimento expressivo na procura pelo adestramento. “Os donos passaram a ter mais necessidade de entender seus animais de estimação de forma tranquila, sem gritos e conflitos. A vantagem disso é a confiança entre ambos, que evita problemas futuros”, ressalta.  Com tanta informação acerca do mundo pet, o fato é que, sendo dependentes um do outro ou não, seres humanos e animais tornam essa relação cheia de amor, solidariedade e companheirismo. Sentimentos que deixam uma grande lição: algumas emoções resolveriam quaisquer conflitos da humanidade.


Adote um animal
O processo de reurbanização de Ribeirão Preto tem aumentado o índice de abandono de animais. Somente em outubro de 2013, mais de dez mil famílias que viviam em favelas migraram para casas e apartamentos populares. Nessa mudança, muitos animais não puderam acompanhar os donos. Nesse momento, aparece o trabalho das ONGs, que vão aos locais mais críticos com o intuito de resgatar os bichinhos, cuidar de suas necessidades e, posteriormente, colocá-los para adoção.

Segundo a ONG Focinhos SA, embora o número de adoções esteja aumentando, ainda é difícil encontrar lares para certos animais, como os mais velhos ou aqueles que possuem algum tipo de deficiência. Os interessados em adotar um animal devem passar por uma entrevista para resgatar o relacionamento entre as pessoas e os animais de estimação e avaliar as condições que serão oferecidas ao bicho adotado. “Isso é necessário para que não haja devolução ou novo abandono do animal. Não posso entregá-los a quem já deixou outros bichinhos fugirem ou morrerem por falta de cuidados”, afirma Andrea Campaz Bombonato, presidente da ONG. Caso o interessado passe pela entrevista, assina um termo de responsabilidade, que contém cláusulas de abandono, maus tratos e devolução. O documento permite também que a ONG entre em contato posteriormente para saber da situação do animal adotado.

Para Andrea, o planejamento deve preceder a decisão de adotar um animal. “Uma vez concretizada, os donos devem estar cientes de que o pet vive cerca de 15 anos. Devem estar preparados, portanto, para cuidar desse ser vivo durante todo esse tempo. Isso tudo é essencial para que a adoção seja realizada. É importante, também, que outros aspectos sejam ponderados para que a adoção seja consciente e responsável. Já tivemos casos de animais devolvidos pouco tempo depois”, alerta a presidente.

Acesse a página da Focinhos SA no Facebook fb.com/focinhos.sa e saiba mais sobre o processo.

Texto: Cristiane Araujo
Fotos: Ibraim Leão e Carolina Alves

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