Visão humanista
O oncologista Fábio Zola revela como faz para tornar sua vida e a de seus pacientes mais positiva
Encarando a morte, assim como o nascimento, como um processo natural da vida, o oncologista Fábio Eduardo Zola dribla diariamente a carga negativa que um tratamento contra um câncer gera, lidando com a doença de forma tranquila e muito humanista. Natural de Presidente Prudente, há 15 anos encontrou em Ribeirão Preto a verdadeira vocação profissional. Formado em Medicina, especializou-se em Ginecologia, Mastologia e Oncologia. Vir para a cidade era um sonho antigo, movido principalmente pela qualidade da Faculdade de Medicina da USP. Fez residência e trabalhou no Hospital das Clínicas e também passou pelo setor privado, o que fez com que ele permanecesse em Ribeirão Preto. Casado com Patrícia Azevedo de Barros, Fábio é pai de João Antônio e da enteada Ana Maria. A seguir, sua entrevista à jornalista Paula Zuliani é reproduzida pela jornalista Rose Rubini.
Paula: O que você mais gosta em Ribeirão Preto?
Fábio: Nossa, eu gosto de tanta coisa aqui. Na verdade, é uma cidade completa, que oferece tudo o que tem em uma cidade grande, mas com uma certa paz de cidade pequena. A comunicação entre as pessoas é mais fácil e, em termos de qualidade de vida, não tem melhor.
P: Por que decidiu estudar Medicina?
F: Tem algumas coisas na vida que não temos as respostas certas. Já me questionei muito, mas não sei. Sou de uma família que tem uma série de advogados, então, até o ano anterior ao vestibular, eu ia fazer Direito. Cheguei como treineiro na prova para Direito e, no terceiro ano colegial, tive a ideia de fazer Medicina. Não tenho nenhum médico próximo na família, acho que é uma certa vocação que eu tenho.
P: Que fatores fizeram com que você escolhesse a Oncologia?
F: Quando acabei a faculdade de Medicina, minha primeira especialização foi em Ginecologia. Na minha faculdade, a Oncologia não existia. Tínhamos contato com pacientes com câncer, mas não havia um conceito formado sobre o que realmente era a Oncologia. Quando vim para Ribeirão Preto, comecei a atuar na Ginecologia, tive contato com a doença, principalmente com o câncer de mama. Foi isso que despertou em mim a ideia de partir para a Oncologia Clínica. Depois de ter feito a especialização em Ginecologia e em Mastologia, fiz uma nova residência em Oncologia Clínica, primordialmente porque, quando eu estava na área cirúrgica, o que mais me chamava a atenção não era a cirurgia e, sim, o cuidado com os pacientes, especialmente depois da quimioterapia. Assim, vi que tinha muita afinidade com o tratamento do câncer. Por isso, investi em mais uma especialização.
P: Há quanto tempo trabalha nessa área?
F: Já estou na Oncologia há oito anos e foram mais três anos de residência.
P: O que há de melhor na sua profissão?
F: Esta é uma das áreas em que podemos desenvolver o cuidado com a pessoa e isso eu sempre tive desde criança: a preocupação com os outros, de oferecer algo a mais. O que eu acho que diferencia a Oncologia das outras áreas de atuação é o tipo de vínculo que se cria com o paciente. Nas outras áreas, essa relação mais intensa existe, mas não como na Oncologia, que trata de uma doença muito grave, em que a possibilidade de morte é confrontada o tempo todo. Por isso, há uma relação entre médico e paciente que passa por uma série de pontos, pelos cuidados e pela eficiência do tratamento. Em algumas situações, o médico não vai curar o paciente, mas só oferecer uma atenção especial aos sintomas — na verdade, ele vai fazer parte de uma passagem. Assim, pode-se dizer que esta é uma especialidade que demanda do profissional um envolvimento muito diferente. Da mesma forma que eu não saberia te dizer por que a Oncologia me atraiu tanto, afirmo que é uma especialidade emocionalmente desgastante mas, ao mesmo tempo, muito gratificante. Passamos por situações que entristecem e não é possível não sofrer junto com a família, com o paciente.
P: Qual é o lado mais delicado, mais complicado da sua área?
F: Quando você sabe o prognóstico e percebe que a doença é incurável. Nesse momento, temos um papel maior ainda, porque precisamos oferecer um tratamento que garanta algum conforto ao paciente e mostrar a ele, aos poucos, que a doença vai vencer. Faz parte do caminho estar junto porque ser confrontado com a morte é complicado. Não dá para saber como o paciente vai estar nessa hora e, às vezes, a função do médico oncologista é dividir a dor. De alguma forma orientar, tirar os medos, mostrar que isso não será tão doloroso, que o trauma não será muito intenso. Todos sabemos que vamos morrer um dia, mas não aceitamos a ideia e, às vezes, minha função é tentar colocar isso para o paciente, da forma mais natural possível. A morte, assim como o nascimento, é um processo natural.
P: Antes de ser um médico, como você enxerga a morte?
F: Eu sempre tive uma posição muito positiva em relação à vida, sei que um dia eu vou morrer, mas eu não fico projetando como vai ser minha morte. Não sei como será quando chegar minha hora, só gostaria que não fosse dolorosa. Não fico fazendo essa pergunta de como será quando eu morrer, como ou quando será o fim da minha vida. Aprendi com meus pacientes que temos que viver os momentos bons. A vida é generosa comigo. Então, eu aproveito.
