Vínculos fortalecidos
O presidente da Fraterno Auxílio Cristão, Jedaías do Amaral Costa, quer continuar ajudando a modificar a perspectiva de vida de crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade
Tendo o cooperativismo como característica de sua personalidade, desde o início de abril, o contabilista Jedaías do Amaral Costa está à frente do Fraterno Auxílio Cristão Ribeirão Preto (FAC) para uma gestão de quatro anos. A carreira profissional, iniciada como “office boy” na capital paulista, estruturou-se para atuar na área contábil. Em seu currículo, acumula passagens por várias empresas, entre elas, a Usina Santa Lydia, em Ribeirão Preto. Atualmente, divide-se entre o escritório que mantém na Vila Virginia e a agenda apertada da presidência da entidade, que assiste a mais de 600 adolescentes e jovens por ano.
Por meio de dois projetos sociais, Jedaías espera que o FAC contribua para a redução da vulnerabilidade familiar e social das pessoas atendidas, oferecendo maior participação e apropriação das famílias ao serviço, com maior adesão dos usuários às atividades propostas. “Queremos formar sujeitos participativos, autônomos e capazes de reconhecer oportunidades em seu território”, reforça o gestor. Além disso, a instituição desenvolve potencialidades e competências para a formação de cidadãos ativos, por meio de conhecimentos, habilidades artísticas e culturais.
Participando de forma indireta da instituição desde 2007, o presidente aponta, ainda, que a entidade proporciona o desenvolvimento de crianças, jovens e adolescentes mais autônomos e engajados, com consciência política, cultural e educacional. Para realizar seu trabalho na entidade, conta com o apoio de uma equipe capacitada e da esposa, Marisa Tabor da Costa, que participa da diretoria do FAC desde 2015. Atualmente, Marisa dedica-se à revitalização do bazar beneficente do FAC.
A instituição capacita dezenas de menores para exercer plenamente a cidadania e ingressar no mercado de trabalho. Mais de 50 famílias participam das atividades e dos programas disponibilizados por mais de 60 anos. Para isso, recebe apoio da iniciativa privada, com repasses de recursos públicos e com a doação de pessoas que colaboram periodicamente com o FAC.
Revide: O que o levou à filantropia e, em especial, ao FAC?
Jedaías: Por ser de uma família numerosa, com 12 irmãos, aprendi ainda criança a ser cooperativo, pois os recursos eram escassos. Graças a Deus e aos meus pais, meus irmãos e eu recebemos ensinamentos rígidos, éticos e morais, desde muito cedo. A filantropia, na forma assistencialista, sempre esteve presente em nossas vidas — ou nos beneficiando, quando precisamos, ou ajudando outras pessoas, quando podíamos. O FAC, em especial, foi meu primeiro cliente do terceiro setor. A partir do contato com a entidade, tive a oportunidade de me especializar na área. Recentemente, com advento da Lei 13.019, o segmento não deve mais ter uma orientação assistencialista. Desde 2007, quando tive meu primeiro contato com o FAC, os presidentes à frente da entidade, os padres Clésio Lucio Boeniares, Gilberto Kasper e José Alceu de Souza Júnior, conseguiram, com todas as dificuldades, fazer do Fraterno Auxílio Cristão uma instituição respeitada, digna e correta. Agora, estou tendo a oportunidade de fazer parte do seleto grupo que presidiu a entidade. Pretendo, nessa posição, continuar garantindo que o FAC seja associado aos mesmos objetivos que até hoje o acompanharam, prestando um serviço de excelência à sociedade.
Como concilia a carreira profissional com a filantropia?
Como empresário, meu objetivo sempre foi ter poucos, mas bons clientes. De certa forma, isso permite que eu equilibre as duas atividades. Claro que, em certos momentos, não sobra tempo para mais nada. Ressalto que esse trabalho só é possível porque temos uma equipe de excelentes profissionais, em especial, a nossa coordenadora, Ana Claudia Barbosa Cardoso Abe, pois, sem ela, seria impossível conciliar a agenda.
Acredita que as entidades filantrópicas deveriam ter maior apoio?
Conforme o artigo 6º da Constituição, são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Sendo assim, o poder público deveria ser capaz de garantir todos eles. No entanto, sabemos que isso seria praticamente impossível. Nesse sentido, as Organizações da Sociedade Civil (OSC) têm um papel primordial em todo território brasileiro. Somos formiguinhas, unindo forças para auxiliar o Estado em suas políticas públicas. Se considerarmos nossos parceiros individualmente, o Estado é o maior eles, mas, se considerarmos os custos com as verbas subvencionadas com que contamos ao longo do ano, essa parceria é quase irrelevante, o que não deveria acontecer, uma vez que nosso trabalho é, na realidade, uma obrigação governamental.
