Vida dedicada às pesquisas

Vida dedicada às pesquisas

O professor Dr. Sérgio Henrique Ferreira fez carreira universitária e científica na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto

Personagem importante, respeitado e premiado no mundo da ciência e da saúde, Sérgio Henrique Ferreira mantém a simplicidade e a simpatia de quem está de bem com a vida. Começou a carreira de pesquisador científico assim que diplomou-se médico pela Faculdade de Medicina de São Paulo, em 1961. Muito jovem, começou a trabalhar no Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, sob a orientação do professor Rocha e Silva.

Naquela época, Rocha e Silva realizava trabalhos com amostras do veneno da Bothrops jararaca — a cobra peçonhenta jararaca — observando que sua reação com o plasma sanguíneo liberava uma substância provocadora de intensa queda na pressão arterial (hipotensão). Esta substância recebeu o nome de “bradicinina”.

Sérgio Henrique, na época, constatou que a hipotensão provocada pela liberação da bradicinina no sangue da vítima da jararaca é potencializada pela ação de pequenas toxinas encontradas em grandes quantidades no veneno, denominadas peptídeos potenciadores da bradicinina (BPPs). Após isolar os BPPs, Ferreira levou o resultado das pesquisas para um grupo de cientistas liderado pelo inglês John Vane, que chegaram a um protótipo molecular dos BPPs. Estes estudos foram o ponto de partida para o desenvolvimento da mais nova classe de substância hipotensora existente atualmente na Medicina. Cientistas e indústrias internacionais desenvolveram um medicamento sintético, baseados nas observações de Ferreira. “Eles criaram moléculas pequenas a partir de nossos trabalhos com os peptídios. Depois as sintetizaram e as produziram em laboratório”, conta Ferreira, referindo-se aos cientistas do laboratório Bristol-Myers Squibb — na época, chamava apenas Squibb.

Atualmente, existem mais de 20 substâncias semelhantes à primeira sintetizada pela Squibb, entre elas, o Captopril e o Capoten (produzidos no Brasil), indicados para hipertensão arterial, insuficiência cardíaca congestiva, infarto agudo do miocárdio e nefropatia diabética. A venda mundial desses medicamentos movimenta mais de oito bilhões de dólares e aumentou, pois descobriu-se que, na insuficiência cardíaca e na lesão, devido ao infarto do miocárdio, a potenciação dos efeitos da bradicinina possui resultado cardioprotetor. Por esses estudos, em 1983, Sérgio Ferreira recebeu, juntamente com os cientistas da Squibb, o Prêmio “CIBA for Hypertension Research”, outorgado pela American Heart Association. Em 1990, a Sociedade de Hipertensão Norueguesa instituiu o Prêmio “Ferreira Award” para os pesquisadores que se sobressaíssem na área de hipertensão.

O professor da USP também é reconhecido internacionalmente por sua contribuição na área de analgésicos antiinflamatórios. Participou de experimentos pioneiros que levaram ao descobrimento do mecanismo de ação das drogas do tipo aspirina, também junto do professor John R. Vane, o qual, pela contribuição nesta área, ganhou o Prêmio Nobel de Medicina de 1982.

Em Ribeirão Preto, o grupo de pesquisa de Sérgio Ferreira descobriu o mecanismo de ação analgésica periférica da dipirona e propôs o desenvolvimento de drogas opiáceas de mesma ação. Estes estudos têm levado às pesquisas com novas substâncias analgésicas de ação periférica. Pelos trabalhos em inflamação e analgesia, recebeu, em 1990, o Prêmio “The Scientific Merit Award”, dado pela Interamerican Society for Clinical Pharmacology and Therapeutics (Sociedade Interamericana para Farmacologia Clínica e Terapêutica). Como reconhecimento por sua carreira, também ganhou o prêmio “The Award of the Third World Academy of Sciences” (Prêmio da Academia de Ciências do Terceiro Mundo). O pesquisador também exerce um papel de liderança na comunidade científica brasileira e tem contribuído com a saúde pública através da participações em comissões e em órgãos públicos relacionados com o controle de medicamentos. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (SBFTE), presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FESBE), presidente da Sociedade Brasileira de Inflamação (SBIn) e presidente da Comissão Nacional de Medicamentos. Por mais de 30 anos, foi professor do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde fez a carreira universitária e científica. Possui mais de 160 publicações em revistas científicas internacionais.

Atualmente, faz novas pesquisas realizadas em laboratório na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Após trabalhar com analgésicos, em decorrência de sua experiência científica, o foco de estudos é a dor. “Para mim é clara a noção de que quem não tem dor está morto. À medida que você fica com mais idade, tem mais freqüência de dores, tanto por problemas atuais quanto por problemas antigos que se refletem como dores crônicas”, explica o pesquisador, que tenta entender a dor a partir da periferia. “É aquela que ocorre quando há uma lesão na pele, no músculo, uma inflamação. Essa dor sai da periferia pelos nervos sensitivos e chega à medula espinhal, onde é amplificada. Da amplificação, vai para o cérebro — o córtex — onde será interpretada”, explica Sérgio Ferreira, que faz pesquisas com camundongos, pois eles não têm a percepção, ou seja, não têm passado de interpretar aquela dor “sentida” na experiência.

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