Vida em rede
Para a filósofa Viviane Mosé, sistema “piramidal” já não funciona como modelo político para a sociedade
Antes de iniciar a sua “aula-apresentação”, durante o Salão de Ideias do Outubro das Letras, realizado nos Estúdios Kaiser de Cinema na noite de ontem, dia 25 de outubro, Viviane Mosé deixa claro que, às vésperas de completar 50 anos – no dia 16 de janeiro –, tem liberdade para fazer e falar com propriedade de diversos assuntos. E ela tem razão. Viviane Mosé é psicóloga e psicanalista, especialisda em elaboração e implementação de políticas públicas, mestre e doutora em filosofia e ciências sociais e atua como professora do ensino público básico há mais de 30 anos.
Ao lado do professor de filosofia, Nestor Muller, Mosé iniciou o Salão de Ideias afirmando que o sistema piramidal, em que as pessoas e a sociedade se organizam hierarquicamente, não funciona mais. “Hoje vivemos em uma espécie de rede, de maneira colaborativa e de maneira horizontalizada”, salienta Mosé.
Autora de livros de poesia, e de temas que abrangem a filosofia e a psicanálise, Viviane Mosé agora está focada em temas que abordam a educação pública brasileira. Com o lançamento dos livros “O homem que sabe”, de 2011, e “A escola e os desafios contemporâneos”, de 2013, a psicóloga e professora volta sua atenção ao ensino no Brasil. Em entrevista, Mosé afirma ser contra uma educação em “grande escala”.
“Quem sabe o que deve acontecer na escola são os professores e a própria instituição. Não é possível existir um projeto nacional que venha do governo federal para a escola pública. Cada município tem que criar o seu próprio projeto para melhorar o ensino”, explica.
Segundo Mosé, a maneira como os estudantes se relacionam com outras pessoas e com o conteúdo a ser aprendido mudou muito. Ela chama a atenção para a produção de conteúdo em rede, que é feita hoje de maneira incessante.
“As instituições têm que se adequar a esta realidade e oferecer ferramentas para que os alunos se beneficiem do ensino, pois o conteúdo já está sendo produzido em tempo integral na internet”, aponta.
Para concluir, a professora diz que é importante que, para mudar a educação, a escola encontre o seu eixo, segundo o “folclore” local. Mosé exemplifica citando a clássica reclamação de professores de que o barulho dos alunos atrapalha o andamento da aula.
“Todos eles dizem isso”, brinca. “A questão é aprender a dar aula no barulho. Por que precisa ter silêncio para ter aula?”, questiona a psicóloga.
“A aula para o aluno pode ter barulho. Pode haver crianças falando ao mesmo tempo. O professor precisa aprender a lidar com o aluno barulhento e ativo, que eles chamam de hiperativo e medicam esse aluno com Ritalina (remédio para Transtorno de déficit de atenção / hiperatividade - TDAH) para tratar este comportamento”, diz.
E afirma que o Brasil precisa se armar de pensamento crítico e conceitual e evitar os medicamentos a alunos ativos.
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Texto: Bruno Silva
Foto: Luiz Cervi