É possível tornar essas organizações sustentáveis e, consequentemente, mais atrativas como geradoras de postos de trabalho?
As OSCs devem buscar essas sustentabilidade. Isso só é possível quando, além da atividade fim, criam meios capazes de garantir a sobrevivência da organização. Só assim as entidades poderão se tornar menos dependentes do Estado e, diante da falta de doações, conseguir enfrentar as dificuldades. Em função das crises que enfrentam, hoje, essas entidades não são tão atraentes como mercado de trabalho, apesar da quantidade de empregos gerados, mas acredito que, quando conseguirem encontrar a rota da sustentabilidade financeira, serão excelentes opções.
Existe muita burocracia envolvida na atuação dessas organizações?
Sem dúvida, tanto no momento de captarmos recursos quanto na hora da prestação de contas. No entanto, acredito que os mecanismos que avaliam os recursos investidos nessas entidades são extremamente necessários diante da corrupção generalizada que o nosso país vive. A maior dificuldade das organizações é contar com profissionais capacitados para lidar com essa burocracia, por falta de verbas.
De que forma isso poderia ser contornado?
Creio que um sistema informatizado único, que considere as captações de recursos federais, estaduais e municipais, facilitaria e tornaria o trabalho mais eficiente. Isso sem deixar de lado a prestação de conta dos recursos públicos e privados com transparência, fator essencial para garantir credibilidade às entidades. Isso porque, dessa forma, as pessoas se sentem mais seguras para apoiar os projetos propostos, o que significará mais recursos e, consequentemente, serviços de maior qualidade.
Com que realidade você sonha para o FAC?
Gostaria que a entidade tivesse mais espaço, que contasse com uma quadra esportiva para ampliar as atividades e as vagas disponíveis, pois temos uma fila de espera grande. Atualmente, nosso espaço só comporta 80 crianças e adolescentes.
Quais são suas principais linhas de atuação?
O FAC mantém dois pontos de atendimento, os Núcleos de Solidariedades Dom Hélder Câmara, que fica na sede, na rua Barão do Amazonas, 881, e Dom Bosco, instalado à rua Imigrantes Japoneses, 1065, no Parque Ribeirão Preto. O primeiro atende a adolescentes e jovens de 15 a 29 anos, oferecendo capacitação profissional. Desde 2012, temos uma parceria com o Instituto Coca-Cola Brasil, através do Projeto Coletivo Jovem, que oferece cursos de comunicação e tecnologia; promoção de eventos e marketing e vendas. Os cursos têm duração de dois meses e preparam os alunos para o mercado de trabalho. Todas as pessoas atendidas são encaminhadas ao mercado graças às parcerias estabelecidas pelo Instituto Coca-Cola Brasil com empresas ribeirãopretanas. Já passaram pelo Coletivo Jovem mais de 2.980 adolescentes e jovens, sendo que, 894 conseguiram ingressar no mercado de trabalho.
Que outros apoios fazem a diferença dentro do FAC?
Graças às parcerias com a Faculdade de Direito e a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, oferecemos o Projeto Pé-de-Meia, que capacita adolescentes e jovens a gerenciarem as próprias finanças. O apoio do curso de Psicologia da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) permite que os adolescentes e jovens assistidos contem, ainda, com orientação psicológica. São trabalhados, por exemplo, conceitos fundamentais para o estabelecimento de relacionamentos interpessoais no ambiente de trabalho e noções de como se comportar em uma entrevista de emprego.
Como funciona o Núcleo de Solidariedade Dom Bosco?
A unidade atende, atualmente, 80 crianças e adolescentes de 6 a 15 anos, e 58 famílias. São oferecidos serviços de convivência e de fortalecimento de vínculos. Todos os atendidos estão na escola e permanecem no Núcleo no contraturno das aulas. Neste espaço, são oferecidas várias atividades, como brinquedoteca; comemorações e passeios; oficina de artesanato; leitura; grupos socioeducativos, de acompanhamento familiar e de famílias; inclusão digital, por meio da parceria com a ATN (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, de Brasília), entre outras atividades. Nos grupos socioeducativos, abordamos temas relevantes propostos para o serviço de convivência e de fortalecimento de vínculos mediado pela psicóloga e por educadoras sociais. Ali são discutidos assuntos como identidade, agressividade, drogas e outros. A oficina de educação dos sentimentos é realizada em parceria com o Instituto Augusto Cury, com material da Escola da Inteligência.
