Virando a Página
Um novo ano começa e, com ele, a expectativa de boas vibrações. Entenda como religiões encaram a passagem do tempo e de que forma cultivar sentimentos de alegria e dedicação ao próximo
A essa altura, você já pulou as sete ondas, comeu sementes de romã, usou roupa branca ou já colocou a folha de louro na carteira. Passada a euforia das festas e rituais de fim de ano, o objetivo de muitos, nesse momento, é focar em planos futuros. A época é de refletir e repensar atitudes e o modo como vivemos. Encontrar o caminho certo, mudando alguns hábitos, pode ser a receita da tão almejada felicidade. Para líderes religiosos que atuam em Ribeirão Preto, é fundamental, em meio às vitórias e frustrações, o apego a Deus.
Na cultura japonesa, a passagem do ano representa mudanças e renovação. Na explicação do monge Kojun Sensei, fundador da Comunidade Zen Budista de Ribeirão Preto, o momento é de expressar gratidão aos que foram importantes no ano que se encerra. O monge lembra que, às vezes, dá-se um presente ou um envelope com dinheiro como forma de agradecer aos pais, avós, assim como outros indivíduos que foram importantes para que as realizações se concretizassem naquele ano. O Zen Budismo ainda mantém certos costumes, como homenagear antepassados, mestres ancestrais e professores.

Segundo Kojun, um ensinamento de Buda que ganha destaque é que a vida de cada um deve se realizar no presente, e é imprescindível deixar para trás tudo que causou sofrimento. Carregar as dores é ilusão, uma maneira de se apegar à aflição com mais facilidade. “Uma ideia negativa nada mais é que uma das possíveis formas de se avaliar uma situação. Compreender isso nos permite ver os acontecimentos de outras maneiras e, assim, não apenas pensamentos, mas aquilo que entendemos como frustrações ou não realizações pode ser visto de outras formas. Isso nos deixa leves para iniciarmos o novo ano”, afirma o monge.

O catolicismo enxerga a passagem do ano como um momento de reflexão e de ação de graças. Segundo o Padre Francisco Jaber Zanardo Moussa, o Padre Chico, o objetivo da reflexão é deixar para trás o passado na expectativa de fortalecer a fé e renovar a vida. Já a ação de graças envolve a busca a Deus com sentimentos de compaixão, solidariedade e amor, no esforço constante de colocá-los em prática. O religioso está otimista e cheio de esperanças, contudo, entende bem os desafios que podem surgir pelo caminho: apegar-se à fé, no entanto, é algo que o faz acreditar que sempre o ano vindouro será melhor.

Para os que desejam deixar as frustrações e os pensamentos negativos no passado, a dica do padre é direcionada a três ações essenciais. “Perdão, gratidão e capacidade de aprendizado. Perdoar-se pelos erros; ter gratidão pelo passado; pelos erros e acertos e aprender com eles para viver bem no presente e preparar o futuro com confiança”, recomenda.
Alento aos que sofrem
Os que sofrem pela dor do outro, os que enfrentam doenças graves, aqueles que não desejam mais viver por variados motivos, os que se frustram diante do inalcançável. Um remédio para curar esses males e que parece ter muita eficácia é manter a espiritualidade em dia. “Toda situação de sofrimento, dor ou enfermidade deve ser entregue a Deus. A proximidade com ele na oração traz consolo, luz e alegria para quem está desanimado e sem esperança. A cruz é o maior símbolo de superação e vitória para quem está abatido. Nela, encontra-se o verdadeiro amor de Deus para quem sofre”, ressalta Padre Chico.
Kojun frisa que, para compreender a existência do sofrimento, é necessário olhar para além dele. Ao passar por problemas físicos ou emocionais, é comum que as situações sejam vistas de forma limitada, e isso traz, como consequência, uma vida sem muitas perspectivas. “Nesses momentos, temos de buscar a serenidade de olhar as situações sem a visão contaminada de nossos julgamentos. Devemos lembrar que a maneira como estamos encarando algo é apenas uma dentre as infinitas possibilidades de fazê-lo. Isso não quer dizer que o sofrimento desaparecerá magicamente apenas porque decidimos mudar de ponto de vista, mas que nós podemos dar a ele as reais dimensões e isso nos dá forças para seguir”, elucida o monge. Inevitável é não criar expectativas diante do ano que se aproxima e sempre desejar que ele traga boas energias. “Mais importante que termos expectativas é sermos nós mesmos os agentes das mudanças e transformações que desejamos. Podemos criar causas e condições para nos beneficiar, seja com mudanças internas ou circunstâncias ao nosso redor. Esse deve ser o pensamento de todo ano”, conclui o monge.

Na religião evangélica, a passagem do ano é um evento importante, mas sem rituais, como de costume na sociedade. O pastor Domingos Mendes Alves diz que o período marca uma nova etapa, mas entende, também, que a vida cristã em Jesus Cristo tem desafios e propósitos para cada dia do ano, e uma simples mudança de calendário não pode ser o estímulo para muitos que almejam projetos novos. “Nosso grande desafio é saber o propósito que a pessoa tem em todas as áreas da vida, tendo Deus como maior exemplo. Temos de temer mais o êxito do que o fracasso, e as frustrações fazem parte do nosso dia a dia. A fé ajuda a lidar com tudo isso. Ela é realista. Que tenhamos metas que sejam mensuráveis, reais, executáveis, e que as persigamos com perseverança”, reforça o pastor, que aconselha o envolvimento dos projetos de vida aos de Deus, porque muitas das crises existentes são frutos da ausência dele.

O espiritismo é a doutrina da consolação, conforme explica o médium Romildo Arantes Meirelles, fundador e presidente da Sociedade Espírita Cáritas, desde 1997. Aos 90 anos, com vasta experiência há mais de 50 anos e emocionado, descreve as boas ações que devem ser desempenhadas durante o ano para alcançar a felicidade. “Prefiro ser a ter. O ‘ter’ nos leva à tendência da matéria. É preciso entender que somos espíritos imortais e, como tais, devemos buscar pela transcendência, ou seja, menos matéria e mais espírito”, ressalta Romildo. O ano, de acordo com ele, sempre pode ter mais êxito quando se pratica mais amor, a união e a paz — que deve ser construída. Aí residem grandes problemas do ser humano: buscar algo na matéria, perder o controle das emoções, não ser determinado e possuir menos segurança sobre si. “É preciso que, a cada ano que se inicia, durante toda vida, haja predisposição de amar e servir o próximo, praticar um amor sem mesclas. Jesus já dizia que, caso queira ser o servidor de todos, seja o primeiro, mas não em beleza ou dinheiro e, sim, em atitudes enobrecedoras e valores espirituais”, lembra Romildo.
A mensagem final para este momento de mudanças constantes vem carregada de bons sentimentos e lágrimas, que mostram a luta de um homem engajado no movimento espírita desde 1948. “Jesus disse às multidões que o procurava nos sermões da montanha: ‘brilhe vossa luz, vóis sois deuses’. De fato, somos e temos uma luz que começa a acender, e é neste momento que devemos impor nossa força, vontade, fé e nos abraçarmos, sem preconceito, racismo, intolerância, sem injúria de espécie alguma”, finaliza o médium.
Texto: Bruna Romão | Fotos: Ibraim Leão e Julio Sian