P: Como você define a vida?
F: Não há uma definição. Devemos aproveitar e, de alguma forma, evoluir. Não sei o que acontece após a morte — cada um defende as suas teorias, mas ninguém sabe realmente como vai ser —, mas acho que devemos aproveitar a vida da melhor forma possível. Isso é construído através de coisas boas. Quem cultiva coisas ruins, no fundo não vive bem, não está de bem com a vida. Para mim, o fundamental é você tentar enfrentar todas as situações da forma mais leve possível. É isso que eu tento fazer e é isso que eu prego aos meus pacientes. Ao encarar uma doença incurável, o melhor é não ficar deprimido, lidar com a situação de forma natural, cumprindo cada etapa proposta. A doença não pode interromper planos e, mesmo que certos projetos não sejam realizados, organizar-se e pensar neles pode trazer grande motivação.
P: Onde você encontra forças para lidar com isso diariamente?
F: Primeiro, eu acredito em Deus, creio que há algo a mais que motiva, mesmo sem que possamos explicar. Passo por essa situação inúmeras vezes, pois tenho pacientes que falecem. Assim, é possível entender um pouco melhor esse processo de vida e de morte, racionalizando a emoção para não sofrer tanto. Segundo, precisamos de uma válvula de escape, atividades que aliviam. Eu utilizo a atividade esportiva para liberar energia e ter momentos de reflexão. Dessa forma, vou criando algumas vias para conseguir eliminar um pouco das emoções.
P: Você falou que acredita em Deus, você tem fé, em que se apega?
F: Acredito num ser superior chamado de Deus. Independente da religião ou de dogmas, acredito que existe algo superior: é nesse Deus que eu acredito. Converso e tento me aconselhar com ele, sem seguir uma religião específica, embora eu tenha formação católica.
P: Quando sai da clínica, consegue separar o que aconteceu no seu dia?
F: Separar eu acho que não, mas tento chegar em casa, encontrar minha família e não passar uma carga negativa. Consigo acertar isso na minha cabeça para não me tornar uma pessoa triste, rancorosa ou desiludida. A minha função é motivar, mostrar o lado bom e as vitórias do tratamento. Não carrego a carga de um paciente para outro, busco evitar esse efeito dominó. A cada momento, tento limpar a cabeça e as emoções.
P: Em média, por quanto tempo você acompanha um paciente?
F: Cerca de cinco anos, mas há situações muito difíceis de solucionar. Alguns tipos de tumores respondem bem à quimioterapia, outros são detectados na fase inicial e isso é a melhor situação possível: permite atingir a cura. Portanto, não é só de tristezas que vive a Oncologia. É de vitórias também compartilhadas com o paciente. Outras vezes, a vitória não é acabar com o câncer, mas melhorar os sintomas e dar qualidade de vida melhor ao paciente. É saber que depois de duas ou três semanas de tratamento, ele volta ao consultório e diz que melhorou muito. Também me baseio nessas vitórias para me manter motivado e incentivar o paciente.
P: Você disse que gosta de esporte, o que pratica com frequência?
F: Faço triatlon. Sempre gostei muito de esportes, mas durante a faculdade e a residência, deixei isso de lado. Foi uma fase ruim, porque o esporte está intimamente ligado à minha qualidade de vida. Fazia corrida de rua e acabei motivando minha esposa, que também faz triaton. Cuidar de si é fundamental. No meu caso, fico tão envolvido com os pacientes que preciso estar atento para continuar cuidando de mim. Insisto com meus pacientes para praticar uma atividade física feita pela manhã, mostro que isso é uma prioridade. A pessoa que acorda e vai se cuidar muda o seu conceito, melhora a alimentação e até o sono porque vai dormir mais cedo. É o autocuidado.
P: Tendo essa postura saudável, você contagia seu paciente?
F. Não tenho perfil de um atleta, mas acho importante porque, quando falamos sobre o que entendemos, fica mais fácil. Eu passei por uma mudança grande nos últimos cinco anos. Estava obeso, hipertenso, vinha desenvolvendo diabetes, meus exames estavam ruins — isso até por conta da carga emocional diária. Quando resolvi mudar essa situação, foi muito positivo. Hoje, sou mais disposto, tenho uma perspectiva diferente do que eu quero e tudo começou por esse cuidado comigo. Acho que parte do que eu ofereço aos meus pacientes é o que eu já testei em mim, o que fica mais fácil.
Prático e sensível
“Quando fui escalada para produzir uma matéria de capa sobre câncer, fiquei um tanto apreensiva. Trabalhar com esse tema me incomodava mais do que eu gostaria de admitir. Assim como a maioria das pessoas hoje em dia, tive casos da doença na minha família. Alguns deles, infelizmente, fatais. De toda forma, decidi encarar o desafio e foi assim que conheci o Dr. Fábio. Ao abrir a porta do consultório, encontrei um homem jovem, sorridente, que falava sobre o câncer com conhecimento, seriedade e profissionalismo, porém sem pesar. Depois do diagnóstico, o objetivo é ser prático e buscar soluções para combater esse mal. O abatimento não é uma opção. Seu jeito humano, simples e acessível acalma o coração. Por mais difícil que seja, ele me ensinou que a batalha tem que ser encarada com perseverança acima de tudo. Por isso, sou eternamente grata.”
Paula Zuliani, jornalista