A preocupação com a capacitação da equipe de atendimento é permanente?
Sem dúvida. Nossa instituição conta com equipe multidisciplinar capacitada periodicamente para atuar e abordar assuntos relacionados ao sistema de garantia de direitos das crianças e dos adolescentes, além de temáticas pertinentes ao cotidiano real das crianças, dos adolescentes e de suas famílias. Contamos com psicóloga, quatro educadores sociais, assistente social, professora de artesanato, cozinheira, dois auxiliares de limpeza, motorista e uma coordenadora geral.
Qual é o orçamento e as principais fontes de receita da instituição?
O orçamento anual é de R$ 450 mil. Recebemos R$ 110 mil de recursos públicos e R$ 48 mil de fontes privadas. A diferença, de R$ 292 mil, é obtida através da sensibilização de empresas e de pessoas físicas que repassam o Imposto de Renda ao Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Ribeirão Preto (FMDCA), da Nota Fiscal Paulista e dos sócios contribuintes. Realizamos eventos beneficentes diversos para arrecadar recursos para a manutenção dos projetos, sendo que os convênios e as parcerias não são suficientes. O FAC ainda mantém algumas parcerias relevantes como com a Fundação Waldemar Barnsley Pessoa que, desde 2016, tem nos auxiliado na reforma da sede. Esse apoio é de suma importância para melhorar a qualidade dos serviços oferecidos.
O que já melhorou dentro da entidade?
Durante esses anos de trabalho, obtivemos várias conquistas: a aproximação e a participação dos familiares e das pessoas assistidas pelos projetos; o estabelecimento de parcerias relevantes, como com o Instituto Augusto Cury, a ATN e a Microsoft para a inclusão digital, o Instituto Coca Cola Brasil, o Sesc, a Rápido D’Oeste, a panificadora Elite e tantos outros. Também participamos do edital de chamamento do projeto do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONDECA 2015 e 2017).
Qual é a sua maior gratificação?
O nosso maior avanço junto ao nosso público-alvo foi observar que todas as crianças e os adolescentes atendidos no Núcleo Solidariedade Dom Bosco estão matriculados regularmente na escola. Além disso, os trabalhos preventivos com eles — tanto na parte vulnerável, que é a gravidez precoce, quanto a drogadição vêm tendo excelentes resultados. Outro ponto importante que vale salientar é a vontade de continuar os estudos que eles demonstram, projetando um futuro melhor. Acreditamos que essa é a maior resposta de que o nosso trabalho vem sendo realizado com êxito.
Quais as dificuldades do FAC e como superá-las?
A maior luta é para garantir receitas que supram as despesas. Pretendemos vencê-la promovendo eventos próprios e de terceiros no salão da sede; investindo no projeto de apadrinhamento que dará direito ao uso das nossas dependências quatro vezes ao ano; fortalecendo nosso bazar; captando doadores automáticos por meio da Nota Fiscal Paulista (NFP); sensibilizando doadores do valor devido à União, através do Imposto de Renda (IR); apresentando projetos para editais abertos e apresentando nosso projeto para empresas e pessoas solidárias.
De que forma essas empresas e pessoas podem colaborar com a instituição?
Promovendo eventos em nosso salão para reverter a renda ao FAC; alugando nosso salão; cadastrando a Nota Fiscal Paulista; apadrinhando nossos menores atendidos; destinando 6% do IR devido até 31 de dezembro e apoiando nossos projetos.
Do volume orçamentário, o repasse do Imposto de Renda é elevado?
Muito timidamente ainda. Nos últimos anos, vimos contando com aproximadamente R$ 30 mil. Agradecemos a todos que vêm colaborando e esperamos que continuem somando esforços conosco.
Quais as próximas ações do FAC? Há planos para melhorar ou ampliar os atendimentos oferecidos?
Terminar a reforma da sede para e dar oportunidade às capacitações profissionais de adolescentes e jovens de nossa cidade estão entre eles. Aos que completarem 15 anos no Núcleo de Solidariedade Dom Bosco, continuaremos prestando atendimento até que possam ser encaminhados ao mercado de trabalho. Este é um trabalho desafiador, mas, com o apoio de pessoas como dom Moacir Silva, padre Gilberto Kasper, Amir Calil Dib e Ana Abe, juntamente com a diretoria e outras pessoas e empresas solidárias, não é impossível.
Texto: Rose Rubini
Fotos: Ibraim Leão